Mil Pedaços de Vidro
13 Capítulo 13 - Aturdir
Notas iniciais
— Vamos, garoto, diga o que está havendo – o senhor Stark falou sério, incomodado com a dor refletida nos olhos claros do amigo de seu filho.
— É só... É que... – Havia um bolo em sua garganta. Sorriu sem humor, enxugando uma lágrima fujona que rolara por seu rosto, deixando os mais velhos preocupados. – Hoje faz mais um ano que meus pais morreram e eu não lido bem com essa data, mas vai passar. É só esperar esse inferno de dia acabar – Bucky falou amargamente, depois voltou a sorrir falsamente. Ele sabia que não pararia de doer assim tão fácil, mas não queria aborrecer os mais velhos com seus problemas, quando eles já tinham o filho para se preocupar.
— Oh, meu querido! – Maria exclamou, abraçando-o carinhosamente, compadecida com o sofrimento do doce rapaz a sua frente.
Barnes apertou à senhora Stark em seus braços, a saudade de sua mãe apertou dolorosamente em seu peito. Ele sentia como se uma mão fria estivesse apertando seu coração e torcendo suas entranhas sem piedade. Queria tanto tê-la por perto e mais uma vez sentir o seu cheiro, seu carinho, seu colo e seu amor. Bucky faria de tudo para ter seus pais de volta, e novamente fazer parte de uma família.
— Eu acho que essa é a minha deixa para ir embora – ele falou, desfazendo o abraço e enxugando o rosto um tanto constrangido.
— Não, você vai ficar aqui – Maria ditou, carinhosamente segurando os braços do mais novo e o impedindo de sair do quarto.
— Não quero incomodar, e os senhores tem o Tony para se preocupar – ele retrucou, humildemente se encolhendo.
— Fique, rapaz – Howard aconselhou, se levantando e indo até a esposa e o jovem, que tem sido de grande importância para seu filho. – Você não pode sair nesse estado. Coma algo, descanse um pouco e tente se acalmar. Além do mais, o Tony vai gostar de te ver aqui – acrescentou.
Ele não podia deixar Bucky desamparado, o jovem tem cuidado e protegido seu filho sem nenhum interesse, algo que é raro encontrar quando se tem a posição social deles. O garoto era um bom amigo... Não! Bucky tem sido mais do que amigo, estava sendo um irmão mais velho para Tony.
— Senhor, eu não quero incomodar – Barnes avisou. – O Tony, ele já... ele já... Eu...
Seus olhos novamente se encheram de lágrimas, as quais ele secou com rapidez e com um tanto de rispidez, o bolo na garganta mal o deixando respirar. Odiava essa data com todo seu coração, queria ir para casa para se esconder entre as cobertas; detestava como o dia o deixava carente e emotivo com qualquer demonstração de carinho que recebia. Não sou mais um garotinho para ficar chorando pela morte dos pais.
— Desculpe, se-senhor – Bucky falou com a voz trêmula, tentando sair do quarto, mas o senhor Stark impediu e lhe puxou para um abraço, que foi retribuído no mesmo instante.
O primeiro pensamento que Howard tivera ao conhecer Barnes, foi de que ele era um arruaceiro, um projeto de bandido, pensamento este que apenas piorou quando soubera de seu envolvimento com substâncias ilícitas. Mas essa visão fora mudando, ele notara que a fachada de bad boy marrento era apenas isso: uma fachada. Bucky era um garoto doce, educado, gentil, leal, alegre, tagarela – como seu filho antes de tudo acontecer –, e, acima de tudo, extremamente protetor para com Tony.
Sempre o achou muito forte e independente. Para alguém que nem chegou aos vinte anos, Barnes parecia que já tinha vivido mais do que a maioria dessa idade, e toda essa vivência construíra uma casca dura ao seu redor. Era essa a imagem que ele passava para todos que o rodeavam, por isso, era uma surpresa para Howard vê-lo tão vulnerável enquanto se desfazia em lágrimas entre seus braços. Nesse momento, que ele se deu conta que apesar da aparência, Bucky ainda era um garoto que perdera os pais de uma maneira extremamente violenta e que fora jogado no mundo dos adultos cedo demais.
Barnes chorava baixinho no ombro do mais velho, era a único dia que se permitia sentir saudades e sofrer pela morte dos pais, porque sabia que se deixasse esse sentimento de luto fluir livremente, nunca mais pararia de chorar.
— Desculpe – Bucky falou, desfazendo o abraço. – Estou sendo ridículo, chorando feito uma criança – ele acrescentou, tentando enxugar o rosto com as mãos, mas as lágrimas não paravam de descer.
— Não fale besteiras... Você não está sendo ridículo, garoto. Você esta sendo humano! – o senhor Stark exclamou, firmemente.
— Vamos descer? Mandarei que lhe sirvam o almoço, depois você irá para o quarto descansar – Maria disse, gentilmente.
— Eu não quero dar trabalho para vocês – Barnes repetiu, sem graça.
— Que trabalho? Bucky, você tem nos ajudado tanto cuidando do Tony, agora nos deixe ajudá-lo – a senhora Star pediu, carinhosamente.
— Acompanhe ela, garoto. Fique! – Howard acrescentou.
— Vamos? – Maria chamou, puxando-o pelo braço.
O dois saíram juntos do quarto de Tony, Bucky estava envergonhado por ter deixado suas emoções tão expostas, deveria ter ficado em casa como Steve e Natasha insistiram que fizesse. Não estava conseguindo se concentrar nas coisas ao seu redor, isso transformou sua manhã na cafeteria em um completo desastre; errou vários pedidos, derramou café nos clientes e nas mesas, derrubou bandejas, não sabia como ainda possuía um emprego. Tinha decidido ir à mansão Stark apenas para saber como o amigo “Almofadinha” estava se sentindo. Desde a noite anterior que a preocupação corroía suas entranhas, mas não imaginava que não conseguiria manter suas emoções sob controle.
Maria o fez sentar à mesa assim que chegaram na cozinha, deu ordens aos empregados e sentou ao lado no mais novo. Um silêncio estanho começou a reinar sobre eles, entretanto, não estavam incomodados, pois ambos precisavam pensar sobre os eventos passados.
A matriarca Stark olhou discretamente para o jovem ao seu lado e sentiu uma leve pontada de inveja misturada com culpa, ela tinha certeza que ele saberia contornar facilmente a crise que Tony tivera mais cedo. Bucky conseguia lidar com os traumas de seu filho de uma maneira que ela não entendia, por isso, de uma maneira egoísta, deixou que ele assumisse o papel de protetor e cuidador de seu filho, sendo que ela deveria fazer isso. Bucky era apenas um garoto no início da vida adulta, que carregava mais dor do que transparecia e já tinha tantos problemas para lidar... Ele não deveria ser responsável por Tony.
Barnes comeu em silêncio, suas bochechas estavam levemente avermelhadas devido ao olhar analítico da mulher ao seu lado. Ela ordenou com toda a severidade de uma mãe que ele comesse tudo o que lhe fora servido, e avisou que apenas sairia da mesa quando o prato estivesse limpo. Quando terminou a refeição, a senhora Stark o fez subir para descansar no quarto que ocupava todas as vezes que dormia na mansão. Deitado confortavelmente em sua cama, Bucky deixou as lágrimas rolaram livremente pelo seu rosto enquanto era consolado pela mãe de seu amigo.
Maria assistiu a exaustão levar Barnes para o mundo dos sonhos com muita rapidez, os olhos inchados e o rosto vermelho do jovem faziam seu coração doer. Ela achava que ele era um menino tão bondoso e gentil, merecia ser protegido de todas as mazelas do mundo cruel.
A senhora Stark saiu do quarto deixando o adolescente adormecido devidamente aconchegado entre as cobertas, caminhando até o quarto do filho sentindo a pressão do dia pesar em seus ombros, a cabeça estava latejando, mas não se deixaria abater, tinha outra pessoa precisando de seus cuidados e não fraquejaria. Havia sido muito fraca durante todos esses meses, não seria mais, assumiria sua responsabilidade como mãe de uma vez por todas.
Ela entrou no quarto e encontrou Tony com um copo de água nas mãos, o frasco de comprimidos na mesinha de cabeceira a fez entender o que acontecia: Howard o fez tomar um dos remédios receitados pelo doutor Strange. Com um pequeno sorriso no rosto, ela caminhou até a cama e sentou um pouco distante do filho, pois sabia que proximidade o incomodava.
— Você quer conversar sobre o que aconteceu, meu filho? – a senhora Stark questionou amavelmente, mas para decepção dos mais velhos, Tony negou com veemência. – Tudo bem, meu querido, não precisa falar nada. Vamos apenas ficar aqui, quietinhos ao seu lado, para o que você precisar.
A matriarca falou com calma e sem desviar os olhos do filho, que a encarava silencioso. O queixo de Tony tremeu e os olhos marejaram, ele não sabia o que fazer, uma parte de si queria que seus pais o deixassem em paz, já a outra desejava ardentemente seus carinhos e atenção.
— Não sei o que fazer – o mais novo dos Stark sussurrou de cabeça baixa. Doía tudo e ele não sabia o que fazer para não doer mais. Sentia-se confuso, queria chorar, gritar, fugir, morrer.
— O que você não sabe, meu querido? – Maria questionou, olhando para o marido. Era nítida a preocupação nos rostos dos mais velhos.
— Eu não sei o que fazer... – Tony sussurrou, se encolhendo e puxando os próprios cabelos. – O que tenho que fazer para parar de doer?
Maria quase desistiu de abraçar o filho quando ele se encolheu choramingando assustado, mas a vontade apará-lo em seus braços era maior que seus medos. Howard os envolveu em seus braços, chorando pelo sofrimento do filho.
[...]
Longe dali, totalmente alheio ao momento de dor compartilhado pelos membros da família Stark, um jovem que estava sentando confortavelmente em um dos carros caros que pertenciam a sua família. Seus olhos verdes estavam presos na foto exibida na tela do celular, sua mandíbula quadrada se encontrava cerrada com força enquanto decorava pela enésima vez os traços do rosto congelado de um rapaz sorridente de olhos e cabelos castanhos.
A raiva corria por suas veias como ferro derretido, o ciúme lhe corroía e a frustração fazia seu estômago revirar. Tiraram o que era dele por direito. Ele não tinha trabalhado e se esforçado tanto para tê-lo em seus braços, como sempre desejou, para simplesmente perdê-lo. Agora que estava livre novamente, o queria de volta e teria o que era seu. Nada, nem ninguém iria ficar no seu caminho.
— Está me ouvindo, Theodore? – seu pai, Norbert Jackson, lhe tirou de seus devaneios.
— O que disse? – o jovem indagou ao mais velho sem muita vontade.
— Fique longe do garoto Stark! Sua fixação por aquele pirralho insolente só nos trouxe problemas, divirta-se com outro e mantenha distancia daquele moleque fresco – o homem respondeu com severidade, pois ele sabia que Howard Stark não era um homem com quem pudesse bater de frente.
— Claro, papai, eu me manterei longe – o rapaz mentiu, descaradamente.
Ele sorriu achando graça das palavras do pai, pois fora ele mesmo que o ensinara que um Jackson não pedia permissão ou perdão. Desde pequeno fora ensinado que o dinheiro era a coisa mais importante em sua vida, e que as pessoas que estivessem abaixo deles eram recursos utilizáveis e descartáveis. Fora dessa maneira que crescera, acreditando que se queria uma coisa deveria ir lá e pegá-la, sem se importar com as consequências.
Ele queria o Tony, e o teria.
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