Mil Pedaços de Vidro
11 Capítulo 11 - Benquerença
Notas iniciais
Um mês havia se passado desde o início do semestre, e Tony obteve uma pequena melhora, nada grande, entretanto, não deixava de ser significante. Ainda tomava remédios todos os dias; os pesadelos ainda o assombravam, mas, finalmente, estava conseguindo comer outros alimentos além de pera; toques ainda assustavam, e, às vezes, incomodavam, ao ponto de causar uma crise, mas quando alguém pedia ou avisasse que iria tocá-lo, caso ele permitisse ser tocado, as reações não era negativas; apesar de não sair de casa desacompanhado, os encontros ocasionais se tornaram frequentes, assim como as conversas com os amigos e a companhia dos pais.
Os progenitores Stark e amigos estavam quase em êxtase com esses pequenos avanços. Steve foi de grande ajuda, e se tornou o terceiro maior incentivador, sendo que seus pais eram os primeiros, e depois vinha Bucky. Tony dizia que tudo era uma grande tolice, mas no fundo sabia que era uma vitória.
Apesar de várias ruas de New York ainda estarem repletas de neve e gelo, os termômetros não estavam mais constantemente abaixo de zero, aquela noite de sexta-feira estava especialmente gelada, se comparada com dos outros dias da semana. O vento estava gelando até os ossos e as calçadas escorregadias, mas o pequeno grupo de estudantes da escola Midtown High School não iria desistir de ir ao boliche – programa que vem sendo adiado há bastante tempo.
Steve estava perdido em pensamentos, enquanto Bucky e Natasha se pegavam ao seu lado no metrô. O último mês foi um turbilhão de emoções, sua cabeça e seu coração estavam em uma imensa confusão, tudo por causa de Tony Stark.
Toda a fragilidade que Rogers enxergou nos belos olhos castanhos, fizeram com que todos os seus instintos protetores entrassem em alerta máximo. Ao mesmo tempo em que era atingido pela culpa, por se preocupar com alguém que lhe fez tão mal, e a mágoa, por ter sido usado para uma aposta. Não conseguia deixar para trás, e fingir que não conseguia enxergar como Tony estava sempre em alerta; ou os olhos vidrados cheios de medo; ou como se sobressaltava quando escutava o som de algo indo ao encontro do chão ou de pessoas falando alto.
Uma voz robótica anunciou a próxima estação, e jogou Steve para fora de seus pensamentos, os três amigos se levantaram, já que desembarcariam na próxima parada, e assim fizeram quando as portas automáticas se abriram. Caminharam por mais alguns minutos sentindo o vento frio arrepiar os pelos do corpo, chegaram a um prédio de dois andares com fachada laranja e uma enorme bola vermelha no teto, logo em seguida avistaram Tony encolhido entre Thor e Loki.
Os amigos se cumprimentaram alegremente, quem olhasse a cena diria que não se viam há séculos. Steve não conseguiu deixar de reparar em como o mais jovem dos Stark estava bonito no casaco pesado verde musgo que usava, as bochechas vermelhas o deixavam ainda mais encantador, um sorriso escapou de seus lábios ao notar os cabelos castanhos arrumados. Era a primeira vez, desde que voltara, que os via organizados.
Sorridente por estarem juntos, o grupo de amigos entrou no boliche para encontrar os demais, que aguardavam refugiados do frio dentro do estabelecimento. Wanda, Pepper, Clint e T’Chala já os esperavam. Quando, finalmente, se reuniram, acomodaram-se em uma das mesas do local, e Tony pensou em como era bom estar na presença de todos.
A maior parte das vezes que se sentia normal era quando estava na companhia de seus amigos, ali conseguia fingir, por algumas horas, que nada aconteceu e toda a agitação e conversas animadas ocupavam sua mente, o impedindo de relembrar o pesadelo que tinha vivido nas mãos de Jackson. Porém, havia aqueles momentos, em que a sensação boa sentida por estar com os amigos se misturava com a mágoa, por ter sido abandonado por eles, depois vinha à raiva, e, em seguida, uma profunda tristeza, que trazia consigo a sensação de inutilidade, e tudo se tornava um amontoado de sentimos confusos que lhe roubava o ar dos pulmões.
— Tony? – a voz de Steve tirou o jovem Stark de seus pensamentos, antes que seguissem por caminhos mais perigosos.
Rogers estava jogando quando percebeu o olhar perdido e marejado de Tony, e como ele estava coçando o pulso compulsivamente, isso o deixou preocupado. Não era a primeira vez que notava que o filho de Howard e Maria se perdia em pensamentos enquanto se machucava.
— Hum?! – Tony resmungou, piscando os olhos como se estivesse acordando de um transe, e olhou atordoado para Steve sentado ao seu lado à mesa. – O quê?
— Come mais um pouco de batatinha – Rogers pediu, tentando mascarar a preocupação em relação a palidez e a expressão de medo no rosto do mais novo.
— Eu não... Eu vou... Com licença – herdeiro Stark saiu, praticamente correndo, na direção do banheiro.
Steve ficou olhando para o caminho que Tony tomou ao se levantar da mesa, ele estava indeciso se ia ou não atrás do mais novo, afinal, ele poderia estar bem e apenas precisava ir ao banheiro, já que tinha ingerido muito líquido, não era necessário fazer um alarde sobre isso. Os olhos azuis de Rogers pousaram sobre o copo de refrigerante que o jovem Stark estava bebendo, e foi com grande desgosto que notara que o mesmo se encontrava acima do meio, em seguida, encarou os amigos em busca de alguma ideia sobre o que fazer, mas eles estavam distraídos para prestar atenção que o único filho de Howard tinha saído de perto deles. As lembranças das crises que presenciara vieram em sua mente, e isso serviu como incentivo para ir atrás do herdeiro Stark. Ele preferia não arriscar.
Ao entrar no banheiro, Steve sentiu o coração falhar uma batida e o ar fugir de seus pulmões devido à cena em sua frente: Tony estava encolhido em um canto, sentado no chão com as mãos enfiadas nos cabelos e chorava compulsivamente. Era aterrador demais vê-lo naquele estado, o peito de Steve se contraiu dolorosamente. O loiro caminhou devagar até o jovem Stark, e segurou as lágrimas quando ele se encolheu assustado, em seguida, sentou no chão na frente de Tony e buscou em sua mente as palavras para ajudá-lo a superar esse momento.
Sem ideia melhor sobre o que fazer, Steve decidiu tentar a sorte e começou a cantar uma conhecida canção de ninar, a mesma que sua mãe cantava ao lhe colocar na cama, e, se não estivesse enganado, foi escrita em mil e oitocentos por uma poetisa britânica, chamada: Jane Taylor. “Twinkle Twinkle Little Star” surtiu efeito, e fez Tony encará-lo com os olhos vermelhos e brilhantes devido às lágrimas. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Steve quando o jovem Stark também começou a cantar baixinho.
— Está se sentindo melhor? – Rogers questionou, com a cabeça levemente inclinada para o lado.
O mais novo balançou a cabeça de maneira afirmativa, enquanto abraçava as pernas, mas, na verdade, ele não estava nem perto de se sentir bem, Tony só queria ir para casa e se esconder embaixo das cobertas de sua cama. Algo em seu âmago dizia que não deveria ter saído de casa, mas Loki insistiu tanto... e ninguém consegue dizer não para ele.
— Quer que eu te leve pra casa? – Steve indagou, fazendo o mais novo encará-lo surpreso. Até parecia que o loiro tinha lido sua mente.
— Não quero preocupar os outros... – sussurrou, supondo que sua saída acabaria com a noite dos seus amigos, pois o grupo iria se preocupar com ele e não conseguiriam mais relaxar e aproveitar o jogo.
— Hum.
Um silêncio pesado caiu sobre os dois jovens, Tony sentia-se envergonhado por ter tido uma crise na frente do mais velho, e por ser a primeira vez que ficava sozinho com Steve. Já Rogers não sabia o que fazer para contornar a situação, afinal, nunca precisou lidar sozinho com uma crise do herdeiro Stark, pois Bucky – ou outro amigo – sempre estava presente.
— Vamos sair desse chão sujo? – Steve pediu, estendendo a mão para o mais novo.
Mesmo hesitante, e ainda mais envergonhado, Tony aceitou a ajuda do mais velho para se levantar. Em pé, a diferença física e de altura entre os dois pôde ser notada. O filho de Howard era bem mais baixo e, consideravelmente, mais magro, o rosto ainda carregava alguns traços infantis, o que lhe dava um ar inocente e doce. Steve começou a fazer um leve carinho com o polegar na mão do jovem Stark, fazendo-o ficar ainda mais vermelho.
— Está tudo bem, Anthony – Rogers avisou, sorrindo levemente pelas bochechas vermelhas do outro.
Tony agarrou o suéter de Steve e acabou com o pequeno espaço entre eles, enterrando o rosto em seu peitoral, deixando-o momentaneamente sem reação. O mais velho enlaçou o corpo esguio do herdeiro Stark, que tremeu levemente e ficou tenso no primeiro instante, mas logo relaxou, deixando-se ser envolvido pela presença calorosa do loiro.
Parecia tão certo ter Tony em seus braços, naquele momento, no banheiro sujo do boliche. O restante do mundo era insignificante para Steve, ainda mais por estar sentindo o cheiro de pêssegos vindo dos cabelos do mais novo. Era tudo tão familiar e tão novo ao mesmo tempo, uma confusão de sentidos e sentimentos, que estava deixando seu estômago embrulhado.
Céus, como Steve gostaria de não se importar com Tony, de não o amar. Mas, infelizmente, não conseguia se livrar desse sentimento e ser indiferente, principalmente, agora, quando o tem em seus braços parecendo tão indefeso enquanto chora silenciosamente.
A porta do banheiro abriu em um rompante assustando os dois rapazes, que se separam rapidamente, e por ela passou um Bucky com uma expressão de pânico em seu rosto. Barnes suspirou aliviado por ter encontrado Tony, e por Steve estar com ele. Estava tão distraído jogando com os amigos que nem notara que ambos tinham saído, e quando se deu conta disso, uma imensa culpa caiu sobre si.
Guiado pelos instintos de proteção que estavam ligados no máximo, Bucky abraçou forte Tony, que aceitou a demonstração de afeto, pois Barnes fazia isso constantemente e sabia que ele nunca o machucaria. Era seguro estar com Bucky. Além do mais, ele tem sido seu apoio, sua âncora, seu bote salva-vidas quando sua mente teimava em mergulhar em um mar de lembranças dolorosas. Ele nunca reclamou ou ficou se maldizendo por ter que suportar o fardo de ter que lidar com seus problemas.
— Nunca mais se afaste de mim desse jeito, Anthony. Não sabe como fiquei preocupado – Bucky pediu, apertando o amigo nos braços. Estava completamente apavorado com a ideia de que o mais novo tinha fugido, e que estava se machucando em um canto escuro. Ele via Tony como o irmão mais novo que nunca teve, seria doloroso demais perdê-lo.
— Desculpe – Tony sussurrou, sentindo-se horrível por fazer o amigo se preocupar dessa maneira.
— Está tudo bem, Bucky, ele só precisava de um tempo. – os olhos azuis de Steve olhavam para o mais novo dos Stark quando se manifestou.
Bucky desfez o abraço, e se afastou um pouco para observar as feições do herdeiro Stark. Suspirou, notando o rosto vermelho e os olhos inchados pelo choro, isso lhe causou outra onda de culpa e martírio. Deveria ter prestado atenção em Tony, havia mais pessoas que poderiam fazer isso, mas a responsabilidade era sua. Lançou um olhar agradecido para Steve, ao mesmo tempo em que pedia desculpas movendo os lábios.
A porta do banheiro foi aberta, novamente, e por ela passou uma Natasha apreensiva que carregava uma ruga de preocupação na testa, mas que foi desfeita ao ver que Bucky tinha encontrado Tony.
— Vocês, palermas, vão me deixar com cabelos brancos antes dos trinta! – ela ralhou, cruzando os braços no peito. – Mas... Ainda bem que nada aconteceu – acrescentou docemente, olhando diretamente para o mais novo entre eles, e notando que o moreno estava com os olhos vermelhos e inchados.
— Natasha, é o banheiro masculino – Steve avisou, preocupado por tê-la ali. Isso poderia trazer problemas.
— Tá! Tá! Tá! – ela retrucou, revirando os olhos. Só Steve mesmo para se preocupar com essas bobagens em um momento de tensão. – Então vamos logo sair daqui, senhor certinho.
Os três saíram do banheiro em silêncio, Tony era o único de cabeça baixa e envergonhado por ter causado toda uma comoção por não conseguir controlar suas emoções e memórias. Sentia-se tão inútil, mas também havia um sentimento estranho que fazia seu estômago dar voltas, algo que não sentia há muito tempo. Ele estava sentindo algo próximo à felicidade. Ficar um tempo a sós com Steve foi gratificante em vários níveis, mesmo que tenha sido durante uma crise.
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