Mil Pedaços de Vidro
10 Capítulo 10 - Esmero
Notas iniciais
O resto daquele sábado passou tranquilo na mansão Stark. Para alívio dos patriarcas, o único filho não teve mais febre, e a companhia do amigo foi um incentivo a mais para que saísse da cama para jantar. Apesar de ter comido menos da metade do que tinha no prato, para os demais, isso significou muito e ficaram ainda mais felizes porque o herdeiro Stark não vomitou o que tinha ingerido.
Depois da refeição, Bucky teve que ir embora, tinha marcado com a namorada de irem ao cinema e, conhecendo a ruiva Romanoff, Tony não ousou insistir para que o amigo ficasse mais um pouco. Ela seria bem capaz de castrar o namorado se a fizesse esperar muito, ou desse um bolo.
O dia seguinte foi calmo e um tanto quanto tedioso, na opinião de Tony, mas, de certa forma, foi prazeroso passar o dia somente em companhia dos pais; mesmo que no meio da tarde, Howard se viu obrigado a deixá-los para resolver assuntos urgentes relacionados a empresa, um “presentinho de grego” de Obadiah Stane.
Tony nunca suportou esse sócio acionista – e amigo – de seu pai; tudo que vinha dele parecia falso e não gostava nem um pouco da maneira como ele olhava-o, havia nojo em seus olhos; o qual aumentou depois dos problemas causados por Theodore Jackson. O herdeiro Stark não conseguia ignorar a vozinha dentro da própria cabeça, que dizia para não acreditar em “todas as boas intenções” de Stane, mesmo Howard dizendo que era paranoia de sua mente juvenil; contudo, mesmo com seu progenitor falando que não tem com o que se preocupar, Tony já tinha decidido que, quando assumisse o comando das industrias Stark, iria encontrar uma maneira de se livrar do velho e não se importava o que tivesse que pagar para que isso acontecesse.
Apesar da incômoda presença de Obadiah Stane, fora um bom dia para o herdeiro dos Stark, Tony apreciou muito os cuidados da mãe e a companhia do pai. O adolescente não lembrava há quanto tempo não tiravam um momento de suas vidas para se dedicarem inteiramente à família, e dizer que sentia falta disso era pouco.
Já era noite quando Howard se livrou do sócio, por sorte, foi na hora que o jantar estava sendo servido, e, para felicidade do herdeiro Stark, Stane não pôde ficar para comer com eles.
— Pai? Mãe? – Tony chamou a atenção dos mais velhos
— Sim, querido? – Maria indagou, surpresa pelo filho ter iniciado um diálogo.
— Obrigado por hoje – o jovem começou tímido e incerto do que falaria. — Eu... Eu realmente sentia falta de passar um tempo com vocês. Sei que parece bobagem, sou quase um homem e não deveria ser tão infantil, mas... Esses momentos são bons.
A senhora Stark estava com os olhos cheios d’água quando o filho terminou de falar, ela sentia um peso em seus ombros por notar a solidão nas palavras de Tony. Maria não conteve os instintos, levantou e abraçou seu bambino com força, e ficou contente por não ter sido rejeitada.
— Não precisa agradecer, querido – Maria se afastou um pouco para olhar nos olhos do filho, e segurou o rosto dele entre as mãos. — Nós que devemos agradecer por ter você na nossa vida – acrescentou, beijando sua testa com carinho.
— Sua mãe está certa, Anthony, você não precisa agradecer por isso – Howard afirmou, sentindo o coração doer. Ele também notou a solidão expressa no rosto do filho.
— Vocês... Nós vamos fazer isso, de novo? – Tony questionou pausadamente, e claramente receoso. O que ele realmente queria era saber se os pais iriam deixá-lo sozinho, novamente.
— Naturalmente lo faremo, di nuovo (Claro que vamos fazer isso, novamente) – Maria avisou, entendendo o que o filho realmente quis questionar.
A resposta deixou Tony, visivelmente, mais relaxado.
— Faccio mie le parole di tua madre (Faço minhas as palavras de sua mãe) – Howard acrescentou.
— Grazie, mamma e papà! (Obrigado, mamãe e papai!) – o mais jovem sussurrou, com lágrimas nos olhos.
O restante da noite transcorreu tranquilamente, Tony não passou mal e, novamente, dormiu entre os pais; porém, diferente da noite anterior, ele não teve pesadelos. O despertador tocou irritante pelo quarto, mas nenhum dos três Stark queria sair da sua pequena bolha de calor e amor, por isso, Howard se distanciou da mulher e do filho apenas para por um fim ao som chato que atrapalhava seu sono, e voltou a abraçar protetoramente Maria e Tony, que estava parcialmente deitado sobre a mãe.
Antes de fechar os olhos para voltar a dormir, o senhor Stark observou a esposa adormecida e ficou ainda mais apaixonado; ela estava tão bonita quanto no dia que a conheceu, o que o fez sentir-se o homem mais sortudo do mundo por tê-la ao lado durante todos esses anos, mesmo ele não merecendo; em seguida, observou o contorno do rosto do de seu único herdeiro, notando como ele ainda possuía muitos traços infantis, e sorriu por ter o seus bens mais preciosos ao alcance de seus braços. Jurou para si mesmo que ninguém, nunca mais, iria ferir um membro de sua família, Tony ficaria seguro nem que para isso tivesse que recorrer a medidas extremas.
Longe da mansão Stark, Bucky preparava-se para sair de casa, tinha acordado mais tarde que o normal e, por isso, não teria tempo de passar na casa de Tony para ambos irem juntos à escola. Ele estava preocupado com o amigo, não conseguiu ir a mansão visitá-lo porque teve de cobrir um colega que adoecera, e não teve tempo de trocar algumas mensagens durante o dia. Teria pedido a Steve para ir em seu lugar, se ele não tivesse ido visitar a mãe.
Rogers sentia-se um pouco enciumado com a amizade de Bucky e Tony, mas permanecia calado a respeito disso, entretanto, não sabia dizer se estava com ciúmes do amigo ou se era do homem que amou, em segredo, por anos. Não podia cobrá-los, pois, já tinha percebido que algo muito sério acontecera, que fez com que se unissem.
A preocupação e a curiosidade corroíam seu interior, entretanto, Bucky não lhe contava nada que envolvia Tony, e não foi por falta de tentativa, porque vinha insistindo desde o início das aulas. Esperava que não fosse nada perigoso ou ilegal, não queria ver o amigo ferido ou, novamente, tendo problemas com a Lei.
O trajeto até a escola foi feito de metrô, onde Barnes passou o tempo todo tentando falar com o Stark, mas seu celular chamava até cair à linha. Quando atravessou os portões da escola e não encontrou Tony em seu armário, seu nível de preocupação subiu consideravelmente.
— Vamos lá, Anthony, atende essa merda! – Bucky resmungou, preocupado por mais uma vez estar sendo ignorado pelo mais novo.
— O que tá havendo? – Natasha questionou, aproximando-se. Ela notou de longe que o namorado não estava bem.
— O Tony que não atende a porra do telefone! – Barnes respondeu, desligando o celular mais aflito do que antes.
— Já tentou ligar para os pais dele? – a Romanoff indagou, séria.
— Também já liguei para eles, mas não me atenderam –/ Bucky avisou, e esfregou o rosto com força. Cada minuto que ficava sem notícias fazia sua mente criar vários cenários nada agradáveis.
— E o telefone fixo? – a ruiva interrogou.
— Não, ainda não. É uma ótima ideia, o Jarvis ou algum empregado daquela casa, com certeza, vai me atender. Muito obrigado, você é maravilhosa. Deusa. Perfeita. A mulher da minha vida! – o agradecimento exagerado do namorado fez Natasha ficar mais vermelha que seus cabelos, e revirar os olhos.
Barnes discou o número do telefone fixo da mansão Stark e se afastou um pouco devido ao barulho que alguns estudantes começaram a fazer, Steve assistiu todo o diálogo do casal sem entender o motivo de tanta preocupação. Sabia que tinha acontecido algo com Tony, que mudara drasticamente sua personalidade, mas não fazia sentido à reação exagerada do amigo. O Stark apenas não queria atender o celular ou estava ocupado. Na pior das hipóteses, estaria doente. Não precisava de tanto alarde.
— Ele está desse jeito só por que o Tony não atende o celular? – Rogers questionou Natasha, seus olhos estavam fixos nas costas do amigo.
— Meses atrás, o Tony tentou se matar... Eu acho que o Bucky já deve ter falado sobre isso? – Steve confirmou, balançando a cabeça. — Mas, por acaso, ele também contou que foi ele que encontrou o Tony com os pulsos cortados e se esvaindo em sangue? – pela expressão no rosto de Rogers, Natasha pôde ter certeza que o namorado não havia contado toda a história sobre a tentativa de suicídio do herdeiro Stark. — Pois é! Tony tinha faltado à escola, e não atendia as ligações. Por algum motivo, isso não parecia certo para o Bucky. Chame de premonição, intuição, pressentimento... O que você achar melhor, mas ele estava certo quando faltou à aula para ir até a mansão Stark. Ninguém naquele mausoléu notou que o Tony não tinha ido à escola. O senhor Stark estava em casa, e mesmo assim não tinha notado que o filho estava em casa. Bom, até a chegada do Bucky. Os dois encontraram o Tony desmaiado no chão do banheiro com os dois pulsos cortados, e sangue por todo piso.
Steve estava em choque com a história que tinha acabado de ouvir, seu estômago estava dando voltas, agradeceu aos céus por não ter tido tempo para tomar café, ou teria vomitado tudo o que tinha ingerido. Jamais pensou que o amigo tivesse passado por algo tão pesado, muito menos, que tinha salvado a vida de Tony! Não conseguia imaginar como ficara a cabeça do amigo, o quanto isso fora perturbador para ele.
— Os três ainda estão dormindo, acredita nisso? – Bucky avisou, sorrindo, e claramente mais leve depois de falar com Jarvis, o mordomo da família, e o homem lhe garantir que todos estavam bem. — Parece que os Stark resolveram furar com os compromissos, e ficarem juntos em casa curtindo a cama nessa manhã fria. Coisa que nós dois poderíamos estar fazendo, né, ruiva?
— Nós temos aula, imbecil, e quem vai copiar as matérias para o Tony? – Natasha falou, fazendo o namorado soltar um muxoxo de desaprovação.
— Você é tão malvada, ruiva... – Barnes resmungou, fazendo bico. Romanoff revirou os olhos e sorriu da atitude infantil do namorado. Estavam juntos há quatro meses, mas ainda se perguntava o que tinha visto naquele bobalhão gótico?
Os três amigos seguiram para suas respectivas salas, e deram início a mais um dia de aulas; no entanto, Steve mais uma vez não conseguiu concentrar-se nas explicações dos professores. As palavras de Natasha soavam em sua cabeça repetidamente, como um CD arranhado; ouvir toda a história, sobre a tentativa de suicídio de Tony, doera absurdamente.
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