A noite estava perfeita, até que o som da música baixou um pouco e o pai de Antonella, com o avental do churrasco ainda no corpo e uma faca de carne na mão (o que não ajudava em nada a diminuir a tensão), puxou uma cadeira para o lado de Ji-hoon. A mãe dela, com um olhar que parecia ler até os pensamentos mais profundos do herdeiro, sentou-se logo em frente.

Antonella, que tinha ido buscar mais gelo, travou no meio do caminho ao ver a cena. Ela conhecia aquele olhar dos pais. Era o olhar do "interrogatório oficial".

— Então, Sr. Ji-hoon — começou o pai, limpando as mãos em um pano. — Você veio de tão longe, conheceu nossa filha no avião, trouxe ela de volta, e agora está aqui comendo nosso cuscuz...

Ji-hoon endireitou a postura imediatamente, o instinto corporativo gritando para ele tratar aquilo como uma reunião de fusão de alto risco.

— Sim, senhor. Foi uma coincidência afortunada — Ji-hoon respondeu, a voz um pouco mais rígida do que o normal.

— Coincidência, é? — A mãe de Antonella inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Porque a Antonella não costuma trazer "coincidências" para comer na nossa mesa. Vocês estão namorando? Porque se não estão, você está gastando muito combustível de avião por nada, não acha?

Ji-hoon sentiu uma gota de suor frio descer pelas costas. Ele olhou para Antonella, pedindo socorro com os olhos, mas o pai dela foi mais rápido.

— E outra coisa: o que um rapaz que tem uma "empresa de milhões" quer com a minha filha, que ainda é estudante? Quais são as suas intenções? Porque aqui no Brasil, a gente valoriza o respeito acima do dinheiro, sabe?

Antonella finalmente interveio, colocando o gelo na mesa com força.

— Pai! Mãe! Deixem o homem respirar! Ele é meu convidado, não um suspeito de crime!

— Calma, Antonella — Ji-hoon disse, surpreendendo a todos. Ele respirou fundo, olhou nos olhos do pai dela e, pela primeira vez, não usou o tom de voz de um executivo, mas de um homem que estava sendo sincero. — Eu entendo a preocupação de vocês. Na minha cultura, o respeito à família é o pilar de tudo. Eu não planejei conhecer a Antonella, e confesso que nunca conheci ninguém como ela. Ela me desafia, ela me irrita e... ela me mostrou um mundo que eu não sabia que existia.

Ele fez uma pausa, olhando rapidamente para Antonella antes de voltar aos pais.

— Eu ainda não sei rotular o que temos, mas posso garantir que minhas intenções são as mais honrosas possíveis. Eu não estou aqui para desperdiçar o tempo dela. Estou aqui porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não quero estar em nenhum outro lugar do mundo.

O silêncio na varanda foi absoluto. O pai de Antonella avaliou o coreano por longos segundos, enquanto a mãe dela deu um sorrisinho de canto, parecendo satisfeita com a resposta "direta ao ponto".

— É... ele fala bem — o pai resmungou, voltando para a churrasqueira. — Mas se fizer ela chorar, Seul vai ficar pequena para você, entendeu?

Ji-hoon engoliu em seco e assentiu. Antonella puxou-o pelo braço para longe dali, o rosto queimando de vergonha, mas com um brilho de admiração no olhar.

— Você se saiu bem, "pinguim" — ela sussurrou. — Mas acho que meu pai quase teve um infarto com a sua resposta.

— Eu também quase tive um infarto — ele confessou, soltando o ar que nem sabia que estava segurando. — Negociar com o governo coreano é mais fácil do que encarar o seu pai com um espeto de carne na mão.

Depois que a "inquisição" dos pais terminou, Antonella puxou Ji-hoon para um canto mais reservado do jardim, onde as luzes coloridas da varanda chegavam apenas como um reflexo suave. Ela conseguia ver que ele ainda estava um pouco rígido pela pressão do interrogatório.

— Ei... — ela começou, tocando gentilmente no braço dele. — Me desculpa pelos meus pais. Eles não têm filtro, e o meu pai leva o título de "protetor" a um nível quase policial. Eu não queria que você se sentisse desconfortável.

Ji-hoon olhou para a mão dela em seu braço e depois para os olhos de Antonella. Ele soltou um riso curto, relaxando os ombros.

— Não precisa se desculpar, Mascarenhas. Na verdade... eu gostei. Em Seul, as pessoas medem as palavras para não me ofender ou para conseguir algo de mim. Seus pais falaram o que pensavam sem se importar com quem eu sou ou quanto dinheiro eu tenho. Foi... revigorante. De um jeito aterrorizante, mas revigorante.

Antonella sorriu, aliviada.

— Bom, já que você sobreviveu ao "Tribunal Mascarenhas", eu tenho uma proposta. Esquece o hotel por hoje. A gente vai virar a noite aqui. O churrasco só acaba quando a última carne sair do fogo e o sol começar a aparecer. Você aguenta o ritmo?

Ji-hoon olhou para a festa que continuava na varanda — os tios rindo, a música tocando e o clima de alegria genuína. Ele desamarrou completamente o botão do colarinho e deu um gole na cerveja.

— Eu sou um Kang, Antonella. Nós não desistimos de um desafio. Se a regra é virar a noite, eu fico.

...

A madrugada avançou. Ji-hoon aprendeu a "pagar um mico" tentando dançar um pouco de forró com a tia de Antonella e até se arriscou a ajudar no corte da carne. Por volta das três da manhã, quando a maior parte da família já estava relaxada nas redes ou conversando em voz baixa, a casa ficou mais silenciosa.

Antonella fez um sinal para Ji-hoon e o guiou para o corredor lateral da casa, onde as sombras eram densas e o cheiro das damas-da-noite era inebriante.

— Cuidado para não tropeçar no balde — ela sussurrou, rindo baixinho.

Quando chegaram ao ponto mais escuro, longe dos olhos vigilantes do pai dela, Antonella parou e se encostou na parede de tijolinhos. Ji-hoon parou à frente dela, a proximidade agora sendo ditada não pelo espaço apertado do avião, mas por uma vontade magnética.

— Você se saiu muito bem hoje — ela murmurou, a voz rouca pelo cansaço e pela proximidade. — Acho que nunca vi um coreano tão... alagoano.

— Foi a companhia — Ji-hoon respondeu. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar acariciando a maçã da bochecha de Antonella. A rigidez de CEO tinha desaparecido completamente; ali estava apenas o homem que ela tinha desarmado. — Eu vim para o Brasil para fugir de tudo, mas acho que acabei encontrando algo que não quero deixar para trás.

O silêncio entre eles foi preenchido apenas pelo som distante do mar e pela respiração pesada de ambos. Antonella encurtou a distância, segurando a gola da camisa dele. Ji-hoon não hesitou. Ele se inclinou, e o beijo aconteceu — não como o choque de um acidente, mas como a conclusão inevitável de mil milhas de tensão.

Era um beijo que misturava a calma do mar de Maceió com a intensidade de um furacão. Escondidos ali, entre as sombras da casa e a festa que ainda ecoava ao fundo, os mundos de Seul e Maceió finalmente colidiram de verdade.

Quando se separaram, ambos estavam sem fôlego. Ji-hoon encostou a testa na dela, um sorriso genuíno e cúmplice brincando em seus lábios.

— Se o seu pai nos vir aqui... — ele sussurrou.

— Então é melhor a gente voltar para a mesa antes que ele sinta falta do espeto — Antonella brincou, mas não soltou a mão dele.

Naquela noite, sob o céu de Maceió, as fronteiras tinham deixado de existir.

O sol da manhã em Pajuçara era de um azul tão brilhante que quase feria os olhos. Ji-hoon e Antonella caminhavam pela areia clara, ainda com aquela aura de cumplicidade do beijo da noite anterior. Ele parecia mais à vontade: bermuda, óculos escuros e uma disposição que ninguém em Seul reconheceria.

Eles decidiram alugar uma barraca perto das jangadas que levam às piscinas naturais. Enquanto Ji-hoon foi buscar duas águas de coco, Antonella ficou arrumando as toalhas. Foi nesse momento que um turista estrangeiro — um homem alto, loiro e com um ar de "dono do mundo" — se aproximou com um sorriso convencido.

— Hey, beautiful... — o gringo começou, em um inglês arrastado. — Você parece um pouco solitária para uma manhã tão linda. Quer companhia para um mergulho ou prefere que eu te pague um drink naquele quiosque?

Antonella, acostumada a lidar com esse tipo de abordagem, apenas sorriu de canto e respondeu em inglês perfeito:

— Agradeço o convite, mas não estou sozinha. E meu drink já está chegando.

O homem não se deu por vencido. Ele se inclinou mais um pouco, invadindo o espaço pessoal dela.

— Ah, vamos lá. Um rosto como o seu não deveria ser desperdiçado com "esperas". Eu sou o Mark, e garanto que sou bem mais interessante do que qualquer um que você esteja esperando.

Nesse exato momento, Ji-hoon voltou. Ele não precisou entender cada palavra para ler a linguagem corporal do sujeito e o desconforto sutil no rosto de Antonella. O "gelo de Seul" retornou instantaneamente. Ele caminhou com passos firmes e parou exatamente ao lado de Antonella, entregando o coco para ela sem tirar os olhos do gringo.

— Is there a problem here? — a voz de Ji-hoon saiu gélida, profunda e com toda a autoridade de um herdeiro de império corporativo.

O gringo mediu Ji-hoon de cima a baixo, soltando uma risadinha debochada.

— Só estou conversando com a moça, pal. Não sabia que ela tinha um guarda-costas.

Ji-hoon deu um passo à frente, diminuindo a distância de forma intimidadora. Ele não gritou, mas o tom de sua voz era como o fio de uma navalha.

— Eu não sou o guarda-costas. Sou o motivo pelo qual ela não tem o menor interesse em ouvir nada do que você tem a dizer. Agora, se afaste. Now. — O olhar de Ji-hoon era tão frio que parecia capaz de congelar a água do mar de Pajuçara.

O gringo percebeu que aquele não era um turista qualquer. Havia algo na postura e no olhar de Ji-hoon que impunha um respeito imediato (e um pouco de medo). Ele resmungou algo sobre "brasileiras difíceis" e se retirou rapidamente, desaparecendo entre as outras barracas.

Antonella olhou para Ji-hoon, que ainda encarava o horizonte com o maxilar travado. Ela não conseguiu segurar o sorriso.

— "Sou o motivo pelo qual ela não tem interesse"? — ela repetiu, imitando o tom dele. — Nossa, Sr. Kang... eu não sabia que você era tão territorialista.

Ji-hoon relaxou a postura aos poucos, mas o brilho protetor ainda estava lá. Ele olhou para ela e suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado pelo vento.

— Eu não gosto de ineficiência, Mascarenhas. E aquele homem estava sendo... extremamente ineficiente e desrespeitoso — ele disse, tentando manter a pose, mas o rosto denunciou um leve ciúme. — E, para constar, eu não sou territorialista. Eu apenas sei valorizar o que é importante.

Antonella deu um passo para perto dele, segurando a mão de Ji-hoon sob o sol de Maceió.

— Tudo bem, meu herdeiro de gelo. Obrigada pelo resgate. Mas da próxima vez, tenta não assustar o pobre coitado tanto assim, ou vão achar que a máfia coreana chegou em Alagoas.

Ji-hoon sorriu de lado, puxando-a para um abraço rápido. O incidente em Pajuçara só serviu para uma coisa: deixar claro para os dois que o que estava acontecendo ali era muito mais sério do que "miniférias".

Notas finais
FINALMENTE O BEIJO! 💖🔥 E foi escondido, com toda aquela adrenalina de poder ser pego pelos pais a qualquer momento. O Ji-hoon oficialmente se rendeu aos encantos da nossa brasileira. Mas agora fica a pergunta: o que acontece quando o sol nascer e a realidade da Coreia voltar a bater na porta?