Mil Milhas de Tensão
3 Ao Meio-dia
O restaurante escolhido por Ji-hoon era um refúgio de sofisticação em frente ao mar, com janelas panorâmicas que filtravam a luz intensa de Maceió, transformando-a em uma claridade elegante. Antonella chegou vestindo um vestido de seda leve, a cor contrastando com sua pele dourada, e encontrou Ji-hoon já à mesa. Ele não usava terno, apenas uma camisa de linho impecável, mas ainda mantinha aquela postura de quem comanda o ambiente.
O almoço começou com uma conversa leve sobre a culinária local, mas o clima mudou quando os pratos principais foram servidos. Antonella o observava com curiosidade.
— Então, herdeiro... — ela começou, girando a taça de vinho. — Como estão os negócios? Muitas fusões de milhões ocupando sua mente hoje ou você conseguiu dar uma folga para o seu pai?
Ji-hoon deixou os talheres de lado e olhou para o mar pela janela antes de encarar Antonella. Havia uma honestidade rara em seus olhos.
— Na verdade... não há fusões desta vez. Nem reuniões, nem contratos — ele confessou, a voz baixa. — Eu disse aquilo no avião porque é o meu escudo. É o que eu faço. Mas a verdade é que eu vim para cá em "miniférias". Dez dias de anonimato que eu mesmo me impus antes de assumir a vice-presidência em Seul.
Antonella piscou, surpresa. O homem que parecia não conseguir respirar sem uma planilha estava ali, fugindo de tudo.
— Você? De férias? — Ela sorriu, mas desta vez sem deboche. — Isso explica por que você parecia tão perdido ontem. Você não sabe como é ser "apenas" o Ji-hoon, não é?
Ele deu um suspiro curto, quase um riso sem humor.
— Não muito. Mas e você, Mascarenhas? — Ele inclinou o corpo para frente, mudando o foco para ela. — Você fala coreano o suficiente para entender minhas broncas e conhece Seul melhor do que qualquer turista comum. O que uma estudante de Psicologia de Maceió estava fazendo do outro lado do mundo? O que você foi buscar na Coreia?
Antonella sentiu o peso da pergunta. Ela olhou para as próprias mãos, lembrando-se do semestre intenso que passara em Seul, estudando o comportamento e a disciplina quase sufocante daquela sociedade que tanto a fascinava e, ao mesmo tempo, a desafiava.
— Eu estava lá para aprender como as pessoas lidam com a pressão — ela respondeu, com sinceridade. — Fui fazer um intercâmbio de pesquisa na Universidade Nacional de Seul. Queria entender por que uma cultura tão brilhante e tecnológica às vezes esquece de como... bem, de como respirar. Acho que acabei encontrando a resposta em você antes mesmo de pousarmos.
O silêncio que se seguiu não foi tenso, foi profundo. Ji-hoon a observava como se ela fosse o estudo de caso mais complexo que ele já teve que analisar.
— Então você foi para a Coreia para estudar pessoas como eu? — ele perguntou, um brilho de interesse real surgindo em seu olhar.
— Talvez — ela desafiou com um sorriso. — Mas eu não esperava que uma dessas pessoas fosse me convidar para almoçar em Maceió.
Ji-hoon ainda processava a resposta de Antonella. Saber que ela o observava não apenas como um passageiro irritante, mas com o olhar atento de uma futura psicóloga, o deixava intrigado. Ele estava acostumado a ser avaliado por investidores, não por alguém que buscava entender o que havia por trás de sua rigidez.
— Então eu sou o seu objeto de estudo? — ele perguntou, recostando-se na cadeira com um ar pensativo.
— Considere um bônus de viagem — Antonella brincou, mas logo sua expressão se iluminou com uma ideia. — Mas, já que você confessou que está oficialmente de folga, não pode passar dez dias trancado nesse restaurante ou na piscina do hotel. Maceió é linda, mas o verdadeiro tesouro de Alagoas fica um pouco mais longe.
Ji-hoon arqueou uma sobrancelha, curioso.
— E onde seria esse tesouro?
— Se você quer mesmo fugir de Seul, precisa conhecer Maragogi. A gente chama de Caribe Brasileiro. São piscinas naturais no meio do mar, com águas tão cristalinas que você vai esquecer que o mundo corporativo existe. E, no caminho de volta, passamos na Praia do Gunga. Lá tem falésias coloridas e um mar de coqueiros que não acaba mais.
Ji-hoon olhou para o horizonte, depois para o rosto entusiasmado de Antonella. Ele nunca foi do tipo que faz planos de última hora, mas havia algo na forma como ela descrevia o lugar que tornava seus relatórios financeiros terrivelmente tediosos.
— Maragogi e Gunga — ele repetiu os nomes, tentando acertar a pronúncia. — Parece... distante da civilização que eu conheço.
— Esse é o objetivo, Ji-hoon — ela se inclinou para frente, baixando o tom de voz de forma conspiratória. — Sem Wi-Fi estável, sem ternos, apenas o mar. E eu prometo que não vou deixar você se perder, desde que você prometa parar de olhar para o relógio a cada cinco minutos.
Ele soltou uma respiração pesada, mas havia um brilho de aventura em seus olhos que ele raramente se permitia mostrar.
— Tudo bem, Mascarenhas. Você venceu. Quando partimos?
— Amanhã, ao amanhecer. O mar não espera pelos herdeiros — ela deu um sorriso vitorioso. — Prepare o protetor solar e uma roupa que você não tenha medo de molhar. Vou passar aqui para te buscar.
Ji-hoon assentiu, sentindo uma mistura estranha de ansiedade e expectativa. Ele veio ao Brasil para se esconder, mas parecia que Antonella estava prestes a fazê-lo se encontrar.
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