Quando a porta se fechou atrás de Antonella, o salão ficou tão silencioso que era possível ouvir o som da chuva começando a cair lá fora. O Sr. Kang tinha um sorriso vitorioso, achando que tinha "expulsado a intrusa", mas esse sorriso sumiu quando ele viu os olhos de Ji-hoon. Eles não estavam tristes; estavam em chamas.

Ji-hoon olhou para Sora, que tentava manter a pose, mas estava visivelmente desconfortável.

— Sora — ele começou, a voz num tom tão baixo e perigoso que ela estremeceu. — Você já foi alguém que eu respeitei. Hoje, você aceitou o papel de ferramenta de um homem amargo. Saia desta casa. Agora. E nunca mais procure a mim ou à Antonella. Se houver um próximo contato, será através dos advogados da empresa por assédio moral.

Sora levantou-se rapidamente, pegou sua bolsa e saiu sem olhar para trás, a elegância de Chanel destruída pela vergonha.

Ji-hoon então se virou para o pai. Ele caminhou até a cabeceira da mesa, apoiou as mãos na madeira cara e encarou o patriarca.

— Você disse que ela é uma amante, pai? Pois saiba que Antonella é a única pessoa que entrou nesta família por amor, e não por ações na bolsa de valores. Você tentou humilhar a mulher que me deu um motivo para acordar feliz, algo que você nunca fez em 26 anos.

— Você não ouse me desafiar, Ji-hoon! — o Sr. Kang gritou, levantando-se. — Eu criei você para ser o Rei de Seul! Sem este sobrenome e sem esta empresa, você não é nada!

Ji-hoon soltou uma risada amarga e tirou o relógio de luxo do pulso, colocando-o sobre a mesa junto com o celular corporativo e a chave do carro oficial.

— O senhor está errado. Sem este sobrenome, eu finalmente sou eu mesmo. O cargo de Vice-Presidente? Está vago. A sucessão? Procure outro, porque eu me demito. E não se preocupe com o meu sustento; eu tenho economias próprias e um talento que o senhor mesmo me obrigou a desenvolver.

— Você vai voltar rastejando! — o pai esbravejou, o rosto vermelho.

— Eu vou voltar apenas para buscar o que é meu por direito legal, mas nunca mais para jantar nesta mesa. O senhor queria um herdeiro de gelo? Pois parabéns, o senhor conseguiu congelar a única relação que ainda restava na sua vida. Passar bem, Sr. Kang.

Ji-hoon deu as costas, ignorando os gritos do pai, e saiu da mansão apenas com a roupa do corpo e a carteira no bolso. Ele saiu na chuva, mas não se importou. Ele correu para o portão, chamou um táxi comum e deu o endereço do hotel.

No hotel, Antonella estava sentada na cama, com o vestido ainda no corpo, tentando controlar a trepidação nas mãos. Ela sabia que tinha feito o certo, mas o medo de ter estragado a vida dele a assombrava.

De repente, a porta da suíte se abriu. Ji-hoon entrou, completamente encharcado, o terno de grife arruinado pela água, mas com um sorriso que ela nunca tinha visto antes. Era o sorriso de um homem livre.

— Ji-hoon! Você está todo molhado... o que aconteceu? — ela correu até ele com uma toalha.

Ele a puxou para um abraço, molhando o vestido esmeralda dela, mas nenhum dos dois ligou.

— Eu deixei tudo lá, Antonella — ele sussurrou no ouvido dela. — A empresa, o cargo, o meu pai. Eu renunciei. A única coisa que eu trouxe comigo foi a vontade de recomeçar do zero. Mas dessa vez, do seu lado.

Antonella se afastou um pouco para olhar nos olhos dele.

— Você tem certeza? É um império, Ji-hoon...

— É um império de areia, Antonella. O meu império é você. Agora, por favor, me diga que você ainda tem aquele pacote de farinha de milho na mala... porque eu acho que a partir de amanhã, a gente vai precisar economizar um pouco até eu abrir minha própria consultoria.

Eles riram, um riso de alívio e cumplicidade. A guerra com o Sr. Kang estava longe de acabar, mas naquela noite, na suíte luxuosa que logo seria trocada por um apartamento mais simples, o ex-herdeiro e a psicóloga brasileira celebraram a maior liberdade de suas vidas.

O Sr. Kang não aceita perder, e sua primeira jogada para trazer o filho de volta "de joelhos" foi atingir onde ele achou que mais doeria: o bolso. O jogo ficou sujo, mas ele esqueceu que a Antonella veio de uma realidade onde criatividade e economia fazem parte do dia a dia.

Na manhã seguinte à renúncia, Ji-hoon acordou cedo para começar a organizar sua nova vida. No entanto, ao tentar pagar a conta da suíte do hotel para fazer o check-out e se mudar para algo mais simples, o cartão foi recusado. Ele tentou o segundo, o terceiro... todos bloqueados.

— Meu pai foi mais rápido do que eu imaginei — Ji-hoon disse, olhando para o celular que mostrava o acesso negado ao aplicativo do banco. — Ele bloqueou as contas conjuntas, os fundos de herança e até minhas contas pessoais sob a alegação de "uso indevido de bens da família".

Antonella saiu do banheiro, já terminando de prender o cabelo. Ela viu a expressão preocupada dele e sentou-se ao seu lado.

— Ele acha que sem o dinheiro dele, você vai correr de volta para a mansão, né? — Ela pegou a própria bolsa e tirou sua carteira. — Pois ele não conhece a economia de uma estudante universitária. Ji-hoon, eu tenho as economias do meu trabalho no hospital e o que meu pai me deu. Não é um império, mas dá para um aluguel de um estúdio e comida por dois meses se a gente souber viver.

Em poucas horas, eles deixaram o luxo de Gangnam e se mudaram para um "Oksang-ji" (um apartamento de cobertura, mas daqueles simples e pequenos, em cima de prédios antigos) no bairro de Itaewon. O lugar era minúsculo, o aquecimento fazia barulho e não havia serviço de quarto, mas a vista da cidade era real.

Ji-hoon, que nunca tinha carregado a própria mala ou lavado um prato, olhava para o espaço reduzido com uma mistura de choque e fascínio.

— Então... é aqui que a gente começa? — ele perguntou, observando Antonella organizar os pacotes de macarrão instantâneo na prateleira improvisada.

— É aqui que a gente constrói algo que é nosso, Ji-hoon — ela respondeu, entregando a ele um pano de limpeza. — Agora, menos pose de CEO e mais braço firme, porque esse chão não vai se limpar sozinho.

Os primeiros dias foram um aprendizado. Ji-hoon teve que aprender a usar o metrô (o que foi um evento, já que ele nunca tinha andado de transporte público), a comparar preços no mercado e a lidar com o fato de que seu nome, antes um abridor de portas, agora era motivo de fofoca nos jornais de negócios.

O Sr. Kang mandava espiões para segui-los, esperando ver o filho miserável. O que os espiões reportavam, porém, era algo que o velho patriarca não entendia: fotos de Ji-hoon e Antonella rindo enquanto comiam em barracas de rua baratas, ou Ji-hoon carregando sacolas de compras como um homem comum, parecendo mais leve do que nunca.

Mas a pressão começou a subir quando as empresas de Seul, com medo do Sr. Kang, começaram a fechar as portas para Ji-hoon. Ele não conseguia emprego nem como consultor júnior.

— Ele quer me asfixiar financeiramente até eu desistir de você — Ji-hoon desabafou uma noite, sentado no chão do apartamentinho.

Antonella se aproximou, sentando entre as pernas dele.

— Ele pode bloquear seu dinheiro, Ji-hoon, mas não pode bloquear seu cérebro. Se ninguém te contrata... a gente abre o nosso próprio caminho. Eu vou começar meu estágio amanhã em uma clínica comunitária, já consegui a vaga. O dinheiro é pouco, mas paga o nosso arroz. Enquanto isso, você vai planejar sua própria empresa. De cueca e moletom aqui nesse sofá, se precisar.

Ji-hoon abraçou-a com força, escondendo o rosto no pescoço dela.

— Eu nunca imaginei que ser "pobre" com você seria tão mais rico do que ser bilionário sozinho.

Enquanto o Sr. Kang monitorava os cartões de crédito bloqueados, esperando o telefonema de rendição do filho, Ji-hoon estava debruçado sobre um laptop antigo, com Antonella ao seu lado revisando textos em inglês e português.

Ele não estava tentando recuperar o que perdeu; ele estava criando algo totalmente novo. Sua ideia era uma startup de IA para Psicologia Organizacional, um software que detectava níveis de burnout e sugeria intervenções humanas personalizadas — unindo o rigor técnico dele com a sensibilidade acadêmica dela.

— Ji-hoon, ninguém em Seul vai atender suas chamadas. Eles têm medo da sombra do seu pai — Antonella disse, enquanto organizava as planilhas de custo.

— Então não vamos ligar para Seul — Ji-hoon respondeu, os olhos brilhando. — Meu pai controla o mercado coreano, mas ele não manda no Vale do Silício nem nos fundos de investimento da Europa.

Usando as conexões que fez durante seu mestrado no exterior, Ji-hoon enviou o projeto para um grupo de investidores-anjo alemães e americanos. Para eles, o fato de Ji-hoon ter "rompido" com a dinastia Kang não era um sinal de fraqueza, mas de coragem e visão.

Duas semanas depois, no meio da sala apertada, o computador apitou. Uma videoconferência com um dos maiores fundos de risco de Berlim.

— Eles querem ver o protótipo — Ji-hoon sussurrou, nervoso.

— Vai lá, "pinguim". Mostra que o cérebro é seu, não do seu pai — Antonella deu um beijo rápido no rosto dele e ficou fora do campo de visão da câmera, cruzando os dedos.

Durante duas horas, Ji-hoon deu a palestra de sua vida. Ele não falou como um herdeiro mimado, mas como um desenvolvedor brilhante que vivia a realidade do trabalho duro. No final, o investidor alemão perguntou: "Sr. Kang, por que o senhor está operando de um local tão... modesto?"

Ji-hoon olhou para Antonella e sorriu para a câmera. — "Porque o excesso de luxo às vezes cega a inovação. Eu prefiro investir cada centavo no código do que em mármore. E aqui, eu tenho a melhor consultora estratégica que o dinheiro não pode comprar."

O investimento foi aprovado. Cinco milhões de euros de aporte inicial. O valor caiu em uma conta internacional que o Sr. Kang nem sabia que existia.

Naquela tarde, enquanto comiam um cuscuz improvisado com o que restava na despensa, o celular de Ji-hoon tocou. Era o secretário do pai.

— O Sr. Kang quer saber se você já terminou com essa "brincadeira" e se está pronto para pedir desculpas. Ele disse que pode liberar seus cartões hoje se você voltar para casa sozinho.

Ji-hoon colocou o celular no viva-voz para Antonella ouvir e respondeu com uma calma cortante:

— Diga ao meu pai que ele pode ficar com os cartões e com o mármore. Eu acabo de abrir a Horizon Tech. E avise que, em seis meses, a startup do filho dele vai ser a principal concorrente da divisão de tecnologia da Kang Corp. Ah, e mais uma coisa... Antonella manda lembranças. Ela disse que o café aqui em Itaewon tem um gosto muito melhor do que o da mansão.

Ele desligou. Antonella começou a pular de alegria no apartamento pequeno, fazendo o chão de madeira ranger. Eles ainda moravam no "barro", mas agora, o barro era a fundação de um novo império.

Notas finais
O Ji-hoon deu o "pulo do gato"! 🐱💻 Ele usou o bloqueio do pai como combustível para buscar independência internacional. Agora ele não é mais o "filho do dono", ele é o CEO da própria vida, e a Antonella é o braço direito (e o coração) dessa operação.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.