Mil Dias para Cilindra
1 1 - Um começo simples
Notas iniciais
Era manhã novamente em Cilindra. A luz se espalhava pelo vácuo do espaço e chutava a escuridão para onde quer que ela vá quando a luz toma seu lugar.
Alguns sábios argumentavam que na verdade a escuridão era apenas a ausência de luz e isto, naturalmente, deixou a escuridão muito irritada. E você NÃO quer irritar a escuridão ou qualquer outra força sobrenatural cósmica. De verdade.
Sábios que se tornaram loucos babões com um medo terrível do escuro à parte, nesta manhã três figuras muito importantes estavam para se reunir. E uma delas estava atrasada.
- Acho que isto deve resolver. — Ele ajustava um pequeno modelo oco em formato cilíndrico. Não era muito bem-feito e tinha inclusive uma rachadura. E um pedaço estava faltando, tendo caído quando o modelo rachou. E agora havia um brilho que lembrava o de uma manhã.
Depois de acabar de ajustar o modelo ele parou, fechou os olhos e ouviu. As vozes que o perturbavam reduziram de intensidade. E logo voltaram com força renovada. O homem levou a mão à testa em frustração.
- Desgraça. Não consigo acertar esta porcaria. Sempre tem um infeliz que continua infeliz. Ou mais infeliz.
Ele suspirou. Vendo que não conseguiria nenhum progresso, guardou o cilindro no bolso para as vozes cessarem. Não sabia muito bem como aquele cilindro funcionava, ou qual era a sua função, mesmo depois da explicação e... e estava ainda mais atrasado!
Começou a andar pela grama entre as árvores da floresta perto de onde morava. Virou à direita no terceiro carvalho mais velho da floresta, à esquerda no terceiro pinheiro mais novo e finalmente removeu três pedras da margem do rio para formar um pequeno triângulo no chão, tudo isto com um crescente tique nervoso no olho esquerdo.
O ar acima do pequeno triângulo estalou de forma não-natural e se tornou denso, abrindo uma fenda em pleno ar. Através da fenda, ele passou. Suando um pouco frio e com o olho bem contorcido, mas entrou.
Não gostava muito dessas coisas de \"magia\" e achava-as complicadas e perigosas demais para serem úteis.
Suas roupas ficaram com uma leve camada de orvalho. Por quê isso aconteceu? Alguns sábios explicariam com teorias complexas sobre umidade relativa do ar, diferença de temperaturas, mudança de estado físico das substâncias e transmissão instantânea de matéria.
A verdade é que ele havia se teletransportado (ou teleportado? Resposta: foda-se) de um lugar razoavelmente frio e seco para uma praia quente e a água do ar condensou ao entrar em contato com o corpo frio dele. Simples. Mas uma grande parte de ser um sábio, dizem os sábios, é parecer sábio. Barbas brancas e compridas ajudam, mas discursos complexos são mais amplamente aceitos. E as barbas coçam...
Graças ao atraso, aquelas que o esperavam estavam se distraindo brincando na areia próxima ao mar. O mar. Isso explicava porque ele PRECISAVA trazer trajes de banho... Teria sido mais simples se tivessem avisado-no onde iriam desde o começo...
Uma delas, a mais velha, construía pequenos castelos de areia. Não aqueles castelos que as crianças fazem com baldes, mas sim verdadeiros feudos numa escala diminuta. Havia até um com um fosso. E estradas. E aquilo eram pessoas?
A outra, a mais nova, lenta e habilmente guiava um caranguejo para um conjunto de pedras ao lado de uma palmeira usando um graveto. Quando o pequeno crustáceo chegou num certo ponto entre as pedras, ela jogou o graveto rumo a um conjunto de côcos verdes e com ele rompeu o pequeno galho que sustentava um deles. A gravidade terminou o serviço, matando o animal.
Ambas se pareciam muito, algo normal entre irmãs. Principalmente quando a diferença de idade era de três minutos. As duas tinham cerca de 1,65 m de altura e o peso era S-E-G-R-E-D-O (é sério, elas mantinham segredo absoluto). Elas também compartilhavam de um manequim parecido e realmente agradável aos olhos. No entanto, era uma beleza mais inocente do que sedutora. Se isso mudaria era uma incógnita.
As diferenças mais notáveis ficavam nos rostos:
Innanna, a mais velha, tinha olhos esverdeados os quais refletiam a luz solar com um tom de jade e cabelos de um loiro bem claro mantidos na altura dos ombros. Estes eram levemente cacheados e aqueles pareciam sempre ver algo além daquilo em que estavam focados: uma evolução, algo novo a ser criado.
Astarteia, a mais nova, tinha olhos castanho-avermelhados e o cabelo preto, parecido com o da irmã mas mais comprido. Diziam, corretamente, que quando ela olhava para você, ela enxergava as suas fraquezas e defeitos. Algo bem desagradável de sentir.
Quando esta se virou, caça na mão, para pedir à outra por uma fogueira, avistou o recém-chegado.
- Ask! — era um apelido afetivo, dado a ele pelas duas a mais tempo do que ele se lembrava — Você está atrasado. — ela disse fechando a cara. Asklepios (o nome dele, nem é tão estranho se tomarmos como referência os outros dois...) sentiu um pedaço de sua alma gelar perante aqueles olhos.
- P Pois é. Eu não estou muito acostumado com aqueles \"caminhos\" novos da Nanna. Não me dou muito bem com essa \"magia\", sabe... — a mera memória de quando isso começou já deixava-o meio com um pé atrás. Vamos dizer que explodiu e deixar por isso mesmo. A morena percebeu a mudança no rosto dele e estava prestes a comentar alguma coisa quando...
- Eu também não! — o grito da loira, a responsável por criar aquele caminho estranho e meio ritualístico até aquela praia, interrompeu — Portanto isso não é desculpa para chegar atrasado! Você faz ideia de quanto tempo nós passamos aqui, esperando por você?
- Ahn — ele não fazia ideia, mas tentou um chute mesmo assim — Uns 15 minutos?
- Uma hora — as palavras da irmã mais nova vieram rápidas e precisas.
- É! E nós estávamos SUPER entediadas, sabe!
- Você vai ter que compensar isto...
Era engraçado, ele pensou, como as duas que brigavam constantemente concordavam tão facilmente em situações como aquela: em que quem estava se ferrando era ele!
As duas começaram a se aproximar, com sorrisos identicamente do mal...
Ao mesmo tempo e de forma totalmente não relacionada, um mundo chegava a seu fim. Ele ficava em outra dimensão, portanto Cilindra não se importou. E portanto, Cilindra não percebeu quando um ex-habitante desse mundo veio parar nela.
Mas isso pode esperar mais um pouco...
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