Mike & Liam
1 Mike & Liam
Notas iniciais
Mike
Naquele dia alguma coisa mudou em mim, e eu não sei bem dizer o que era ou o que causou. Pode ter sido a chuva leve que caia do céu ou o cheiro forte e gostoso que a chuva causava ao entrar em contado com as flores. Ou ainda, a surpresa de vê-lo parado bem ali. Eu pensava que nunca mais o veria. Afinal, já fazia- se 5 anos desde que ele havia partido. E eu realmente não estava o esperando naquele jantar.
-Hey cara, ainda lembrar de mim? — Como eu iria esquecer do meu melhor amigo.
A felicidade de vê-lo novamente foi tão grande. Grande demais para ser apenas felicidade de ter meu amigo de volta
-Você está brincando? Claro que eu lembro, seu mijão! -
- Vem cá seu idiota! — Nos abraçamos forte. Essa era nossa forma carinho. Eu não tinha ideia de como havia sentido falta daquilo até aquele momento.
Nossa amizade sempre foi forte, mas, percebi naquele momento que o amor entre amigos é algo bem maior do que eu pensava, é um amor diferente... um amor que as vezes pode ser maior que os outros.
É como dizem, um amigo não precisa estar o tempo todo ao nosso lado, porque o amor vence a distância.
-Por que você não avisou que voltaria? Eu iria te buscar no aeroporto. –Perguntei.
-Ah, eu combinei com sua mãe de fazer uma surpresa. –Ambos riram.
-Mãe!- Ela apenas ria da minha cara.
-Ah, amor, eu achei que seria legal, você sentiu tanta falta dele.-
-Mãe!- Olhei para Liam, e tentei entender porque ver seu sorriso novamente era tão bom.
- Pô cara, eu sabia que você me amava. — Brincou.
-Quando é que você vai embora mesmo? – eu não devia nem brincar com aquilo. No fundo eu sabia que minha mãe estava certa, Liam me fez muita falta, ele era um dos meus poucos amigos na época que foi embora- para não dizer o único-.
Agora tenho outros amigos, mas, amigo que amigo pode ter outras amizades, pois o amor de uma amizade verdadeira nunca acaba.
Contudo, todos temos aquele amigo insubstituível, e Liam é o meu. Ele foi um amigo de infância, que também foi amigo de escola, de bairro, de internet...
-Serio? Então nós vamos estudar juntos novamente? — perguntei animado.
- Vamos! Já estou até pensando nos trotes que vamos aplicar nos calouros. — rimos. — Cara, eu não quero ser meloso nem nada, mas eu senti mesmo sua falta.
Nós falamos isso algumas vezes um para o outro pelo Skype. Mas porque era tão diferente ouvir com ele ali, bem a minha frente?
- Eu também...- eu não era tão tímido com ele antigamente. — Com quem você vai morar agora? — perguntei curioso.
O motivo de Liam ter voltado, é a doença de seu pai. Apesar dele parecer bem, eu o conhecia o bastante para saber que ele estava péssimo.
Liam perdeu a mãe aos dez anos... ele não aguentaria perder o pai também.
-Vou ter que morar com a velha... vai ser um inferno! — lamentou.
-Merda, justamente com ela? — A velha, como chamávamos, era a avó de Liam, uma senhora extremamente chata e insuportável.
- Pois é.
-Pô cara, sinto muito pelo seu pai.... Mas ele é durão, vai ficar bem...eu sei como é passar por isso. — sentei mais perto. Ele colocou seu braço em volta do meu ombro.
-Eu sei, por isso eu não estou nem ai pra velha, eu tenho você. — Eu me arrepiei, e tentei com todas as minhas forças acreditar que foi por causa do vento entrando pela brecha da janela.
Liam e eu éramos amigos como éramos pois estivemos presentes nos momentos mais importantes da vida um do outro, como os nossos primeiros beijos, nosso primeiro show, a morte do meu pai e da sua mãe... Até os almoços de domingo onde nossa família se unia.
Ficamos nos encarado por um tempo, fazia cinto anos e ele não havia mudado quase nada. Seus olhos azuis gelo continuavam intensos, ele ainda era magro, mas havia crescido alguns centímetros, assim como seu cabelo loiro. Seu rosto ganhou expressões fortes, e finalmente sua barba havia começado a crescer.
-meninos, o jantar está pronto, venham comer! — Minha mãe gritou da cozinha.
Depois de conversarmos muito na mesa de jantar, Liam e eu fomos para meu quarto, e ele finalmente pode se sentir em casa.
Se havia algo que não mudou nem um pouco nesses cinco anos foi meu quarto.
- Continua uma bagunça- Liam brincou.
Realmente era uma bagunça, minha bagunça.
Antes de Liam ter indo embora, passávamos pelo mesmo uma noite por semana na casa um do outro. Eu queria que tudo voltasse a ser como era.
- Por que você não fica aqui hoje?- foi mais um pedido do que uma pergunta.
-Não sei... não quero deixar meu pai sozinho com aquela velha louca.
-ah, qual é, ela é mãe dele, vai ficar tudo bem.- ele pensou um pouco.
-ok, nós podemos colocar tudo em dia.- Liam se jogou na minha cama.- Eu tinha me esquecido das estrelas no seu teto.
As estrelas no meu teto tronaram muito dos nossos “acamamentos” dentro de casa bem reais.
-Sabe, o feriado de aniversário de São Paulo está chegando...
- verdade, nós vamos ao lago, certo?
-Claro!
Todos os feriados do aniversário de São Paulo, a mãe de Liam nos levava no parque Ibirapuera, onde fazíamos piqueniques a beira do lago, para mim era como um feriado qualquer, mas para Liam, é como uma lembrança de sua mãe.
Quando ela morreu, o lago se tronou uma espécie de tradição entre nós. Essas coisas acontecem, entre verdadeiro amigos, surgem alguns “rituais” que se tornam muito importantes.
- Como estão os outros? Vocês ainda têm a banda?
-Como nós iriamos continuar a banda sem o vocalista?
-Sei lá, achando outro...
-Eu não quero alimentar seu ego, mas não tinha cantor melhor que você.
- não TEM canto melhor do que eu! — rimos.
-Seu idiota! — joguei um travesseiro em sua cara.
-Desgraçado! — ele tacou de volta, com mais força, e foi assim que inventaram a guerra de travesseiros.
Algumas coisas caíram no chão, enquanto corríamos pelo quarto, pulamos na cama e acabamos caindo um sobre o outro.
-Merda, você engordou! -
-eu cresci, é diferente! — respondi.
Liam sorriu malicioso, eu sabia o que vinha a seguir, malditas cocegas.
-você não...- antes que eu pudesse intervir, já estava rindo.
Se tem algo que eu odeio, são cocegas, elas tiram meu ar, o controle sobre minha risada e ainda me fazem chorar.
Mas é claro que Liam nunca ligou para isso.
Eu estava quase morrendo de falta de ar quando Liam virou o jogo e ficou por cima de mim.
- eu paro se você disser: eu sou uma mariquinha. — riu
-Filho...da...Puta!- tentei falar.
-Diga: eu sou uma mariquinha. — eu sabia que ele realmente não iria para ater eu dizer.
-Merda! Eu sou uma mariquinha, cacete! — Enquanto ele gargalhava em cima de mim, eu recuperava o folego. A situação era pior do que você pensa, pois eu estava com os meus cabelos na boca e com o rosto todo molhado de lagrimas. — Você é um desgraçado!
- qual o gosto do seu cabelo?- Eu esqueci de comentar que Liam adora trocadinhos sem graça.
-você... vai se fuder! –Gritei. Eu realmente odeio cocegas!
Liam respirou fundo para parar de rir, e olhou meu rosto, sorriu levemente, e começou a tirar os fios de cabelo do meu rosto.
Eu estava fraco de mais para qualquer coisa. Fiquei apenas observado e sentido sua mão tocar meu rosto, enxugar minhas lagrimas e arrumar meu cabelo. Ele fazia tudo aquilo com tanta delicadeza...
- pensei que sua mãe nunca fosse deixar seu cabelo crescer. — comentou analisando meu cabelo.
- mas ela não deixou. — ri.
-Eu gostei... ficou melhor do que o meu. -
Eu particularmente sempre amei o cabelo do Liam, eram fios lisos e prefeitos, enquanto os meus eram bipolares, como cabelo de uma mulher, um dia estava armados e no outro estava com perfeitas ondulações.
-é serio isso? Liam Mccal está elogiando meu cabelo? — brinquei.
Ele elogiou meu cabelo?
- Ah, vai cagar..- sai de cima de mim- é por isso que eu não elogio ninguém! – falou meio irritado.
Eu ria da situação, por que ela era realmente engraçada, vê-lo irritado era engraçado.
- continua, o que mais você gosta em mim?- aticei.
- Eu gosto de como vou me sentir te dando um soco.- Gargalhei.
- eu realmente senti muita saudade de você!- pulei em seus ombros, me sentindo meio envergonhado pela confissão.
Rimos o resto da noite, até finalmente não aguentarmos mais e decidirmos dormir.
A chuva ficou cada vez mais forte durante a noite, no meio da madrugada as trovoes me acordaram com um pulo. Olhei para o lado, procurando por Liam, mas ele não estava ali, estava sentado na janela, encarando o nada.
-Hey- Falei meio sonolento- o que está fazendo? — perguntei já imaginando a resposta.
-Eu não estou conseguindo dormir.
-pesadelos?
-é tão fácil de perceber? — sorriu
-quando sua mãe morreu, você tinha pesadelos. — ele voltou a olhar pela janela.
-é... e eu achei que eles não poderia ficar piores, mas ficaram... e meu pai ainda nem morreu.-
-não fale assim.
Ver Liam daquele jeito me causou raiva, por que a vida tinha que ser tão cruel com quem não merecia?
Me senti tão impotente, embora eu quisesse tanto ajuda-lo.
Mesmo estando escuro do jeito que estava, eu pude ver claramente, por causa da luz que vinha da janela, as lagrimas que escorriam pelo seu rosto.
Liam era o tipo de pessoa que segura toda a carga, e só solta quando não aguenta mais.
Levante-me da cama e caminhe até ele. Eu queria muito abraça-lo e dizer que tudo ficaria bem.
Com receio, pulsei minha mão no topo da sua cabeça. Deixei-a escorregar por de traz de seu pescoço até chegar em suas costas.
E então, ele começou a soluçar.
Sem pensar muito o abracei forte, e me surpreendi quando ele retribuiu o abraço.
Eu não sei por quer tinha essa ideia de que ele iria me empurrar e dizer que homens não se abraçam dessa forma.
Mas ele não fez, ele apertou forte minha camisa, como um garotinho perdido e a procura de consolo, um Liam que eu nunca havia visto.
Tão desamparado que eu queria arrasta-lo para a cama... e beija-lo.
Eu queira beija-lo!
Não tinha mais como negar esse sentimento.
Eu pensei que ele tinha ido embora com Liam, cinco anos atrás, mas parece que voltou com ele.
Foi quando nos separamos do longo abraço, quando olhei em seus olhos azuis e molhados que eu entendi o que havia mudado em mim.
Eu me levantei e segurei sua mão, puxei-a, e Liam resistiu um pouco.
- Está tudo bem.- sussurrei.
O guiei até a cama, onde me sentei, e pedi para que se sentasse também, Liam me olhou alguns segundos até se sentar.
Cobri nossas pernas e voltei a encara-lo
-eu..eu não posso perdê-lo também...eu não tenho mais ninguém, Mike.
- Você me tem Liam... eu sempre serei seu amigo, você sabe não é?
- Eu sei, mas...
- Eu fico aqui pensando que quando tudo acabar, o colegial, a faculdade e tal... você e eu ainda seremos os únicos. Parece que se passou tanto tempo, parece que somos amigos desde o começo dos tempos... e eu espero que seja assim para sempre.
Levei minha mão até seu rosto e enxuguei suas lagrimas.
Ele sorriu, e descasou sua cabeça na parede.
-eu achei que... depois de tanto tempo, as coisas não seriam iguais... nossa amizade.- de certa forma, nossa amizade não era a mesma coisa.
- Liam, amizades de verdade não acabam de uma hora pra outra...
-foram cinco anos, Mike...longos cinco anos, você poderia ter feitos outros amigos, ou mudado totalmente em cinco anos... o que aliás, não aconteceu.- riu- você não mudou nada, com exceção do cabelo.
-... realmente foram longos esses cinco anos, eu achei que você nunca mais fosse voltar... mas eu mudei Liam.- Olhei fundo em seus olhos. Ele suspirou.
- na verdade acho que nós dois mudamos...
- isso é uma coisas boa não é?- Liam sorriu e disse:
-se não for, não importa, por que vai ficar tudo bem se continuarmos amigos. — sorrimos um para o outro, encostamos nossas cabeças uma na outra e assim dormimos.
Liam
É verdade o que dizem sobre a amizade, ela duplica as alegrias e divide as tristezas. Amigos são especiais porque são pessoas que te fazem sorrir nos piores momentos. Eu estava feliz por estar de volta, por tê-lo novamente. Quando eu olhei em seus olhos cor de mel eu soube que conseguiria enfrentar qualquer coisa com ele ao meu lado, que eu sou capaz de superar tudo, assim como eu superei a morte da minha mãe.
Eu havia esquecido de como Mike era inquieto enquanto dormia, lembro de quando éramos pequenos e eu sentia vontade de empurrá-lo da cama. Até disso eu senti falta. Senti falta de cada irritante detalhe que esse idiota tem, mas, com certeza, o que mais senti falta foi da sua companhia. Mike conseguiu ser o único garoto com qual eu sou totalmente sincero, o único que me deixa tão confortável para dormir na mesma cama.
Tentei capitar cada mudança que o tempo causou em seu roto, as expressões mais fortes, o cabelo mais longo, a “pré” barba surgindo... tudo era tão familiar e ao mesmo tempo tão novo.
-Meu Deus Liam, seu psicopata, porque está me observando enquanto durmo? — Falou assustado ao acordar.
-Eu estava reparando o quanto você é feio. — Falei um pouco nervoso
-Ah, vai cagar, eu sou lindo. — rimos
-de fato...- sussurrei.
-você disse algo?
-eu? Não...- sempre quis descobri o momento exato em que comecei a me sentir assim por esse idiota. — é melhor eu voltar e ver como meu pai está. — suspirei
- espera...- Mike segurou minha mão. — você tá melhor, né?
-Mike, não é só porque eu deixei escapar algumas lagrimas que vou entrar em depressão. — puxei minha mão.
- eu sei, só estou preocupado como meu amigo.
Suspirei novamente.
Amigo...nós éramos claramente mais que amigos, sempre nos consideramos irmãos.
- você está exagerando, Mike.
- o que você tem? Ficou estranho de uma hora para outra...
-eu só... nada! — fui em direção a porta.
- Liam...- novamente ele puxou minha mão- qual é o problema caramba? Eu te conheço, eu sei que quando está incomodado.
- Mike, você está certo, nós mudamos, eu mudei... talvez você não me conheça tão bem. — falei irritado.
Ele claramente ficou magoado.
Achei melhor não falar mais nada, então fui em direção a porta mais uma vez. E novamente ele interrompeu, dessa vez, se colocando na frente.
- você não sai daqui até me explicar o que tá acontecendo com você, desde quando você é bipolar? — como ele era irritantemente insistente.
- você está agindo como uma criança.
- isso não devia ser novidade para você. Só fala logo o que te incomoda.
-Ah, você quer saber o que está me incomodando?
-sim!
- O que me incomoda Mike, é você agir como se soubesse tudo sobre mim, de fato você sabe muita coisa sobre mim, mas não sabe tudo... o mais importante. Só me deixa ir.
- Não!
- Que saco Mike!
Acabamos empurrando um ao outro, caímos no chão e nos batemos.
- tá bom, tá bom, chega! — gritei- agora sim estamos parecendo crianças.
- você começou- Mike falou saindo de cima de mim. Dessa vez ele suspirou.
-nós fazíamos muito isso, lembra? — perguntei.
- do que você tá falando agora?
-você é burro! Nós brigávamos muito por coisas idiotas
-ah, sim...talvez não tenhamos mudado tanto.
-não, nós mudamos...
-se você não tivesse ido embora...
- eu sei, tudo seria mais fácil.
- tem algo que eu sempre quis te preguntar, se eu tivesse pedido para você não ir, você ficaria?
Aquela pergunta realmente me surpreendeu.
-bom... não sei... a quem eu estou tentando enganar? Sim, se você tivesse pedido, eu teria ficado. — eu não teria pensado duas vezes.
Nos encostamos na cama.
-eu tentei, eu tentei falar...
-Mike?
- quando você estava para entra no ônibus, eu te chamei, lembra? Eu ia pedir para você ficar, mas pensei que o meu pedido não ia fazer diferente. – sorri
-Mike...- segurei sua mão e senti ele se arrepiar. — tudo que você precisava ter falado era “fica”.
Nós encaramos.
Mike
Eu demorei bastante para entender o que estava acontecendo ali. E mesmo assim, tudo que eu conseguia pensar era “será que são mesmo reais os sinais que eu estava percebendo? Ou eu estava apenas me iludindo?
- eu...
-tudo bem, acho que não precisamos mais falar nada, está tudo bem claro agora. — Liam conseguia ser confiante a ponto de me fazer confiante também.
Ele colocou a mão no meu rosto e havia tantas coisas pesado em minha cabeça. Eu apenas fechei os olhos e senti seu toque.
-Liam... você é meu melhor amigo...
- e você sempre será o meu, mas Mike, há muito tempo você superou esse cargo- sorri
Era confuso e bem melhor do que eu havia imaginado.
- fala alguma coisa- pediu
- acho que minha mãe sempre esteve certa, eu e você combinamos perfeitamente. – Liam sorriu e disse:
- é! Eu sou a letra e você a melodia, definitivamente a combinação perfeita.
Abracei Liam com todas as minhas forças, como se fosse perde-lo novamente.
-me promete que não vai mais embora? Não importa quanta merda você esteja vivendo! -Liam riu e beijou minha testa.
- isso nunca mais vai acontecer, nunca mais.
Fale com o autor