Miguel e Davi

25 Capítulo 25 – Você não me ensinou a te esquecer – 07/11


Sabe de uma coisa? – A voz de Miguel veio do outro lado da linha, irado como poucas vezes Davi viera. – Pode dar as mãos para a sua irmã e ir pro inferno.

– Miguel, eu… – Davi tentou, mas era tarde. O namorado já batera o telefone. Suspirou. Merda.

Olhou para o celular. A ligação fora mesmo encerrada e durara apenas alguns minutos.

Davi também estava irritado. Guardou o celular antes de fazer alguma coisa pior. Olhou para a mão. Mexeu na aliança que colocara fazia tão pouco tempo… Será que duraria tão pouco assim? Miguel não parecera nem tão irritado quando ele ficara com Patrícia. Naquela época o menino ficara apenas magoado. Desde vez, gritara alguns palavrões, jogando os defeitos de Davi na sua cara, relembrando erros do passado, pequenas coisas que acumuladas pareciam uma grande avalanche.

Será que Miguel tirara a aliança? Eles não tinham discutido nada daquilo, mas a briga parecia tão feia, que não duvidava nada.

Talvez fosse só mais uma briga, mas…

E, inferno, tinha alguma culpa se ficara conversando por tanto tempo com a irmã na noite anterior que perdera a hora e esquecera que devia ter ido a um restaurante com o namorado. Miguel lhe falara que ficou por horas esperando como um idiota, falando que tinha alguém que logo devia chegar, até que desistiu e foi embora, sentindo-se humilhado. Uma das garçonetes chegara a falar alguma coisa para ele, e Miguel chegara mesmo a se preocupar com Davi. Que inferno, onde estivera para não atender o maldito celular? Foi só quando ele ligou para a irmã de Davi – que por acaso ainda conversava com o de cabelos arrepiados – que entendeu o que acontecera.

E Davi entendia porque Miguel estava tão furioso. Fora algo inocente, não fizera por mal… Mas, claro, não tinha uma justificativa. Não podia ter esquecido, sabia disso. Estava errado, sabia, mas não queria que Miguel ficasse tão bravo.

Davi sentou em sua cama. Porra. Miguel não podia perdoá-lo só mais uma vez? Sabia que não era o namorado mais perfeito do mundo e que tinha seus defeitos, mas estava se esforçando.

Tentou imaginar Miguel sozinho na restaurante, esperando. Os cabelos castanhos caídos sobre os olhos, a expressão chateada. O celular no ouvido, tentando falar com ele sem sucesso.

Davi fez uma promessa para si mesmo a partir daquele momento. Andaria com o celular para cima e para baixo sem parar. Não o esquecia em casa, não o esquecia sem bateria. Sem desculpas dessa vez.

Mas precisava conversar com Miguel…

Talvez fosse melhor esperar a raiva baixar.

E, com essa ideia, Davi tentou passar o resto do dia.

Contudo não demorou a perceber que não conseguiria. Tentou, mesmo, não pensar em Miguel sozinho, na briga e todos seus erros. Ficou nervoso o resto do dia. Não conseguia ficar quieto em lugar nenhum e tanto a irmã quanto o pai se preocuparam com ele.

– Estou bem. – falou para eles várias vezes, mas seus gestos não comprovavam suas palavras.

Na verdade, só de noite, quando deixou o apartamento para trabalhar, que Davi conseguiu se acalmar um pouco. Estava decido a não pensar em mais nada que não no trabalho. Não era Davi, cheio de problemas e que brigara com o namorado. Era o barman que servia bebidas e ouvia os problemas dos outros. Prometeu para si mesmo que ligaria para Miguel no dia seguinte e resolveria o problema, contudo.

Foi lá pela meia, quando estava quase conseguindo preencher a cabeça com outras coisas e acabara de servir uma caipirinha, que algo estranho aconteceu. Ele arregalou os olhos quando Miguel entrou no bar, surpreso com a presença do outro, quase sem acreditar no que acontecia.

Miguel ainda usava a aliança.

O coração de Davi falou uma batida.

O outro demorou um pouco antes de olhar para Davi e se aproximar. Ele não fez nada para impedir o aproximar de Miguel e a falar quase vinha a sua boca, tentando dizer que sentia muito e pedindo perdão, quando Miguel avançou por sobre o balcão e o beijou assim, sem mais nem menos.

– Essa é a última vez. – ele explicou, afastando-se rapidamente e então avançando para a boca de Davi de novo.

E Davi entendeu, apesar do outro não ter dito. Era a última vez que o perdoava. Por Davi tudo bem. Faria aquela chance valer a pena.

Notas finais
Comentários?