Midori
4 Ossos e Maravilhas
Notas iniciais
Rachel me soltou assim que se deu por si, encarando atônita algo atrás de mim, coisa que me assustou. E digo que isso assustou uma filha de Ares,com o faro natural que tenho.
Fazia tempo que não farejava um monstro.
Não qualquer monstro, um que foi invocado.
Dois esqueletos com partes de armaduras romanas, vindo o mais rápido que seus corpos em avançado estado de decomposição permitiam.
Levantei automaticamente com um pulo, sentindo o arrepio que a tanto tempo não sentia, já ciente que meus olhos estavam vermelhos como os de um vampiro. Puxei a corrente até então prateada que pendia do meu pescoço em algumas voltas, presa com um pequeno cadeado que segurei sentindo-o esquentar. Bradi a espada de bronze celestial que surgiu junto com a imagem em minha mente.
Avancei primeiro no esqueleto que parecia mais completo ao lado esquerdo. Cobri os poucos metros o mais rápido que pude, com um golpe horizontal bem abaixo do crânio, que evaporou em poeira dourada, junto com o resto do corpo antes de sequer reagir. No mesmo instante me virei e abaixei a lâmina sobre o segundo guerreiro, fazendo sua espada cair antes da defesa.
Olhei ao redor, encontrando apenas uma Rachel mais pálida que o normal. Assim que percebi que não havia perigo, senti toda minha força e deixar de súbito, e minha visão desfocou. Cai de joelhos, perdida demais para lembrar de aparar a corrente, que se enrolou em meu pescoço tão delicadamente que quase me decaptou.
A última coisa que ouvi foi alguém me chamando antes de tudo apagar.
XXX
Sorvete de chocolate.
Abri os olhos. Pisquei algumas vezes até me acostumar com a claridade.
Folhas, Rachel, Percy… Espere, hãm?
– Alguém anotou a placa? — Resmunguei me sentando apoiada na árvore atrás de mim, ainda um pouco zonza.
– Você ficou uma horas apagada, Porco-Espinho.
Quando me voltei para a voz quase desmaiei novamente.
Ela era extremamente igual a sete anos atrás. Tudo estava lá. Mesmos olhos coloridos, cabelos cacheados presos em um coque que ameaçava despencar a qualquer momento, a pintinha abaixo do olhos esquerdo que lhe deixava ainda mais parecida com uma pintura. O arco de flores preso em seu cabelo tinha flores da estação, acompanhadas de algumas folhas avermelhadas que resistiam do outono de alguma forma.
Ainda estava lá a tiara símbolo das caçadoras.
–Alice.
Simplesmente não consegui controlar. O nome saltou sem permissão.
A filha de Hesfesto deu um meio sorriso. Eu não via aquele sorriso há anos, só constatei a falta que me fazia naquele momento, junto com uma raiva que despertou dentro de mim. Levantei-me esquecendo de qualquer dor, sentindo a benção de Ares retornar junto com a raiva acumulada por anos em silencio.
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