Midoman

4 Capítulo 04 - Identidade pública


Caverna do desespero...

— Monseir... Eu não sei o que dizer... Achei que Apura seria suficiente para...

— SILÊNCIO! – Uma voz grave junto com um vento forte e quente quase derrubou a cartola da cabeça do homem de terno, o que teria acontecido se o mesmo não a tivesse segurado pela aba com os dedos, enquanto a outra mão segurava a bengala de carvalho. Ele não precisava da bengala, mas ela estava lá por um certo senso de estética. Já a voz que falava com o Cartola Branca não tinha um rosto. Era uma parede de fogo azul enorme cujo calor beirava o insuportável, o que tornava aquela ala da caverna da Escamosa uma sauna seca. – Eu já estou farto de ficar aqui como plateia da incompetência de vocês, e agora sem a joia prima, ter um corpo está cada vez mais longe! – Vociferou.

— A manifestação do poder da joia não foi algo que calculávamos. Principalmente daquela maneira, monseir. – Cartola Branca estava cabisbaixo, mas mesmo assim sua voz era altiva.

Fogo Fátuo, por extinto e hábito iria responder a insolência do homem de gravata borboleta rosa, mas hesitou, quase como ser se o medo tivesse lhe subido a garganta. Alguém capaz de contra atacar os Folkear, mesmo alguém fraco como o Apura era algo que também havia lhe pego de surpresa. Uma novidade tamanha que em todos os anos de existência, essa foi a primeira vez que ele não sabia como proceder.

— Fale com Escamosa. – Fogo Fátuo mudou seu tom para um mais brando. – Diga a ela para fazer outra criatura. Algo que no mínimo me faça estudar a força desse guerreiro. – A dúvida era audível em sua voz. – Vá!

— Como desejar, monseir. – Cartola Branca o respondeu. fazendo uma pequena reverência com sua cabeça.

Quando saiu de lá e levantou a cabeça, seu rosto revelou um sorriso sádico, enquanto se distanciava daquela ala da caverna. Ele saiu quase que em uma marcha. Cartola Branca sempre fica animado com qualquer oportunidade que ele tinha de sair daquele pedaço da floresta. Ele aproveita essas oportunidades para usar sua mágica e encantar mais uma jovem para adicioná-la a sua coleção. Entrando na área central de trabalho da Escamosa ele quase que cantarolou seu nome ao se dirigir a ela:

— Loira!

— Cartola!

Ela aparentava estar muito atarefada, mas ela ignorou completamente seu trabalho e largou todos os frascos que carregava entre os dedos no espaço mais próximo da mesa a sua esquerda e foi rapidamente ao encontro dele, posicionando-se bem na frente do Cartola. Ela olhava nos olhos dele. Ao mesmo tempo ela ouvia cada palavra que saia da boca do homem charmoso, ela também demonstrava tons de sentimento de maravilhada por estar na presença dele ao ponto de ser visível no olhar dela.

— O que você precisa que eu faça?

— Loira, loira, loira, minha cara loira. – Cartola Branca tirou uma pequena mecha de cabelo dela que cobria parcialmente o olho esquerdo e sua pupila, que se assemelhava a uma grossa linha vertical. Os olhos reptilianos acompanharam o movimento dos dedos dele. – Creio que você já está ciente do nosso pequeno... Contratempo. – Ele iniciou, divagando por aqui e por acolá. — Monseir Fogo Fátuo não ficou nada feliz com isso, mas não importa agora, pois com seus dons fenomenais vamos estar mais perto de conseguir um corpo. – Nesse momento ele a conduziu para mais perto dele, o que a fez soltar um pequeno suspiro, enquanto o segurava pela lapela do terno. – Então que tal criar uma nova criatura, minha querida?

— É... É... É só isso? – Ela gaguejava, seu tom era desapontado, e seu corpo praticamente tremia pela proximidade na qual eles se encontravam.

— Na verdade eu tenho algumas sugestões. – Ele respondeu já se afastando gradativamente dela. – Aquela cidade tem muitos rios. Preciso de alguém que lide bem com água.

— Eu posso fazer isso por você, Cartola. – Sua resposta foi quase que como um sussurro que bailou pelo ar.

— Então faça... Quando terminar me chame... – Ele a soltou e foi para o corredor oposto do que ele tinha entrado. – Enquanto isso, eu vou me divertir um pouco.

Ele foi pra um cômodo da caverna mais afastado e gritos puderam ser ouvidos, murmúrios em tom enfeitiçado e comemorativo. Vozes de mulheres desesperadas aumentavam o volume a cada passo mais próximo que ele dava dessa ala escura. Ele adentrou esse cômodo e assim as viu. Jovens mulheres que não aparentavam mais que 20 anos de idade de toda sorte de etnia, estavam no chão, com roupas brancas sujas, rasgadas e até mesmo nuas, entorno de uma imensa cama branca com iluminações de velas e a refração de luz no teto do rio que ali contornava. Elas rastejaram em direção aos pés do Cartola Branca.

— Minhas queridas. – O sorriso sádico voltou ao seu semblante. – Eu vou passar um tempinho com vocês.

Centro da cidade...

— Isso é maravilhoso! É gelado como o rio de manhã cedo e doce como mel, mas tem uma textura que combina isso tão perfeitamente, uma delícia! Como se chama?

— Se chama sorvete, Tainá. – Ele a respondeu educadamente, mas a impaciência em seu tom de voz era notável por qualquer individuo.

Eles caminhavam pela Avenida Conde da Boa Vista. Era início de tarde então estava muito quente, e a luz do sol raiava pelo lugar, que chegava a aquecer o topo da cabeça dos pedestres na rua. Mas para Tainá isso não fazia diferença alguma. Ela estava maravilhada com os prédios, carros e pessoas. Cada loja que tinha um locutor pra anunciar uma promoção. Cada adolescente de uniforme escolar com um caixa de som tocando brega pop mais badalado do momento. E como que por reflexo de seu olhar maravilhado pelo ambiente e pelas pessoas, ela chamava atenção de todos por onde passava. — Principalmente dos homens. — Talvez pelo seu físico, com seu longo cabelo liso e solto, sua pele morena que praticamente reluzia a luz dourada ao entrar em contato com o sol. Talvez o fato que ela estava trajada com um tênis All Star, shorts jeans e uma camiseta regata azul marinho com um logo de alguma estampa de universidade americana aleatória. Talvez o jeito que ela estava vestida atraia olhares de cobiça e de inveja. E os olhares de cobiça deixavam Maurício um pouco enciumado, mas foi à única roupa que Tainá se sentia confortável em vestir. – Maurício quis puxá-la pela mão para evitar alguns desses olhares, mas ele resistiu a esse impulso. – Se sentia estranho ante aquilo... No seu peito havia a sensação de que ela deveria ser dele. – Ou talvez fosse só atração carnal...

Enquanto ele estava nesse conflito interno com sua mente distraída, ela permanecia falando com ele. Mas quando notou que ele não estava prestando atenção no que ela falava, ela o sacudiu e apertou seu braço com uma força exagerada.

— Ai! – Maurício gritou pelo susto e pela dor. — O que foi? – Ele se afastou repentinamente de seus devaneios.

— Quando é que a gente vai procurar as outras joias? – Ela o indagou com esperança retida no olhar e preocupação.

— Não tinha necessidade disso! – Ele permanecia com a mão sobre o braço esquerdo. Pouco acima do bíceps. – E bem, antes de começar a procurar outras joias eu queria saber se está tudo bem com o Beto.

— Eu respeito o seu sentimento fraterno, mas as joias deveriam ser sua prioridade. E o assunto mais urgente protetor de Pindorama. – Seu tom trazia responsabilidade consigo, como se fosse praticamente uma missão de vida ou uma responsabilidade do “garoto da profecia”, e aquilo incomodou Maurício.

— Eu posso ter pelo menos mais um dia pra esperar? – Ele esboçou um sorriso esperando uma resposta, apelando internamente para a compaixão dela. Mas a expressão de Tainá era quase que assustada ou até mesmo perturbada. Ela fez menção em abrir a boca pra provavelmente fazer um discurso sobre a importância de proteger a cidade e pegar as joias, porém antes mesmo que ela tomasse o ar pra começar a falar ele deu uma cartada que sabia que ela não poderia resistir. – Se tivermos mais um tempo pra descansar e esperar eu posso te mostrar mais comidas que você nunca experimentou antes.

Ela rapidamente mudou de postura e respondeu muito animada:

— Sim, sim, sim! O que você quer mostrar de novo?

— Bacon. Vamos para o Marco Zero. Pelo que eu vi na internet tem inauguração de um food truck por lá.

Marco Zero... 16h31min...

— Isso que vocês fazem é incrível... – Ela se apoiava na barra de ferro de proteção do cais do porto revitalizado e apontou para o parque das esculturas. – É alguma divindade de vocês?

— Não, é só arte – Maurício permanecia de cabeça baixa mandando mensagens pra Beto, pelo Whatsapp. – Um cara fez isso...

— Ele deve ser bem forte. – Falou com a curiosidade de uma criança...

— Deixa eu me expressar melhor: Na verdade um cara teve a ideia e desenhou isso, ai outros caras foram ajudar a construir. Pra mim e pro Beto, isso parece um monte de piro...

— Será que dá pra parar de olhar pra esse aparelho mágico? Eu quero experimentar logo esse tal de “bacon” que você falou!

— Ah, sim é logo ali. – Maurício apontou o food truck.

Entre os turistas, crianças de excursões escolares e vendedores ambulantes que estavam ali... Um homem se destacava na multidão. Fora as suas roupas claramente datavam a época que aqueles prédios ali foram erguidos, havia uma espécie de aura invisível que atraia a atenção das mulheres a cada passo que ele dava. Maurício e Tainá estavam com a atenção focada no food truck nem olharam pra trás de onde esse homem vinha. Eles fizeram seu pedido e se sentaram em uma das mesas dobráveis. Esse homem chegou mais perto do food truck e falou alto o suficiente para que sua voz chegasse ao atendente e disse:

— Eu quero o mesmo que essa bela dama pediu! – Quando ele disse isso eles olharam pra trás.

Tainá se espantou, levantou-se da cadeira rapidamente, derrubando-a.

— Você! – O tom irritado era palpável no ambiente.

— Eu conheço você... – Maurício falou se levantando tranquilamente da cadeira. – Você tava na exposição com aquele outro bicho bola azul naquela noite.

— Ah, meu caro, creio que não fomos devidamente apresentados. Sou Cartola Branca, ao seu dispor. — Ele fez uma pequena reverência com a cabeça, pondo a ponta dos dedos da mão direita na aba da cartola que trajava. A outra estava segurando uma bengala. – É uma honra conhecê-lo... Aba Obi... – O homem soltou um sorriso e retornou a sua pose, apoiando ambas as mãos sobre o topo da bengala.

Tainá permanecia com os punhos cerrados e com a mandíbula travada.

— Eu vou matar você! – Ela gritou já avançando contra o Cartola, contudo Maurício a impediu.

— Sem brigas aqui por perto do meu estabelecimento. – O atendente do food truck falou enquanto preparava os sanduíches.

— Você não entende... – Tainá se dirigiu ao velho atendente do food truck e Maurício a soltou vendo que já se acalmava. – Eu vou te matar pelo que ele fez com a minha irmã...

— Eu não quero saber. Aqui não é o: “Casos de Família”. – O atendente careca e rabugento respondeu, sem olhar para o trio, enquanto trabalhava preparando os sanduíches.

— O que você quer? – Maurício questionou.

— Meu caro, o que eu quero está muito além de você. Mas por hora... – Ele apontou pra Tainá com a bengala na mão esquerda – Eu quero ela.

— Nem pensar... – Maurício se pôs entre eles para protegê-la.

O punho de Maurício estava cerrado, com tanta força que os nós dos dedos perdiam a coloração.

Cartola Branca começou a falar, com o riso estampando lhe a face:

— Bem, eu não queria ter que chegar a esse ponto, mas você não colabora...

Nesse momento uma onda surgiu, sendo mais alta que as esculturas de Brennand, ela veio em direção ao Marco Zero e se chocou contra o cais.

As pessoas começaram a correr, mas a onda já estava perto demais pra fugir. Os botes do parque foram cuspidos no chão de pedra, juntamente com as pessoas que ali estavam. Algumas bateram a cabeça no chão e desmaiaram. Outras com cortes e sangramentos na testa e braços. A onda alcançou Tainá e Maurício com força o suficiente para derrubá-los e encharcá-los. Algumas pessoas que se recuperaram ou que não foram seriamente feridas pelo estrago da onda começaram a correr para longe do Marco Zero. Por outro lado o Cartola Branca estava intacto.

Tainá se levantou com dificuldade dizendo algo que Maurício não entendeu, mas reconheceu como sendo Tupi-Guarani. Mesmo sem entender as palavras Maurício sentiu o ódio em suas palavras. O Cartola Branca deu uma risadinha sarcástica e falou para Tainá:

— Garota ingênua. Eu não fiz nada disso.

No mesmo instante um braço de água se levantou e deixou uma criatura horrenda na praça.

— Um folkear. Vamos acabar primeiro com ele e depois com o Cartola... – Tainá falou se dirigindo a Maurício, mas o seu olhar quase que predatório não desviava do Cartola Branca.

Ela brilhou e se moldou em um lamina de luz que entrou na joia, escondida sob a camisa preta que Maurício vestia. Maurício que ainda estava no chão por causa do choque, se levantou todo ensopado encheu o peito de ar e gritou:

— Vamos lá! Foto-transferência! – A fala de Maurício foi acompanhada do escurecer do céu, que acumulou nuvens negras e um brilho verde entre eles, tal qual uma aurora boreal.

Uma fenda branca de luminosidade verde surgiu na frente dele, desenhada no ar na vertical. O rapaz correu e saltou atravessando-a. Em um segundo a luz ficou mais forte cobrindo todo o lugar, E o choque verde de um relâmpago acertou Maurício que pousou no chão já trajando sua armadura verde esmeralda. -

Maurício se posicionou, em pé com os punhos fechados e sorriu sob a máscara.

— E agora... A nossa dança começa. – Falou com o riso no rosto.

Um homem se levantou atordoado, sangue escorria de um corte na diagonal sobre o seu supercílio esquerdo. Ele se apoiou em um banco de cimento do lugar e começou a filmar a cena. Estando boquiaberto com tudo que estava acontecendo só balbuciou uma palavra:

— Sugoi...

Continua...

Notas finais
Sugoi -> "Incrível" em japonês.