Midnight Sun
5 Capítulo 5 - Acampamento
Notas iniciais
Pude ouvir gritos enquanto vários adolescentes e crianças corriam pelo acampamento tentando prender suas barracas ao solo, enquanto uma tempestade se formava acima de nós.
Havíamos chegado cedo ao acampamento naquele mesmo dia, nada marcava a presença de uma tempestade, o sol estava no céu e nenhuma nuvem podia ser avistada.
O acampamento estava sendo realizado na sede dos escoteiros Canários, eles haviam armado todas as barracas e preparado varias atividades para praticarmos durante o dia. Eles nos ensinaram a fazer uma fogueira apenas utilizando gravetos e vários nós complicados que por mais que eu tentasse nunca saiam iguais aos deles.
Ficamos ocupados durante toda a tarde com essas atividades e aos poucos ia anoitecendo, então fomos chamados para nos reunirmos e ficarmos todos em volta de um Totem de madeira que continha vários desenhos.
— Bem vindos ao nosso acampamento anual! — Disse uma voz
Pude ver um homem alto , com cabelos negros curtos e vestes dos escoteiros. Ele vestia um short jeans bege e uma camisa azul claro de botões e usava um lenço em volta do pescoço, em seu peito havia uma faixa com vários distintivos, ele andava em volta do totem enquanto falava.
— Os escoteiros sabem que é de nosso costume sempre que estamos em um acampamento realizar o fogo de conselho. Iremos acender um fogueira hoje a noite e todos estão convidados a participar.
Pude ouvir vários cochichos por parte dos órfãos , o chefe parou por um momento ate tudo ficar em silencio novamente
— Escoteiros, ajudem a todos os nossos convidados a localizarem os banheiros, todos se arrumem e nos encontraremos aqui novamente as 21:00. Estão dispensados.
Todos os escoteiros se levantaram e junto com a supervisoras foram auxiliando as crianças mais novas ate os banheiros, os mais velhos seriam os últimos.
— Eu nunca participei de uma fogueira antes — Disse Eric — Parece legal
— Cuidado para não fazer xixi na cama — provoquei — Dizem que a primeira vez que alguém vai a uma fogueira molha a cama depois
Ele olhou pra mim com um sorriso debochado no rosto e rimos, era divertido estar em sua companhia.
— Então vamos, temos que ajudar a Lucy a arrumar suas coisas.
Devido a uma dor de cabeça que teve mais cedo a supervisora Edvard decidiu que era melhor a Lucy descansar então ela havia ficado na barraca a maior parte do dia, eu estava preocupada que isso fosse devido ao nosso contato então durante todo o dia pensei em alguma desculpa para entregar o anel a ela.
— Er, Mary? — Disse Eric
— Oi? — Caminhei ate onde ele estava
— Ela não esta aqui ...
— O que? — Meu coração falhou uma batida
Não podia ser, será que havia sido tão rápido assim? Tentei respirar fundo mas minha cabeça rodava, não conseguia pensar em nada ate que senti que Eric estava sacudindo meus ombros
— Mary, o que esta acontecendo? Você esta quase transparente, calma, a Srta Delacort ou a supervisora Edvard devem te-la buscado para tomar banho.
Com a ajuda de Eric me sentei dentro da barraca e ele me deu uma garrafinha com água que havia levado em sua mochila
— Esta tudo bem, fique aqui na barraca eu vou procurar a supervisora Edvard e já volto .
Eric saiu correndo pelo acampamento. Minha cabeça estava rodando, eu estava com um pressentimento ruim, sabia que Eric voltaria em alguns minutos com elas e provavelmente ninguém saberia aonde Lucy havia ido, iriam começar a procurar por ela e talvez encontrariam seu corpo próximo ao rio ou mais a dentro da floresta.
Meu estomago revirou e corri para fora da barraca bem a tempo, limpei a boca com as costas da mão e olhei em volta, estava tudo escuro fora do acampamento, pude ver que a maior parte das barracas estava vazia já que todas as crianças estavam tomando banho.
— Droga Mary pensa porra — Respirei fundo e tentei pensar, todas as vezes que um desses acidentes estava prestes a acontecer a pessoa desaparecia, mas eu não entendia como tudo isso funcionava.
Decidi dar uma volta pelo acampamento para tentar me acalmar, não iria conseguir ficar dentro daquela barraca, minha cabeça estava a mil. Andei em torno de todo o acampamento e nem sinal dela. Me sentei embaixo de um carvalho antigo de troncos largos e comecei a chorar, esse sentimento era tão ruim que chegava a me sufocar, saber que todas as pessoas que entrassem em minha vida estavam destinadas a morrer.
Devo ter ficado ali por vários minutos com a cabeça entre as pernas ate ouvir barulho de passos, decidi continuar como estava, se desse sorte a pessoa apenas iria embora.
— Você não deveria ficar no sereno esta hora da noite.
Meu coração falhou ao ouvir sua voz, rapidamente levantei minha cabeça e a vi parada em minha frente com os olhos fixos em algum ponto na floresta.
— Você pode pegar um resfriado, esta frio.
— Onde você estava? Como me achou?
Olhei em volta tentando encontrar a Srta Delacort ou a supervisora Edvard mas ela estava sozinha. Ela apenas deu de ombros e caminhou ate meu lado, ela dobrou a barra de metal que usava para tocar o chão e se sentou ao meu lado.
— Eu só estava dando uma volta, essa floresta é maior que o jardim do orfanato, é linda.
Olhei em volta e pela primeira vez percebi o tamanho real das arvores que nos cercavam, elas eram enormes, os troncos eram grossos e o céu era quase impossível de ser visto por entre elas.
— É lindo mesmo. — Sussurei
Ficamos em silencio por alguns minutos apenas apreciando a brisa fria da noite.
— Como você foi parar no orfanato? — Perguntou Lucy
— Bem.. É uma longa historia
— Que bom que não vamos a lugar nenhum não é mesmo?
Dei de ombros e sorri, eu não queria dizer a ela que todas as pessoas que entram em minha vida morrem de formas estranhas, e que provavelmente ela seria a próxima, então decidi resumir a historia.
— Meus pais morreram em um acidente quando eu era mais nova, depois disso fui morar com meus avós mas houve um assalto e eles também faleceram, depois disso fiquei sem nenhum lugar pra ir então fui levada ao orfanato.
— Sinto muito , pelos seus pais e seus avós .
Nesse momento ela segurou minha mão, senti minhas bochechas corarem e engoli em seco.
— M-mas e você — Gaguejei — Como foi parar no orfanato?
— Minha mãe me abandonou na porta de um orfanato quando eu era criança, me falaram que ela deixou apenas uma carta. Quando ela viu que eu era cega ficou com medo de não conseguir cuidar de mim como deveria então decidiu que seria melhor outra pessoa cuidar.
— Sinto muito
Nessa hora eu quis abraça-la, não era justo sua mãe abandona-la apenas por que ela era cega, meu sangue ferveu ao saber disso.
Ela mexeu no cabelo tentando tira-lo do rosto, o vento começava a ficar um pouco mais forte, apesar de não fazer muito frio. Respirei fundo tomando coragem, não queria passar por aquela sensação horrível de achar que algo tinha acontecido com ela novamente.
— Você acredita em magia?
Senti um arrepio em todo meu corpo ao ouvi-la dizer aquelas palavras.
— P-por quê?
Ela deu de ombros, tentei pensar em algo para dizer a ela mas nessa hora ouvi passos em nossa direção
— Acho que nos encontraram — Disse ela se levantando e colocando abrindo a barra de metal que esta em seu colo
Me levantei também ficando ao seu lado e vi duas figuras correndo em nossa direção.
— Graças a Deus ai estão vocês — Disse Eric correndo e me abraçando
— Lucy — Gritou a supervisora Edvard — Onde você estava? Por que saiu da barraca?
— Esta tudo bem — Eu disse — Ela apenas tinha ido ao banheiro — Menti
A supervisora Edvard me encarou tentando decidir se podia acreditar em mim ou não.
— E por quê vocês não voltaram pra barraca? — Perguntou ela
— A Mary estava um pouco enjoada — disse Lucy- Então decidimos dar um volta pra pegar um pouco de ar
— Tudo bem então — Disse ela apertando a testa e fechando os olhos — não saiam mais sem avisar a alguém, não podemos ter nenhum tipo de acidente aqui esta bem? Vamos Lucy, vou te ajudar a arrumar suas coisas para tomar banho
Me soltei de Eric e segurei a mão de Lucy
— Esta tudo bem eu ajudo ela.
A supervisora Edvard deu um sorrisinho
— Fico feliz que tenha feito uma amiga Lucy e você também Mary, já era hora de vocês aprenderem a interagir com alguém, então vamos voltar para o acampamento.
Lucy passou o braço em volta do meu e andamos em silencio atras da supervisora, podia perceber mesmo sem olhar que Eric não estava com a melhor feição atras de nós, acho que ele havia ficado magoado por te-lo soltado daquela forma sendo que mais cedo eu o havia abraçado. Sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos e fomos ate a barraca.
— Vou voltar para ajudar as outras supervisoras, por favor se apressem e tomem um banho pois daqui a alguns minutos vai começar a fogueira.
Ela saiu em direção aos banheiros e ficamos sozinhos
— Bem, então nos vemos daqui a pouco — Eric pegou suas coisas e saiu em direção ao banheiro
— Acho que ele ficou magoado com você
— É eu sei.. espera — Olhei pra ela — Como você sabe disso?
— Não quer dizer que só por que sou cega que não posso enxergar de outras formas sabia? — Ela sorriu e olhou pra mim pela primeira vez, percebi que seus olhos não eram brancos como eu imaginei, mas sim amarelos quase dourados
— C-como assim? — Gaguejei
— Por mais que eu não possa ver como vocês, eu continuo vendo, mas de uma forma diferente — Ela levou as mãos para meu rosto, acariciando de forma suave. Fui envolvida completamente por ela, por aqueles olhos dourados. Tudo parecia estar sumindo e o encanto por aquela garota parecia triplicar. — Eu sabia , você é linda.
Senti meu rosto corando novamente e ela abaixou as mãos , ela parou de me encarar e voltou a encarar algum ponto em sua frente, foi como se todo aquele calor que estava dentro de mim se apagasse. Eu queria olhar para aqueles olhos dourados novamente, eu queria ela.
Sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos
— Venha, vou te ajudar a arrumar suas coisas.
Pegamos nossas roupas e fomos em direção aos banheiros que agora estavam vazios, entramos e eu fechei a porta, era um banheiro comum com um chuveiro e um vaso sanitário e uma pia.
— Bem, você consegue se ajeitar? Vou ficar esperando você ali fora qualquer coisa é só falar
— Pode tomar primeiro, enquanto você se seca eu tomo.
Respirei fundo, eu sabia que tecnicamente ela não podia me ver mas fiquei constrangida mesmo assim, nunca havia ficado completamente nua na frente de ninguém.
— Vamos, ou a supervisora Edvard vai nos matar — Ela soltou uma risadinha que fez meu corpo inteiro se arrepiar
— Tudo bem, eu vou — Comecei a me despir e coloquei minhas roupas em cima da pia do banheiro, ela continuava encarando a parede a sua frente mas não pude deixar de me sentir constrangida, caminhei em direção ao chuveiro e soltei um gritinho quando liguei e a água estava gelada.
— Acho que você vai ter que esquentar um pouco mais — Provocou ela
— Haha muito engraçadinha você — Tentei regular a água mas quando não estava fria demais estava fervendo, aquele chuveiro não entendia a palavra meio termo, depois de alguns minutos consegui finalmente chegar a temperatura certa.
Eu sempre ficava perdida em pensamentos embaixo do chuveiro e dessa vez não foi diferente, assim que terminei decidi deixar o chuveiro aberto pois já estava na temperatura ideal, por causa do calor da água o banheiro estava cheio de vapor, agradeci mentalmente por isso e fui em direção a pia
— Sua vez, terminei
Mas assim que a vi me assustei ao perceber que ela já estava nua, e me encarava com aqueles olhos dourados novamente, senti um arrepio ao ve-la se aproximando, eu podia jurar que nunca havia ficado tão vermelha em toda minha vida.
— Preciso de ajuda pra achar o chuveiro — Disse ela sorrindo e me fixando com aqueles olhos dourados
Decidi não responder pois sabia que iria gaguejar, apenas segurei sua mão e a acompanhei ate debaixo do chuveiro, caminhei ate a pia e me sequei as pressas já vestindo minhas roupas, eu havia levado uma blusa de frio pois eu sabia que iriamos ficar ao ar livre, mas naquele momento eu não sentia frio algum.
Escutei o chuveiro sendo desligado e alguns passos atras de mim, meu sangue ferveu
— Então você conseguia achar o chuveiro sozinha não é mesmo? — Perguntei
Pude escutar uma risadinha e ela se aproximou me abraçando por trás, estremeci pelo susto e pelo fato de saber que ela estava apenas de toalha naquele momento
— Touché!
Pude sentir os lábios dela roçando em meu pescoço e foi como se um choque estivesse passando por todo meu corpo, estremeci e ela percebeu, ela deu aquela risadinha novamente e se afastou.
Fiquei sem reação meu coração estava acelerado, percebi que ela estava vestindo suas roupas, assim que ela terminou abri a porta do banheiro e o vapor começou a se dissipar.
— Vamos deixar nossas coisas na barraca se não iremos nos atrasar para fogueira .
Ela apenas passou o braço em volta do meu e caminhamos ate a barraca, durante todo o tempo fiquei com meus pensamentos a mil, eu estava com um pressentimento estranho, algo que eu nunca havia sentido antes, eu precisava saber mais sobre ela, tinha algo diferente com aquela garota. Foi nesse momento que ouvimos o primeiro trovão da noite.
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