Midnight
5 Midnight Four
Notas iniciais

Samandriel não foi buscá-lo em casa para irem juntos para a escola naquele dia, e ele não trocara mais que cinco palavras com Castiel durante as aulas. Castiel decidiu não comentar sobre aquilo, ele apenas imagina como deve ser para Samandriel após ser rejeitado no dia de seu aniversário pelo seu melhor amigo. Mas era apenas assim que via o outro, como seu melhor amigo...que agora se distanciara por causa dos sentimentos não correspondidos. Castiel só espera que um dia os dois voltem a ser como eram antes.
Não querendo continuar em um lugar com aquela tensão sobre eles, Castiel recusou a oferta de irem juntos para a lanchonete. Ao invés disso, seguiu caminho para casa sozinho.
Sentiu pingos de água cair sobre ele e olhou para o céu que estava nublado. A chuva começou a engrossar e ele abraçou contra o peito os dois livros que carregava consigo nos braços para evitar que fossem molhados. Não deu muito certo.
"CAS!" Castiel olhou para trás e viu Michael correndo até ele. "Por que você não quer ir para a lanchonete? É por causa do Samandriel?"
"Vejo que ele lhe contou, então."
"Bem, sim. A questão é, você está com raiva dele?"
Castiel entortou a cabeça para o lado. "É claro que não. Eu não entendo, por que estaria?"
"Ele achou que você estava. Sabe, um garoto te beijando."
"Eu não me importo com orientação sexual. Se quer saber, eu também gosto de garotos." Castiel não sabia como havia conseguido dizer aquilo sem que suas pernas ficassem bambas e seu coração pulasse. "Samandriel é um bom melhor amigo, eu apenas não o vejo como mais que isso."
"Isso não será boas notícias para Meg."
"Eu não entendi."
Michael revirou os olhos, mas sorriu. "Meg também gosta de você, Cas, como você não percebe as coisas?"
"Mas ela só me conhece há quatro dias."
"Tempo não é relevante para algumas pessoas." Michael colocou as mãos no bolso e se afastou vagarosamente. "Te vejo amanhã, então."
Castiel assentiu e voltou a caminhar em seu caminho. Quando chegou perto de casa, ergueu os olhos, que olhavam para o chão desde então, e parou de andar ao ver Dean brincando com seu irmão Sam, que Castiel via raramente.
Olhou em volta e percebeu que não tinha mais ninguém na rua por causa da chuva, por isso deduziu que Dean só estava sendo Dean naquele momento por causa disso. Castiel continuou a andar em direção a pequena porta de seu jardim, ainda olhando para os Winchester, sentindo uma grande vontade de se juntar a eles. Sam ria tanto quanto Dean que olhava para o menor como se ele fosse a coisa que mais amava naquele mundo e talvez fosse mesmo. O coração do Castiel se aqueceu e ele deu um pequeno sorriso.
Dean encontrou seus olhos e piscou para Castiel discretamente, fazendo este quase tropeçar com o ato recebido. Sam não havia percebido nada.
"Cas? Meu Deus, Castiel, você 'tá ensopado." Disse Chuck ao ver seu filho entrando na cozinha. "Melhor ir tirar essas roupas antes que fique gripado ou...algo do tipo." Chuck tirou os livros de sua mão e arrumou o cabelo molhado do Castiel, que sorriu para o pai. "Eu...eu vou f-fazer o jantar dessa vez, okay?"
Castiel assentiu e foi para o quarto, seu pai estava certo, ele precisava trocar de roupa, e foi o que ele fez antes de sentar e fazer sua atividade que era para ser entregue no próximo dia.
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Onze e cinquenta e nove e ainda chovia.
O rádio da cozinha tocava Atmosphere de Joy Division em um volume baixo, resultando em Castiel quase não ouvindo as letras com clareza. Mas isso não era importante, importante era que a chuva parasse em um minuto para que Castiel pudesse passar a noite com Dean sem que fiquem doentes no dia seguinte. Olhando novamente no relógio, percebeu que não seria possível a chuva simplesmente parar nos próximos segundos. Pegou um moletom cinza com capuz que tinha uma pequena borboleta azul bordada no peito e saiu pela janela.
Abraçou a si mesmo e colocou o capuz sobre sua cabeça, a chuva não estava muito grossa, mas não era leve, e o vento estava mais frio que nunca. Apertando os olhos por causa dos pingos, Castiel viu Dean sair pela janela de seu quarto e olhar para cima enquanto corria, quase esbarrando nele.
"Woah." Disse Dean segurando na cerca para não escorregar ao parar de súbito em frente ao Castiel. "Hey."
"Olá, Dean."
"Ok, então, eu 'tava pensando...quer dizer, essa água toda me fez pensar na nossa primeira noite e..."
Castiel entortou a cabeça para o lado. "Mas não chovia naquela noite."
"Escute, não é isso. É que, lembra quando eu disse que deveríamos explodir sua escola?" Castiel arregalou os olhos. "Relaxa, cara, eu não vou pedir para explodirmos algo, pelo menos não agora." Dean sorriu e Castiel suspirou. "Ok, o que eu estava querendo dizer é que envolve água e envolve sua escola."
"Não estou lhe acompanhando."
"Você vai ver." Dean olhou para os lados. "O que você acha de correr?"
Antes que Castiel pudesse responder, Dean pegou sua mão e os dois correram rua abaixo, os pingos agora vindo diretamente para seus rostos em uma caída lateral. O capuz, com o movimento rápido do corpo do Castiel, saiu de sua cabeça com a ajuda do vento. Castiel tropeçou em seu próprio pé e seu outro braço automaticamente foi em direção ao Dean para se segurar da queda, conseguindo se equilibrar. Ele deve ter segurado com força, mas Dean não pareceu se importar.
"Seu irmão não mora com você, não é? Eu o vejo raramente."
"Você também vê meu pai raramente, mas ele mora comigo." Dean sorriu. "Nah, Sammy mora com Bobby, amigo da família."
"Por que?"
"Motivos."
Castiel percebeu que estava fazendo perguntas demais, e o trato era não falar sobre a vida deles ou entrar em uma conversa muito profunda e sentimental. Eu devo me desculpar. "Desculpa."
"Tudo bem."
Os dois chegaram no prédio da escola e Dean se pôs a andar em direção a porta da frente, que estava trancada com corrente e cadeado. Castiel abraçou seu próprio corpo por causa do frio e observou Dean tirar dois pequenos ferros e tentar abrir o cadeado. Como ele fazia aquilo, Castiel não sabia, mas talvez não deveria ter ficado tão surpreso quando conseguiu. Entraram na escola e Dean fechou a porta antes de irem para a secretaria.
Castiel pensou que não devia se sentir tão confortável como estava, considerando o fato de que acabou de arrombar a escola.
Dean apareceu com uma maçã na mão, que havia tirado de dentro de uma geladeira da sala dos professores. "E se as árvores chorassem porque estamos comendo as frutas delas?" Castiel ergueu uma sobrancelha. "Quer dizer, as frutas são basicamente os seus filhos, então toda vez que comemos uma maçã ou algo do tipo, estamos comendo um bebê da árvore."
"Estamos comendo seus ovários, na verdade." Disse Castiel.
Dean olhou para ele, parando de mastigar, e olhou para a maçã, com uma careta discreta. "Isso é...estranho em tantos níveis." Colocou a maçã não terminada em cima da mesa da secretaria e limpou as mãos na calça. "Vamos."
Castiel o seguiu, olhando para o chão ao ouvir seus tênis fazer um barulho engraçado enquanto deixavam um rasto de água por trás. Não sabia o que Dean queria fazer e não sabia porque continuava o seguindo. Ou talvez sabia, só não queria dizer para si mesmo com medo de como ficaria depois. Sua mão teve um pequeno espasmo e Castiel desejou que ainda estivesse segurando a mão do outro.
E lá estava o silêncio novamente, que Castiel decidiu quebrar com uma das coisas que estava pensando mais cedo na aula de biologia (porque ele não estava muito interessado). "Não é estranho que somos macacos sem pelos e falantes, e alguns de nós com cristais customizados em frente de nossos olhos para conseguirmos enxergar? E que alguns vivem com pequenas panteras que apenas os aceita como parte do mundo em volta delas e tentam interagir com eles, mesmo com o fato de que não entendemos sua língua e eles não entendem a nossa?"
Dean, que até segundos atrás estava pegando várias toalhas do vestiário masculino, olhou para Castiel com uma expressão zombeteira. "Você 'tá fumando? Sério, você fumou antes de vir?"
"Eu...eu não entendi o que você quis dizer."
Dean começou a rir e então balançou a cabeça. "Você é o melhor, cara."
Castiel sentiu suas bochechas arderem e se apressou em se virar para Dean não ver seu rosto vermelho. Começou a pegar toalhas para fingir que tinha se virado para isso e então seguiu o outro para o banheiro.
"É bem simples." Começou Dean, colocando as toalhas no chão e abrindo um dos boxes dos sanitários. "Você vai enfiar, e eu digo enfiar bem..." Dean piscou para ele. "Uma toalha nesse buraco, e então dar descarga."
"Mas isso vai fazer com que entupa e a água transborde." Disse Castiel, tentando não pensar na piscadela.
"Exatamente." Dean pegou uma das toalhas e fez o que havia dito, como uma demonstração. Assim que deu descarga, a água começou a sair do sanitário e a molhar o chão. "É sempre bom dar mais descargas depois, e empurrar mais, claro. Não se preocupe, a merda nunca volta com a água, além do mais é só lavar as mãos depois." Dean se abaixou para pegar as toalhas que havia deixado no chão. "Você termina aqui e eu vou para o banheiro das meninas."
Castiel assentiu e olhou Dean sair, totalmente não baixando os olhos para observar. Ok, talvez ele estava um pouco nervoso em fazer aquilo e não era nem um pouco certo inundar a escola, mas era meia noite, e era excitante, e era ele e Dean.
Antes de começar a entupir os outros sanitários, Castiel deu mais uma descarga no que Dean já havia trabalhado. Seus tênis agora começavam a ficar mais molhados do que já estavam. Fez o que lhe havia dito e deixar todo o banheiro ensopado, tanto que a água já chegava a cinco dedos quando Dean voltou para o banheiro, abrindo a porta e deixando que o corredor também ficasse molhado.
"Você acha que mais ou menos quanto tempo leva até a escola toda...você sabe."
"Não sei, Dean."
"Bota papel higiênico nos ralos das pias e liga a torneira no máximo." Dean disse e jogou dois rolos de papel para Castiel, que quase os derrubou. "Quando terminar me encontra no outro banheiro."
Assentindo mais uma vez, Castiel se virou para ligar as pias. Ele não devia estar fazendo isso, é um gasto desnecessário de água, mesmo assim sua mão automaticamente ligava as torneiras e deixava que a água descesse sem pensar duas vezes. Se olhou no espelho e viu como estava seu rosto. Cabelo molhado e preto como o céu à meia noite, fios bagunçados por causa de sua tentativa de enxugá-los, rosto rosado e nariz e lábios roxos por causa do frio e da água da chuva. Castiel sabia que era bonito, ele se achava bonito, a pergunta era se Dean também achava.
Botou mais bolas grandes de papel amassado no ralo e os empurrou para que não boiassem dentro da água e saíssem. Deu mais descargas e saiu do banheiro para se encontrar com Dean como combinado. O corredor estava mais molhado do que havia pensado.
Antes de abrir totalmente a porta do banheiro das meninas, Castiel observou o interior por uma brecha. Dean estava parado em frente ao espelho, sua mão direita pousada na pia, engolida pela água que saía e caía no chão, enquanto sua outra mão passava pelo seu corte no nariz. Sua expressão era séria e, se olhada com mais atenção, triste. Castiel sempre se perguntou para onde os pensamentos do Dean iriam quando ele achava que não estava sendo observado.
Abriu a porta, olhando para o chão, fingindo que estava descontraído para Dean não se sentir desconfortável e entrou no banheiro, sendo recebido com um sorriso do outro. Podia muito bem ser um sorriso falso, uma vez que segundos atrás não existia, mas ele alcançava seus olhos e fazia seu rosto brilhar. Castiel gostava do sorriso do Dean.
"Hey." Dean disse e Castiel sorriu para ele. Os dois se olhavam como se estivessem prestes a se beijar, Castiel o olhava querendo beijá-lo.
Dean colocou toalhas nas portas de entrada e saída, Castiel ligou todos os chuveiros dos vestiários masculinos e femininos, e então os dois foram até a cozinha e ligaram as pias. A água no chão já alcançava seus tornozelos, Dean parecia orgulhoso.
Após isso, os dois saíram pelas janelas e correram seu caminho de volta, parando na metade para tomarem um pouco de ar, passando então a apenas andar, como se não quisessem chegar rapidamente em casa, e uma boa coisa era que a chuva já havia parado mais, sendo agora apenas pingos que caíam preguiçosamente.
"É estranho como eu não me sinto sonolento quando estou à sua companhia, sendo que eu costumava dormir cedo." Castiel se perguntou, um segundo depois, porque disse aquilo em voz alta.
"Eu não durmo muito, mas eu queria conseguir. Dormir é legal porque você não está realmente morto, mas não está acordado, então é uma situação de ganho para os dois lados."
"É como se estar morto sem o compromisso." Disse Castiel, aliviado por Dean não ter achado estranho o começo da conversa.
"Uma relação aberta com a morte."
"Morte com benefícios."
"Um relacionamento a cada noite." Dean riu e olhou para Castiel. "Como nós." Castiel sorriu e não disse mais nada. "Nos vemos amanhã, então." Disse Dean ao chegarem em casa.
E com um aceno de mão, os dois tiraram os olhos um do outro.
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