Mia & Vickie
8 Fraquejando
Notas iniciais
Fazia tempo, para ser exata uma semana que minha irmã andava estranha. Preocupada e aérea, ao menos comigo e com as meninas. Nunca fiquei tão feliz pelo Will existir até ver como toda preocupação dela some com ele por perto.
Já estamos aqui há duas semanas e eu ainda não consigo acordar cedo. Afundo ainda mais no meu travesseiro e sinto alguém sentando na minha cama.
– Mi! Por favor, só mais dois dias! Eu estou com tanto sono... – Disse colocando o travesseiro em cima da minha cabeça. Ela deita na minha cama do meu lado e eu relaxo. Será que ela está com febre? Cara, ela está quente. Dou de ombros na minha cabeça e volto a dormir.
– Meu deus! Vickie! – Abri os olhos sonolentos e olhei para a minha irmã que estava vermelha como um pimentão me olhando, do lado da minha cama, em pé... Quando foi que ela levantou?
– Wow! Que... Inesperado. Hum... – Mitsuko parou ao lado dela arregalou os olhos e também ficou vermelha.
– Vickie, você podia ter me avisado! Eu estava dormindo no beliche na cama de cima e você... Não sei como lidar com isso.
– Do que vocês estão falando? – Aumentei um pouco a minha voz e fui envolvida por braços quentes, como que para voltar a dormir. Lógico que eu aceitei e deitei de novo... Pera aí... Hã?
Olhei para trás. Para o garoto de cabelos azuis deitado na minha cama. Sem camisa. Dormindo. Comigo. O Setz está dormindo. Comigo. Que merda está havendo aqui?
“Eu estava dormindo na cama de cima e você...” Caiu a ficha e eu fiquei parecendo um tomate. Fuzilei a minha irmã e depois virei para o garoto, a face tranqüila me irritando ainda mais.
Levantei e puxei meu colchão com tudo. Ele caiu aturdido do outro lado do quarto.
– Ruivinha. – Se espreguiçou. – Bom dia.
– Seu filho da... – Disse me aproximando e o pegando pela gola da camisa. – Como entrou aqui?!
– Pela porta. – Disse sorrindo para mim. – A Green me pediu para dar um recado e você não queria acordar, dormir comigo não foi tão ruim. Podemos repetir qualquer dia...
Antes que ele continuasse e eu ficasse mais vermelha e irritada bati a cabeça dele com força na parede.
– Desculpe por interromper, mas qual era o recado, Setz? – Minha irmã me segurou ante que eu matasse aquele bastardo.
– Bem, ela mandou esse pen-drive, nós dois conseguimos os arquivos que vocês precisavam nada que um hacker não resolva. – Ele me entregou um pen-drive vermelho e senti minha irmã estremecer enquanto seu braço me segurava.
– Foi rápido. – Observou levemente amarga. A Mitsuko ajudou o Setz a se levantar e ele acenou e foi na direção da porta.
– Da próxima vamos para a minha cama, Vickie. – Mitsuko riu com a piada de merda dele e eu corri para a porta, assim que passei ergui o punho. Dando um soco encaminhado para a cabeça dele.
– Vai sonhan...! – Ele parou o meu soco e eu engoli um seco. Ele me olhou e jogou a minha mão em punho pelo ombro dele, fazendo nossos corpos se chocarem. Ele está muito perto. Isso não é bom. O sorriso irritante dele está muito perto. O hálito dele está quente e com cheiro de pasta de dente. E os olhos... Antes que eu me perca mais dou uma joelhada nele. Ele se afasta e eu percebo o local da joelhada... Sim, lá. Isso me fez sentir culpada, mas ele ainda estava sorrindo. Ele nunca para de sorrir?!
– Acredite, eu vou sonhando, espero que você também. – Ele se ergueu e virou no corredor. – Precisa fortalecer o joelho.
Eu fiquei lá com cara de idiota no corredor, sem coragem de voltar para dentro e aturar a zoação pelo resto do dia. Minha irmã e a Mitsuko estavam olhando pela brecha da porta e se eu estava com cara de idiota, elas estavam ainda mais.
– Vickie, tsc tsc. – Mia começou.
– Isso foi tão fofo.
– Minha irmãzinha está crescendo. – Elas começaram a rir e a fazer piadas sem graça. Eu ainda não tinha processado a minha manhã e entrei no banheiro sem falar nada com elas.
– Você tem sete anos? Ah, esqueci, meninas de sete anos dormem sozinhas. Sério, sai do banheiro vamos conversar como garotas maduras. Você deve estar querendo conversar agora.
Suspirei e abri a porta. Elas me sentaram na cama e me olharam como que esperando eu falar alguma coisa.
– Vocês sabem que eu e ele não fizemos... nada certo?
– Claro que sabemos Vickie, era brincadeira, mas se você levou a sério... Vou direto ao ponto, como se sentiu? – Mitsuko estava mais séria e carinhosa que o normal, tipo uma mãe.
– Irritada, muito, aquele idiota me viu dormindo, pior que isso dormiu do meu lado.
– Não sobre essa parte. Sobre aquela aproximação estranha ali fora.
– Bem... Eu não entendi nada, eu estava brava... Mas, eu meio que fiquei sem reação... É complicado, eu acho. – Elas se olharam e sorriram.
– Vickie, esse “É complicado” era tudo que precisávamos ouvir. – A Mia disse rindo. Eu não entendi absolutamente nada. Alguém me explica do quê elas estão falando?
Bem, voltei para o banheiro e tomei um bom banho quente. Saí e a Cherry tinha chegado.
A Cherry teve que passar algum tempo com os garotos do clube de Informática para garantir que eles manteriam o pen-drive em segredo.
– Oi Vickie! Bom dia! – Alegre como sempre.
– Bom dia, Cherry. Obrigada por ter conseguido os arquivos para a gente.
– Não foi nada, os meninos disseram que podem dar uma olhada neles durante o terceiro período, a sala de informática vai estar vazia.
– Finalmente! Vamos conseguir algumas respostas e até o fim do mês a máscara do Ichiro cai. Vamos juntas, Mi? – Ela encarou o chão depois se forçou a rir e assentir. Não quero que ela fique assim. – Esquece, eu vou sozinha, assim eu chamo menos atenção. – Forcei um sorriso e ela sorriu de volta.
As meninas me olharam como se também tivessem percebido que havia algo errado e o clima ficou pesado.
Arrumamo-nos em silêncio e caminhamos em silêncio.
Foi assim até a aula e estávamos cada vez mais preocupadas com a Mia. Eu estava ficando cheia daquilo. Então assim que a aula acabou fui falar com ela, era agora ou nunca.
– Mia, precisamos conversar.
– Sobre? – Ela estava com um ar aéreo o que me preocupou ainda mais.
– Por que está preocupada com o plano? Não somos idiotas, está na cara que tem algo te preocupando. – Ela me olhou perturbada e tentou se afastar, mas eu segurei o braço dela. – Não vai fugir de mim.
– Vickie, me deixe ir.
– Sua idiota! Pare de tentar agüentar tudo sozinha! Não está nos poupando fazendo isso, só está nos fazendo ficar preocupadas com você. – Minha voz saiu amarga e acida, fazendo ela me olhar de maneira desesperada.
– Estou fraca, Vickie. Esse lugar... Não te faz sentir em casa? Ter o Ichiro perto de novo, amigas e amigos, pessoas importantes... Há quanto tempo não temos algo assim?
Meu peito doeu com as palavras dela, será que já tivemos algo assim? Em nenhuma escola se aproximavam de nós, por medo de se meter em encrenca ou pelo simples medo de se machucarem. Eu ri e dei um cascudo nela.
– O quão estúpida você é? A primeira pedrinha e você fraqueja? Se for por isso podemos mudar o plano, pare de ser dramática.
Ela me olhou surpresa e sorriu o primeiro sorriso verdadeiro que eu via no rosto dela há dias.
– Desculpe Vickie, por preocupar vocês.
– Bem, eu não te desculpo. Vai ter que bolar um bom plano e me mostrar, aí a gente conversa e vê se eu aceito suas desculpas. – Sorri de canto e ela riu.
– Pode deixar, vou bolar um plano tão bom que em uma semana essa escola vai ser o lugar mais foda da Inglaterra e o Ichiro vai voltar ao normal.
– Falar é fácil, quero ver fazer! – Corri para a sala e ela veio atrás.
A Mitsuko e a Cherry olharam para nós duas quando entramos ofegantes na sala, rindo sem parar. Bem, a professora brigou com a gente e nos mandou sentar, não que tenhamos parado de rir.
Como sempre a aula voou... Só que não. Pareceram ter se passado milênios enquanto estávamos mofando naquela sala de aula.
Finalmente era o terceiro período, agora a Mia provavelmente estava com o Will e as meninas e eu estava á caminho da sala de Informática com o pen-drive vermelho no bolso.
Lógico que como minha vida é um saco de azar eu tinha que topar em alguém.
– Ouch, foi maus. – Disse me afastando e fitando o garoto de sobretudo preto á minha frente.
– Tudo bem, a culpa foi minha. – Ele passou a mão pelo cabelo castanho escuro; os olhos azuis me analisaram de cima a baixo, o que me incomodou bastante. – Acho que não nos conhecemos, me chamo Vincent.
– Vickie Takami. Prazer. – Ele pegou a minha mão e a beijou de leve. Isso foi:
Estranho.
Antiquado.
Inesperado.
E me irritou.
Para piorar a situação aquele idiota do Setz apareceu.
– Yo, ruivinha... Quem é esse aí? – Perguntou com seu tom irritante de sempre. O garoto se ergueu e eles trocaram um olhar surpreso e irritado.
– Que surpresa agradável, Setz. – Vincent disse ainda segurando a minha mão que eu afastei por segurança. Ele sorriu torto.
– É tão ruim ver essa sua cara de cobra logo de manhã, Vince. Até mais tarde. – Disse pegando a minha mão e me levando na direção que eu seguia anteriormente.
– Ei! O que raios você está fazendo? – Protestei, eu não era uma boneca de pano para ser arrastada por aí. Ainda mais por esse cara.
– Fique longe dele, muitos e muitos quilômetros daquela serpente nojenta. Ainda mais agora que ele sabe que você me conhece, você tem algum tipo de imã para gente problemática? – Disse suspirando.
– Bem, acho que tenho. – Disse rindo a irritação dele era cômica de certa forma.
– Pois então desligue essa merda, e fique longe dele.
– Isso é uma ordem? – Perguntei cética.
– Não, é um conselho que você vai seguir. – Paramos em frente á porta da sala de informática. – Vou te esperar aqui. – A seriedade dele estava me desconcertando.
– Faça o que quiser. – Disse baixo enrubescendo. Entrei depressa e fui em direção ao último computador. Pluguei e acessei os arquivos.
Deviam ter umas dez pastas, sobre alunos, funcionários, contatos dos pais. Tudo extremamente normal.
Por fim, encontrei dentro da pasta funcionários outra chamada “caso 689, tribunal de Londres”.
Abri a pasta e só encontrei imagens de jornal. Dei zoom e vi uma garota de cabelo castanho... Com um corte do pescoço até a barriga. Aquilo me deu náusea. Mas, abri a segunda imagem, era um texto de jornal, as letras eram tão pequenas que tive que aproximar muito.
“Assassinato brutal em uma das áreas mais movimentadas de Londres. Uma mulher de 22 dois anos foi encontrada em seu apartamento. Elisa Campbell estava noiva, na verdade era americana e estava fazendo turismo com o noivo...”
Abri a próxima.
“ O noivo, e até o momento único suspeito será investigado e julgado antes do fim da semana, será interrogado assim que sair do estado de choque em que se encontra. Seu nome é Takami Ichiro, japonês e estava fora de seu país á alguns anos...”
Noiva..?! Suspeito...?!
“Desaparecimento. Acusado de assassinar brutalmente sua noiva, o suspeito se encontra foragido, maior detetive do mundo que estava investigando o caso, se ausentou assim que o veredicto foi anunciado. Caso tenha informações do suspeito ligue para...”
Retirei o pen-drive com urgência, tentando com desespero absorver o que tinha lido.
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