Mi Rosa...
4 Café e mudança
Dormimos rápido por conta do cansaço do dia e no dia seguinte Pepa nos acorda com uma grande nuvem com raios de sol, abrindo os olhos com dificuldade começamos a nos levantar. Camillo e Antônio entram correndo no quarto mostrando que acordaram já a algum tempo.
— É normal acordar cedo dormindo cedo – Dolores fala enquanto se espreguiça. Ela tenta levantar, mas sente um pouco de dificuldade. Me levanto rapidamente e vou ate ela e lhe estendo a mão, Camillo logo atras de mim lhe estende a mão em seguida. Ela nos olha tentando não mudar o rosto porem... é a Dolores. – Obrigada Cun...
— Está se sentindo bem Dolores? – Olho para ela a cortando e erguendo as sobrancelhas como um “não faça isso” – Os bebes estão bem?
Camillo me olha desconfiado, mas dá de ombros ajudando a irmã dele a ficar de pé
— Estamos todos bem Rosa, obrigado por ser tão atenciosa – Ela sorri e pisca o olho. Suspiro fundo em alivio por ela não ter dito nada. Já seria difícil tratar Camillo normalmente após a festinha de ontem.
Rio levemente, mas Camillo percebe e me olha questionador. Sorrio pra ele e me aproximo.
— Sua irmã é uma graça – Dobro o braço e estendo para ele que ri da cena trocada e se transforma em mim antes de colocar o braço dentro do meu.
— Oh, meu cavalheiro – Ele exclama e rimos antes de sair do quarto e irmos em direção a cozinha onde seria servido o café da manhã.
Ao chegarmos na cozinha sinto alguns olhares sobre nós, rio para Isabela que não consegue disfarçar o olhar e para Mirabel que nos olhava sorridente. Me aproximo da mesa e puxo uma cadeira.
— Pode se sentar mi dama — Falo e Camillo entrando na brincadeira se curva em agradecimento antes de sentar. Todos estavam olhando para nós quando ele se senta e finalmente volta a sua identidade, todos riem com a cena já que ao invés de terem visto uma cena romântica estava mais para uma comedia pela troca de papeis.
— Vocês são mais que o palhaço, são o circo inteiro – Fala Pepa que parecia estar com tão bom humor que faz um arco-íris em cima da mesa
— Muito bem, vamos comer logo que temos muito o que fazer! – Diz Abuela que já estava quase terminando o que havia colocado em seu prato.
Mirabel se vira pra mim oferecendo alguns pãezinhos doces
—Você vai levar os moveis para a casa nova hoje Rosa? – pergunta Camillo de forma rápida, como se ao falar devagar ele gaguejaria.
— Vou sim, preciso pegar os eletrônicos que estão guardados na casa de minha mãe. – Digo me lembrando que já estava a um tempo comprando os moveis da casa nova, coisas como Geladeira, fogão, cama e as cadeiras ainda estavam guardadas lá.
— E..e sua mãe... – escuto uma voz baixa, quase inaudível vinda do canto da mesa. Quando me viro me deparo com Bruno que mesmo estando reestabelecido na família ainda tinha certa relutância em socializar. – Ela está bem com tudo isso?
— Na verdade... – espero um momento para terminar de esvaziar a boca antes de prosseguir e quase engasgo, Camillo bate em minhas costas e logo volto a falar – ela não pareceu muito interessada na minha saída... parece que não faz muita diferença no fim das contas.
Ele me olha de forma estranha e apenas balança a cabeça, fico curiosa com o que poderia ser porem ainda não tinha essa intimidade para indaga-lo sobre o porque da pergunta repentina. Talvez queria saber como um filho que ficou longe da família? Talvez...
— Bem... eu queria ajudar Rosa, porém vou estar ocupada com algumas coisas hoje. – Isabela falou olhando para Mirabel de forma sugestiva
— Ah, sim, aquilo – Mirabel me olha sem jeito e enfim dá de ombros.
Desgramadas...estão fazendo isso para que eu tenha um tempo com Camillo
Meu pensamento é interrompido quando Camillo toca gentilmente meu ombro e fala de forma calma e sincera.
— Está tudo bem, acho que conseguimos fazer isso – Olho para ele, seus olhos esverdeados assim como os meu me prendem por um momento – será apenas mover alguns moveis, não é?
— Ah, sim... isso – Desvio o olhar dele e me perco em meus pensamentos.
O que aconteceu? Eu cresci junto com todos eles mas nunca parei para ver o quanto ele era bonito, seus cabelos extremamente bem cuidados, suas roupas que combinavam perfeitamente com seu estilo, seu olhar...sua voz... Olho para ele novamente, que percebe meu olhar no seu e também me encara por um tempo até que uma tosse ao fundo tira nossa concentração.
— Vocês não vão comer? – Abuela dizia, já impaciente me olhando de uma forma que eu quase escorreguei para baixo da mesa de tanta vergonha, minhas bochechas pareciam que iriam explodir. Um leve empurrão me faz acordar, Camillo havia me empurrado e sussurrado baixinho.
— Come logo – Ele aponta para o prato quase cheio em minha frente – ou eu vou comer o seu também.
— Guloso – Fala como se fosse uma ofensa, mas logo começo a rir enquanto como rapidamente quase tudo.
Todos terminam suas refeições e quando vou para a pia novamente Abuela me para no meio do caminho.
— Agradeço a ajuda de ontem, mas pode deixar que hoje e o dia de outra pessoa lavar a louça.
—Já estou indo mama – Diz Pepa que já estava se levantando da mesa e indo em direção a pia.
— Quer ajuda? – digo para ela enquanto recolhia os demais pratos.
— Não precisa minha flor. – Ela chega perto de mim e me da um abraço, o que me surpreende, não era acostumada com demonstrações de afeto, ainda mais de uma mulher como Pepa. Me lembrou um pouco minha mãe o que me deixou ao mesmo tempo grata e triste.
— Se precisar de algo pode contar comigo – Digo para ela enquanto saio de seu abraço. Ela sorri e volta para a pia.
Me volto para Camillo que parecia feliz com a cena.
— Vamos? – Falo pra ele que prontamente abre a porta da casa.
— Vamos.
Ao sair de lá seguimos para a casa de minha mãe, passando pelo centro onde estavam tocando alguns instrumentos, sinto meu corpo já balançando quando viro para Camillo que também estava fazendo o ritmo batendo as mãos e os pés no chão. Estendo a mão pra ele que aceita e começamos a dançar. Nos balançamos no ritmo da música segurando as mãos, ele me rodava as vezes de um lado para o outro o que durou prazerosos minutos. Quando paramos já estávamos cansados e ainda não tínhamos feito nada.
— Agora vamos trabalhar já cansados – ele fala se sentando no chão ofegante.
— Eu não me arrependo de nada. – Digo me sentando ao lado dele – Foi muito divertido.
Ele me olha por alguns momentos e sorri, se levanta e estende a mão para mim.
— Vamos, eu disse que a ajudaria, mas parece que eu estou apenas atrasando seu dia.
Olho feio para ele e seguro sua mão, levantando rapidamente.
— Não diga isso novamente. — Olho pra ele como se tivesse recebido um insulto, seguro ambas as mãos dele e olho no fundo de seus olhos. — São esses pequenos momentos que fazem que nossa vida tenha tanta importância. Se vivêssemos só pelo dever quando daríamos importância para o prazer?
Ele me olha pasmo, mas logo abre um grande sorriso fazendo carinho em minha mão a qual ainda estava apertando a dele.
— Quando foi que a gente cresceu tanto? – ele ri e solta uma das mãos colocando na altura do joelho – você era desse tamanho aqui! -ele fala virando uma criança, assim como ele era quando tinha por volta de 5 anos.
— Você também era desse tamanho! – Me agacho para ficar na altura dele e pouso a mão em sua cabeça acariciando seus cachos definidos.
Ele me olha fofo como uma criança e enfim vai voltando ao seu corpo normal, minha mão ainda em seus cabelos, porém agora não era mais a sensação de estar fazendo carinho um uma inocente criança. O Rapaz já crescido em minha frente era simplesmente apaixonante, minha mão desce para seu rosto e meu polegar escorrega fazendo carinho em suas bochechas que com o toque ficaram ruborizadas.
— O que foi, o gato comeu sua língua? – Disse quebrando um pouco o momento o que faz o clima que estava começando a ficar constrangedor um pouco mais suave. Ele pegou minha mão e nos levantamos já que ainda estávamos agachados no chão.
— Vamos logo buscar as coisas... quão mais rápido terminarmos mais rápido acabamos.
Assinto positivamente, mas olho pra ele rindo.
— Passar um tempo comigo é tão ruim assim pra você? – falo fazendo um bico, mas obviamente brincando com ele
— Idiota – Ele exclama rindo e me da um peteleco no braço, já que estávamos de lado andando ate a casa de mi mama.
Respiro fundo e viro a chave, dentro da casa uma família comum. Minha mãe, meu padrasto e meu irmão mais novo.
— Olá! – digo, adentrando a casa. Aperto a mão de Camillo que corresponde a apertando também.
— O que está fazendo aqui? – A mulher aparece na porta da cozinha – se veio almoçar não tem comida pra todo mundo.
— Perdon mama, só vim terminar de buscar as coisas e já estou indo embora.
— Ótimo! – Ela volta para a cozinha onde meu irmão estava na mesa, a criança de aproximadamente 7 anos acena para mim com uma feição triste. Eu e Gus somos apegados, mas tentamos evitar contato para não arrumarmos confusão com o Padrasto e mama.
— Não sabia que tinha um irmão pequeno... – Camillo exclama baixinho, mas eu apenas balanço a cabeça em sinal de “te conto depois”
Chego a garagem a qual abro por dentro, dando acesso a área externa da casa. Começamos a levar para fora os moveis maiores e logo algumas pessoas da Vila de mostram dispostas a ajudar-nos a carregar tudo.
— Obrigada – Falo para o senhor que passou pela rua e voltou com uma grande carroça para que pudéssemos levar tudo de uma vez – fico devendo uma para o senhor Piedro!
— Não se preocupe Rosa, sempre que precisar pode chamar.
O Senhor nos deixa na porta de minha nova casa e segue seu caminho. Suspiro fundo e começo a pegar os moveis junto com Camillo os colocando para dentro.
— Rosa... – Camilo fala em um tom triste. – O que aconteceu em sua casa?
— Bem...- Começamos levando a Geladeira para a Cozinha, seguida do fogão. – Minha mãe me teve muito nova... e bem depois que se casou e teve o Gus ela não teve muita paciência comigo...nem com minha presença.
— Mas e seu Padrasto? – Ele fala prestando atenção em todos os sinais que eu dava.
— Ele não via problema ate que minha mãe começou a reclamar todos os dias sobre como eu dava trabalho e despesas. – Olho para ele de canto – Como se fosse muito difícil viver em Encanto.
Camillo entendia o que eu quis dizer. A verdade é que em Encanto as pessoas trabalhavam mais para manter tudo funcionando normalmente, mas maior parte das coisas básicas como comida e água eram quase que distribuídas entre as casas. A comunidade era muito unida e por isso não havia uma só pessoa passando necessidade. Encanto era realmente um pequeno paraíso.
— Por isso resolveu falar com a Vila perguntando se haveria problema em construir uma nova casa... – Ele fala meio pensativo enquanto voltamos para fora dessa vez para buscar a cama.
— Rapidamente arrumei uma fonte de renda e bem, agora tenho uma casa para chamar de minha. – Respiro fundo tirando o colchão do plástico e colocando sobre a estrutura de madeira que já havíamos montado no dia anterior. Busco alguns lençóis e coloco na cama e nos travesseiros. – A verdade é que sinto que nunca pertenci a essa família... Minha mãe não tinha cabeça quando mais nova e não teve quem a amparasse... o que parece muito estranho ao meu ver.
— Abuela com certeza não soube de nada se não...
Olho para ele e me sento na cama, me jogando para trás deitando as costas na cama, mas com os pés ainda tocando o chão, ele se senta e logo faz o mesmo. Sinto que voltamos a ser crianças, deitadas no gramado, vendo Isa criar flores ao nosso redor. Sorrio levemente.
— Eu não fico amargurada com o passado... eu fiz o meu melhor, mas no momento tenho que pensar no que é melhor para mim.
—Você... – Ele se segura por um momento ate que enfim decide falar – sabe quem é seu pai?
Balanço a cabeça negativamente em resposta, o que faz ele se sentir mal de ter perguntado algo que não sabia como me sentiria.
— Desculpa Rosa...
— Não se preocupe com isso... – Falo lentamente virando a cabeça para ele – já perguntei para ela e procurei por aí, mas... aparentemente ninguém sabe de nada. – Volto a olhar para cima, perdida em meus pensamentos.
Conversamos tanto que nem vi quando terminamos de colocar os moveis na casa. Respiro fundo e fecho os olhos por um momento. Camillo vê minha expressão e se senta na cama novamente.
— Acho que terminamos por hoje... não é?
— Acho que sim... – Digo, sem conseguir arrumar uma desculpa para ficar ali mais um tempo. Me sento na cama novamente e me levanto. – Acho que vou tomar um banho e descansar um pouco
Ele assente positivamente e instantaneamente já começa a ir para a porta da casa.
— Ei! Não vai nem me dar tchau? – Digo abrindo os braços
Ele ri e se vira para mim ainda caminhando de costas até a porta
— Você tá suada, vou deixar o abraço para mais tarde – ele diz arrumando uma desculpa boba para ter outra situação para me ver novamente naquele mesmo dia. – Ainda vamos nos ver hoje, não é?
Olho para o relógio na parede que ainda marcava 16h da tarde, realmente não era normal ficar o resto do dia inteiro em casa, mesmo assim sua desculpa esfarrapada me arrancou um sorriso bobo.
— Você é mesmo cheio de cenas não é Camillo Madrigal?
Ele apenas dá de ombros e se aproxima da porta.
— Até logo Rosa.
Ele sai pela porta e então sinto meu corpo desmoronar. Ele realmente mudou tanto desde que nos conhecemos. Ate mesmo seu perfume havia ficado pairando pela casa o que me faz ir ate a cozinha beber um pouco de água para me acalmar um pouco.
É Camillo, acho que eu sofro do que você também sofre...ou será que é só um mal entendido? Será que ele anda aéreo porque está pensando em outra?
Rio de minha confusão, nós seres humanos adoramos estragar nossas próprias vidas criando caraminholas sem sentido na cabeça.
— Pare de pensar nisso por um momento... apenas viva o agora. — Respiro fundo, pego uma toalha e vou para o banheiro.
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