Curve-se” – a voz sussurrante e tenebrosa rosnava altiva diante do pequeno e assustado Naruto.

Ele não sabia onde estava, lembrava-se de Shikamaru rindo de modo estranho e aquela loira do inferno ao lado do amigo, tudo mais era apenas borrões confusos que ele não tinha certeza se eram reais ou não. Então de repente se viu ali, diante de uma gigantesca e monstruosa raposa falante de olhos vermelhos e nove caudas que se agitavam no ar, a raposa queria que ele se curvasse e o aceitasse como passageiro, seja lá o que isso significasse, Naruto sabia que não era coisa boa e ainda que fosse ele se recusava a se curvar diante de quem quer que fosse.

— Fácil mandar em alguém dez vezes menor e mais inofensivo – resmungou o humano buscando por uma saída daquele lugar incomum.

Não se via paredes, nem teto tão pouco um chão, mas ele sabia que estava em pé sobre algo frio, uma superfície que seus olhos desabituados não conseguiam ver. Mataria o Shikamaru por ter armado contra ele e trazê-lo diante daquela coisa, também arrastaria Ino para fora de Konoha assim que ficasse livre daquilo, não poderia mais deixar a irmã á mercê daqueles tipos de seres, ainda que Sasuke e Hinata fossem bons, estavam sozinhos entre tantos maus. Mais uma vez a raposa mandou que ele se curvasse, Naruto cruzou os braços e ergueu o queixo fitando os olhos demoníacos da fera na sua frente. Á menos que fosse devorado vivo, ele podia ficar daquele modo o dia todo.

Sasuke

O inferno não era nada como ele imaginara, não tinha gritos atormentados e nem fogo para todos os lados, parecia apenas mais uma extensão da Terra. Não vira ninguém em lugar nenhum além do irmão de Gaara e da garota-demônio que lançava olhares especuladores para ele o tempo todo, sem nada perguntar ou dizer. Já estava sentindo-se incomodado com aquilo e ia mandar que ela parasse quando algo afiado atingiu sua perna.

— Sasori – disseram os três demônios procurando pelo atirador enquanto o visitante tentava arrancar aquela coisa de sua perna.

— Não faça isso – mandou Matsuri impedindo que Sasuke tirasse a agulha da perna – Tem veneno se tirar vai espalhar pelo sangue e em segundos morre.

— E se deixar o veneno vai se espalhar do mesmo modo e ele vai morrer lenta e dolorosamente, tire logo e morra sem dor.

— Kankuro está certo, tire logo isso dai e deixa o corpo combater a toxina, sozinho – disse Gaara seguindo em frente com as mãos nos bolsos e uma postura relaxada.

Sasuke puxou a agulha longa e finíssima, sua perna já estava dormente e mesmo assim ele se levantou e seguiu os demônios, ainda coseguia andar. Alguns metros á frente foram parados um ruivo, mais alto e de rosto tão inexpressível quanto Gaara.

— Gaara, é assim que te chamam não é?

— Sasori, deixe-nos passar, meu assunto aqui não é com você.

— Eu sei, e não estou te impedindo de passar. Entretanto, seu assunto não está no Tártaro nem nos Labirintos, tão pouco nos rios do submundo.

— E para onde Temari levou o garoto? – perguntou Kankuro soando impaciente.

— Descei ás profundezas do palácio afundado, pois lá, na escuridão, espreita o monstro ctônico, submerso nas águas rubras de sangue da lagoa que não reflete as estrelas.

Sasuke arqueou as sobrancelhas, por que um demônio citaria Dante Alighieri? Á menos que o inferno descrito por ele na Divina Comédia fosse baseado no submundo verdadeiro, ao menos em partes dele.

— Por que confiaríamos em você? – questionou Matsuri cruzando os braços

— Pelos mesmos motivos por quais eu não perderia meu tempo criando mentiras, menininha satânica.

— Vamos – chamou-os Gaara mudando de direção e sendo seguido pelos outros que olhavam por cima dos ombros para se certificar que Sasori não os atacaria pelas costas.

— Onde fica esse palácio da qual ele falou? – Sasuke perguntou, já não sentia mais o pé direito.

— Longe.

— E se for mentira dele, Mestre?

— Sasori é curioso, Matsuri, os motivos por qual ele não se envolveu na guerra do submundo giram em torno de sua curiosidade e neste momento ele quer saber quais as chances que Naruto tem de sobreviver á Kurama e quais as chances temos de fracassar na tentativa de salvá-lo.

— Sádico miserável – resmungou Kankuro – Se continuarmos neste ritmo, não vamos chegar á Lagoa Vermelha.

Gaara concordou dando um impulso e correndo mais rápido que se podia ver, os demônios o seguiram na mesma velocidade, outrora o anjo teria os ultrapassado, mas agora além de não ser mais um ser celestial puro ele estava também, ferido. Por isso abriu o par de asas negras e voou os alcançado rapidamente, enquanto voava mantinha sua energia concentrada na perna direita onde aos poucos a toxina letal usada por Sasori era neutralizada. Atravessaram o deserto em um piscar de olhos, e logo chegaram á um casebre no meio de uma lagoa de água vermelha que realmente cheirava á sangue, era como uma pequena ilha subterrânea.

— Isso é o palácio afundado? – questionou Sasuke em tom de deboche.

— È bem maior por dentro, vamos logo este lugar me causa claustrofobia – disse Kankuro saltando para a ilha e abrindo a porta que nunca era trancada.

Desceram uma escada espiralada que parecia nunca ter fim, quando respirar doía e os olhos queimavam pela acidez do ar, foi que chegaram á um longo e estreito corredor por qual caminharam até entrarem em uma ampla sala onde se encontravam Shikamaru, Temari, alguns demônios menores e Naruto, cujos olhos estavam vermelho-incandescentes e sua sombra na parede era de uma criatura com muitas caudas. Ele fora o primeiro á perceber a presença dos intrusos, com algum humor e sarcasmo cumprimentou Gaara:

— Olá irmão, soube que se tornou o Príncipe do Submundo, o único de nós que papai não trancou em uma jaula e deixou para ser devorado pelo tempo.

— Fui o único que não se rebelou e o traiu.

— Traição? Não foi traindo o pai dele que ele condenou á todos nós as trevas?

— Não vim aqui para relembrar o passado, Kurama. Quero que liberte o garoto humano.

— Ah! Sim. A filha de Lilith informou também que agora é um protetor daquelas coisinhas insignificantes. Lamentável.

Gaara revirou os olhos com impaciência, fazia quase seiscentos anos que Kurama estava trancando junto com seus outros irmãos, e nos seis séculos em que não se via, o mais jovem sabia que o mais velho planejava vingança ou coisa pior.

— Qual interesse tem nesta casca, Shukaku?

— Naruto não é uma casca, é meu amigo – informou o demônio.

Sasuke olhou com espanto para Gaara, agora que ouvira seu nome o via como realmente era. Shukaku, o demônio da areia, um dos monstros mais temíveis que existia assim como Kurama que agora usava Naruto como casca. Hinata havia comentado sobre não temer a verdadeira face de Gaara, pois o conhecia e sabia que não lhe faria mal, agora se perguntava se ela tinha visto aquela face dele.

— Um amigo, costumávamos ser amigos. Me diga...

A raposa ficou quieta e parada, o quarteto estava cercado por Temari e seus demônios, estavam em minoria e aquilo não era algo relativamente bom, pelo contrário.

— O que ele está fazendo? – sussurrou Matsuri

— Lutando contra Naruto – respondeu Gaara – Ele está resistindo ao controle de Kurama.

— E vai perder irmão – informou Temari abrindo um de seus muitos leques de batalha, Gaara desviou da lamina que teria atingido sua cabeça.

E a batalha por Naruto começou.