Meus contos, meu canto.
2 Segundo conto.
Notas iniciais
– Estúpida guerra.
Existem muitas coisas que um homem pensa quando está na guerra. Não deveria ser assim, já que a atenção é total no campo de batalha, mas as lembranças vêm e invadem a sua mente te deixando vulnerável. Em meio a sirenes, tiros, gritos e outros sons dantescos, meu pensamento me levava para o único local onde eu queria estar nesse momento: minha casa. Eu gostaria de sentir o odor do café forte que minha mulher fazia religiosamente todas as tardes. Gostaria de ouvir o som das crianças brincando e correndo dentro de casa. Gostaria de regar meu pequeno jardim e sentir a textura da grama em minhas mãos. Gostaria de beber algo com meus amigos no final da semana. Gostaria de poder ler meus livros favoritos na minha poltrona e nessa mesma poltrona xingar Führer e falar mal do Mein Kampf. Isso, é claro, traria minha Catherine aflita: “Fale baixo. Alguém pode te escutar!” Gostaria de poder cumprimentar os meus vizinhos numa manhã fria do inverno alemão. Gostaria de ouvir minhas canções favoritas cantadas pela voz melodiosa de minha esposa. Gostaria de ver o sol raiar e sair bem cedo para fazer as compras antes do café da manhã. Gostaria de levar meus filhos à escola. Gostaria de deitar ao lado da amada Catherine e sentir seu perfume e suas delicadas mãos afagando meus cabelos, como costumava fazer antes de nós dormirmos. Gostaria de ir visitar meus pais do outro lado da cidade, já que o natal está próximo. Gostaria de poder tomar a sopa da noite em companhia deles e reclamar que mamãe nunca a tempera o suficiente. Gostaria reviver tantas coisas, tantos momentos... mas aquela carta, aquela estúpida e maldita carta! A carta da minha convocação para a guerra. Tudo o que ela trouxe foi dor, choro e o meu atestado de óbito. Maldito Führer! Maldita suástica! Maldito Nazismo! Maldita guerra!
– Joseph! – Ouvi o grito desesperado de meu colega. – Preste atenção no que está fazendo!
Voltei à realidade, mas ainda podia sentir o cheiro da minha casa. Meu lar. Este cheiro era confundido com o sangue, com o cheiro da morte. Eu pude exalar este cheiro ainda melhor quando senti algo me perfurando nas costas. Era o fim. Eu era apenas mais um. Mais um dos muitos soldados que deram suas vidas numa guerra infeliz a troco de quê? Da eterna gratidão de Hitler e seus abutres?! Não mesmo. Pelo menos, eu voltaria mais cedo para casa. Talvez.
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