Meus Rascunhos
2 Sonho: Cold World's Legend
Notas iniciais
Antes de ler, tenha em mente que meus sonhos são sempre confusos e me fazem duvidar do que os cientistas dizem sobre terem tudo a ver com a sua vida e dia anteriores ao sonho... Sim, eles são loucos, muito loucos, e raramente me recordo de um. Por isso que, sempre que posso, anoto-os em um bloco de notas velho. Este é um dos sonhos que sobreviveu apesar de tudo e, sinceramente, um dos mais malucos e incrivelmente uma rica fonte de inspiração...
Outra nota é que, no sonho, o protagonista sou eu e os outros personagens não possuem nomes... Enquanto que, na fanfic, todos possuem nomes, e o protagonista é um personagem fictício. Se não quiser spoilers, sugiro que entre no link e leia-a por lá, além de acompanhar os lançamentos, pois eu ainda não terminei por lá.
***
Eu usava uma capa de chuva e várias vestimentas por baixo dos grossos casaco e calça enquanto caminhava na cidade destruída e descoberta. A chuva e o frio, além dos ventos fortes, que permaneciam sem grandes mudanças por seis meses contínuos, não davam trégua. Minha alma, àquela altura, congelara-se.
O mundo como conhecíamos acabou. Uma tempestade como nunca ouve destruiu quase todas as construções e constituições existentes, acabando com a humanidade. Todos que me cercavam morreram ou fugiram para tentar se salvar e buscar alimentos por si próprios. Mesmo depois de ter feito tanto por aquelas pessoas, elas não tinham que pelo menos se unir a mim nessa luta contra o frio e pela sobrevivência?
Enfim, eu caminhava sem rumo pelo local desolado. Correndo até encontrar algum lugar mais ou menos intacto para arranjar comida, acabei encontrando outra coisa...
Uma calcinha. Vermelha. No chão.
Aquela era a primeira cor que eu via, exceto branco, preto e cinza, que eu via desde que tudo começou. Fiquei maravilhado por alguns instantes, apenas encarando a peça íntima com dúvidas e espanto. Após obter novamente o controle sobre o meu corpo, agachei em sua direção e olhei atentamente para os lado. Descobri que não havia apenas uma calcinha no chão. Elas, que eram muitas, formavam uma trilha, quem sabe um rastro de vida. Peguei a primeira, a vermelha, que encontrei na mochila e segui pelo caminho que as outras indicavam por duas horas. Acabei saindo da cidade, adentrando em um bosque. Depois de andar bastante e quase desistir daquilo, encontrei, abaixo de uma árvore da mata fechada, uma garota que aparentava estar em seus dezesseis anos, desacordada, loura, esbelta, vestida com roupas finíssimas que permitiam facilmente a passagem da água e frio.
"Ela vai morrer...", pensei na mesma hora.
Fiquei um pouco impressionado por alguns segundos em como ela estava viva, mas logo parei de ser imprestável e a peguei no colo, juntamente com a mochila que carregava embaixo de um dos braços frágeis. Levei-a correndo até a minha casa, que por sorte não foi afetada com a tempestade inicial. Deitei-a na cama, que antes pertencia à minha avó, e usei "meus métodos" — explicitados na fanfic — para secá-la rapidamente. Cuidei dela por mais dois dias até ela acordar.
No início, ela suspeitava de mim, achando que eu fosse fazer algo de ruim com ela. Mas eu realmente queria ajudá-la. Aos poucos fui ganhando a confiança dela, e vice-versa, e, com um mês de nossa convivência, goteiras começaram a surgir em minha casa. Achei estranho, mas não me retirei imediatamente. Ao notar a goteira, a garota me avisou:
– Temos que sair daqui! É perigoso!
Quando surgiu rachaduras no gesso e laje, confirmando o aviso dela, partimos da casa. E assim iniciou-se nossa vida nômade de três anos...
***
Sempre que nós ficávamos mais de um mês em um lugar, ele tinha goteiras e acontecia a mesma coisa que a da minha casa. O mais estranho é que, antes de eu encontrá-la, vivia na minha casa sem problemas. Só foi ela chegar que as goteiras cronometradas apareceram.
Em uma de nossas migrações, em uma fuga de um lugar pavoroso, eu a levava em minhas costas enquanto a mesma dormia. No caminho, encontrei outro sobrevivente, que fugira também do mesmo local que eu. Quando ele percebeu que eu realmente era humano e não um canibal degenerado como a maioria dos sobreviventes transformaram-se, tentou me cumprimentar, porém, ao ver o rosto da garota adormecida em minhas costas, arregalou os olhos em espanto e começou a se afastar lentamente. Fiquei confuso, e provavelmente deixei transpassar o fato pela minha face, pois o homem percebeu e então revelou trêmulo:
– Essa garota... — apontou para ela. — Essa maldita garota... deve morrer — mesmo dizendo essas palavras, ele não parecia com raiva dela, apenas assustado. — Ela que trouxe a chuva que não acaba!
Eu não podia crer naquelas palavras.
– O que você quer dizer com isso?! — perguntei. — Não é possível!
Ele não respondeu. Ao invés disso, o homem tirou o capuz da capa de chuva da adormecida e lhe deu um beijo na testa. Com o calor do beijo, um desenho ancestral, místico e mágico surgiu. O homem declarou em seguida:
– Essa é a prova. Ela é um demônio que veio para exterminar a humanidade. Aquela marca, que há somente nos demônios encarnados... — ele colocou o capuz nela novamente e continuou. — ...só aparece quando há calor exercido sobre aquela região.
Eu estava boquiaberto. Após um momento de pensamentos tão turbulentos quanto a tempestade que nunca acabava, questionei:
– É por isso... que ela nunca deixou eu chegar perto... da testa dela?!
– Sim — a pessoa simplesmente assentiu.
Eu estava incrédulo. Aquela garota, a única pessoa que realmente me compreendia, a única que eu realmente amei... era um monstro. Minha incredulidade caiu por terra quando eu lembrei-me das goteiras. Elas só ocorriam por causa dela. Sem a garota, a água não tinha força para se infiltrar nas construções mais fortes...
Com isso cheguei a uma conclusão filosófica e melancólica.
O mundo é cruel.
Demais.
Quando mais em crise uma sociedade, pior ela é, pois as máscaras caem no desespero total e todos revelam suas verdadeiras faces: monstros. Eu não era tão diferente dos demais: matei, roubei, fugi. Tudo pela nossa sobrevivência, minha e dela.
Recordei-me de todos os três anos que havia passado com ela, a garota linda, fofa e compreensível que, por causa de uma maldita marca, é na verdade um demônio. Desde nosso primeiro e excêntrico encontro, muita coisa aconteceu. Fugas, situações desesperadoras, incrivelmente momentos de piada e diversão. Também longos momentos de conversas profundas... Brigamos algumas vezes, mas éramos como uma família, só que melhor. Menos hipocrisia, mais amor. Mais união. Ajudávamos mutuamente, divertíamos-nos, e até chorávamos, juntos. Sempre juntos.
Naquele momento, porém, eu chorava sozinho. Mesmo que a chuva misturasse-se ao meu pranto, a tristeza dominava minha alma. O homem sentiu minha dor. Não havia dúvidas. Por mais que eu repensasse e pensasse novamente, ela era a causadora daquele Armageddon. Com um rosto sofrido, ele disse antes de seguir seu caminho solitário e, novamente, nômade:
– Você tem duas opções, porém só uma escolha. Ou mate-a e salve o mundo, ou mantenha-na viva com você e seja até o final de seus dias um nômade ao lado dela em "plena felicidade". O seu destino e de todo o mundo está em suas mãos.
Assenti com a cabeça e, após alguns instantes, comecei a procurar uma casa qualquer. Ao achar uma estalagem abandonada qualquer, arrombei a porta carcomida por cupins com um chute e joguei a menina sobre a única cama da casa. Encarando-a com um misto indescritível de sentimentos, iniciei o momento de ponderar sobre as escolhas que o homem, já conhecido da Sociedade em que ficamos presos, me informara. Era um fardo muito grande para um adolescente de dezesseis anos... E, então, como mágica, tive um insight. Mais precisamente um que me mostrou um flashback de uma conversa que eu e ela tivemos há muito tempo, antes de cairmos no sono em tal dia...
[FLASHBACK: ON]
– Se você soubesse de algo muito ruim sobre mim e, por causa disso, precisasse me matar por um bem maior... — seus orbes vítreos e esmeraldas brilhavam deprimentemente, quase transbordando em lágrimas. — Você me mataria?
– Que tipo de brincadeira é essa?! — estranhei após ela fazer aquela estranha pergunta.
– Não é brincadeira... — ela respondeu seriamente, porém levemente emburrada e com as bochechas rosadas e limpando os olhos lacrimejados rapidamente.
"Kawaii*...", pensei.
– Tá... — assenti. — Então... Não, eu não te mataria.
Ela suspirou, parecendo levemente decepcionada, e em seguida pediu com sua voz aveludada e encantadora:
– Se você precisar me sacrificar, por qualquer motivo que seja, não hesite. Não pense sobre isso. Simplesmente faça. Eu não me importo com a minha vida, pois... — ela hesitou. Seu olhar não se encontrava com o meu. Ela tremia. Respirou fundo e, debruçando-se em meus braços, disse da maneira mais fofa e sem jeito possível. — Eu te amo.
Boquiaberto, não consegui responder. Não entendi o que ela quis dizer naquele momento e, confuso, permiti que ela dormisse do jeito que estava enquanto refletia sobre a questão.
[FLASHBACK: OFF]
O flashback encerrou-se em minha mente como se me desse um soco na nuca. Vi-me sem escolhas. Ela já havia escrito seu cartão de óbito. Sabendo muito bem de sua natureza, avisou-me de antemão que... não havia problema em morrer por mim. Desabei de joelhos no chão gélido, em lágrimas. Eu não tinha coragem de ser tão cruel com a pessoa que me amava... e que, assim sendo, tinha um sentimento mútuo comigo. Não possuía coragem o suficiente, sangue frio o bastante.
"Não posso matá-la... Me desculpe...", lamentei internamente.
Enquanto as lágrimas caíam, mais um estalo veio a minha mente. Um resquício de memória. Uma única frase que mudou tudo.
"Não me decepcione".
A voz dela ecoava pela minha cabeça inteira. Fui tomado por uma insanidade sem fim, e então levantei-me. Um turbilhão de pensamentos e sentimentos confundiam-me, mas meu corpo continuava seguindo para cozinha, a fim de cumprir o desejo da garota. Peguei uma faca de uma gaveta. Lutei intensamente contra os meus sentimentos protetores e, perdendo totalmente o fragmento de gentileza que eu possuía, investindo contra o demônio adormecido. Corri bravamente em sua direção, saltei por cima dela, e encarei uma última vez o rosto angelical da loura. Pensei que não iria chorar mais, contudo uma lágrima cortou e corroeu o meu rosto e alma como ácido. Trêmulo e dando um berro altíssimo para encorajar-me, finquei a faca diretamente no crânio, mais precisamente no centro da testa onde estava o desenho, de minha amada.
Sangue amargo, resultante de meu pecado, espirrou-se em meu rosto e peito heterogeneamente. Ao ouvir a última expiração delicada do anjo ceifado, gritei ainda mais, e milhares de prantos involuntários acompanharam-no. Entretanto, seu corpo virou pó em segundos e acabei caindo deitado estranhamente na cama. Antes de poder questionar qualquer coisa, um raio atrás de mim irrompeu os céus. Uma luz era emanada como consequência da subida, sendo visível parcialmente pela janela em frente a cama. Inconscientemente corri até ela, tacando a faca para algum lugar. Procurando a origem da luz, vi um corpo levitando, indo em direção aos céus. A chuva estava cessando lentamente. Uma deusa em apoteose subia ao firmamento, que ia dispersando as nuvens negras com a proximidade dela, em glória. Ela estava de olhos quase fechados, mas olhou para baixo subitamente. A divindade então, por alguns instantes, fitou-me. Olho no olho. E, ao me reconhecer, sorriu.
– Obrigada.
Mais lágrimas rolaram. Abri a janela, pulei dela e tentei agarrar a deusa, indo em sua direção com saltos e de braços abertos. Em vão. Logo a mesma desapareceu entre as nuvens, e a chuva parou. As nuvens negras que ainda restavam deram lugar ao Sol gigantesco e quente, que eu até havia esquecido que existia. Contemplando os resultados de meu assassinato, abri um sorriso idiota e falei para mim mesmo:
– He. Ela não era um demônio, e sim uma deusa... Amaldiçoada, talvez?
A mochila estava em minhas costas ainda. Peguei dela a primeira calcinha do rastro, aquela vermelha. Encarei-a por alguns segundos sem expressão alguma. Ela ainda estava quente, mesmo após três anos de ela ter sido abandonada e nunca mais ter sido usada. Ri fracamente e então guardei-a de volta. Eu nunca esquecerei que a dona daquela roupa que fez um rastro de calcinhas. Eu nunca esquecerei todos os bons e maus momentos que passamos. Eu nunca a esquecerei. Nunca.
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