Meus Pesâmes

1 Um Dragão Chamado Câncer


Notas iniciais
Boa leitura :)

O último abraço deles foi sem graça, os quase dois anos de relacionamento não foram o suficiente para aproximá-los naquele momento de despedida, Sara sabia que o abraçava pela última vez e aquela pessoa não era seu namorado, era um cara quebrado pelas pancadas da vida, ela abraçava um desconhecido.

— Obrigado. — Foi tudo que ela conseguiu dizer em meio às lágrimas. Queria dizer que o amava, que continuaria o fazendo e queria o desejar boa sorte mas lhe faltou coragem. Nada de bom aconteceria na vida daquele rapaz dali pra frente. E ela não conseguia parar de chorar por isso.

Ele não disse nada, sentiu as lágrimas dela molharem o seu ombro, ele não se importou, deixou que ela botasse pra fora toda sua tristeza, queria ele poder fazer o mesmo, chorar tanto ao ponto das lágrimas lavarem tudo de ruim que habitava o seu ser, cada pensamento suicida, cada ação autodestrutiva, mas ele nunca foi capaz de fazê-lo, nem mesmo ali, no enterro da única pessoa que o fez aguentar firme todos esses anos.

— Eu te amo. — Ele respondeu no final do longo abraço. — Nunca vou esquecer de você. — Disse olhando nos olhos dela. Ela não disse mais nada, só o observou andar pela estrada de terra em direção ao carro.

Ele foi o primeiro a entrar, Jonas ainda se despedia dos últimos remanescentes do enterro. Lucas entrou em seguida e começou a chorar timidamente no banco de trás. Kevin não disse nada, ouviu em silêncio o choro incessante do irmão mais novo, não havia nada a ser dito, apenas dor para ser sentida.

Jonas dirigiu até a antiga casa para buscar o que o caminhão da mudança não levou; roupas e eletrônicos em geral. No quarto, ele se sentou no meio do cômodo vazio e respirou fundo, tentando se concentrar no que faria em breve. Tentou afastar todo o tipo de pensamento negativo e sentou na varanda com o filho e o enteado.

— Olha, meninos. Nesse momento eu sei que é difícil mas eu preciso que vocês dois aguentem firme. Essa fase da nossa vida vai ser complicada e o único jeito da gente superar as dificuldades vai ser se ficarmos unidos. Como o combinado, vocês dois só vão pra escola nova mês que vem e nesse período tirem o tempo que precisarem. Chorem e lamentem. Só não se isolem, eu vou estar aqui sempre pro que vocês precisarem. Somos só nós três agora e comunicação vai ser fundamental pra gente superar isso.

Kevin admirou as palavras do padrasto e assentiu. Ele se segurou no enterro, se segurou no discurso e continuaria o fazendo por ele e pelo irmão. Louvável o homem que era Jonas, Kevin só lamentava que sua mãe não conheceu ele antes de conhecer o seu pai, isso teria evitado muito sofrimento a ela.

A viagem de uma hora e meia de Pinhal até Gramado foi de um silêncio quase absoluto. Com as janelas bem abertas e só o som do vento batendo, o clima era de renovação, como se, além da família e dos amigos, a tristeza também estivesse ficando em Pinhal, pelo menos era isso que eles queriam sentir, mas talvez era cedo demais para renovação, tudo o que eles tinham era o luto de uma perda imensurável.

Chegando lá, a irmã de Jonas vos recebeu com uma energia diferente, ela se esforçava para todos se sentirem bem vindos na casa enorme, isso ajudou a melhorar o humor.

Nícolas adentrou a nova casa, com um certo alívio. Era bom não ver camas hospitalares, tubos de oxigênio e remédios para todo o lado. Por um momento ali, ele pensou que com o passar dos anos, seria realmente capaz seguir em frente. Mas havia algo de errado nisso, algo egoísta, como se seguir em frente fosse errado de alguma forma. E se livrar da dor seria pior do que seguir com ela. Ele não admitia, mas a dor era sua amiga agora, sua fiel companheira, ela o abandonava nos momentos de distração, mas voltava com tudo quando ele punha a cabeça no travesseiro.

Na casa, moravam Talita, a irmã de Jonas, Roberto, o marido dela e Nícolas, o filho do casal e sobrinho de Jonas. Ficariam todos na casa por algumas semanas, isso daria tempo suficiente para Jonas arrumar uma casa nova por perto, se estabilizar no novo emprego e, claro, daria um tempo para ele e as crianças para absorver o luto.

Todos os 6 saíram pra jantar numa pizzaria e o entrosamento foi ótimo, mesmo com Kevin um pouco distante, no celular o tempo todo. As conversas eram chatas, Talita se esforçou para parecer natural, mas ela media suas palavras cautelosamente, sabia que se dissesse alguma palavra errada seria o suficiente para ativar o gatilho da dor e o clima ficaria pesado. Ela se recusou a ir no enterro, visitou a Nora algumas vezes, mas nos últimos meses ela não aguentou a ver sem forças, já derrotada por um dragão chamado câncer.

De volta a casa, após terminar de se instalar, Kevin finalmente conseguiu um tempo para si, sentou na grama úmida do quintal e acendeu um cigarro. A primeira tragada foi renovadora, parecia preencher o vazio que existia dentro dele, exalou sorrindo e deu outra tragada. Ele esperou por aquele momento o dia inteiro.

Pela primeira vez ele se permitiu pensar “E agora?”. Mas foi interrompido pelo barulho da porta dos fundos se abrindo. Se virou para trás assustado, era Nícolas.

— O que cê tá fazendo acordado? — Ele perguntou.

— Não parece óbvio? — Ele deu outra tragada e soltou a fumaça lentamente na direção de Nícolas, ele revirou os olhos. — Só tô pensando.

Ele se aproximou.

— Posso sentar ? — Kevin deu de ombros.

— Cigarro?

— Não, tenho amor pelos meus pulmões. O Jonas sabe disso?

— Provavelmente. Ele nunca me viu mas não faço questão de esconder o cheiro quando estou perto dele.

— Como você tá?

— Não estou. — Respondeu ríspido. Após algum silêncio, Nícolas ameaçou levantar. — Tipo, todo mundo sabia que era questão de tempo e por mais que a gente tenha tentado se preparar nunca é fácil. A gente sente do mesmo jeito. Acho que é até pior, a gente fica com a sensação de que lutamos uma batalha perdida.

Nícolas engoliu seco e se arrependeu imediatamente da pergunta, mas seguiu disposto a continuar ouvindo.

— E tipo, o foda é pensar na pessoa que ela foi e de lembrar das etapas. A descoberta, a luta diária da família inteira, mesmo sabendo que não tinha jeito, ela morreu lutando.

Nícolas respirou fundo, pensou no que falar mas antes que pudesse pensar, Kevin prosseguiu.

— Se eu parar pra pensar no quanto isso foi injusto acho que não aguento de tanta raiva.

— Por que?

— Ah, cara, minha mãe passou por tanta coisa ruim na vida, tanta coisa. E justo agora que ela encontrou um homem decente, teve um filho e as coisas melhoraram, isso aconteceu. É muito frustrante.

— A vida é injusta. — Nícolas estranhou a falta de lágrimas. Ele viu raiva, ressentimento e tristeza, mas calculou que se fosse com a mãe dele, estaria chorando como um bebê.

— Não, vai além disso. Algumas pessoas simplesmente não podem ser felizes. — Ele deu mais uma tragada e encarou a lua.

— Você não tem esperança de voltar a ser feliz algum dia?

— Em alguns momentos eu sou. Não vou te falar que sou triste 24 horas por dia porque não sou. Mas o foda é que não posso ficar o dia inteiro distraído, em algum momento do dia eu vou ficar sozinho e vou pensar merda, é simples assim. — Amassou a guimba do cigarro no cinzeiro e prontamente acendeu mais um. — Mas no geral, acho que nunca vou ter a felicidade em sua plenitude. Eu tenho ela em alguns momentos como se fosse uma amostra grátis, como se a vida falasse pra mim “Tá vendo isso que você sente agora? É a felicidade, você nunca realmente vai ter isso”.

— E você não classifica sua infância como feliz?

Kevin riu.

— É por causa dela que sou assim, cara. Meu pai foi a pior pessoa que eu já tive o desprazer de conhecer. Batia na minha mãe, bebia todos os dias, não trabalhava, me batia, estava sempre de mau humor. Minha mãe passou anos sofrendo até criar coragem pra largar dele.

— Entendi. — “Como existe gente fodida no mundo” Pensou Nícolas. — E o que aconteceu depois que ela largou ele?

— Ele passou um tempo tentando reatar, disse que havia mudado, chegou até a se converter — Ele riu ao lembrar de seu pai na porta de casa, com a bíblia na mão. — mas recaiu de novo. Ele morreu cinco anos atrás.

— Eu ainda tenho esperança em ti. — Kevin deu de ombros. — Sei que não te conheço direito mas também sei que ainda há esperança pra todo mundo.

— Você realmente acredita nisso? Quantos anos você tem? — Nícolas balançou a cabeça. — Achei que você fosse mais inteligente que isso. Você tem que entender que nem todo mundo tem a capacidade de se levantar.

— Quem disse isso? — Ele estranhou a resposta. — Tenho 17.

— Eu tô dizendo.

— Cadê seu diploma de psicologia?

— Não preciso de diploma, só preciso conhecer a mim mesmo pra concluir isso.

— Exatamente por isso que você não se levanta. Você não se permite.

— Cara, você não tem noção do que passa aqui dentro. Então não vem com essa de que ainda há esperança. Experimenta o fundo do poço e depois volta com esse mesmo discurso, aí a gente conversa sobre sofrimento, fechou? — Kevin apagou o cigarro ainda pela metade e entrou. Nícolas foi alguns instantes depois.

Os dois dormiram pensando na conversa, Kevin chegou a considerar chamar Nícolas na cama ao lado, mas ele já tinha caído no sono. De alguma forma, a visão contrária de Nícolas pôs Kevin pra pensar, em especial, na parte em que ele não se permite ser feliz. Nem mesmo na melhor fase de sua vida, quando ele se apaixonou por Sara, sua mãe se casou e teve filho com Jonas, ele se sentiu feliz. Era ele um ingrato ou pura e simplesmente ele não via graça na vida? Independente se as coisas estavam boas ou ruins.

— Ei, acorda.

— Hum? — Resmungou Kevin com os olhos serrilhados

— Levanta aí. — Nícolas e Lucas o encarava na beira da cama.

— Que horas são?

— Sete. — Ele olhou o relógio. — E meia. Levanta.

— Levantar pra que?

— Vamos sair. Você tem uma cidade inteira para conhecer.

Após mais alguma insistência, Kevin se levantou esfregando os olhos. Mesmo tendo mais uma noite mal dormida, valeu a pena levantar cedo. Kevin não via o irmão tão empolgado com alguma coisa há meses. O garoto de dez anos saltitava pra lá e pra cá enquanto ele se arrumava.

— O que você deu pra esse muleque? — Kevin brincou ao ver o irmão elétrico.

— Vou conhecer a Terra Mágica. — O jovem respondeu. Kevin franziu as sobrancelhas e riu. Nícolas deu de ombros.

Já na rua, Nícolas agia como se fosse um guia turístico, Kevin achou graça da situação.

— Ok. Avisos: Lucas nunca solte a mão do seu irmão e a gente vai pegar alguns ônibus, então paciência. — Sem entender muito, Kevin acatou. — Primeiro a gente vai no Lago Negro porque é o único ponto turístico aberto por aqui nesse horário, depois a gente vai no Mini Mundo e pra finalizar vamos levar o Lucas na Terra Mágica. — O mais novo vibrou.

No começo, Kevin se sentiu entediado, até tentou se contagiar com a alegria do irmão mas aquela pegação de ônibus levava a paciência dele pro espaço. Mas chegar ao Lago Negro fez tudo valer a pena. A lagoa cercada por uma floresta e uma paisagem deslumbrante o tranquilizou e o passeio pela lagoa também valeu a pena. Kevin entrou em contato com a natureza e sentiu uma paz que nem ele sabia que podia alcançar. Claro que volta e meia ele lembrava da mãe, e a memória vinha como uma faca rasgando seu peito, mas logo passava.

— Eu sei o que você tá fazendo. — Kevin disse enquanto os dois observavam Lucas comprando sorvete.

— E o que eu tô fazendo?

— Me distraindo. Obrigado por isso. De verdade.

— Disponha.

Em seguida eles foram para o Mini Mundo, onde eles puderam contemplar miniaturas de cidades famosas e convencer o Lucas de que ele não podia brincar de ser o Godzilla e destruir todas as 140 mini-construções do local.

Eram quase 11 da manhã quando eles chegaram no ponto alto do passeio: A Terra Mágica. Lucas vibrou com cada brinquedo, ficou extasiado com o cinema 7D e não sabia o que jogar no Playground. O parque era enorme, tinha tanta coisa pra fazer que eles foram sair de lá quase 18 horas.

Na volta, o trio parou para jantar num restaurante e concluiu o passeio às 21h, Lucas chegou em casa e simplesmente apagou na cama. Nícolas e Kevin se jogaram em suas camas.

— Eu não tenho nem palavras pra te agradecer por hoje. — Kevin falou, sincero.

— Relaxa.

— Não, é sério. — Ele se sentou. — Por que fez isso? Você não precisava.

— Eu quis. Eu sei que a gente mal se conhece mas senti vontade de fazer, eu sabia que vocês precisavam de um dia assim.

— Cara, o Lucas não esboçou nenhuma tristeza hoje, ele foi pela primeira vez em muito tempo uma criança normal. Tenho amigos de anos que nem sonhariam em tirar um dia inteiro pra me distrair.

— E eu sucedi na missão? Consegui te distrair?

— Sei lá, acho que em 90 por cento do tempo, sim.

— Quer fazer mais alguma coisa?

— Tipo o que?

— Jogar vídeo game.

— Deixa pra amanhã, eu tô muito morto.

Kevin se deitou pra dormir antes das 22 horas, geralmente quando ele se deitava esse horário, chorava até a meia noite e tinha crise de pânico e insônia até as 3 da manhã quando caia no sono. Naquele dia, ele dormiu em um minuto, sem ter tempo para nenhum pensamento negativo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.