Meus Pequenos Clones.

2 Amada rotina rasgada.


Cristina, 15 anos, primeiro ano do colegial. Alta, branca, magra, de cabelos ruivo-claro e constantemente presos em rabo de cavalo alto, olhos pequenos e castanhos, sobrancelhas finas e bem definidas e dedos longos. Notas na média, não é boa em nenhum esporte do colégio e não gosta de chamar a atenção. Era segunda-feira e como sempre Cristina andava de cabeça baixa no meio da multidão de alunos que se dirigia às salas de aula. Quando chegou à sua, entrou de forma tão silenciosa e discreta que nenhum dos seus colegas, que tagarelavam, brincavam e jogavam PSP abertamente, perceberam-na indo ao seu lugar — quarta carteira da fileira das janelas.

Dera sorte. Ela adorava sentir a brisa ou simplesmente sentir uma paisagem ao seu lado enquanto estudava ou lia, mesmo nunca demonstrando tal satisfação. Em movimento rotineiro, Cristina sentou-se, pegou um livro Star Wars importado e continuou-o da parte em que parara na noite anterior.

– Cris! — uma voz feminina animada chamou alto e claramente.

Reconhecendo o chamado, ela levantou a cabeça com um sorriso enquanto registrava seus melhores amigos caminhando em sua direção.

Jennifer era baixa e tinha cabelos repicados na altura da mandíbula inferior. Seus fios verdes em corte chanel harmonizavam-se com os olhos também verdes e o sorriso branco que parecia estar sempre em seu rosto, automaticamente desconsiderando a monotonia geralmente transmitida pelo uniforme cinza e branco. Era boa em esportes e na área de humanas. Comentada por todos como decidamente cativante ou simplesmente estranha.

Rodolfo, logo atrás tentando ficar fora do alcance dos acenos exagerados de Jennnifer, era o mais sério dos três. Com cabelos pretos repicados e olhos escuros, transmitia frieza através das lentes retangulares de seus óculos sem bordas. Sendo mais alto do que Cristina por centímetros, dava a ideia de superioridade justamente por ser inabalável a qualquer ataque verbal e dar-se muito bem em defesa e ataques físicos. Não praticava nenhum esporte por escolha, destacava-se na área de exatas e todas as notas não ficavam abaixo de oito (isso porque Rodolfo perdia as estribeiras com essa nota). Era comentado como alguém aplicadíssimo ou arrogante.

– Bom dia para vocês. — Cris cumprimentou quando eles cercaram sua mesa.

– Bom dia, bom dia! — Jennifer respondeu, apoiando-se com as mãos na carteira da amiga e balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Você não está mais no sétimo ano. — advertiu Rodolfo em um resmungo, encostado na parede graças aos grandes espaços entre as carteiras e com os braços cruzados frente ao corpo, transmitindo impaciência.

Jennifer fez um bico aborrecido e o encarou com a testa franzida. Cristina sorriu. Era sempre assim.

– Como passaram o fim de semana? — ela perguntou.

– Ah, muito bem! — falou Jennifer imediatamente, esquecendo da provocação anterior e dando uma palma. — Fiz uma porção de coisas! Fui ao cinema, visitei meus primos, andei pelo parque central... Bom demais! E você, Rodolfo?

– Estudei. — respondeu com indiferença. — Afinal temos provas na semana que vem, lembra? — e nisso a mirou erguendo uma sobrancelha.

– A-argh. Nem me lembre. — pediu com semblante cheio de temor. — Sabe que tenho medo de provas.

– Não deveria. Nosso futuro depende delas.

Por que justo delas?

Cristina soltou uma risadinha com a cena e Jennifer pareceu lembrar que faltava um relato ainda.

– E você, Cris? O que fez? — questionou com um olhar teatralmente malicioso.

Ela pensou um pouquinho para responder.

– Bem... Fora ler livros Star Wars...

– Como sempre.

– ... comprei uma nave LEGO com quatro clonezinhos!

– Aposto que são do Star Wars.

– Com certeza!

– LEGO é para crianças. — Rodolfo novamente resmungou uma advertência.

– Sim e não. — Cristina alegou. — Desde que goste, qualquer um pode montar. Sem mencionar que há coisas tão complexas que acabam aconselhadas para maiores de 12 ou 14 anos. E, no fim das contas, mal não faz.

Um grunido e nada mais veio do garoto. Cristina era a única, fora os professores, que conseguia dar a última palavra com ele.

– Nee, nee, Cris! Posso ver seus LEGOs amanhã? — perguntou Jennifer apoiando-se novamente na carteira e dando alguns pulinhos.

– Claro, claro! — Cristina respondeu sorrindo, mas erguendo o pequeno livro narrativo para privá-lo daquele sacode agitado.

Antes que a amiga pudesse agradecer, ouviu-se o segundo sinal, o qual anunciava a breve chegada dos professores às classes e todos foram obrigados a parar o que estavam fazendo para sentarem-se e posicionarem-se adequadamente nas carteiras.

A manhã passou sem novidades. Nada além das broncas dos professores, a pressão das provas mensais do 3º bimestre, alguns momentos de zoações entre alunos e uma mancha do suco de uva da cantina do moletom branco de manga longa de Jennifer ("O açúcar está agitado hoje, não foi culpa minha!"). Dando o fim das aulas, Cristina partiu à pé para casa.

– Cheguei. — anunciou ela quando abriu a porta da frente com a voz cansada.

– Bem vinda, filha!

Andrea, sua mãe, era alguém gentil e firme. Com cabelos negros presos a um coque que sempre tinha fios caídos, tinha a mesma altura da filha e parara de trabalhar na área de Marketing ao se tornar mãe. Branca como Cristina, tinha os mesmos olhos e lábios que ela. Viera da cozinha para recebê-la e ainda tinha um prato semienxugado nas mãos.

– Como foi na escola? — perguntou a senhora de 40 anos com leves rugas nos olhos enquanto a via subir as escadarias rumo ao quarto.

– Tudo bem.

– E esse joelho roxo?

– Só caí na calçada. Nada demais. Obrigada pela preocupação.

– Não demore demais — aconselhou indicando Cristina com o prato branco e simples. — O almoço ficará pronto daqui a pouco.

– Ceeerto!

A cada passo sentia-se mais exausta. A rotina escolar não era fácil para alguém de raciocínio lento como ela. À medida que a distância entre ela e o quarto diminuia, parecia que seu recanto emitia uma luz maior. Mal via a hora de esticar-se na cama e relaxar um pouco antes das tarefas... Refrecar um pouco a mente com alguns momentos de silêncio... Largar sua mochila pesada num canto do chão de madeira... Só mais um pouquinho.

Ela tocou a maçaneta fria de metal. Vitória! Bastava girá-la e dar de cara com seu paraíso.

As dobradiças rangeram quando Cristina abriu a porta de madeira. Acidentalmente seus olhos pousaram na sua cama de tralhas e seus olhos se arregalaram de surpresa, parada. Todos os pertences que havia deixado ali na noite anterior estavam do mesmo modo. Mas os LEGOs recémcomprados haviam sumido.

Seu olhar estreitou. Combinara há anos com sua mãe de nunca ninguém mexer nas coisas dos outros e seu irmão mais novo estava em um colégio interno, no centro. Seu pai, mesmo que estivesse na biblioteca da casa trabalhando, nunca entraria em seu quarto. Afinal, por que o faria? Nada ali o interessava para tanto, ele mesmo dizia. O jeito, concluiu, seria perguntar à mãe se ela sabia de algo. Naquela hora, tudo o que conseguia fazer, mesmo preocupada com o desaparecimento, era largar a mochila e deitar.

Jogando a mala no canto esquerdo do quarto oposto à porta que fechava ao mesmo tempo, simplesmente jogou-se de costas no colchão macio da cama de dormir. Foi quando ouviu algo que não esperava.

Ouch!