Escutei o som irritante do celular tocar embaixo do travesseiro, sempre deixo ele aqui para não ocorrer o risco de não escutar quando toca, coloquei a mão debaixo do travesseiro e encarei a tela excessivamente clara que marcava 07:01.

— Merda. — joguei a coberta para o outro lado da cama e em um pulo me levantei enquanto deixava o celular sobre a penteadeira.

Abri a porta e olhei pelo corredor, não havia ninguém, sorrateiramente saí do meu quarto e fui caminhando silenciosa em direção ao banheiro que ficava do outro lado do corredor quando escutei a porta do quarto dos meninos ser aberta e vi o Noah colocar a cabeça para fora e me olhar. Sabendo o que ele ia fazer olhei dele para a porta do banheiro e saí correndo mas o peste além de mais rápido que eu é também ágil e esperto e entrou primeiro no banheiro trancando a porta na minha cara.

— Noah Williams Johnson, abra essa porta. — esmurrei a porta mas apenas escutei a risada diabólica do meu querido irmão como resposta.

E sabendo que eu estava atrasada claro que o Noah fez questão de demorar e quando entrei no banheiro tinha apenas vinte minutos para ficar pronta. De maneira cronometrada tomei um rápido banho de oito minutos e dois desses usei para lavar o cabelo, saí do box enrolada na toalha e corri pegando minha escova de dentes de cabo verde e em um minuto e meio escovei meus dentes, sei que o correto é três mas o tempo não está colaborando. Do banheiro até meu quarto levei em média meio minuto já que não pude sair correndo do banheiro, em dois minutos escolhi uma roupa simples: calça jeans, blusa fina e caso ficar frio meu inseparável moletom e já havia deixado a mochila em cima da cama em três minutos estava vestida, como sempre vou usar meu all star preto que já está meio surrado mas continua sendo meu favorito, em quarenta e cinco segundos estava já com as meias e os tênis nos pés. Corri para a penteadeira e em um minuto e quinze pentei meu cabelo o mais rápido que consegui o deixando solto para secar.

— Em seis minutos eu consigo tomar café. — constatei olhando no celular, me levantei e peguei a mochila de cima da cama passando ambas as alças e em um rápido movimento peguei o moletom e o amarrei na cintura.

Desci calma os degraus da escada até o Noah passar correndo do meu lado com os braços esticados esbarrando em mim e quase me derrubando.

— Seu peste. — quase gritei enquanto soltava o corrimão fazendo apenas ele me olhar e mostrar língua enquanto virava na porta da cozinha.

Cheguei na cozinha e como sempre estava papai em uma ponta e mamãe na outra, a direita de meu pai estava o Ryan que dividia sua atenção entre o cereal que havia na tigela e o jogo no seu celular e ao lado dele estava a peste do Noah que agia como se fosse um anjo comendo calmamente as panquecas, a cadeira a esquerda de meu pai hoje em dia fica sempre vaga já que era onde o Peter sentava, a cadeira ao lado é a minha onde me sentei e cortei uma fatia do bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

— Como está a expectativa para hoje? — mamãe me olhava enquanto bebia seu chá, com a boca cheia do pedaço enorme do bolo que eu mordi eu olhei para ela e balancei a cabeça. — Char, não faça isso.

— Desculpe, mãe. — eu disse alguns segundos depois após engolir na marra o pedaço exagerado com a ajuda do suco de laranja que, como a mamãe sabe que eu amo, já havia colocado no copo e me entregado. — Sem expectativa, é apenas mais um ano de escola.

— Nada disso mocinha. — ela me repreendeu com um olhar severo. — É seu último ano do ensino médio, haverá festas, o baile de formatura...

— Que legal. — revirei os olhos nada disso me importa mesmo, mordi mais um pedaço do bolo dessa vez nada muito exagerado.

— E já tem que começar a pensar na faculdade, em qual vai querer entrar e o que vai cursar. — a voz autoritária de meu pai me fez virar a cabeça na direção dele e o encontrar com o jornal em mão enquanto a canhota levava a xícara aos lábios.

— Sim papai. — ele sempre fala a mesma coisa para mim e eu sempre respondo a mesma coisa.

De uns meses para cá meu pai anda com essa conversa, eu não sei ainda o que quero fazer mas ele deixa claro que eu tenho que escolher logo e algo que de dinheiro e respeito, como direito, economia, administração e claro medicina que ele usa o Peter como exemplo dizendo o quanto ele é inteligente e será um ótimo médico, mal ele sabe do segredo que o Peter esconde dele.
Nos mantivemos em silêncio com apenas os sons das colheres ou quando uma das xícaras atingia o mármore da mesa, até a buzina do lado de fora soar me fazendo beber em um último e grande gole o que havia restado do líquido no copo.

— Tchau pai. — beijei sua bochecha e dei a volta na mesa recebendo um cálido e afetuoso beijo na testa da minha mãe que me fez sorrir, ouvindo mais uma buzina beijei a bochecha da minha mãe e arrumando a mochila que até então continuava nas minhas costas me afastei pelo hall indo em direção a porta. — Tchau mãe, tchau meninos.

Escutei apenas a voz da minha mãe me desejar um ótimo dia, abri a porta e após passar por ela a fechei e segui até o carro onde o Collin abriu a porta para eu entrar.

— Bom dia. — desejei fechando a porta após me virei para o banco de trás vendo o Tyler ouvindo música pelo fone, e a Mikah e o Madison se agarrando, fazendo uma cara de nojo olhei para o amigo ao meu lado enquanto puxava o cinto. — Esses dois estão nisso logo de manhã?

— Isso por que ainda é o primeiro dia de aula. — Tyler disse enquanto arrumava o óculos de armação quadrada.

Tyler Stone, meu melhor amigo desde o jardim de infância ele esteve nos melhores e piores momentos da minha vida, sempre me ajudando e me motivando, é ótimo em cálculos mas péssimo quando se trata de garotas.

— Nos deixe ser feliz, chata. — a voz doce apesar da malícia da Mikah disse atrás de mim enquanto a mão dela empurrava a minha cabeça.

Mikah Richardson, minha melhor amiga, na verdade a única amiga que tenho, no quinto ano quando o Tyler foi colocado em outra série eu fiquei sozinha e a Mikah foi a primeira e única garota a vim falar comigo, sua confiança e determinação é algo que admiro até hoje.

— Pervertidos. — ri enquanto sentia o carro começar a andar.

— Diz isso por que não está agarrada com um desses dois. — como sempre o Madison adorando me irritar, imagino o trauma que seria se ele e o Noah se encontrassem um dia.

Madison Taylor, jogador de basquete e namorado da Mikah, ele foi o único amigo que o Tyler fez no quinto ano e isso nos fez aproximar já que sempre passávamos os recreios juntos, Tyler, Madison, Mikah e eu sempre sentávamos na última mesa. Pelo o que me lembro a Mikah gosta dele desde aquela época mas orgulhosa do jeito que é só foi assumir para os outros que gostava dele no último dia de aula no sexto ano quando o Madison se declarou a ela e a pediu em namoro, e eles estão juntos desde então e esse namoro resulta em várias fotos do Madison no site da escola, site esse que a Mikah administra.

— Aí credo. — olhei para o Tyler que apenas sorriu enquanto negava com a cabeça, nunca nenhum de nós dois confundiu o sentimento de amizade com o de amor, talvez por isso sejamos amigos a mais de dez anos.

— Nossa, Lotte. — Collin me olhou de soslaio enquanto fingiu ficar magoado fazendo com seus lábios um bico enorme.

Collin Richardson, primo da Mikah, ela apresentou ele a nós no oitavo ano quando caímos todos na mesma série no começo ele era aquele típico garoto rico e mimado que reclamava de tudo que fazíamos e até do modo que falávamos mas com o tempo ele mudou e hoje é uma ótima pessoa e um excelente amigo, talvez até, meu segundo melhor amigo.

— Você não, Collin, você é um gostosão. — passei a mão pelo rosto dele que sorriu, essa nossa brincadeira pode parecer estranha para os outros agimos como se gostássemos um do outro mas na verdade não passa de uma brincadeira que sei lá desde quando fazemos.

O restante do caminho seguiu sem nenhum de nós falar mais nada, acabei ligando o rádio e o deixando em uma rádio que só tocava música clássica algo que o Collin e eu gostámos, os outros não, e isso acabou resultando em uma briga sobre onde iria ficar e o Tyler todo sensato acabou com a nossa discussão desligando o rádio.

— Ah, finalmente. — senti o peso do corpo da Mikah ser jogado contra o meu quando ela se jogou para cima de mim e passou seus braços pelo meu pescoço.

— E olha quem não mudaram nada nessas férias. — o Collin deu a volta no carro escorando no capô enquanto guardava a chave no bolso da calça, segui seu olhar e encontrei elas.

Sofy Thompsons, Ella Price e Mia Lee as garotas populares da escola, para o meu completo azar, de todas pessoas do colégio elas escolheram a mim para infelizar e até mesmo humilhar, mas apenas conseguem fazer o segundo quando estou sozinha já que nenhum dos meninos ou a Mikah deixam elas me humilhar.

— Oi, Collin lindinho. — não foi surpresa para ninguém a Ella abraçar e beijar a bochecha do Collin, na verdade todos da escola sabem que ela é apaixonada por ele desde o primeiro ano mas o estranho é que ele não dá a mínima para ela, coisa que qualquer garoto calouro ou não nunca teria coragem de fazer.

Ella Price, típica garota americana: loira dos olhos azuis e corpo esguio, o pouco que sei sobre ela é que é filha única e os pais dela dão tudo que ela quer.

— Como foi seu verão, Char? — odeio quando a Sofy me chama por esse apelido, apenas minha mãe, o Peter e o Tyler podem me chamar assim. Eu nunca tenho coragem de responder o que penso e sempre escolho me calar e abaixar o olhar coisa que apenas faz a Sofy sorrir ainda mais. — Apesar que não me interassa nada que venha de você.

Sofy Thompsons, com seu curto cabelo castanho e seu rosto sempre maquiado ela ocupa o posto da garota mais bonita do colégio sendo seguida pela Ella e logo atrás a Mia.

— Agora vamos meninas, já perdemos tempo de mais aqui. — a Mia olhou para nós com nojo logo virando a cara.

Mia Lee, para fechar o trio das populares ela é ruiva dos olhos verdes, alguns dizem que ela é meia-irmã do Liam Austin um garoto considerado estranho pelos outros apenas por gostar de animes, HQs e de se vestir de cosplay nas festas da escola, mas a Mia jura se tratar de uma tremenda de uma mentira que inventaram apenas para falarem mais sobre ela, e para reforçar o que diz, ela faz questão de humilhar o Liam na frente dos outros, as vezes ela consegue ser pior até que a Sofy.

— Beijinhos, Collin. — a Ella piscou um dos olhos enquanto beijava a própria mão e depois fez aquele típico ato de assoprar o beijo, em passos e rebolados que pareciam até coreografados as três se afastaram fazendo questão de rirem entre si e balançarem o cabelo, talvez para dar um charme, mas para mim isso fica é estranho.

— Você está bem? — a Mikah colocou cada mão em uma bochecha minha as comprimiu olhando nos meus olhos.

— Eu estou, mas se você não me largar quem não vai ficar é você. — disse com dificuldade já que ela está apertando minhas bochechas e isso me faz ficar com uma boca estranha e tenho certeza que isso me deixa mais feia do que já sou.

— Aí, malvada. — ela me largou indo abraçar o Madison que beijou a cabeça dela.

— Vamos logo que já vai bater o sinal. — e passando o braço pelo meus ombros Tyler começou a me puxar em direção a escola onde os outros alunos já estavam entrando.

Como todos os outros anos o diretor Hunter Roberts fez um longo discurso falando sobre quão importante é a educação e tudo o que ela nos propõem, mas eu confesso que só prestei atenção quando ele falou de um acampamento que todos vamos fazer no fim do ano.
As aulas apesar de serem extremamente tediantes, passaram rápidas e quando percebi já estávamos nas aulas extracurriculares, junto com o Tyler eu faço literatura.

— Então, queridos. — assim que terminou de ler um estrofe do livro a professora Sarah Shelly o fechou e olhou para nós enquanto ajeitava o óculos redondo. — Pensei em um trabalho para vocês, um pouco diferente dos demais. Não precisaram fazer redação sobre algum livro ou coisa assim, e sim uma redação sobre um colega de turma. — ela olhou animada para nós, olhei para o Tyler sentado do meu lado e assim como ele parecia preocupado e curioso. — Vou separar vocês em duplas e terão até o final do semestre para me entregarem uma redação sobre seu colega.

Pelo o que me lembro, ano passado tinha apenas dezessete alunos e é muito raro um calouro entrar para a aula de literatura, por tanto, alguém vai ficar sozinho e espero muito que seja eu. A professora começou a ler os nomes que estavam no papel e só prestei atenção quando a professora falou o nome do Tyler.

— Stone e Lee. — olhei para ele que estava vermelho como um pimentão, o Tyler gosta da Mia há algum tempo e aquele trabalho não veio em boa hora.

— Não se preocupe que depois vejo com a professora se ela troca nossas duplas. — sorri e segurei sua mão tentando passar confiança, ele usou o indicador para arrumar o óculos e me olhou sorrindo maneando a cabeça.

— Agora, à última dupla é... Travino e Johnson. — olhei da professora para o Tyler diversas vezes, mas quem diabos é esse ou essa tal de Travino?

Esperei até a professora terminar de explicar o que teríamos que fazer e assim que ela terminou ergui meu braço à chamando.

— Sim, Charlotte? — ela apoiou as mãos na minha mesa, por sorte a professora sabia que eu odeio falar público por isso sempre que a chamo ela vem até minha carteira.

— Quem é Travino? — não escondi em minha voz a curiosidade que estava e o Tyler também olhava curioso.

— Aquele ali, na última carteira perto da janela. — ela apontou com a cabeça para o garoto e segui o seu olhar e vi um garoto todo de preto que estava com fones de ouvido e a cabeça encostada na parede. — O nome dele é Scott, Scott Travino.

— Professora? — dei o meu melhor sorriso enquanto puxava o Tyler pelo pescoço o trazendo para perto de mim. — Deixa eu ficar com o Tyler, por favor? — supliquei mas ela apenas negou com a cabeça.

— Nada disso, senhorita. — ela balançou o polegar. — Foi por alunos como à senhora que eu mesma formei as duplas.

Soltei o Tyler que assim como eu resmungou.
Já ouvi boatos desse Scott pela escola, ele é encrenqueiro e vive metido em brigas, já foi até pego fumando cigarro atrás das arquibancadas.

— Ele está na nossa turma. — ouvi a voz do Tyler soar baixa próxima a meu ouvido. — Você não reparou?

Balançei a cabeça negando sento na primeira carteira, talvez por isso não o notei. Antes que eu pudesse dar algum tipo de chilique o sinal tocou finalizando a oitava e última aula.

— Você vai falar com ele? — olhei para meu amigo.

— Você vem comigo? — abri o mais largo sorriso que consegui enquanto passei a alça da bolsa pelo ombro.

— Claro. — ele sorriu e deu a volta na mesa caminhando no meu lado até o fundo da sala, Tyler sabe que sou bem tímida ao falar com estranho e sempre quando preciso ele fica ao meu lado e segura minha mão com força.

Assim que nos aproximamos do lugar onde o Travino estava pude ver melhor suas tatuagens, seu braço direito era todo tatuado, mas o que mais me chamou à atenção foi que na mão esquerda havia apenas duas tatuagens: em cima estava escrito "be kind" e em baixo havia uma rosa. Tyler maneou a cabeça me incentivando e em um momento de coragem — ou burrice — cutuquei o braço do garoto que até então não parecia ter notado nossa presença, ele tirou um dos fones e olhou para a gente, mais precisamente para mim, seu olhar era intimidador e também parecia haver desdém.

— Er... E... O... — abri a boca algumas vezes mas nenhum som que preste saiu, isso sempre acontece quando tento falar com estranhos, o Tyler percebeu meu estado e tentou me ajudar.

— Eu sou, Tyler Stone. — ele esticou a mão para o Travino que apenas o deixou no vácuo, também sem jeito o Tyler recompôs sua postura e tornou a falar. — Essa é a Charlotte Johnson e ela está tentando dizer que a professora deixou vocês dois na mesma dupla.

— É, eu sei. — a voz grossa me intimidou ainda mais e apenas por escutar o timbre encolhi meus ombros. — Aqui está meu endereço. — rapidamente ele escreveu o nome da rua, o número da casa e a hora e rasgou um pedaço do papel esticando para mim, continuei travada e o Tyler teve que pegar o papel. — Vou precisar sair então não se atrase. Ah, e avise para a muda que não sou nenhum bicho.

E fechando o caderno e pegando o estojo ele colocou de volta o fone e se levantou passando por nós e seguindo até a porta por onde passou e sumiu no meio daquele monte de gente.

— E ele ainda tem a ousadia de tatuar, "seja amável"? — ralhei iritada fazendo aspas com os dedos nas duas últimas palavras. — Ele nem teve a decência de me perguntar se estava tudo bem a hora.

— Você não falou nada também, então nem vem. — ele me esticou o papel ao qual peguei e guardei no bolso traseiro. — Agora vamos, o pessoal já deve estar nós esperando.

— Mas você não vai falar com a Mia? — foi a vez dele travar e deixar os ombros caírem.

— Vou tomar coragem primeiro, Char. — ele voltou com a postura ereta e caminhamos juntos até a porta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.