Meu ultimo ano
21 Uma surpresa interessante
Notas iniciais
Depois de muito conversar e de planejar durante horas o que iriamos fazer, acabamos dormindo, acordo tempo depois com o despertador da Faith tocando alto.
— Desligaaaa! – Mel grita, colocando o travesseiro na cabeça.
— Ninguém merece acordar tão cedo. – Jay levanta e desliga o despertador. – Voltando para se deitar perto de mim.
— Bom, já que o despertador tocou vamos todas levantar. – Faith diz, levantando-se da cama bem empolgada, até de mais para o normal dela.
— Eu não vou me levantar. – A voz da Mel quase some antes da frase terminar.
— Vai sim. – Faith pega um travesseiro e bate forte nela, meus olhos ficam querendo fechar, mas desperto assim que Faith bate o travesseiro em mim.
— Tá, já entendi, vou levantar. – Digo, reunindo minhas forças para sair da cama. – Vamos Jay.
Faith entra no banheiro e escova os dentes bem rápido, nos obrigando a fazer o mesmo, Jay prende seus maravilhosos cachos em um rabo de cavalo, Mel penteia lentamente os fios de seu cabelo, da pra perceber que ela ainda está quase dormindo. Eu arrumo rapidamente meu cabelo, assim como Faith, depois cada uma de nós vestiu seu biquini, pegamos a bolsa com protetor solar, óculos e toalhas e descemos para a área de café da manhã do clube.
Quando coloco a mão no corrimão para descer as escadas que levam ao salão de refeição, reparo que a marca das unhas de Jennifer ainda estão no meu braço, porém já não mais vermelho. Pode-se dizer que estou 100% melhor depois de ontem, a conversa com as meninas me ajudou a por as ideias no lugar e eu finalmente descobri porque ninguém mais tocava no nome da Katarina, mas pra mim ainda tem umas peças que estão fora do quebra cabeça. Por que a Jennifer precisa da amizade da Katarina? Como ela invadiu a casa para tirar as fotos dela? Chad e Jennifer tem algum plano? Por que o Chad namora com a Kat?
Não sei, mas alguma coisa está errada nessa história e talvez nem mesmo as meninas saibam disso, eu preciso descobrir de alguma forma o que está acontecendo e bolar uma reação. Independente de qualquer coisa, não consigo evitar de pensar em como a Katarina se deu mal, poxa, talvez se eu não tivesse ido embora... Ainda que não seja minha culpa, eu me sinto mal por ter abandonado todo mundo de uma forma tão brusca.
Entretanto, ter voltado abre novas portas pra mim, não só com relação a escola, mas viver nesse mundo de novo traz uma certa nostalgia, é até engraçado. Eu me sinto tão bem aqui, tão acolhida, como se tivesse voltado pra casa. Obvio que eu sinto falta dos novos amigos que fiz enquanto morei na Itália, mas uma hora ou outra as coisas tinham que mudar.
— Jay, pega o prato pra mim. – Desperto dos meus pensamentos quando escuto a voz da Faith.
— Eu não acredito que vocês ampliaram o salão, ficou tudo tão lindo. – Deixo escapar minha admiração.
— Pois é, antigamente isso era só um clube, poucos quartos, hoje em dia nós temos mais dois anexos. – Faith diz orgulhosa. – O prédio atrás da piscina é o novo hotel que tem acesso a todas as áreas do clube, um dia eu convido vocês pra ficarmos lá, é muito bom.
— Eu ia amar. – Digo rapidamente.
— Então tá super combinado, um dia trago vocês, mas vamos nos servir logo, eu tô morrendo de fome.
Cada uma de nós fez seu prato e em pouco tempo já estávamos sentadas nos maravilhando com essa arte culinária.
— Faith, eu nunca vou me cansar de dizer: Eu amo a comida desse lugar. – Mel se pronuncia. – Da vontade de abraçar esse prato.
— Eu quero repetir. – Digo, mostrando meu prato vazio.
— Vai lá. – Faith ri.
— Eu vou com você. – Jay me acompanha.
Quando todas nós terminamos de comer, corremos para a piscina, devido o horário a área externa não estava muito cheia, na verdade, só tinha duas crianças. Jay foi a primeira a jogar toda a roupas em cima da cadeira e pular na água, depois dela todas fizemos o mesmo, o sol fraco, brisa agradável, água quentinha, tudo muito perfeito.
— Eu senti falta disso. – Confesso.
— E nós sentimos a sua falta. – Mel afirma.
Ficamos conversando e nadando tranquilamente até umas nove horas, quando outros hospedes do clube e do hotel começaram a aparecer, mas o que me chama atenção é um grupo de cinco garotos barulhentos.
— Você conhece? – Pergunto para Faith, apontando discretamente para eles.
— O loiro sim, ele sempre está por aqui, é filho do novo sócio do meu pai, por quê?
— Nenhum motivo em específico, curiosidade talvez.
— Hm, ficou interessada? Eu posso te apresentar.
— Não precisa. – Digo sorrindo. – E os outros?
— O ruivo alto sempre anda com ele, mas aqueles três ali nunca vi.
— Tendi, mudando de assunto, gente ainda vai ficar muito tempo aqui?
— Podemos ficar até de tarde se você e as meninas quiserem.
— Por mim, o que vocês acharem melhor eu assino embaixo.
— Vou perguntar a elas.
— Certo.
Quando Faith se afasta de mim para falar com as meninas, eu volto a olhar para os garotos e infelizmente um deles tem a brilhante ideia de olhar na mesma direção que eu. Desvio o olhar rapidamente, mas acho que ele deve ter percebido e agora é bem capaz de achar que fiquei interessada.
Nado para perto das meninas, evitando de trocar um novo olhar, Mel está morrendo de rir e quando chego ao seu lado ela diz:
— Mei, você sabia que um velho acabou de dar em cima da Jay?
Não aguento e começo a rir na mesma hora.
— Jura?
— Para de rir, eu fiquei constrangida. – Jay bate no meu ombro.
— Perdão, não consigo parar, como foi isso?
— Eu vim perguntar a elas se queriam ficar aqui no clube até de tarde e Mel tava morrendo de rir, eu achei que ela ia desmaiar.
— Ai ai, já tá doendo. – Mel manifesta, tentando parar de rir.
— Conta. – Peço encarecidamente.
— Eu tava aqui com a Mel, enquanto vocês duas estavam daquele lado, aí chegou um velho e disse: “oi, princesa, você quer dar uma volta comigo?” – Jay começa.
Mel se senta na borda da piscina, não se aguentando de rir.
— Aí eu evidentemente disse que não, então ele perguntou se eu queria almoçar com ele hoje, voltei a dizer que não e ele perguntou se eu namorava, ai pra ele ir embora eu disse que namorava com a Mel.
— Aí gente, sem condições. – Faith começa a rir também.
— E que casal, em? – Coloco mais lenha na fogueira.
— Pra você ver o que eu sofro. — Jay leva a mão a testa e balança a cabeça em negativa.
Saímos da piscina e nos secamos, cada uma trocou de roupa no banheiro e voltamos para a cadeira de praia em que tínhamos deixado nossas coisas.
— Eu esqueci de dizer, mas aquele biquini ficou perfeito em você. – Jay se dirige a mim.
— Ah! Obrigada, eu gostei bastante dele também.
— Cuidado! – Grita uma voz masculina.
Nem tive tempo de me virar e uma onda gigante bate em todas nós, olhamos para a piscina, todas ensopadas e agora as toalhas também.
— Desculpa aí, meninas, não queríamos assustar. – Um dos garotos que eu tinha visto antes saí da água perto de onde estamos, enxugando o rosto com as mãos.
— Tudo bem aí? – O garoto ruivo sai da piscina também e caminha para onde estamos.
— Não assustou. – Mel dispara, visivelmente chateada.
— Você ficou brava? – Ele questiona, apertando um pouco os olhos e inclinando a cabeça de leve.
— Brava não, mas agora não temos mais como nos enxugar. – Mel levanta a tolha que estava segurando e ela está pingando.
— Só um minuto. – O garoto que estava falando com a Melanie sai, pega uma toalha na outra cadeira e entrega para ela. – Fica com essa.
— Obrigada. – Mel agradece, mas parece meio recusa em aceitar.
— Desculpa, a gente não queria fazer isso. – O ruivo diz.
— Tudo bem. – Faith fala. – Vai secar, não é o fim do mundo.
— Kevin, deixa as meninas. – O garoto loiro grita do outro lado da piscina e começa a se aproximar.
Finalmente um nome para o garoto ruivo, olhando assim de perto ele é fisicamente atraente, alto, magro, sorriso bonito, olhos castanhos e algumas sardas, mas parece estar meio interessado na Faith ou talvez seja só impressão minha, não sei como reagir a essa situação, então só fico parada, assim como a Jay.
— Pega minha toalha. – Kevin pede para o garoto que está ao seu lado.
— Tá aqui. – Ele entrega duas toalhas para ele.
— Pra você. – Ele entrega uma para Faith. – E pra você. – E a outra para Jay.
— Obrigada. – Elas agradecem.
— Pode usar essa aqui. – O garoto loiro me entrega uma também. – Desculpa o inconveniente que eles causaram.
— Sem problemas. – Pego a toalha. – Obrigada.
Enxugo-me rapidamente e devolvo para ele, mas é obvio que não faz muita diferença quando suas roupas estão encharcadas.
— Qual o seu nome? – Jay pergunta para o outro garoto, o que havia saído da água primeiro e pego a toalha pra Mel.
— Que feio, vocês nem se apresentaram, deixa eu consertar isso, meu nome é Josh, esse ruivo alto aqui é o Kevin, o loirinho é o Mark, aquele na piscina é o Peter e o que tá no celular é o Levi.
É interessante pensar que me referi a pouco tempo a eles como estranhos e desconhecidos e agora estamos todos aqui socializando, mesmo se essa não era a minha intenção como Faith pode ter pensado.
— É um prazer, eu sou Jay.
— Faith.
— Melanie, mas só me chamam de Mel, normalmente. — Diz de uma forma meio desconfiada, mas não sei se essa é a palavra correta para a cara que ela está fazendo agora.
— Bonito nome. – Josh elogia.
— Sou a Mei. – Digo por fim.
— É um prazer conhecer todas vocês. – Josh abre um sorriso, ele parece ser o mais extrovertido dos meninos. – Vocês estão hospedadas aqui faz muito tempo?
— Desde ontem à noite. – Faith responde.
— Ela é a filha do dono. – Mark explica.
— Ah! Então vocês já se conheciam? – Josh volta a questionar.
— De vista sim. – Faith responde.
— Mas que coincidência. – Ele exclama. – Vão ficar até que dia?
— Na verdade, tínhamos pensado em sair hoje a tarde. – Mel responde seriamente.
— Já? – Kevin parece intrigado.
— Poxa, vocês não estavam sabendo da festa que vai ter na piscina bar?
— Piscina bar? – Pergunto, bem curiosa.
— Droga, eu tinha esquecido disso, hoje é a inauguração da outra piscina, a do hotel. – Faith bate a mão na testa.
— Então você precisa ficar aqui né? – Jay pergunta.
— Não é uma obrigação, mas geralmente compareço aos eventos do clube.
— Então vemos vocês lá. – Josh declara.
— Bom, talvez.
— Se vocês forem, vão estar acompanhadas? – Kevin pergunta.
— Você é bem direto. – Exclamo surpresa.
— Se eu não for, a oportunidade vai passar. – Ele devolve.
— Não estaremos. – Confesso.
— Mas isso não significa que precisamos estar, entende? – Mel dispara.
— Claro, eu sei, mas é bom porque ninguém fica sozinho.
— Não estamos sozinhas. – Mel joga novamente, rápida como um disparo de bala e áspera como uma lixa.
É bem estranho ver esse comportamento da Mel, ela geralmente é doce, amorosa, simpática e extrovertida, mas desde quando os garotos chegaram, a cara dela se fechou e eu nunca a vi tratar ninguém de forma tão ríspida. Em uma condição normal, ela estaria brincando e até contando piadas se deixassem, e o pior é que não consigo entender o que está se passando para poder ajuda-la.
— Não leve a mal, ela não quis chatear ninguém. – Faith diz depois de uma curta pausa. — Né, Mel?
— Desculpa. – Ela diz baixinho.
— Tudo bem, eu não quis insinuar nada, de verdade, só achei que seria divertido, se não quiser tudo bem, não tem problema. – Kevin continua.
— Não, tudo bem.
— Então, eu posso acompanhar você!? – Josh se direciona para a Mel.
Ele tem o cabelo preto, olhos azuis, mais baixo que o Kevin, mas não menos bonito, eu imaginei de cara que ele fosse convidar a Mel, mas como ela parecia meio irritada, ele nem tentou.
— Pode sim. – Ela confirma.
— E ai, gente!? O que tá rolando? O papo parece bom. – Levi chega e se apoia no ombro dos meninos.
— Não é da sua conta, Levi.
— Eu tô morrendo de fome, vamos comer alguma coisa.
— É a nossa deixa, meninas, vamos indo? – Faith pergunta.
— Vamos. – Respondo.
— Tchau, pessoal. – Jay se despede.
— Faith, eu posso acompanhar você? – Kevin pergunta quando estávamos saindo.
— Você não vai me suportar por muito tempo. — Ela diz rindo.
— Vale a pena tentar.
— Então nos vemos lá.
Nós saímos da piscina ainda totalmente encharcadas e agora que eu parei para pensar, não tenho nenhuma roupa para ir nessa tal festa. Voltamos para o quarto e eu começo:
— Podemos conversar sobre o quão estranho foi isso?
— Faith, quem são esses meninos? – Jay indagou.
— Eu só sabia da existência do Mark, mas os outros não conhecia, Mei que tava super interessada.
— Oi? Não, eu só queria saber quem eram eles.
— Mas admita que foi estranho você perguntar assim do nada.
— Ok, pode até ser, mas eu só fiquei curiosa.
— Foi muito estranho. – Mel declara.
— E agora vocês duas tem pretendentes...hm, arrasando todos os corações. – Insinuo para provocar elas.
— Eu aceitei porque tinha sido chata, mas não pretendo ficar andando com ele na festa, nem ficar com ele, nem nada.
— Eu nem vou ter como estar muito com o Kevin, vou ficar grande parte do tempo com pai, vocês acham que eles pareciam interessados?
— Eu acho que o Kevin e o Josh pularam na piscina daquele jeito justamente pra ter uma desculpa pra falar com as duas. – Jay conta sua opinião.
— Acha isso? – Mel pergunta.
— Sim, com toda certeza, deu pra perceber que eles dois queriam muito conversar com vocês. – Respondo.
— Será se estão pensando que vamos de casal por que demos uma chance pra eles? – Mel indaga.
— Olha, eu acho que você deixou beeem evidente que não estava interessada. – Alego.
— Mel, você parecia super estressada com a presença deles, aconteceu alguma coisa? – Jay pergunta.
— Não, é mais medo, a aproximação deles foi muito brusca e olha como ficamos. – Mel mostra sua blusa ainda úmida. – Eu fico um pouco receosa quando garotos chegam assim.
— Entendi, faz sentido até. – Faith se pronuncia.
— Você basicamente não gosta quando as pessoas dão em cima, né? – Jay tenta confirmar.
— Aham, mas acho que Mei se sentiu da mesma forma também.
— Não gosto muito de cantadas, mas nenhum deles fez isso comigo, então só observei. – Exponho.
— Ah tá, vai dizer que não percebeu o Mark!? – Mel começa.
— O que tem ele?
— Qual é Mei? Ele só não te chamou porque não viu chance, não parou de olhar pra você, aliás, você tem um chama pra loiros né? – Mel me provoca.
— Pode ir parando.
— Você daria uma chance pro Mark nessa festa? – Jay pergunta.
— Não, bom, creio que não. – Faço uma pausa. — Eu gosto do Jack.
— Tão fofa, Mei apaixonada. – Jay fala.
— Meninas, vamos tomar banho, eu não aguento mais ficar com essa roupa molhada. – Mel diz, pegando seu roupão para ir ao banheiro.
— A gente não tem como trocar de roupa pra festa. – Faith diz.
— Eu já tinha pensado nisso, o que fazemos? – Pego a roupa que tinha comprado ontem. – Não da pra usar isso, né?
— Não, não vai ser tão casual. – Faith parece pensativa.
— Bom, podemos ir em casa pegar ou comprar no shopping. – Jay sugere.
— Eu acho que vou pegar alguma coisa em casa depois do banho, vou e volto em uma hora.
Jay e Faith decidiram comprar um vestido no shopping com a Mel quando ela terminou o banho, sinceramente não sei se tenho dinheiro o suficiente para gastar com isso agora que me mudei. Então eu decidi ir em casa pegar um vestido e voltar bem rápido para poder me arrumar com elas, depois que tomamos nosso banho, fomos almoçar no restaurante. Vi Kevin passando para ir ao banheiro, então deduzi que os meninos também teriam ido almoçar, mas não encontramos com eles, na verdade estou feliz por não encontrar com eles.
Quando Mel falou que o Mark estava olhando pra mim não pude deixar de pensar nisso, ele é um garoto loiro de olhos azuis, menor que o Kevin, mas deve ter seus 1,80, bonito e parecia ser o mais racional de todos eles. Não vou dizer que não achei ele interessante, eu estaria mentindo descaradamente, porém, talvez minha atração seja só porque ele me lembra um pouco com o Jack, só que mais quieto.
Não sei, eu nem o conheço, tudo é só uma suposição da Mel, entretanto, se ele realmente quiser estar comigo ou ficar comigo? Isso parece loucura, cinco caras legais surgindo do nada. Pode ser uma coincidência da vida ou uma situação engraçada, se bem que as coincidências me amam, visto que sempre me atingem, um típico clichê, que eu nunca acredito estar acontecendo de fato.
Almoçamos e voltamos para o quarto.
— Eu vou indo, encontro vocês mais tarde, boas compras.
Pego minhas coisas e seguro a maçaneta para abrir a porta quando a Faith profere:
— Mei, se você encontrar com a Jennifer ou com o Jack, lembre-se de manter o plano.
— Não se preocupem, vou manter o que combinamos.
— Então até mais tarde.
— Até.
Saio do quarto, vou até a entrada do clube e pego o táxi mais próximo, o trajeto não é tão demorado, fico mexendo no celular e falando com o motorista de vez em quando, mas quando penso que posso encontrar o Jack ao descer do carro fico um pouco nervosa. Porque, agora, sei de tudo que aconteceu e minha vontade notoriamente seria contar tudo para ele, despejar o que me aconteceu e o que Mel e Faith me contaram.
Contudo, eu sei que o Jack não acreditaria em mim, quem eu sou perto da namorada dele? Só uma antiga vizinha, colega de escola, nada mais. Ele parece ser muito apaixonado por ela e não se deixaria acreditar, por isso eu tenho que seguir o plano, tenho que fazer como foi combinado.
O táxi para, eu pago e recebo o troco, abro o portão pequeno e passo pelo caminho do jardim até chegar na porta. Até aqui tudo bem. Entro em casa e subo para o quarto; eu nunca fui em uma das festas que o pai da Faith deu, até porque eu não tinha idade para isso, agora que estou perto de fazer 18 me sinto bem mais livre com relação a muitas coisas. Minhas amizades amadureceram, meus relacionamentos, meus pensamentos... e morar só é uma grande coisa, acho que a forma como eu via a vida e como eu pensava em ter um namoro, antigamente, são completamente diferentes de como eu enxergo hoje em dia.
Por isso, eu me sinto mais determinada a lutar contra a Jennifer, mesmo com as suas ameaças, penso sobre isso enquanto me vejo com um vestido preto na altura da coxa com decote coberto por uma fina renda. Pego o salto dourado e o vestido, minha paleta de maquiagem e coloco tudo na bolsa, além de outras coisas que eu possa precisar. O pijama eu deixei no clube, mas escolho mais duas roupas intimas, prendedor de cabelo e carregador para o celular, inclusive, estou surpresa que o meu tenha aguentado um dia inteiro sem recarga.
Confiro se não deixei nada ligado na tomada e tranco a porta para sair de casa, quando piso no jardim, lembro que dispensei o táxi.
— Droga. – Falo sem pensar. – Eu sou muito burra.
Ligo meu celular e começo a baixar um aplicativo, torcendo para que o celular não descarregue até o download completo. Como um lampejo, uma ideia me veio a mente, uma forma de adiantar o plano.
Saio de casa, tomando cuidado para não esquecer de fechar o pequeno portão.
— Jack. – Grito, em frente a casa dele.
Sem resposta, grito de novo.
— Já vou.
A porta se abre e ele surge, um sorriso se abre em seus lábios e me pego sorrindo também, não consigo disfarçar.
— Tudo bom? – Pergunto.
— Tudo e com você?
— Mais ou menos, desculpe te incomodar, mas eu preciso de ajuda... de novo.
— Você está destacando muito a parte do “de novo”.
— É que eu peço sua ajuda sempre, se torna meio chato, não acha?
— Não, você não me incomoda. – Ele faz uma pausa. — Pode entrar.
— Obrigada. – Agradeço e entro no jardim. – Posso me sentar aqui? – Pergunto apontando para o pequeno sofá da varanda.
— Você não vai querer entrar?
— Não precisa, eu só ia pedir pra você chamar um táxi pra mim, meu celular está em 19% e ainda nem baixou o aplicativo.
— Ah! Só isso? Posso sim, deixa eu pegar meu celular. – Ele entra em casa. – Se você quiser entrar, sinta-se à vontade.
— Já que insiste.
Entro na casa, algumas decorações mudaram, mas a casa continua bonita e bem limpa, Jack desce as escadas e com o celular em mãos.
— Então, você está indo pra onde?
— Pro clube do pai da Faith.
— Ah! Eu fui lá há dois anos, estava bem legal.
— Acredito que agora está muito mais elegante, hoje vai ter uma inauguração da piscina bar.
— Hm, então vai rolar uma festa?
— Vai, eu vim aqui justamente pegar um vestido.
— Faz todo sentido, eu vou chamar o táxi logo para você não se atrasar.
— Ok, obrigada.
— Não precisa agradecer Mei, eu vou te ajudar quando precisar.
— Jack, você sabe que pode contar comigo também, né?
— Claro, somos bons vizinhos.
Bons vizinhos... achei que ele fosse dizer pelo menos bons amigos, mas é de se esperar que ele não pense como eu, afinal nos reencontramos a poucos dias, isso não consistiria em uma boa amizade, não é?
— Deu certo? – Pergunto, me referindo ao táxi.
— Deu sim, ele está um pouco longe, mas acho que não vai demorar tanto, aqui diz vinte minutos, quer que eu cancele e chame outro?
— Não precisa, esse é provavelmente o que está mais perto, vou esperar.
Sento-me no sofá, ele me traz um suco de melão e se senta ao meu lado, ficamos em silencio por um tempo até que Jack resolve falar:
— Mei...
— O que foi? — Viro-me em sua direção.
— Eu queria te perguntar uma coisa meio pessoal, se você não se importa.
Meu coração para, sinto um frio na barriga, que tipo de coisa pode ser? Pela cara dele parece ser bem sério, Jack me olha como se precisasse se concentrar e inicia:
— Naquela época que estudávamos na mesma escola.
— O que tem?
— Você nunca chegou a ir à minha casa, né?
— Essa é a sua pergunta pessoal!? – Pergunto rindo. – Não, nunca tinha ido na sua casa, mas ela devia ser igual a minha por dentro, não?
— É porque você não se lembrava do meu pai, não conheceu minha mãe?
— Bem, não lembro de ter encontrado com seu pai, mas não descarto a possibilidade, nossos pais se conheciam, tenho certeza, então eu achei que ele poderia me reconhecer, mas eu vi sua mãe na escola na entrega dos boletins uma vez.
— É que meus pais estão se separando. – Ele diz pausadamente, com um olhar distante, me sinto golpeada, não sei como reagir, lembro quando isso aconteceu com os meus pais, eu fiquei triste e com raiva, demorou para que eu fosse capaz de compreender o motivo.
— Como você está lidando com isso? – Pergunto, me aproximando dele.
— Não sei, eu não contei pra ninguém ainda, sinta-se privilegiada. – Ele brinca.
— Ô Jack...
— Eu gostaria de saber o aconteceu de verdade, minha mãe me ligou chorando e dizendo que pai tinha traído ela, mas não sei quando aconteceu, com quem, onde foi e nem como foi. Queria poder ouvir o que ele tem pra me dizer, mas simplesmente não consigo mais contato com ele.
— Eu vou te dizer uma coisa, porque eu passei por isso... Vai doer, principalmente porque nunca esperamos uma coisa dessas, talvez você tenha pensado em como ele foi capaz de fazer isso com sua mãe e ok, é um pensamento comum. O melhor a fazer é tentar por a cabeça no lugar, colocar tudo pra fora, seja contando pra alguém ou rasgando papel na força do ódio.
— É uma boa ideia. — Ele ri.
— Depois você tenta conversar com sua mãe, calmamente, vê como ela está, tente ajudá-la a passar por isso e não desista de falar com o seu pai, uma hora ele vai te responder.
— Obrigado, é realmente muito bom poder falar com você, eu queria fazer isso mais vezes.
— Eu adoraria, sua companhia é ótima.
— Somos amigos, né?
— Somos sim.
— É uma pena que não tenhamos aproveitado isso antigamente.
— Talvez o fato de você ser meu vizinho de novo seja o universo querendo que a gente conserte isso ou apenas você me perseguiu, que é uma possibilidade também.
— Eu aposto mais na primeira teoria. – Um sorriso se abre em seu rosto.
Uma buzina ressoa alto, nos tirando desse momento.
— Deve ser o táxi, eu já vou, obrigada de novo.
— Eu que agradeço, vou tentar colocar minhas ideias no lugar, te aviso depois sobre como as coisas estão indo.
— Claro, você também é bem-vindo na minha casa, apareça quando quiser.
Nos despedimos com um tchau e acenar de mãos, entro no carro, olho meu celular e como imaginei ele está descarregado, não sei quanto tempo demorei no total, se as meninas tiverem me ligado é capaz que pensarem besteira, visto o que aconteceu ontem com Jennifer. E falando nela, é engraçado pensar que nessa conversa o Jack sequer a mencionou, será se pelo fato de termos introduzido um outro tipo de assunto? E ele realmente disse que somos amigos... parece que as coisas estão melhorando, de bons vizinhos para bons amigos, soa como evolução pra mim e também um passo a mais para a conclusão do plano.
Não consigo evitar de pensar que o dia de hoje está indiscutivelmente longo, parece que vivi esse dia três vezes, tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo, mas, claro, pode ser só a minha cabeça que está um pouco cheia de informação e de sentimentos. O táxi para em frente ao clube, eu pago o valor certinho para não ter que esperar pelo troco, agradeço e entro na recepção.
“Agora é hora de me preparar para a festa”, é o último pensamento que me invade enquanto abro a porta do quarto.
Fale com o autor