Meu querido sonâmbulo 2
20 Minha querida provocação
Notas iniciais
— Onde está a minha bola de tênis? — Min Yoongi perguntou pela segunda vez, agora se aproximando a passos lentos e desconfiados da mesinha de cabeceira onde ele mantinha intacta a tal bola. — Ela deveria estar aqui.
Desde que Namjoon desaparecera, não fazendo nenhum tipo de contato há praticamente dois dias, ninguém mais havia estado naquele apartamento com exceção do próprio Yoongi. Ninguém além da polícia, claro, que invadira a habitação com oficiais que alegavam estarem respaldados por um mandato contra Namjoon. Reviraram a sala de estar, cozinha e, principalmente, o quarto do Kim de ponta-cabeça, não conseguindo vasculhar apenas o quarto do Min. Havia um homem engravatado e de postura arrogante que afirmava estar à frente de tudo e, se apresentando como Promotor Lee, tentou forçar a entrada no único cômodo da casa que estava trancado com chave, mas Yoongi alegou conhecer os seus direitos e conseguiu manter os oficiais afastados daquilo que denominou como sua propriedade privada. Ambos acabaram conquistando a antipatia um do outro logo de primeira, porém, o promotor foi embora depois de um tempo sem encontrar nada que lhe fosse útil, mesmo que inconformado e irritado.
Depois do episódio, Yoongi arrumara de volta a maioria dos cômodos do apartamento, porém, ninguém mais havia estado ali. Não que ele soubesse, ao menos. Olhou em volta e, pelo menos no seu quarto, tudo parecia estar fisicamente no seu devido lugar, com exceção da bola de tênis desaparecida. Mesmo assim, algo ainda parecia estranho e, no fundo, ele começou a ter a sensação de que estava sendo vigiado. E, de repente, uma resolução o atingiu em cheio feito um estalo oco e desesperado.
Debaixo da sua cama.
Às pressas, Yoongi se abaixou ao lado da sua cama e, tateando o chão, logo a ponta dos seus dedos encontraram a textura de couro da bola de tênis. Agarrou a mesma e, quando a puxou de volta, percebeu que não havia nada de errado com o objeto que, um dia, fora autografado diretamente pelo seu tenista preferido; porém, o que preocupava o Min não era a bola em si, mas sim o local onde ela havia sido encontrada. Por isso, Yoongi colocou a tal bola de qualquer jeito sobre a cama e voltou a tatear o chão, desta vez indo de modo certeiro até o lugar que realmente lhe interessava. Moveu ambos os pisos em falso, revelando para si mesmo o seu esconderijo e logo tirando dali a caixa de madeira antiga e de tamanho mediano, o real motivo da sua inquietação naquele momento. Abriu e, no mesmo instante no qual se deparou com aquela cena, sentiu um misto de pânico e ódio lhe consumir dos pés à cabeça.
Completamente remexida. Os dois frascos de remédio que havia escondido ali pouco antes da polícia chegar para vasculhar o apartamento ainda pareciam intactos, porém, a seringa havia sido mexida, o pequeno lembrete que havia escrito para si mesmo também não estava dobrado como o Min havia deixado e, por fim e o pior de todos, o pequeno e mais precioso frasco daquela caixa havia desaparecido.
— Droga. — Yoongi murmurou para si mesmo com a respiração irregular.
Quem poderia ter sido o infeliz a mexer nas suas coisas? O único além do próprio Yoongi que tinha acesso àquele apartamento era Namjoon, porém, mesmo se o Kim tivesse arriscado a própria liberdade para voltar à habitação, ele jamais teria descoberto aquele esconderijo. A porta da frente não parecia ter sido arrombada ou nem mesmo forçada, então, o invasor estava de posse de alguma espécie de chave-mestra ou, pior seria, de uma cópia da chave da porta da frente. Contudo, se a polícia já havia investigado o que queria ali, quem ainda teria motivos para revirar o local, em especial o quarto de Yoongi?
— Kim Shinhye.
O nome da terapeuta deixou os lábios do Min num sussurro recheado de certeza e ódio. Haviam algumas outras possibilidades e, talvez, até mesmo outros pouquíssimos suspeitos na sua lista, mas ele estava certo de que era Shinhye quem estivera ali. Ela era a única que, até então, tinha deixado suas suspeitas bem claras e ainda fizera questão de enfrentá-lo pessoalmente. E era, também, a única louca que Yoongi sabia ter coragem suficiente para fazer aquilo.
Mas ela tinha ido longe demais daquela vez.
Irado, Yoongi colocou todos os pertences de volta na caixa e a lançou para debaixo da cama sem se preocupar com o seu estado ou para aonde ela iria — afinal de contas, aquilo já não importava mais. Colocou-se de pé sem se dar ao trabalho de pôr os pisos que camuflavam o esconderijo de volta no lugar, porém, antes que pudesse tomar qualquer atitude, foi impedido pelo toque simples e contínuo do seu celular. Irritado, ele sacou o aparelho do bolso prestes a desligar a ligação, mas o nome do seu chefe piscando na tela do mesmo o fez pensar duas vezes.
Bufou.
Talvez devesse colocar aquele maldito na sua lista também.
— Sim, Sr. Woo. — atendeu com o mínimo de má vontade possível, o que ainda não foi suficiente para disfarçar todo o seu descontentamento.
Do outro lado da linha, o homem de meia idade berrou a plenos pulmões enquanto reclamava da ineficiência do Min que, além de ter esquecido em casa um documento de extrema importância para si, ainda tinha a coragem de demorar todo aquele tempo para ir buscá-lo. Como de costume, ameaçou demitir o técnico em manipulação de remédios, levando o mesmo a afastar o celular do rosto durante alguns segundos de alívio.
— Está bem, Sr. Woo. — Yoongi apenas concordava, por mais que o homem ainda estivesse listando as suas reclamações do outro lado da linha. — Eu já estou voltando. Sim, já estou chegando.
Pouco tempo depois, ele finalmente encontrou a brecha da qual precisava para desligar o telefone e, assim, se ver livre daquele mercenário o qual chamava de chefe — pelo menos até que voltasse para o laboratório e precisasse encará-lo pessoalmente e de cabeça abaixada. Yoongi respirou fundo e fitou a bola de tênis jogada sobre a cama. Se não fosse pela mesma, só teria descoberto sobre a invasão do seu quarto mais tarde, quando precisasse fazer uso do pequeno frasco roubado; ou do seu conteúdo, mais especificamente.
— Isso não vai ficar assim. — o Min afirmou, sério.
Porém, primeiro de tudo, precisaria recuperar o que perdeu do jeito mais discreto possível, sem denunciar que já sabia que tinha sido roubado. Só então, depois de finalizar com sucesso a próxima etapa do seu plano, é que poderia tirar um tempinho para cuidar de Shinhye e de toda aquela sua intromissão.
Pegou o celular e discou o único número que lhe interessava naquele momento. Depois de um par de toques, a pessoa do outro lado da linha atendeu com uma voz baixa e rouca.
— Aquilo que você me arrumou na semana passada... Eu vou precisar de outro. — foi a primeira coisa que disse, dispensando qualquer tipo de cumprimento. Estava com pressa e, por isso, passou a mão no tal documento que viera buscar e já se dirigiu em direção à porta do quarto, isso enquanto escutava um protesto contrariado do outro lado da linha. — Não interessa o que aconteceu, eu preciso de outro frasco. E precisa ser para hoje à noite.
Yoongi bateu a porta atrás de si e, poucos segundos depois, também estava batendo a porta da frente, dessa vez sem se sentir na obrigação de trancá-la. Um silêncio ensurdecedor se instaurou no apartamento, porém, somente até os primeiros ruídos começarem a serem ouvidos vindos do quarto do próprio Yoongi. Procurando por algum ar para que conseguisse voltar a respirar normalmente, Shinhye abriu a porta do armário onde estava escondida e, num ato desesperado, acabou se jogando de joelhos no chão. Seu peito subia e descia irregularmente quando ela percebeu que, na verdade, o ambiente fechado e claustrofóbico do armário do quarto não era o único causador da sua instabilidade.
Pânico. Pela primeira vez, a Kim tinha sentido tamanho pavor em sua vida, em especial por causa de Yoongi. Nunca tinha se dado bem com o Min e já desconfiava do mesmo há algum tempo, porém, Yoongi nunca tinha lhe dado medo realmente como naquele momento. Toda a situação ajudava, claro, mas aquela também foi a primeira vez na qual Shinhye percebeu com clareza o quão perigoso o colega de quarto de Namjoon era — e o que poderia ter acontecido caso ele a descobrisse escondida no seu armário.
Precisava sair dali o mais rápido possível, porém, não queria deixar o apartamento tão às pressas ao ponto de tragicamente acabar esbarrando em Yoongi em algum lugar da vizinhança. Precisava ter cuidado, afinal, tinha escutado o Min sussurrar o seu nome ao encontrar seu esconderijo violado e sabia muito bem o que aquilo significava. Por isso, Shinhye focou em se recompor e, depois de conseguir normalizar a respiração e parte dos batimentos cardíacos, ela se colocou de pé e resolveu esperar por alguns minutos antes de ir embora, ainda que aquilo também fosse um tanto arriscado.
De repente, a Kim sentiu o celular vibrar no bolso traseiro da calça e, naquele momento de apreensão, chegou a se assustar com o mesmo. Puxou-o de lá e, quando viu o nome de Haechan aceso na tela do aparelho, pensou duas vezes antes de atender — porém, como já tinha falado com o assistente naquela manhã, ela imaginou que deveria se tratar de algo urgente, porque caso contrário ele não teria sequer ligado.
— Alô? — ela atendeu num tom de indagação sem nenhum motivo em específico.
Optou por sussurrar, já que não fazia ideia do que esperar vindo de Yoongi.
— Desculpe incomodar, Dra. Kim, mas... nós temos um problema aqui na clínica. — o Lee também sussurrava, mas ele tinha os seus motivos específicos.
Não queria que aquele pequeno par de olhos assustadores e fixos em si captassem nada mais do que deveriam.
— Mais um... — a Kim murmurou para si mesma, cansada. — O que aconteceu?
— Bem, por enquanto nada, mas está prestes a acontecer. — o assistente respondeu. — A polícia está aqui, Dra. Kim.
— Polícia?! — indagou espantada, logo voltando a se recompor. — O que eles querem?
— Disseram estar atrás de um tal de Kim Namjoon. Como eu não sei de nada sobre isso, achei melhor ligar para você.
Haechan estava mentindo e Shinhye podia dizer aquilo apenas pelo telefone. O Lee tinha uma memória invejável e inabalada, então, certamente, não teria esquecido de já ter escutado aquele nome saindo da boca da chefe uma vez, muito menos da ligação que tinha feito para o hospital em Daegu atrás de informações sobre o mesmo. A Kim não fazia ideia do porquê ele estava fazendo aquilo, mas agradeceu mentalmente pelo alívio.
— E quem exatamente está aí, Haechan? — a Kim perguntou um tanto hesitante, claramente com medo da resposta que receberia.
— Há alguns oficiais e um promotor que se identificou como responsável pelo caso. — o Lee afirmou. — Ele se apresentou como Promotor Lee Jihoon.
Shinhye gelou, porém, não era como se já não esperasse por aquilo. Naquela altura do campeonato, Jihoon já deveria saber que a Kim era a responsável pela clínica e deveria estar esperando por ela com todo o prazer do mundo.
A terapeuta respirou fundo, decidida.
— Eu estou indo para aí agora. — disse, firme. — Enquanto isso, não faça nada que eu não faria, Lee Haechan.
***
Quando chegou na clínica, pouco mais de meia-hora depois de finalizar a ligação com Haechan, Shinhye deixou o carro no estacionamento privado do local e desceu em disparada do mesmo, porém, parou no meio do caminho ao perceber que chegar daquele modo apenas porque haviam alguns policiais no seu local de trabalho não lhe seria nada favorável. Assim, ela respirou fundo e passou a caminhar com mais tranquilidade, o par de tênis de corrida azul-marinho não emitindo praticamente nenhum barulho contra o chão de cimento. Alcançou a porta envidraçada da frente e, logo depois de empurrar a mesma, já se deparou com dois policiais que pareciam estar fazendo algum tipo de escolta ou vigília na recepção. Ao lado do par de oficiais, estava um Haechan que lutava a todo custo consigo mesmo para não deixar transparecer o quão nervoso estava com tudo aquilo e que, quando viu a chefe adentrar na clínica pela porta da frente, correu até a mesma como se estivesse vendo a sua própria mãe ali.
— Dra. Kim. — ele chamou ao alcançá-la, porém, não soube o que dizer em seguida.
— Você tem cinco segundos para me dar um relatório completo sobre o que aconteceu aqui antes da minha chegada. — a médica sussurrou para o assistente, séria.
Prontamente, Haechan se dispôs a atender àquela ordem com perfeição.
— Eles chegaram há mais ou menos uma hora procurando por Kim Namjoon. Diz o promotor do caso, o tal Lee Jihoon, que sabe que ele é seu paciente, por isso exigiu falar diretamente e somente com você. Além do promotor, são quatro policias.
O assistente não teria sido tão preciso se estivesse cronometrando o tempo, finalizando suas explicações na marca exata dos cincos segundos que lhe foram dados. Quando terminou, Shinhye apenas balançou a cabeça em um sinal de concordância, já visando colocar em prática o que havia planejado no caminho até a clínica.
— Quanto tempo, Kim Shinhye.
Já fazia alguns anos que Shinhye não escutava aquela voz rouca feito a de um fumante crônico, porém, a terapeuta jamais teria esquecido a quem a mesma pertencia. A figura baixa — afinal, o Lee era cerca de dez centímetros mais baixo do que a própria Shinhye — não deixava de ser menos imponente por causa do seu tamanho; muito pelo contrário, havia piorado ao longo do tempo. Os cabelos escuros estavam perfeitamente arrumados em um topete baixo e, como de costume, Jihoon usava um terno da mesma cor, quase beirando a um tom de preto bem lustrado. Para completar, ele ainda tinha a mesma pele incrivelmente alva e os olhos minúsculos da época que a Kim o conhecera, ainda na academia de polícia.
Ele vinha do interior da clínica e, passando entre os dois policiais que pareciam enraizados na recepção, fez questão de alcançar Shinhye até ficar a apenas alguns passos de distância da mesma. Sorriu de canto e assustadoramente, mas não o suficiente para intimidar a Kim.
Ela tinha prometido para si mesma que não permitiria que aquilo acontecesse.
— Infelizmente, não posso dizer que senti saudades. — foi a primeira coisa que a terapeuta disse, imitando a ironia do outro.
Mesmo contrariado, Jihoon riu.
— Pois bem, quem diria que nós nos encontraríamos novamente, ainda mais em uma situação como essa? — questionou, ignorando completamente o que a Kim tinha acabado de dizer. Em seguida, deu um passo para frente e fechou por completo o sorriso curto que tinha no rosto até então. — Eu estou aqui porque um dos seus pacientes está sendo procurado por assassinato, Dra. Kim. Por duplo homicídio a sangue frio, mais especificamente.
— E você tem um nome para me dizer? — Shinhye rebateu, aparentemente nem um pouco abalada pelo o que tinha acabado de ouvir.
No caminho até a clínica, ela pensou em fingir espanto e negar tudo, porém, Jihoon logo perceberia que se tratava de uma completa farsa. O rosto de Namjoon já estava estampado em todos os noticiários, por isso, ela preferiu não se fazer de desentendida e carregar a situação da melhor maneira possível.
— Kim Namjoon. — Jihoon respondeu, firme, e esperou por uma reação que acabou não vindo. — Esse nome a faz lembrar de alguma coisa?
Por um par de segundos, Shinhye se permitiu desviar os olhos do promotor e parecer pensativa. Porém, em seguida, logo se voltou para ele novamente.
— Na verdade, faz sim, mas eu sinto muito em ter que frustrar as suas expectativas. — respondeu. — Kim Namjoon não é meu paciente ou de nenhum outro médico dessa clínica.
Apesar de aquela ser uma resposta já esperada e estudada no treinamento da polícia, Lee Jihoon não esperava ouvi-la da boca de Shinhye.
Ela não era do tipo que negava o óbvio.
— Não foi o que disse o Hospital Geral de Daegu. — ele rebateu e arqueou uma sobrancelha um tanto sugestiva. — Durante a investigação, nós ouvimos de uma enfermeira que alguém da sua clínica ligou para solicitar o histórico médico de Kim Namjoon, um paciente em potencial.
Poucos passos atrás da Kim, Haechan sentiu sua frágil base estremecer; afinal, era ele quem tinha feito aquela ligação.
— Exatamente. — a terapeuta foi rápida em afirmar. — Paciente em potencial. Eu suponho que você saiba o significado dessa palavra, certo, Promotor Lee?
O questionamento irônico atingiu o ego de Jihoon, que nitidamente não estava muito satisfeito em ouvir aquilo. Amargamente, ele deixou um riso nasalado escapar de propósito.
— Então, você está me dizendo que ligou para o hospital para pedir o histórico médico do suspeito e, depois de analisar tudo, o recusou como seu paciente? — o promotor indagou, frisando a palavra-chave daquela história. — Isso parece um tanto estranho para mim.
Pois bem, aquele era o exato momento no qual Shinhye precisaria começar a mentir para um dos maiores e mais escorregadios mentirosos que ela já tinha conhecido em sua vida. Por isso, ela se esforçou ao máximo para não mudar absolutamente nada na sua linguagem corporal, sequer respirando fundo uma vez.
— Estranho ou não, foi exatamente isso que aconteceu. — a Kim respondeu, firme. — Eu conheci o Namjoon na cafeteria aonde ele trabalha, a qual eu frequento há algum tempo. Certo dia, nós conversamos no balcão e, quando ele descobriu com o que eu trabalhava, me pediu ajuda. Eu fiquei de analisar o caso dele com mais cuidado, por isso liguei para o Hospital Geral de Daegu procurando pelo histórico dele. Porém, quando ele finalmente veio aqui na clínica para uma avaliação, alegou que não teria dinheiro para pagar o tratamento e eu o mandei embora por causa disso. Fim da história.
Outra risada amarga.
— Por dinheiro? — Jihoon questionou, cético. — Você o recusou como paciente por dinheiro?
Ao ouvir aquilo, foi a vez de Shinhye de dar um par de passos para frente, na direção de Jihoon. Além do canto da boca, ela ergueu junto uma sobrancelha sugestiva.
Aquela era a deixa exata da qual ela precisava.
— Certa vez, alguém me disse que tinha feito um juramento a serviço da pátria, mas que isso não incluía fazer caridade. — disse, séria. — Nós podemos não atuar mais no mesmo campo, Lee Jihoon, mas a sua lógica até que me serve bem hoje em dia.
Outro passo adiante, dessa vez dado pelo Lee.
— Você acha que consegue me convencer com isso? — questionou em um sussurro, o que só aumentou a tensão entre os dois.
— As pessoas mudam, oras. — a Kim deu de ombros sem se deixar abalar. — Hoje eu entendo o porquê de você, desde sempre, ter colocado a sua própria ganância acima do que realmente deveria ser prioridade. Caridade não alimenta as pessoas, não era isso que você também dizia?
Todo o corpo de Jihoon se tensionou ao ouvir a provocação de Shinhye, ainda que ela estivesse fazendo uso de um tom relativamente neutro enquanto falava; justamente para provocá-lo ainda mais, no caso. E ele chegou a cerrar o punho direito tamanha a raiva que suprimia naquele momento, porém, se forçou a respirar fundo até conseguir relaxar as têmporas, assim como o restante do seu corpo.
Se a intenção de Shinhye era vencê-lo com jogos mentais, ela precisaria de algo bem mais certeiro e eficiente do que aquilo.
— Essa foi uma boa tentativa, Kim Shinhye. Mas, infelizmente, chega a ser deprimente o fato de que você realmente esperava que eu fosse cair nas suas provocações. — disse com o seu típico tom arrogante. — Eu sei que você está mentindo para mim sobre o Namjoon, mas não demorarei a descobrir a verdade. Num golpe de sorte, posso acabar indiciando os dois juntos, quem sabe.
— Sorte é o que você vai precisar para ao menos concluir essa investigação. — a Kim foi rápida em rebater. — O que eu realmente esperava era, no mínimo, que você estivesse no caminho certo, mas o que eu vejo aqui é um tanto frustrante. Apesar de continuar sendo um completo canalha, o seu instinto já foi muito melhor, Lee Jihoon.
A troca de farpas sussurradas finalmente chegou ao fim quando, mesmo irritado e contrariado, o promotor não soube como responder à altura aquela última e repentina ofensa disfarçada de alfinetada. O fato era que Shinhye parecia saber muito mais do que a história que tinha contado e, por isso, o Lee resolveu dar a sua resposta a desmascarando, permanecendo em silêncio naquele momento em específico.
Já a Kim, por sua vez, fez questão de exibir um curto sorriso vitorioso para Jihoon antes de finalmente se virar para o seu assistente.
— Vamos até o meu escritório, Haechan. — disse, simples. — Eu preciso de um favor seu.
Sem entender nada, o mais novo correu os olhos de um lado para o outro.
— Mas a polícia...
— Eles já estão de saída. — Shinhye respondeu ao questionamento do assistente antes mesmo que ele pudesse terminá-lo e, então, voltou-se para Jihoon mais uma vez. A última pelo menos naquele dia, ela esperava. — Infelizmente, não há nada aqui que possa ajudar os oficiais.
Dito isso, Kim Shinhye passou pelo Promotor Lee sem nenhum tipo de despedida e logo o deixou para trás, desejando firmemente que nunca mais precisasse encontrá-lo.
Ainda que aquele fosse um desejo estupidamente ingênuo.
Fale com o autor