Meu querido diário
81 O canto dos pássaros
Notas iniciais

— Eu passei a viagem inteira acreditando que ele havia desistido. Nem uma mensagem, nem e-mail, nem nada, provavelmente tenha tentado me ligar, mas nem isso conseguiu porque estou sem celular – Comentei chorosa.
— Me desculpa, sei que não tinha esse direito, só fiz o que achei melhor para você.
— Eu sei Maga, só estou confusa – Respondi sinceramente – Recebi uma proposta de estender minha viagem por exatamente um ano.
— NOSSA! Como assim? Me conta tudo. Você vai aceitar? – Ela perguntou eufórica.
— Então... – Comecei a falar, mas fui interrompida pelo barulho de um e-mail chegando.
—-
— Depois eu te ligo novamente, acho que ele acabou de me mandar um e-mail – Contei desligando a chamada eufórica, para não dar a oportunidade de ela questionar.
Abri um tanto afobada a caixa de entrada conforme sempre fazia, era praticamente um exercício diário, um hábito adquirido desde a faculdade. De imediato percebi que nenhum e-mail constava sem leitura, cliquei em atualizar pelo menos três vezes, permanecendo sem sucesso nas minhas ações. Chequei a conexão, reiniciei o notebook, tornei a pesquisar no spam ou alguma outra pasta e nada. Fiquei encafifada e por alguns segundos cheguei a pensar que de tanto desejar contato, eu havia sonhado com aquele pop-up que havia aparecido na tela do meu notebook.
Tentei acessar pelo celular, porém não obtive novidades, vasculhei mais um pouco o laptop e somente após olhar minuciosamente que percebi um aviso de caixa de mensagens cheia, no cantinho inferior da tela. Ao notá-lo minha primeira impressão foi de surpresa, uma vez que eu e a Magali limpávamos meu e-mail de trabalho todos os dias e acompanhávamos absolutamente tudo que passava por ele, mas após clicar em cima do recado, entendi num piscar de olhos tudo que estava acontecendo. O primeiro endereço de e-mail que eu tinha feito na vida para postar histórias, havia sido cadastrado exatamente ali, naquele notebook, como padrão. Não mais o usei e também por isso demorei a ver a proposta da Aprel na primeira vez que a recebi.
Um pouco antes das minhas escritas começarem a ser reconhecidas, fiz um e-mail novo e após o reconhecimento criei um profissional, desde então nunca mais havia acessado aquele, o deixando esquecido.
Um tanto animada com a lembrança, corri para o aplicativo escondido, há muito tempo não usado, o abri e sorri com a confirmação da minha dedução. Inúmeros e-mails não lidos surgiram na tela, mas os únicos que me chamaram atenção foram os de remetente “Cebola”. Cerca de 25 e-mails dele estavam espalhados por entre a caixa de entrada, exatamente um para cada diazinho daquele mês, desde o meu embarque.
Quis me bater por não ter os lido antes, ele devia imaginar que eu tinha o esquecido ou algo do tipo. Era lógico que ele mandaria naquele endereço, era o único que tinha, sem contar que havia me ajudado a cadastrar anos atrás quando me incentivou a postar minha primeira história.
Sem mais perder tempo, respirei fundo, preparando dentro do possível meu emocional, e enfim comecei a ler, um por um. Não vi o tempo passar, não vi a chuva começar a cair do lado de fora, nem mesmo me atentei para a cortina que encharcava com os respingos de água.
Não conseguia desligar meu foco daquelas palavras descritas com tanto sentimento, a cada novo email, era um nó a mais que se formava em minha garganta, pedacinho por pedacinho, meu coração foi quebrando, até chegar ao último.
“Oi Mel, Monica, minha paixão, meu grande amor. Não foi fácil me decidir por mandar mais esse e-mail, até porque não sei se ainda pensa em mim, mas senti que era necessário.
Tentei te ver antes da sua viagem, mas parece que o destino não nos quer juntos não é? Cheguei minutos depois que você já havia embarcado. Mais uma vez nos separamos sem termos a chance de sequer tentarmos fazer dar certo. Ora por falta de tempo, ora por oportunidade, ora por compromissos, ora por responsabilidades. E ainda assim, mesmo com tudo isso, que sempre houve, eu jamais me questionei se era realmente essa história que eu queria para minha vida. Eu sempre soube que era você, sempre foi você, sempre será você.
Não tive noticias suas, a não ser perguntando para o Titi ou para o Cascão, tentei te ligar e mandar mensagens, mas como deve perceber não obtive sucesso. Não sei como gostaria de entender isso, mas senti um alívio quando seu irmão me explicou que estava sem comunicação por ai. Então resolvi apelar para e-mails, todo mundo os lê não é?! Mas ainda assim, não tive resposta alguma. Não estou triste, estou feliz, porque sei que você está realizando mais um sonho, mais uma etapa desse seu futuro brilhante.
A vida nos separou, uma, duas, três, quatro vezes, mas isso não diminuiu em nada o que sinto por você. Eu te amo, te amei desde o dia que te vi lá, no bar da faculdade, encostada sobre o balcão, olhando o movimento da festa, desde a primeira vez que nos cruzamos desastradamente, ocasionando nosso encontro de olhares. Te amei em segredo, internamente quando não podia contar, e abertamente quando fui ao seu aniversário de 18 anos, onde tivemos que abrir mão do que sentíamos, para então buscarmos nossos sonhos separados e amadurecermos.
Estou disposto a te esperar, pelo tempo que for. Só preciso saber se você também está disposta a viver nossa história. Não recebi retorno de nenhum e-mail, mas peço que de uma atenção especial a esse, é o último que envio.
Quando mirei em seus olhos, na livraria, aquele dia em que nos reencontramos depois de cinco anos inteiros, pude sentir exatamente a mesma eletricidade percorrendo pelo meu corpo, a mesma agitação ansiosa invadindo meu estomago, e foi ali, exatamente ali, que percebi o quanto nossa história ainda estava viva e que você ainda me amava, tanto quanto eu amo você.
Com carinho,
Cebola.”
Terminei de ler em prantos, totalmente sem reação, levei as mãos à boca tentando acalmar um pouco as emoções. Pude sentir um buraco abrindo em meu estomago, dando passagem para a saudade intensa que me preencheu naquele momento.
Levantei e abri a sacada deixando a brisa do mar invadir o quarto, sentei na poltrona do lado de fora, ignorando totalmente o fato de ela estar úmida e foquei o céu lembrando-me do quão longe nós estávamos naquele momento, mesmo que tão perto em pensamento.
Minha cabeça funcionava a mil por hora, novamente estava entre duas decisões importantes, ir viajar para a cidade vizinha com o contratante por um ano, ou voltar e viver a história que me esperava em casa. Abrir mão de um sonho, pelo outro. Mais uma vez.
Temi que ele soubesse da noticia antes mesmo de eu ter me decidido sobre o que faria. Não tinha duvidas de que ele jamais permitiria que eu desistisse daquela oportunidade. Ele era incrível, uma das pessoas mais bondosas que já havia conhecido na vida, mesmo anulando sua própria vontade, se fosse por algo realmente incrível, com certeza não interferiria.
E eu... Eu o amava, tanto quanto ele havia descrito naqueles emails, o amava demais e sempre soube daquilo. Mesmo há mil quilômetros de distancia, ou com um oceano nos separando, jamais deixei de sentir.
Talvez tivesse errado por naquela época da faculdade, não ter o contado nenhuma vez do tamanho do meu amor, ou por não ter insistido para que quebrássemos barreiras, namorássemos virtualmente, nos víssemos uma vez por ano, qualquer coisa dessas, que nos permitiria ficarmos juntos. Mas que diferença fazia naquela hora? Devido todas as escolhas, tomamos rumos diferentes, conhecemos pessoas diferentes, eu quase casei, e naquele momento estava ali, na sacada de um hotel na Austrália, tentando decidir o que faria a seguir para que não me arrependesse depois.
Não saberia dizer o quanto tempo fiquei na varanda naquela noite, vi o céu passar de escuro para claro, as ondas e a maré subirem e descerem, os passarinhos saírem de seus esconderijos para cantarem após a chuva cessar, e somente quando se aproximava do amanhecer que resolvi pegar uma folha de papel, um lápis e começar a por em prática a minha escrita.
Não estava preparada, mas sabia que se não o respondesse em tempo, talvez nunca mais ficássemos juntos e eu não tirava sua razão, não correspondi ao menos um dos seus emails, não dei sinal de vida, e nem mandei algum recado por ninguém. Então depois de muito pensar rascunhei uma carta, com palavras sinceras, escritas com amor, o explicando todas as coisas que senti necessidade. Só quando terminei que a passei para o computador e enviei.
Aquele foi o último sinal de vida que tive dele nos últimos cinco dias do meu pacote de viagem. Ele não mais me respondeu, nem ao menos soube se havia realmente recebido meu email.
Chequei as coisas no quarto, dei uma olhada nos meus documentos, e por fim sai deixando o hotel para trás.
Peguei o celular nas mãos enquanto esperava o carro da agência nos buscar, naquele momento minhas malas já estavam prontas, restava somente dar a resposta para o contratante e enfim seguir viagem para meu destino escolhido.
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