Meu querido diário
53 Imã
Notas iniciais

— Calmaaaa, amanhã vamos participar da feira anual de jornalismo numa faculdade aqui do bairro.
— Ual, não acredito, sempre ouvi falar dessa feira daqui – Respondi animada.
— Pois é, vamos palestrar as 16h00 eu você e mais dois da redação – Ela continuou contando.
— Ok fechadíssimo – Me animei na hora – Em qual faculdade que é?
— A Faculdade do Limoeiro, aquela que seu irmão estudou – Ela concluiu sorrindo.
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Como você prepara o material de uma palestra inteira em apenas metade de um dia? Isso eu também não sabia responder, mas foi o que tentei fazer desde então quando soube do compromisso do dia seguinte.
Trabalhar no que eu gostava, me ajudava a esquecer, pelo menos momentaneamente, os problemas, e como era exatamente isso que eu precisava naquele momento, me atirei de cabeça, sem sequer reparar nas horas que voaram.
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POV Cebola
— Você acredita nesse lance de coincidência? – Perguntei quebrando o silencio que se instalou em nossa mesa, olhando para a cara do Cascão, que frisou o cenho indicando dúvida.
— Ah cara, sei lá! Por que a pergunta? – Ele questionou comendo o cachorro quente do seu Zé, o melhor dali de perto de casa.
— O que você pensa sobre o fato de dois caminhos se cruzarem em possibilidades totalmente inesperadas, mais de uma vez???? – Tornei a questionar, reparando que ele permaneceu com a mesma expressão no rosto.
— Isso acontece nos filmes não é? Que isso? Outra série que você inventou de assistir? Já te disse careca pra parar de levar esses filmes tão a sério – Ele concluiu balançando a cabeça negativamente.
— Reencontrei a Monica, lembra? Irmã do Titi – Contei pausadamente, quase o fazendo cuspir o que tinha acabado de morder.
— Ela voltou pra São Paulo? – Perguntou rapidamente tomando seu refrigerante para ajudar a engolir.
— Não sei, fui jantar com a Amanda no shopping, e de repente ela estava na livraria, e era a nova escritora do momento, tinha uma fila quilométrica pra pegar autografo, o livro dela estampando a vitrine, e o pior, a minha mina estava eufórica, ansiosa para encontrá-la... – Tornei a falar coçando a cabeça.
— Perai! Sua namorada é fã da sua ex? – Ele perguntou parando a conversa para rir.
— Seria realmente hilário se não fosse trágico – Conclui esfregando minhas têmporas.
— Tah, então o que é que tem? Você não a tinha esquecido? Seguido em frente, está de namorada nova, não tem mais nada a ver – Cascão tornou a comer fazendo essa última palavra sair um pouco inaudível.
— É... Só que... Venho pensando nela desde então – Contei com o olhar focado nas árvores do outro lado da rua que balançavam com o vento forte. – Sei lá, foi estranho. Eu reconheço o sucesso dela, ela sempre mereceu, era o sonho dela desde o começo, e ver que ela o conquistou, me deu uma alegria diferente, voltei pra época da faculdade sabe?!
— Cara, é que foi a primeira vez que a viu depois que tudo aconteceu, lembra o quanto ficou mal no primeiro ano que ela foi embora? – Ele perguntou compreensivo. – E ficar feliz pelo sucesso dela, faz parte do seu bom caráter.
— Pode crer... Deve ser isso mesmo – Terminei o assunto ali – Agora bora que amanhã tenho uma classe inteira pra coordenar na feira.
— Antes, deixa eu te perguntar... Você sabe se aquela amiga dela, a Magalinda voltou junto? – Ele questionou pensativo, mas se protegeu quando o empurrei.
— Acha que eu consegui reparar? – Perguntei começando a rir com a cara de decepção dele.
— Poxa... – Ele reclamou chutando uma pedrinha para longe.
— Só por que você é meu amigo eu vou revelar que ela voltou sim, e estava la na noite de autógrafo também – Respondi com as mãos no bolso, o vendo abrir um sorrisão de orelha a orelha. – Depois eu que tenho que esquecer o passado.
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POV Monica
Não vi a madrugada chegar, e nem ao menos percebi que peguei no sono com o material todo ainda em mãos, péssimo habito que eu tinha adquirido.
O dia raiou e pulei da cama um pouco mais animada que anteriormente, tomei um banho, me arrumei e quando o relógio marcou 10h00 encontrei na sala uma Magali igualmente pronta.
Demorou cerca de meia hora pra chegarmos, e somente depois de preenchermos uns termos, que pegamos as pulseiras de palestrantes e conseguimos entrar e analisar o local, que eu conheci muito bem, há alguns anos atrás.
— Aqui mudou um pouco – Comentei olhando ao redor.
— Menos mal, assim as lembranças passam longe dessa cabeça pensante ai – Magali brincou caminhando em volta do palco.
— Olha o pessoal da equipe ali – Apontei, vendo que alguns da redação da Folha já estavam posicionados para fazerem a cobertura do acontecimento.
Caminhamos em silencio até lá e esperamos calmamente a chegada de todos os alunos para as palestras começarem.
Não percebi, pois aproveitei o tempo para repassar o que falaria, mas quando tornei a olhar, o saguão estava lotado de pessoas e buchichos vindos de todos os lados.
Professores e coordenadores dos cursos andavam de um lado para o outro tentando manter a organização e a única coisa que desejei foi ser chamada logo, antes que minha ansiedade me fizesse passar mal.
Magali foi anunciada primeiro, contou um pouco sobre como descobriu seu amor pelo Jornalismo e depois sobre como era exercer essa função, terminou em cima do tempo máximo permitido, e antes mesmo que os aplausos fossem dados meu nome já foi chamado.
Envolvida pelo barulho da euforia que a palestra da Maga havia causado, subi no palco um tanto quanto tremula e abri um sorriso quando uma chuva de aplausos tornou a invadir o local.
Reparei em algumas pessoas que apontavam e comentavam coisas, imaginei serem leitoras me reconhecendo, e imediatamente me alegrei e acalmei por isso.
Esperei o barulho cessar e então comecei falando sobre o que era o Jornalismo na minha vida, a importância que ele tinha, e – a pedido da Folha- como foi o tempo de estudo na UOP. Contei desde sobre matérias que achava essenciais no curso, até em como era ter uma coluna, ou até mesmo página sua publicada no jornal/revista.
Tentei com tudo isso mostrar o amor que eu tinha pela área e o quanto valia a pena a dedicação no que se quer fazer. O quanto era importante lutar pelos sonhos e acreditar que vai alcança-los.
Estava quase terminando, ainda falando sobre as vagas disponíveis na Folha –também a pedido da direção — quando ao virar para a direita, para instruí-los sobre o local de inscrição, eu o vi. Novamente. Como em um sonho. Ali parado em frente a uma turma de alunos com a cara igualmente surpresa.
Perdi um pouco o foco, e instantaneamente um silencio ensurdecedor tomou conta do ambiente, todos voltaram a cabeça para onde eu olhava, eu pude jurar que desmaiaria de vergonha se não fosse a Magali puxando uma salva de palmas indicando o final da minha palestra.
Ainda sem graça, juntei rapidamente tudo que tinha levado para auxiliar, e desci correndo em direção a equipe.
— Hey, tudo bem? – Magali me perguntou preocupada.
— Eu... Perdi um pouco o foco, obrigada por me ajudar – Agradeci forçando um meio sorriso.
— Tudo bem, ainda bem que foi no final da palestra, porque você arrasou e isso não podia estragar – Ela me abraçou sorrindo.
— Você também amiga – Sorri de volta.
— As duas estão de parabéns, a Leticia e o Gabriel fizeram a cobertura da palestra de vocês, quero que escrevam um pouco sobre também, para sair no jornal de amanhã de manhã. – Nosso diretor-chefe comentou sumindo imediatamente de vista. Ele sempre aparecia e sumia com uma agilidade incrível.
— Já viu né? – Leticia me perguntou sorrindo.
— Vamos ter que virar a noite escrevendo e mandando para a redação – Magali concluiu.
Mas meu foco naquele momento era outro, tornei a virar a cabeça preocupada, procurando por todos os lados o único olhar que não queria encarar mais naquela noite.
— Podemos ir embora? – Perguntei apreensiva.
— Sim, mas não vai querer ficar? Terão várias outras palestras incríveis, sem contar os eventos – Magali perguntou encafifada.
— Maga, eu vi o Cebola aqui, tenho certeza que vi – Contei entre os dentes.
— Eu sei, você e o resto do evento inteiro viu ele – Ela comentou rindo.
— E você ri? – Respondi ainda preocupada.
— Monica, você já tem 23 anos e está noiva, acho que ele não deve mexer mais com você, não é? – Ela questionou, mas permaneceu sem resposta imediata.
— Não é? – Tornou a perguntar.
— Claro... Claro que não – Respondi virando os olhos, mas mudei de expressão imediatamente quando ouvi uma voz que me arrepiou até a nuca.
— Monica? – Cebola chamou com as mãos no bolso e um sorriso no rosto.
Permaneci imóvel, de costas, sem ter coragem de olhar para trás.
— Monica, sou eu – Ele chamou novamente segurando um dos meus braços.
Virei lentamente como quem evita ao máximo o contato visual, mas era inevitável, nosso imã imediatamente tornou a funcionar, e assim que nossos olhares se cruzaram, a eletricidade pôde ser sentida por qualquer um, a quilômetros de distancia.
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