Meu querido diário
71 Além de uma surpresa
Notas iniciais

— Prova de vestido? – Repeti mais para mim do que para ele.
— É, prova de vestido de noiva, sabe?! É a primeira e as madrinhas têm que ir para ajudar. Alias, se a Maga é madrinha, eu sou o padrinho não é? Ou não? – Ele continuou a falar sem perceber o quanto aquelas palavras me atingiam.
— Pode ser – Respondi sem vontade, de repente senti que meu estomago havia ido parar no chão. Mesmo sabendo que nossa chance de reatar algo era zero, não podia deixar de imaginar o quanto eu estaria feliz, se essa prova de vestido fosse para dizer sim para mim.
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— Ei brother, mals! Eu nem me toquei que isso ainda podia te incomodar – Ele se desculpou guardando imediatamente o celular, provavelmente percebendo o mal estar instantaneo que aquela noticia me causara.
— Relaxa! Estou de boa, só não me acostumei ainda que ela vá se casar sabe?! – Respondi com sinceridade, afinal uma hora ou outra teria que aceitar o fato.
— Achei que já tinha superado – Ele comentou solidariamente dando um tapinha em minhas costas.
— Eu superei Cas, mas nosso lance foi bem forte, quando ela voltou, não posso mentir que não mexeu comigo. – Contei com as mãos no bolso observando o movimento.
— Então você ta lascado cara, o casamento já é no final do ano e a Maga está uma pilha organizando esse lance de coluna social, reportagens essas coisas, melhor você sair de São Paulo se não quiser noticias a respeito – Cascão lamentou por mim.
— Coluna social? Vão anunciar na coluna? – Me assustei de repente.
— Claro né careca, ele é o herdeiro da Aprel, e ela é uma escritora em ascensão, você ainda tinha duvidas disso? – Ele concluiu me dando um xeque mate.
Queria continuar a argumentar, mas me faltaram palavras para completar as frases desconexas em minha cabeça. Para o meu alivio, aquele papo foi interrompido pela ligação do pai dela, avisando que estavam chegando do hospital, o que nos fez correr para todas as direções dando os retoques finais na festa recém decorada.
Não demorou muito para todos nós ficarmos a postos, as luzes se apagarem, e a ansiedade que precede a surpresa preencher o local. Quando finalmente ouvimos o abrir da porta, pulamos e gritamos em uníssono “bem vindo” fazendo com que ele se assustasse e imediatamente abrisse um sorriso, daqueles que qualquer um dali com certeza sentia falta. Confetes, serpentinas e bexigas perambularam pelo ar, deixando o visual bem colorido, igualmente a nossa animação.
— Não acredito! – Ele exclamou alegremente.
— Que bom que você voltou meu amor! – Vi sua mãe e sua namorada se aproximarem o envolvendo em um abraço emocionado.
Senti imediatamente empatia, carinho e apreço por aquela cena. Tirei uma foto carinhosamente e guardei o celular novamente no bolso, com o propósito de enviar mais tarde para a Monica.
Uma vez que chequei as horas pela terceira vez e me dei conta que o noivo dela não apareceria, não que eu fizesse questão, mas sabia o quanto isso seria importante para ela. Por varias vezes me peguei pensando no porque deles ainda estarem juntos, mas em todas elas, eu concluía que eu não tinha mais nada a ver com isso.
Cumprimentei o Titi com um sorriso no rosto e um alivio por ele finalmente ter se recuperado e saído daquele quarto do hospital. Todos se emocionaram quando ele começou a chorar e foi nesse clima que a festa se iniciou de verdade.
— E ae mano, que susto que você deu na gente, não faz mais isso não – Dei um tapinha nas costas dele que sorriu em resposta me abraçando.
— Nem fala, nunca mais vou me descuidar, pode deixar!!! – Ele respondeu pegando algo para beber – Foram os piores dias da minha vida, achei que morreria.
— Ve se agora faz o acompanhamento certo desse troço ai viu... Ah! a Magali e a Monica te mandaram um beijão, lamentaram muito por não estarem aqui – Cascão comunicou, lendo a mensagem da namorada no celular.
— É uma pena, também queria que estivessem... Sonhei várias vezes com minha irmã enquanto estava desacordado. – Ele contou beliscando um salgado que passava por ali.
— Hey, você pode comer isso? – Perguntei com olhar de reprovação.
— Não sei, melhor não né? – Concluiu soltando em seguida.
— Deixa que eu como! – Cascão pegou faminto.
— Ela me disse varias vezes que conversou com você enquanto você dormia, nos primeiros dias – Contei lembrando-me de uma das conversas que tive com ela no hospital.
— Ah, acho que de certo modo eu a escutava – Ele concluiu checando as horas no relógio de pulso.
— Que bom que voltou amigo! – Eu o fitei juntamente ao Cascão.
— Que bom que permaneceram comigo, a minha mãe contou que não arredaram os pés do hospital – Tornou a sorrir. – Obrigado!
— Sempre! – O Cascão concluiu assim que o Xaveco se aproximou.
— Vou aproveitar vocês três aqui para pedir um favor. – Titi tornou a falar nos entregando seu celular. – Vocês podem tirar fotos e gravar o que vou fazer agora?
— Como assim? – O Xaveco questionou curioso, olhando o aparelho.
— Observa...
Vi ele sumindo em meio a multidão e voltando rapidamente com algo na mão, em pouco minutos conseguiu silencio de toda a família e amigos presentes na sala, sob o olhar curioso da grande maioria, preparou a voz e começou a falar.
— Quero agradecer pela presença de todos vocês aqui hoje, é um momento de muita importância para mim e ter vocês ao meu lado torna tudo isso muito mais especial. – Parou para esperar os gritos e assovios – Do momento que tive o ataque cardíaco até o que eu perdi a consciência, eu percebi o quanto temos que valorizar quem amamos, quem temos ao nosso lado, quem nos deseja o bem e faz tudo para que isso aconteça. Senti medo, o pouco que compreendi alem da dor que senti, foi preenchido por medo, pavor de perder inúmeros momentos e sentimentos como esses que estamos vivendo agora, de não poder dizer que amava demais, pelo menos mais uma vez, cada um de vocês que estão aqui hoje e minha irmã que não pode vir – Ele concluiu vendo que grande parte estava emocionada, inclusive eu que ouvia tudo com um sentimento de agonia no peito.
– Bom, mas não terminei o meu discurso por aqui não, há um tempo venho querendo fazer isso e esse momento é perfeito. – Ele tomou a voz novamente, embargada pelo choro, tirando alguma coisa do bolso que de longe não identifiquei, mas já fazia idéia do que seria – Antes de tudo isso acontecer tinha planejado um momento especial, decidido esperar nossa viagem de férias chegar, mas agora sinto que é o hora certa, Aninha – Ele virou para ela que já chorava com as mãos no rosto. – Passamos por altos e baixos, por situações difíceis juntos, nas quais amadurecemos, momentos incríveis que lembraremos para toda a vida, e em nenhum deles deixei um dia sequer de pensar em você. Completamos 7 anos de namoro mês passado, e hoje, quero dar um passo a mais na direção do nosso sonho de construir uma família. – Limpou as lágrimas que escorreram sorrateiras.
— Titi... – Ela passou carinhosamente as mãos sobre o seu rosto.
— Aninha meu amor, quer casar comigo? – Ele perguntou para comoção e surpresa geral de todos.
— Quero... Claro que quero – Ela pulou em seu pescoço de felicidade.
— Te amo – Ele concluiu selando o pedido com um beijo.
— Quero passar o resto da minha vida ao seu lado – Ela abriu um sorriso assim que ele colocou o anel dourado em sua mão, sob aplausos e assobios.
— Eu também – Ele colocou uma mexa do cabelo dela para trás da orelha.
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Fiquei imóvel, emocionado, observando quieto meu amigo ao lado da mulher que amava, desde a faculdade, quando tínhamos birra por ela ter o “roubado”, há um tempo já nada mais daquilo fazia sentido, éramos todos amigos e eu estava extremamente feliz por aquela nova etapa em sua vida.
Muita emoção, choro e abraços de parabenização foram distribuídos, e somente quando eu estava quase indo embora que vi o Titi se aproximando novamente para falar conosco.
— E ai campeão, parabéns!!! Você merece – O felicitei alegremente seguido do Cascão;
— Obrigado, to feliz que estão fazendo parte de tudo isso – Ele apertou nossas mãos.
— Pelo jeito agora que to solteiro todo mundo resolveu entrar em compromisso serio – Reclamei brincando.
— Ueh, e a Amanda? – Ele me perguntou confuso, havia esquecido que ele estava internado quando terminei o namoro.
— A Amanda... Terminei com ela, não dava mais certo – Respondi sinceramente.
— E foi só por isso mesmo? – Ele questionou me analisando.
— Falei que fica estampado na sua cara Careca – Cascão riu dando de ombros.
— Não tem nada estampado na minha cara Cascão. E sim foi somente por isso Titi – Respondi os dois balançando a cabeça negativamente.
— Você também merece ser feliz careca, eu acho que tem que ir atrás do que sonha, esse tempo que fiquei internado mexeu comigo cara, a gente perde tempo quando temos medo de ser feliz, de correr atrás do que queremos, de estar com quem amamos sabe? – Ele falou como se adivinhasse cada pedaço do meu pensamento.
— Eu sei... Mas no meu caso está meio impossível de eu seguir o que queria, alem de ser tarde demais, não depende somente de mim – Comentei, sabendo a que ele se referia.
— Se eu fosse você, e olha que eu já quis impedir isso, correria atrás do seu sonho, que nesse momento está hospedado aqui oh... – Vi ele pegando um papel e anotando algo parecido com um endereço – E vai ficar até quarta que vem, no mesmo lugar. Aproveita e leva o Cascão, ele também tem muito o que fazer por lá. E não precisa me agradecer, soube que minha irmã não está feliz, percebi isso no semblante dela, acho que isso é motivo suficiente para você ter chances de sobra, se é que posso concertar o murro que te dei lá no passado... – Ele checou as horas – Você está atrasado.
Olhei rapidamente meu relógio de pulso, beiravam as 20h00, li o endereço rabiscado no papel, Leblon – Rio de Janeiro, e olhei para o Cascão que parecia entender minha vontade, sem dizermos uma palavra minha cabeça revirou mais rápido do que pude imaginar, repassei em segundos tudo que ouvi o Titi pronunciar em seu discurso, e num gesto mudo nós dois concordamos sobre o que faríamos a seguir.
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