Meu querido diário
30 Sem olhar para tras
Notas iniciais

Mesmo após tomar banho, comer, lavar a louça, assistir alguns programas e estudar, ainda demorou cerca de uma hora para ele abrir a porta com sua maleta. Dei um pulo do sofá.
— Oi Monica, tudo bem? – Me perguntou surpreso, eu sempre estava no quarto quando ele chegava.
— Tudo papi e você? Preciso te pedir uma coisa – Falei rapidamente o estendendo um papel.
— O que é isso? – Ele perguntou distanciando um pouco a folha para uma melhor visualização. – Desistência de matéria?
— É pai, um termo de desistência da matéria do Cebola, peguei com a diretora da escola, se é para eu o esquecer, que seja de vez – Conclui decidida.
—-
— Monica, não vejo como eu posso aceitar isso – Ele se sentou no sofá ainda lendo o papel — Como fica sua nota para passar de ano?
— Eu já me informei de tudo hoje pai, o terceiro não é obrigado a fazer educação física, e podemos optar por alguma outra atividade extracurricular do colégio para compor a nota final. Somente o terceiro ano pode optar pela desistência. – Contei com o coração apertado.
— Mas Monica, sempre foi sua matéria preferida, jogar vôlei, participar dos esportes, sua mãe sempre me contou o quanto você gosta – Ele protestou ainda com os olhos na folha.
— Eu sei pá, mas agora envolve muitas coisas, acho que assim será melhor – Sentei ao seu lado choramingando. – Você pediu para eu esquecer isso que eu tinha com o Cebola, e essa foi uma forma que encontrei de não o ver no colégio... Vai ser melhor pra mim, me da uma chance de concertar tudo isso?!
— Você tem certeza? – Ele questionou olhando para os meus olhos buscando talvez a verdade nas palavras que eu tinha acabado de falar.
Desviei o olhar antes de responder, ele sempre sabia ler as entrelinhas.
— Tenho, e está tudo escrito nesse termo, que alias preciso levar amanhã assinado ao professor, e depois a diretoria, porque ai eles já me liberam das aulas – Respondi tentando mostrar firmeza, ele me conhecia muito bem para saber como aquilo estava me doendo.
— Ok! Vou ler mais tarde – Ele concluiu saindo de lá.
Se eu não iria chorar, nem sofrer? Sim, claro que iria, não tinha sido uma decisão fácil, rendeu quase uma hora de conselhos no celular com a Maga, mas depois de ver o que ele tinha feito a respeito do campeonato, entendi muito bem que quanto mais próximos, mais difícil seria lidar com tudo isso. O melhor era me distanciar o quanto antes, do contrário me machucaria muito mais do que podia imaginar, o olhar dele exercia força sobre mim, me causava um impacto, quase que um choque que nesse momento era melhor não termos.
—-
Não dormi direito naquela noite e nem consegui comer pela manhã. Pelo menos o Titi continuava se mantendo em silêncio o que já ajudava bastante. Comecei a me perguntar se tudo aquilo era peso na consciência, pois em 17 anos, mesmo sob brigas, ele sempre me enchia o saco e me provocava independente do clima que estivesse entre nós. Só obtive a resposta uns minutos mais tarde quando estávamos quase saindo de casa.
Ouvi meu pai o perguntando sobre a Aninha, e agilmente me escondi no corredor para escutar, então não era só eu que tinha percebido a ausência dela. Em questão de segundos entendi tudo. Eles tinham brigado e o motivo havia sido o modo como ele me tratou e lidou com toda essa situação.
Com certeza ele desabafou com a namorada achando que ela ficaria ao seu lado, mas pelo que entendi, pelo pouco que escutei, ela defendeu a mim e o Cebola, e como ele não era nada grosso, deve ter ficado uma arara e desencadeado uma discussão. Era claro que ela nos defenderia, não estávamos errados, nos amávamos, e não sabíamos que a relação professor x aluno viria a existir. Sem contar que ninguém em sã consciência aprovaria o murro que ele deu no nariz do amigo.
— Ela nem atende minhas ligações, disse que desaprova totalmente o que fiz, e que eu vinha tomando umas atitudes que ela não estava de acordo, pode isso? – Ele reclamou para o papai enquanto terminava de encher sua garrafa de suplemento.
Pelo menos ela entendia o meu lado. Não desejava o mal do meu irmão, mas com certeza ele escutaria o protesto mudo da Aninha muito mais que um meu.
—-
Naquela manhã mais uma vez eu teria que juntar coragem e encarar o Cebola de frente para pedir a assinatura de dispensa da sua aula. Resolvi ser o mais rápida possível, planejei a manhã inteira na minha cabeça, entraria em sua sala, pediria a dispensa e antes mesmo de começar a falar já teria assinado, pronto. Fim. Mas nem tudo saiu como planejei.
Assim que ele entrou em classe meu coração disparou, mas já estava acostumada com isso, então tentei ao máximo ignorar a sensação de buraco que se aprofundava em meu estomago. Ameacei me levantar para ir pedir a desistência, que a muito custo e só depois de entrar em contato com a minha mãe e a diretora meu pai concordou, porém ele fez sinal com a mão para que eu voltasse a sentar e começou a falar sem parar sobre o campeonato, deve ter imaginado que eu iria reclamar da classificação. O que eu jamais faria.
Já não estava a fim de assistir a aula, imagina de ficar ouvindo e lembrando que não iria jogar vôlei com a turma, revirei os olhos em reprovação e cruzei os braços nervosamente. Como se adivinhasse meu pensamento ouvi o Fabio, aquele aluno bonitinho da minha sala interrompendo o Cebola.
— Pode falar Fabio – Cebola respondeu a levantada de mãos do garoto.
— Professor, por que a Monica não está no time? – Ele questionou fazendo com que eu ficasse boquiaberta ao ouvir meu nome.
— C...Como?? – Cebola gaguejou, como se recusasse a entender e ter que responder aquela pergunta.
— Ela é super boa no vôlei, você viu, a sala inteira viu, ajudaria muito nossa equipe a ganhar – Ele respondeu com aquele sorriso de comercial, ignorando qualquer ato sem jeito do professor.
— Eu, preciso... Preciso analisar Fabio – Ele respondeu coçando a cabeça, daquele jeito preocupado, que só eu e a Maria reconhecemos.
— Não, não precisa rever – Tomei a voz fazendo os olhares se voltarem para mim. Arrependi-me imediatamente – Eu na verdade...
— Bom, aqui não é lugar para discutirmos sobre isso, depois se quiserem esclarecimentos e reavaliações me procurem na coordenação, ok senhor Fabio? E acredito que sua C-O-L-E-G-A saiba muito bem se defender sozinha. – Ele me interrompeu fazendo todos da sala se assustarem, inclusive o Fabinho.
Maria me olhou pausadamente, e tornou a prestar atenção no que o irmão falava. Meu coração bateu acelerado e uma irritação tomou conta de mim, a cena de ciúme entendida somente por algumas pessoas ali presentes, resultou em uma sala totalmente em silencio e um Fabinho claramente mal humorado.
—-
Esperei o mais paciente que consegui a aula de futebol terminar, porque depois de falar por quase meia hora com a sala muda, ele passou um exercício interativo no qual tivemos que correr horrores.
Por fim, de uniforme de educação física, um tanto quanto suada e mais decidida do que nunca, segui ele quando o vi entrar na coordenação. O encontrei em sua mesa anotando coisas atrás de coisas em um caderno que imaginei ser dos relatórios.
Ele levantou o olhar quando percebeu uma aluna dentro da sua sala.
— Mo... Monica, em que posso te ajudar? – Ele fraquejou, evidentemente surpreso.
— Oi – Eu amoleci na hora em que ouvi sua voz direcionada somente a mim.
— Quer alguma coisa? – Ele foi frio, mas senti que também estava se esforçando para não bambear — Você não deveria estar aqui.
— Sim... Quero que assine minha desistência da sua aula – Respondi o mais rápido que consegui o entregando os papeis. – E aonde mais eu iria para te achar?
— Que? – Ele perguntou assustado.
— Desistência das suas aulas – Repeti pausadamente – Soube que o terceiro não é obrigado a fazer, e podemos optar por outra matéria extracurricular pra complementar a nota, estou precisando de reforço em espanhol, já até conferi os horários para trocar.
— Não... Você não precisa fazer isso – Ele comentou levemente abalado. – Quer dizer, você gosta da matéria, não precisa ir embora.
— Eu sei, e eu não vou embora, só não participarei mais das suas aulas... Acho que é o melhor para nós dois no momento – Respondi sentindo pontadas no peito, mas não podia baixar a guarda.
— Tem certeza? – Ele me encarou, olhando no fundo dos meus olhos, por que as pessoas tinham mania de fazer isso comigo? Será que meus sentimentos eram tão transparentes assim?!
Por alguns segundos me perdi no que estava falando, mas com um baque da razão voltei para a realidade.
— Tenho, era isso ou eu mudava de colégio. Preferi continuar aqui já fiz amizades. – Respondi com um nó na garganta tentando ser o mais objetiva possível – Só assina isso logo, por favor.
Ele olhou mais um pouco para os termos, pude ver sob a meia luz que entrava pela janela, as mãos dele levemente tremulas.
— Está aqui, assinado, espero que não se arrependa da sua decisão – Ele entregou os papeis em minhas mãos, visivelmente nervoso.
— Foi você que me mostrou que essa era a atitude certa a se tomar – Conclui olhando talvez pela última vez apaixonadamente dentro dos olhos dele e sumindo de vista pela porta que dava para o corredor, sem olhar para trás.
Fale com o autor