Meu querido diário
75 O cair da máscara
Notas iniciais

— Mas, e a escolha Senhorita Sousa? – A designer perguntou sem entender absolutamente nada.
— Eu te aviso depois, volto aqui na semana que vem, me desculpa, eu realmente preciso ir para casa –Terminei de falar em meio ao choro, desci com a ajuda da Magali e corri para a sala de prova, precisava o quanto antes tirar aquele vestido.
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Com a ajuda dela não demorei muito para me despir, colocar minha roupa novamente, e sair da loja sem mais perguntas, tentei em poucas palavras explicar para minha mãe que eu estava emocionada e que não tinha condições psicológicas para continuar ali. Não restaram dúvidas de que ela não havia engolido uma palavra sequer, mas pelo menos decidiu respeitar, concordando com aquela decisão e afirmando que cuidaria de tudo por lá, que eu podia ir para casa tranqüila, na medida do possível.
Não era nem de longe a forma que eu imaginava sair da minha primeira prova de vestido na Noivas & Noivas, a loja era maravilhosa, sempre fantasiei que seria incrível, que eu estaria animada, ansiosa para o grande dia, sem preocupações, com um sentimento totalmente contrário ao que eu estava naquele momento.
Durante toda a volta para casa dentro do carro da De, meu pensamento vagou entre tudo que havia acontecido até ali, as informações pipocavam em minha cabeça, como foguetes, perambulando desde a impressão ruim que havia ficado na loja alguns quarteirões atrás, até a possibilidade de adiar o casamento. Eu sabia que precisava decidir-me, conversar com meu noivo, explicar para minha mãe o que vinha acontecendo, mas eu simplesmente não tinha idéia de como faria, sem que piorasse toda a situação.
Não tinha coragem de mais uma vez assumir que aquilo tinha perdido o sentido, que havia me enganado aquele tempo todo, que na verdade quando vi aquele sorriso novamente, tudo havia ficado claro para mim e a redoma construída para viver algo que eu não queria, finalmente tinha sido quebrada.
Seria muito mais fácil se tudo se resolvesse num piscar de olhos, sem aborrecimentos, ou frustrações, sem pensar no dinheiro gasto em organização até aquele momento, nas expectativas criadas pelos familiares, amigos e pelo próprio Mauricio, sem pensar em nada que me fizesse desistir do que eu realmente sonhava viver.
Percebi que as meninas queriam conversar, mas respeitaram meu silencio, que naqueles últimos dias vinham contínuos, não deixei de agradecê-las em gestos mudos, com acenos de cabeça indicando que eu queria, mas não estava pronta ainda para falar sobre tudo que estava acontecendo.
Chegamos em casa pouco mais de vinte minutos depois, quem ouviu meus passos firmes em direção ao quarto, mal imaginou o quanto minhas pernas estavam frágeis. Bati a porta ao passar, não queria conversar com ninguém, troquei de roupa, soltei o cabelo e quando fui tirar a maquiagem, eu o vi, lá, intacto, rosa neon, preso a minha escrivaninha, expondo aquele dia com a maior audácia. Peguei o post it que trazia gravado o lembrete daquela data de prova de vestido em minhas mãos e o analisei, não precisei muito mais que alguns minutos para amassá-lo e jogá-lo fora com a mesma intensidade na qual havia batido a porta minutos atrás.
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POV CEBOLA
Acordei com um mal pressentimento naquele dia, seja lá o que fosse meu coração estava disparado. Chequei meu celular, não havia ligação nenhuma e as mensagens eram todas corriqueiras, nada com o que se preocupar, pelo menos até aquele momento.
Não alimentava mais esperanças de que a Monica me procuraria ou me daria alguma resposta sobre o que aconteceu no Rio, já fazia uma semana e a única noticia dela que tive, foi pela Maria avisando que estava indo em sua prova de vestidos. O que me indicou que ela não havia desistido.
Também não sabia até onde aquele beijo teria a afetado, o que eu sabia mesmo era que não devia ter o feito, mas não consegui resistir. Senti que havia um encontro de saudades quando unimos nossas bocas, foi tão intenso que nos dias que se seguiram, de tanto lembrar, eu quase conseguia pegar aquele sentimento nas mãos.
Naquele momento, não havia mais o que eu pudesse fazer, minha última tentativa tinha ficado na semana anterior e desde então havia resolvido aceitar, não por completo, mas queria a ver feliz e se era daquele jeito que ela ficaria, eu teria que respeitar e entender. Não estava desistindo, longe de mim, mas jamais a obrigaria a algo, então me limitei a observar de longe, em silêncio.
Olhei as horas, ainda eram nove da manhã, resmunguei algo inaudível por ter acordado naquele horário em pleno sábado, meu corpo estava cansado, mas minha mente não dormia. Revirei mais algumas vezes antes de me assustar com a minha irmã abrindo a porta brutalmente.
— MARIA! Já não te disse uma cem vezes que não quero você usando a chave reserva pra entrar na minha casa? – Gritei, despertando na hora.
— Cebola, nós precisamos conversar – Ela ignorou totalmente minha reclamação, olhando desesperada para o meu rosto.
— Será que você pode respeitar o meu espaço? – Tornei a perguntar vestindo a primeira camiseta que avistei em cima da cômoda.
— Não estou pra brincadeira Ce, é papo sério! – Ela tornou a falar apreensiva.
— O que foi? Para você invadir minha casa às nove da manhã em pleno sábado? Brigou com o Eduardo de novo? Já falei pra vocês conversarem e resolverem logo essas picuinhas... – Reclamei me sentando na cama a olhando de frente.
— Não tem nada a ver com isso, é sobre a Monica – Ela sussurrou como se estivéssemos sendo observados.
— Ah! Você quer saber o que fui fazer no Rio não é? Não queria falar nisso.... – Comecei a me explicar, mas ela cortou no ato, me deixando surpreso.
— Na verdade é sobre o noivo dela, o Mauricio – Falou seriamente.
— O que é que tem ele? – Questionei de repente.
— Estou desconfiando de uma coisa, comecei a reparar essa semana, mas não tinha certeza! – Ela contou a falar, tirando o celular do bolso.
— Como assim? Ele fez algo com ela? Porque se fez.... – Fechei o punho imaginando mil coisas.
— Espera, deixa eu te mostrar uma coisa – Ela mexeu mais um pouco no aparelho e então o estendeu para mim – Olha!
— Hum, é ele, e dai? – Respondi quando ela me mostrou uma foto dele sorrindo.
— Tem certeza que esse é o Mauricio? O Noivo da Monica? – Ela tornou a perguntar mudando de foto freneticamente.
— Claro que tenho Maria, não fui obrigado a ver ele mil vezes com ela? – Resmunguei virando os olhos.
— Então olha isso – Ergueu novamente a tela do celular me mostrando outra foto de um casal entrando de mãos dadas em um prédio.
— Quem é essa? Esse é o prédio da Aprel? — Perguntei imediatamente sentindo o sangue subir em meu rosto.
— Sim, é sim, ele mora na cobertura da empresa! E essa é a Mariana – Ela contou me mostrando mais fotos.
— E quem é Mariana? De quando é essa foto? – Tornei a questionar furioso.
—- É minha amiga sabe? Aquela que levei na festa do Titi, que é repórter? – Me respondeu aflita.
— Lembro, lembro dela sim – Forcei a memória trazendo lembranças daquele dia.
— Faz tempo que ela vem falando que estava conhecendo uma pessoa, uns meses já! – Começou a explicar caminhando de um lado para o outro — E de repente começaram a sair e no final da semana passada contou que foi pedida em namoro. Quando menos esperamos, enquanto estávamos parados em um farol, eles apareceram de mãos dadas caminhando em direção ao prédio, havíamos acabado de sair do cinema, o Xaveco tinha ido nos buscar para voltarmos para casa, eu estava com a Denise, e nós os vimos juntos, felizes, rindo de qualquer coisa, era tarde, talvez pensaram que ninguém, jamais os veriam – Terminou de me contar nervosa. – Eu quis ir até eles, mas a Denise não deixou, disse para apenas tiramos fotos de longe.
— Eu vou matar aquele cara – Levantei raivoso, jogando metade das roupas apoiadas sobre a cabeceira, no chão.
— Não, calma! – Ela me parou com as mãos em meu peito. – Não pode ser na base da violência, assim você não vai resolver nada.
— Como ele teve coragem de fazer uma coisa dessas com a Monica? – Vociferei nervoso, levando as mãos à cabeça.
— Eu sei, eu também estou brava e também custei a acreditar, quis confirmar antes de qualquer coisa. Agora temos que contar para ela e deixar que resolva do jeito que achar melhor – Propôs tentando me acalmar.
— Ela vai sofrer Maria, de novo! Eu não posso permitir isso. Que caras de pau, ele e essa sua amiga. Semana passada a Monica estava provando o vestido que vai usar para casar, como ele pode fazer isso? – Passei as mãos na boca, incrédulo.
— Você está muito nervoso, se eu soubesse que ficaria assim não viria te contar primeiro – Ela reclamou assustada com minha impaciência.
— Maria! – Parei onde estava, respirei fundo e a olhei intensamente – Eu amo a Monica, eu abri mão do que eu sentia para não atrapalhar o sonho dela de estudar fora, passei por problemas no colégio, corri risco de ser expulso do corpo docente, ela lutou contra tudo e todos que tentaram nos impedir de ficarmos juntos, brigou com o irmão e mesmo assim, mesmo com tudo isso, tivemos que nos separar. Eu sofri, ela sofreu, e nenhum de nós merece passar pelo que ela passará quando descobrir que esse safado está a traindo.
— Eu sei maninho, eu lembro o quanto foi difícil, mas ela tem que saber o quanto antes, você não vai conseguir protege — lá pra sempre. – Ela concluiu cabisbaixa.
— Eu sei! Mas isso não me impede de falar com ele primeiro – Respondi imediatamente, pegando a chave do carro, o celular dela e batendo a porta ao sair, pude ouvir protestos da Maria em minhas costas, mas naquele momento estava decidido, eu iria encontrá-lo.
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