Meu querido diário
21 Meu ponto de vista
Notas iniciais

— Ah amiga, esqueci de avisar que meu irmão é o... – Maria virou animada, mas parou de falar e desfez o sorriso na hora em que viu meu rosto.
Senti a sala inteira me encarar, quando o professor demorou mais do que o normal para chamar o próximo nome. Segurei com todas as minhas forças as lágrimas que insistiram em inundar meus olhos.
Pela primeira vez na vida senti que sufocaria, se eu pudesse gritar naquele momento teria berrado a plenos pulmões, ou pelo menos saído correndo da sala sem olhar para trás. Vi que ele queria fazer o mesmo, mas estava em seu segundo dia de trabalho, não podia colocar tudo a perder.
Atrás de sua cabeça, na lousa, conseguia ler claramente seu nome recem escrito, Professor Cebolácio Menezes — Ed. Física.
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POV Cebola
Era meu segundo dia de aula no colégio Limoeiro, no geral eu estava até gostando, ele era bem rígido, tanto com as regras para alunos, quanto para os professores, mas em compensação o salário era ótimo e para o currículo também, afinal era considerado um dos melhores colégios do bairro, o que era excelente para o meu primeiro estágio na área.
Havia pegado a turma do Ensino médio inteira, como já estava para me formar, em breve poderia assumir o posto sem a supervisão do coordenador geral de Educação Física. Não que ele ficasse em cima de mim, mas ao final de todas as aulas eu tinha que preencher relatórios enormes para avaliação de desempenho, sem contar os que eu tinha que levar para a faculdade.
Naquela manhã pegaria o 3º ano, a sala da minha irmã, tinha separado para depois da apresentação, um circuito de atividades para verificar em qual modalidade eles mais se destacavam.
A Maria entrou em pânico quando avisei que tinha passado no processo seletivo da vaga de professor na sua escola, de cara não gostou muito, certeza que teve medo de eu a supervisionar, ou atrapalhar em alguma coisa. Mas depois fui a tranqüilizando, prometi que não estragaria seu último ano no colégio, e lhe contei sobre planos de campeonatos e aulas que eu tinha preparado, posso dizer que ela até se animou mais com a idéia. Nossa relação seria estreitamente profissional, aluno x professor.
Alias, nessa correria de preparação quase não estava tendo tempo de ver ou falar com a Mel, mas iria compensar com uma surpresa no final de semana, ela disse que tinha alguma coisa para me dizer, eu iria escutar e logo depois já tinha o pedido ensaiado a alguns dias na cabeça.
Nenhuma mulher havia mexido comigo como ela mexia, eu a amava e estava decidido que a pediria em namoro, levaria em casa, apresentaria para os meus pais, inclusive isso fazia parte do convite que faria para ela, um pedido de namoro, um jantar a dois no sábado a noite e no domingo um almoço com minha família. Já tínhamos programado o sábado, mas tinha certeza que ela iria amar minha mudança de planos.
Entrei na sala de aula carregando a lista de chamada em uma das mãos e minha bolsa em outra. Algumas meninas que sentavam perto da porta me cumprimentaram com sorrisinhos e vários alunos conversavam animados espalhados pelo ambiente, pedi silencio. Fiz minhas apresentações, escrevi meu nome na lousa, no qual como era esperado alguns se seguraram para não rir, mesmo eu concordando que era engraçado, expliquei minhas intenções com a classe e por fim comecei a chamada para depois os levar à quadra.
Lá pela letra M, percebi uma aluna que não prestava atenção, estava vidrada escrevendo algo sem parar em um caderno, chamei uma, duas, três vezes e quando ia me dirigir até ela, tudo isso após os alunos me indicarem quem era, a menina levantou a cabeça e estendeu uma das mãos respondendo a chamada, atendendo pelo nome de Monica.
Num ato falho minhas mãos fraquejaram e a chamada caiu por entre elas, por segundos esqueci totalmente onde estava e meus olhos focaram somente naquele rosto, rosto esse que eu conhecia exatamente todos os traços de cor, seus olhos que por tantas vezes encararam apaixonadamente os meus, dessa vez olhavam com pânico.
Na mesma rapidez com que levantou o braço para me responder, ela abaixou tremulamente, senti que meu estomago despencava e uma agitação tomou conta do meu peito, vi minha irmã em sua frente olhar encafifada e a única coisa que desejei, era que aquilo não se passasse de um sonho.
Tive que fazer um esforço imenso para lembrar que estava em aula e voltar para a lista que ainda se encontrava na metade.
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POV Monica
Chequei rapidamente meu horário virando violentamente as folhas da minha agenda e confirmei meu medo, era aula que eu mais esperava, talvez uma das minhas preferidas por causa do vôlei, educação física. Tive alguns segundos de insanidade pensando na possibilidade de ser um gêmeo, ser uma visão, ou uma miragem, mas a silhueta do Professor Cebolácio se encontrava bem a minha frente, ou melhor, a frente da sala inteira quebrando todas essas hipóteses com o olhar de decepção totalmente voltado para mim.
Virei a cabeça em direção a Denise buscando por ajuda, mas imediatamente percebi ela tão em choque quanto eu, os olhos estavam focados no Cebola e as mãos na boca em sinal de espanto. A conhecia bem o suficiente para saber que ela só lembrou quem era, depois que viu junto com a sala inteira ele me encarar assustado. Alem de ter o visto só algumas vezes, ela tinha uma memória seletiva, lembrava do que precisava, o resto simplesmente apagava da mente. Bem que poderia ter me ajudado a sair daquela situação se tivesse o reparado antes. Apesar de que não ajudaria, só retardaria o encontro, eu não ia sair da escola, a chance do meu pai me mudar de colégio era zero, e ele não deixaria seu emprego tão cedo.
Profissionalmente ele tornou a pegar a chamada e continuou em ordem alfabética. O desespero começou a tomar conta do meu corpo e apenas depois de uns cinco minutos percebi que a Maria ainda me olhava apreensiva.
— O que foi? – Ela perguntou com os olhos arregalados.
— Nada... Estou passando um pouco mal – Respondi tentando manter a calma.
Ela tornou a olhar para frente, encarou o rosto do professor e voltou para o meu novamente.
— Tem certeza que é só isso? Você estava bem até agora pouco – Me perguntou desconfiada –E o professor teve um lapso quando te viu a sala inteira reparou.
— Não, é impressão sua, e sim... É só isso – Conclui tentando parecer o menos seca possível.
— Hum... Bom, se você diz – Ela deu de ombros percebendo que eu não falaria mesmo que insistisse – Ah, então, nem te falei... O professor de Educação Física é meu irmão, legal né? No começo achei que iria ser um porre, mas quando ele passou no estágio ficou tão feliz, e me disse que vai dar umas atividades legais... Monica está me ouvindo?
Ok! Processei essa informação alguns segundos mais rápidos do que a bomba anterior que tinha acabado de receber, mas mesmo assim, foi lentamente que as palavras se juntaram e formaram uma frase completa na minha cabeça. Naquela hora sim achei que enfartaria, o ar me faltou nos pulmões e tive que fazer um esforço pra recuperar. Tinha a terrível mania de sentir enjôo em situações de muito nervoso, e nesse momento estava prestes a colocar tudo pra fora.
Respirei fundo e inspirei o mais calmo que consegui para não surtar e foi ai que a Maria percebeu que estava acontecendo alguma coisa de verdade.
—Você é irmã do professor? Do Cebola? Desse ai na frente? – Perguntei sussurrando, mas já tinha a certeza da resposta. Era claro que era. Os traços familiares que desde a primeira vez que a vi identifiquei, só podia ser dele.
— Cebola... Sim, sou sim, Maria Cebolinha, prazer – Ela sussurrou em resposta sorridente, me estendendo as mãos – Por que? Achou ele bonito? Cuidado que o colégio é bem rígido quanto a isso viu.
— Maria – Falei baixo tentando conter o desespero — Isso não pode estar acontecendo. Tem que ser um pesadelo.
— Vamos fazer silencio classe – Cebola chamou a atenção da sala exaltando a voz – Vocês tem dez minutos para a troca de uniformes, quero todos na quadra sem atrasos – Ele ordenou e saiu da sala sem olhar para trás.
Ouvi um murmúrio sobre ele ser bravo e coisas do tipo a caminho do vestiário, imediatamente ideias absurdas e totalmente sem nexo correram por minha cabeça, em todas elas, eu complicaria o emprego dele e minha vaga no colégio. Tentei focar no que a Maria falava, mas a única coisa que consegui, foi ver a Denise correndo desesperada em minha direção, desejei que ela não falasse o que imaginei que falaria, pelo menos não ao lado da Maria.
— Monica, Monica, me desculpa amiga. Pelo amor, eu não vi que era ele... Quer dizer não reconheci, você sabe... Minha memória, eu não foco muito nas coisas. Eu falei pra você contar, e agora? – Ela disparou a falar, ignorando totalmente a presença da Maria.
— Não. Agora não. – Cortei rapidamente tentando adiar o assunto que com certeza teria com minha mais nova amiga, minha cabeça estava explodindo de tanta informação, não era um momento muito bom para esse papo, eu só queria conseguir chorar quieta.
— Como agora não? Vai falar com ele, meu você viu a cara que ele ficou? Você tem que se explicar. Nossa como não o reconheci antes, que saco! – Ela bateu em sua cabeça como forma de protesto.
— Reconheceu quem? – Maria perguntou tentando entender do que se tratava.
— Ninguém.
— O professor Cebola.
Eu e a Denise respondemos juntas, fechei a cara na hora, pedindo sileciosamente para ela calar a boca.
— Meu irmão? — Ela questionou assustada.
— Seu irmão? – Denise me olhou esperando por respostas.
— Meninas, vocês vão me deixar louca, será que posso sofrer um pouco sozinha, por favor? – Engasguei começando a enjoar novamente — Se é difícil para as duas entenderem, imagina para mim. Ele nunca mais vai querer olhar para minha cara, e acabei de descobrir que a irmã dele é minha amiga. – Choraminguei limpando as lágrimas que escorreram sem minha permissão.
— Meu irmão... Perai... O carinha que você mentia a idade, era o meu irmão? Vocês estão juntos? – Ela perguntou levando as mãos a boca espantada.
— É, é ele. Só não estou conseguindo entender como isso foi acontecer, sempre me falaram que São Paulo era enorme, como essas coincidências acontecem desse jeito? Justo comigo, e justo quando o contaria toda a verdade?! – Perguntei tentando organizar minhas idéias enquanto vestia a contra gosto a calça do uniforme de Educação Física.
— Não acredito – Maria exclamou sentando ao banco do vestiário, um tanto quanto chocada.
— Nem eu – Denise concordou se acomodando ao seu lado.
Levei a mão novamente ao rosto e chorei por dentro tentando achar uma saída, se fosse no meu antigo colégio eu conseguiria ir embora, mas nesse não se tinha permissão de saída nem sob tortura. Eu tinha que me manter firme, mas como faria a aula dele se ao menos conseguia ouvir a sua voz?
Não tive muito tempo para pensar nisso, o enjôo voltou com força e o único tempo que tive, foi de correr para o banheiro.
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