Meu querido diário
62 Doce como o Mel
Notas iniciais
Capítulo 62 — Doce como o Mel

Bati duas vezes e esperei, talvez um pouco mais do que desejaria, tive medo de não ter ninguém em casa, mas menos de um minuto depois esse palpite caiu por terra.
— Monica? – Ele perguntou assustado, estava sem camisa, uma bermuda preta e o controle nas mãos indicavam uma típica noite de preguiça numa sexta feira, não sabia se estava sozinho, por segundos esqueci que ele namorava.
— Oi Cebola – O cumprimentei forçando um sorriso, pude sentir minha bochecha corar.
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— Está tudo bem? – Ele questionou confuso olhando para os lados, provavelmente se certificando de que eu estivesse sozinha.
— Sim... Quer dizer, não... Na verdade acho que não foi uma boa idéia eu ter vindo aqui – Respondi voltando a caminhar em direção ao elevador, me arrependendo momentaneamente de ter dado ouvidos para a idéia insana.
— Calma! – Ele deu um passo a frente me impedindo de ir embora – Se você veio, teve um motivo, entra! – Convidou dando espaço para eu passar.
— Não precisa Cebola, de verdade, nem sei se está acompanhado, eu só... – Tentei pensar rápido em uma desculpa – Vim te entregar sua blusa.
— Ah... Obrigado – Ele respondeu pegando-a de volta um tanto confuso – E você resolveu devolver minha blusa às onze da noite?
— Posso ir embora? – Perguntei me sentindo sem graça, realmente não fazia sentido algum aparecer na casa dele naquela hora para apenas devolver um casaco.
— Claro que não, vem, está chovendo – Respondeu abrindo mais ainda a porta para eu entrar.
Respirei fundo, analisei pela janela do corredor a chuva que apertava lá fora, passei as mãos sobre o rosto pensando no motivo que havia me levado até ali e por fim resolvi ceder ao convite. Assim que ele fechou a porta atrás de mim, senti um frio percorrendo minha espinha.
A casa dele era aconchegante passava uma sensação de conforto imediato, era bonita, bem arrumada, com moveis escuros decorando grande parte do cômodo inicial, duas estantes bem altas cheias de livros se encontravam atrás do sofá em couro preto, a cozinha de conceito aberto trazia no balcão três banquinhos com estofados também escuros combinando com o tapete e as almofadas, em tons de azul petróleo.
A grande TV pendurada na parede passava uma das minhas séries preferidas, pude perceber que havia atrapalhado, pois um pote de pipocas e o controle remoto se encontravam na mesinha de canto, bem como a cena pausada.
— E então querida dama, a que devo essa nobre visita? – Ele brincou se jogando na poltrona branca que se destacava diante das cores escuras do aposento – Alem da devolução da minha blusa, é claro.
— Podemos... Não falar disso? – Perguntei um tanto desanimada, não queria ter que desabafar sobre minha noite frustrada logo ali – Quer dizer, você pode só me servir um chá, dizer que queria companhia pra jogar vídeo game, ver série ou alguma coisa do tipo?
— Sempre! – Ele concluiu sorridente, se levantando e colocando água para ferver – Bom então seja bem vinda a minha casa e sinta-se a vontade.
— Gostei dela, é bem bonita – Respondi sinceramente olhando em volta, me sentindo mais tranqüila.
— Como soube o número daqui? – Ele perguntou vestindo uma camiseta.
— Digamos que tenho meus contatos – Conclui rindo.
— Bom... – Ele riu da minha resposta – Então, como não quer me dizer o que se passa, vou ajeitar as coisas para jogarmos.
— Sério? – Questionei surpresa.
— Claro, ué, não foi você mesma que pediu um chá, que já estou fazendo, e uma companhia pro vídeo game? – Ele questionou abrindo uma das gavetas da estante debaixo da TV para tirar o aparelho e os jogos.
— Foi... Mas não achei que se animaria – Respondi abrindo um sorriso – Sem contar que você podia ter compromisso...
— Com certeza me animo, e to sentindo que você também precisa de animação – Concluiu organizando os fios – Meu compromisso agora será te fazer sorrir, pode terminar de fazer o chá pra mim?
— Posso... – Concordei ainda sorrindo, vendo duas xícaras em cima da pia.
Segui até o local, e rapidamente preparei a bebida, cerca de dez minutos depois, eu já estava no sofá tomando o chá de camomila, esperando a pipoca que ele insistiu em estourar e sentindo uma compaixão pela atenção na qual ele estava me dando.
Não demorou muito para eu me sentir totalmente bem, no meio do segundo jogo ele pausou e me fez tirar o sapato insistindo que a textura do seu tapete era a melhor que ele já tinha sentido. Agradeci mentalmente pela idéia, uma vez que o salto já estava machucando o meu pé.
Jogamos uns cinco tipos diferentes, dentre eles de estratégia, de boliche e de corrida. Quando eu já nem me dava mais conta da hora, paramos exaustos de tanto rir depois de eu perder um strike por ter desequilibrado e caído no tapete.
O vídeo game nos empolgou tanto que eu estava anestesiada, com dor no maxilar de tanto rir, o mais legal alem das fases em si, foram brincadeiras que fizemos enquanto jogávamos, ele havia me matado de propósito pelo menos três vezes no jogo anterior ao boliche só para eu ter que voltar toda a fase, mas também não deixei por baixo, todas as vezes que ganhávamos poder, eu corria na frente para pegar sozinha e ficar mais forte, o derrubei do penhasco por duas vezes, e isso gerou vários momentos de gritos, jogadas de almofada na cara e altas risadas.
Eu estava admirada e até mesmo havia me esquecido de como ele me fazia sorrir fácil, sem esforço algum, por horas pude esquecer-me dos problemas e aproveitar aquilo que estávamos fazendo.
— Sua namorada deve amar jogar assim, é muito divertido – Comentei ofegante bebendo o suco recém trazido por ele.
— Ela não joga, não gosta de vídeo games – Ele respondeu secamente, sentando ao meu lado.
— Ah... Entendo, tem muita gente que não gosta – Tentei amenizar.
— Não, não tem não – Concluiu dando de ombros – Tanto faz.
Preferi não prosseguir com o assunto, mas pude perceber que havia mais que apenas um coração magoado naquele ambiente.
Pensei em ir embora, mas não recusei quando ele ofereceu outra remessa de pipoca e viu que um filme no qual gostávamos muito estava começando em um canal. Ganhou minha permanência quando apareceu com uma manta quentinha, um copão de suco e sentou ao meu lado para assistirmos juntos..
Não saberia dizer a hora exata em que me aconcheguei ainda mais no sofá, mas sabia que o final do filme eu não tinha visto, me sentia confortável, quente, segura. Ouvi no subconsciente que a TV continuava ligada, mas aquele torpor causado pelo estágio mais pesado do sono não me deixou pensar, nem agir, continuei ali.
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Chovia, uma garoa fininha, e eu corria feliz sob ela, me sentia realizada. Molhava meu cabelo, minha roupa, mas não ligava. Tinha mais alguém comigo. Uma risada junto a minha se fundia no ar, formando um som gostoso de se ouvir. Desejei poder rir daquele jeito para sempre. Ao mesmo compasso que a risada foi desaparecendo, um barulho estridente tomou o lugar, uma angustia se alojou no meu peito e num susto abri os olhos, despertando do sonho e percebendo o telefone de uma casa que não era minha, tocando bem alto.
Com a mente ainda devagar, procurei meu celular, vi que estava na mesinha de canto, onde havia um relóginho marcando exatamente 4h00 da manhã. Demorei a lembrar onde estava, e somente quando o Cebola apareceu com a cara amassada recém acordada na sala, que voltei a tona.
Como se a ficha caísse levei as mãos a cabeça, pensando em como não poderia ter dormido ali, com certeza o DC havia me procurado e a Magali também. Percebi que ele havia colocado um travesseiro e uma coberta mais pesada sobre mim, mas não lembrei de jeito nenhum o horário exato que isso tinha acontecido.
Ouvi ao longe o Cebola falando com alguém, e repentinamente lembrei que o telefone havia tocado, quem ligaria as 4h00 da manhã para alguém? Apurei os ouvidos, e percebi com a mesma angustia do sonho que estava tendo, a voz dele saindo preocupada.
Levantei um pouco lenta, e caminhei na direção dele vestindo sua blusa de frio, que novamente veio a calhar, deduzi que ele tinha deixado ali exatamente para eu usar. Ela ultrapassava meu vestido, ficando um pouco acima dos meus joelhos.
— Está tudo bem? – Questionei enquanto ele anotava algo sem parar em um papel.
Apenas acenou com as mãos pedindo que eu esperasse. Cocei a cabeça ansiosa e tornei a aguardar.
— Ok, estamos indo exatamente agora – Ouvi-o responder batendo o telefone em seguida.
— O que aconteceu? – Perguntei o olhando.
— Monica, pega suas coisas, vamos, te conto no caminho – Ele comentou complementando sua bermuda com uma camiseta, e jogando carteira, celular e chave do carro em seus bolsos.
— Vamos para onde? – Perguntei pegando minha bolsa e calçando o sapato.
— Seu irmão – Ele respondeu pegando em minha mão e me puxando para o elevador.
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