Meu (quase) Irmão De Holmes Chapel
15 British Museum
Notas iniciais
– Prepare-se para tomar a maior dose de conhecimento da sua vida — falei para ele no carro. Ele sorriu.
– Para ser honesto, estou com um pouco de medo dessa sua cara. Você parece uma maníaca.
– É que eu estou em Londres! — olhei para frente e enxerguei um conhecido monumento — Ah, meu Deus, a Agulha de Cleópatra!
Ele fez uma cara confusa.
– Você realmente não conhece o obelisco, né?
– Já ouvi falar.
Respirei fundo e expliquei a ele o que era a Agulha de Cleópatra, enquanto passávamos pelo rio Tâmisa — pelo rio Tâmisa!
– A Agulha de Cleópatra é um verdadeiro obelisco egípcio, ladeado por duas esfinges de bronze. No entorno, hieróglifos comemoram vitórias bélicas do imperador Ramsés II. Foi um presente do Egito ao Reino Unido em 1819, decorrente das conquistas de Lord Nelson na Batalha do Nilo e de Ralph Abercromby na Batalha de Alexandria. Embora o governo britânico demonstrasse gratidão pelo gesto, não se dignou, na época, a pagar o custo do transporte até a ilha. Em 1877, finalmente, surgiu o dinheiro para bancar a jornada. Só que a aventura de desenterrar o obelisco de mais de 3 mil anos, colocá-lo numa cápsula e rebocá-lo pelas águas até a Grã-Bretanha não deu tão certo. O mar revolto não facilitou a viagem do monumento e provocou a morte de seis marinheiros do navio. Em 12 de setembro de 1878, quase 60 anos depois da oferta do presente, a Agulha de Cleópatra foi erigida no Victoria Embankment. Construído em 1460 A.C., o obelisco é conhecido como Cleopatra’s Needle (Agulha de Cleópatra), mas tem pouquíssima relação com a a Rainha Cleópatra VII Thea Filopator, já que a antecedeu em mais de 1,4 mil anos. A ligação deve-se ao lugar de onde o obelisco foi desenterrado para ser movido para Londres. Ele encontrava-se em Alexandria, no templo de Caesareum, construído por Cleópatra. A Agulha de Cleópatra possui um par em Nova York. O obelisco norte-americano foi erigido no Central Park em 1888, três anos depois do londrino. A Agulha de Paris, cujo par permanece no Egito, foi a primeira a ser batizada de Agulha de Cleópatra, em 1833. Ela situa-se na Place de la Concorde, próximo ao local onde Luís XVI e Maria Antonieta foram guilhotinados em 1793.
Ele fez uma cara de assustado.
– Meu Deus, você é a Wikipédia!
Ignorei o comentário. Já saíamos da ponte de Waterloo, logo chegaríamos no museu.
– Por que está tão ansiosa para chegar ao museu?
– Esse museu foi fundado em 1759! Vem reunindo peças de todo o mundo há 250 anos! Pense na riqueza do acervo! Peças egípcias, gregas, astecas, japonesas, indianas, persas! Renascença, civilizações antigas... — ele me olhava segurando o riso — O que foi?
Ele riu.
– Nada. Você é engraçada.
– Por quê?
– É que você está tão empolgada falando sobre coisas que eu nunca acharia interessantes!
– Achando interessante ou não, você vai me ouvir falar o dia inteiro — cruzei os braços.
– Chegamos — o motorista avisou e parou o carro.
Abri um grande sorriso e olhei para Harry. Ele sorria também.
– É agora que você vira o Google né?
Dei risada.
– É.
Entramos e eu comecei a falar.
– Diferente de vários museus, este aqui é desde sempre gratuito. A mostra apresenta artefatos culturais representativos da história da ocupação humana em todos os continentes, uma das mais amplas e abrangentes do mundo. Por isso eu estava doida para vir. É mais interessante eu aprender vendo as coisas do que lendo algo. E você, Cachinhos, vai aprender também. Vamos direto à ala egípcia.
Ele respirou fundo, se preparando para o que vinha. Eu iria falar muito. Eu já era naturalmente tagarela, falando de coisas que gosto então... Recomecei a falar.
– Com a derrota de Napoleão Bonaparte, as tropas francesas que ocupavam o Egito sucumbiram ante o império britânico, e a influência do corpo diplomático proporcionou a formação de uma grande coleção de antiguidades faraônicas, que, juntamente com a apresentada no Museu do Louvre e de Berlim formam os mais importantes acervos fora de seu país de origem. Eu já fui ao museu de Berlim, obviamente, mas o Louvre ainda é um local desejado. Vamos achar a Pedra de Roseta.
Procuramos no mapa e encontramos a maior atração do museu.
– A peça mais visitada de todo o museu é, sem dúvida, a Pedra de Roseta. Fragmento de uma enorme estela, apresenta um decreto do faraó Ptolomeu V, em três linguagens diferentes, sendo uma delas em grego antigo, que serviu de chave para decifrar a linguagem hieroglífica. Por isso ela é tão importante. Foi a partir dela que os hieróglifos foram decifrados. O anúncio da decifração foi feito por Jean-François Champollion em 1822.
– Eu pergunto de novo: como cabe tudo isso em sua cabeça?
– Você devia prestar mais atenção nas aulas. E isso é cultura geral, você tem que saber!
– Não, não é cultura geral! Você fica estudando o dia inteiro?
– Não só estudo como leio Rick Riordan.
– Preciso desse livro então.
Chegamos à estátua de Ramsés II.
– Ramsés II foi um dos mais importantes faraós. O busto, proveniente do Templo de Tebas, demonstra a sofisticação dos artesãos egípcios e o culto ao faraó como representante legítimo e direto das divindades.
Andamos mais um pouco pela sessão egípcia e eu fiz mais algumas observações.
– A obsessão da cultura egípcia com a vida eterna fica evidenciada na exibição dos artefatos funerários: sarcófagos, papiros e múmias, incluindo múmias de animais sagrados como gatos, crocodilos e falcões. A mumificação de cadáveres sobreviveu inclusive à queda dos faraós. Nobres romanos que passaram a dominar a região ficaram simplesmente fascinados pelos ideais religiosos egípcios e passaram a adotar suas práticas funerárias na esperança de voltar a ocupar seus corpos na vida eterna. Retratos dos romanos mumificados eram desenhados sobre os sarcófagos.
Ele se cansou da ala egípcia e fomos para a coleção grega. Eu podia ficar lá o dia todo mas eu ainda tinha outros pontos turísticos para conhecer.
– O diplomata inglês Lord Elgin, em suas andanças pela Grécia, encontrou os relevos do Parthenon e outras joias deste importante período histórico sob sério risco de destruição. Trabalhando junto às autoridades otomanas, recebeu autorização para a retirada das peças, que fez chegar a Londres em 1802. Os frisos e relevos, conhecidos como “Mármores de Elgin” ocupam uma das salas mais procuradas de todo o museu. Não há como não ficar completamente maravilhado com a beleza e a leveza deste trabalho, que apresenta cenas do cotidiano da cidade de Atenas, como uma enorme procissão solene, incluindo algumas pitadas de bom humor ancestral com personagens fugindo de um acidente com uma carroça e outros pitorescos retratos. O Monumento às Nereidas, tumba datada de cerca de 380 a.C., é outro ponto alto da coleção grega, que é complementada por vasos, joias e estátuas magníficas. Muito embora se trate de um túmulo, provavelmente em honra ao Rei Arbinas, em uma primeira olhada o Monumento às Nereidas se parece mais com um templo. Suas finas colunatas são adornadas com estátuas representando nereidas, as ninfas do mar. A perfeição das esculturas representando divindades e heróis mitológicos é absolutamente impressionante, e continua influenciando artistas pelo mundo.
Andamos por todas as alas do museu, mas não olhamos detalhadamente porque não havia tempo. As peças eram maravilhosas.
– É impressionante como tudo isso conseguiu sobreviver por séculos, milênios. Eu sempre penso assim: há dois mil anos atrás um artesão egípcio tocou nessa pedra, há trezentos anos um rei europeu tocou nesse cálice, etc. Torna tudo mais especial, não é?
– Torna mesmo. Sabe, foi até divertido. Eu não morri de tédio nem nada e aprendi um bocado, Wikipédia.
– Cale a boca. Vamos almoçar e sair daqui. Ainda temos muita coisa para ver.
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