Meu quase
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu me apaixonei por Buck em uma manhã prateada quando o inverno estendeu a mão fria e arranhou as cores nítidas do outono, deixando cicatrizes geladas nos galhos de árvores estéreis e sangue branco e cheio de bolhas no chão duro.
Apaixonar-me por ele, assim como o inverno, foi horrível e destrutivo, como um rojão em um saco de papel, destruindo minha parede fina até que tudo o que eu tinha eram os farrapos manchados de sangue do meu coração. A percepção de que eu poderia amar alguém como eu amava Buck foi devastadora. Ela cavou fundo no meu peito, apertou meus pulmões entre seus punhos apertados e roubou meu fôlego.
Mesmo agora, quando seus olhos azuis queimavam como sóis sob as luzes brancas do hospital, meu coração pulou na minha garganta. Aquelas faíscas em seus lindos olhos já estavam desaparecendo, suas brasas morrendo, e tudo o que eu podia fazer era me apaixonar mais. Estou apaixonado pelo meu melhor amigo, e o fato de que percebi isso agora, bem quando descobri que iria perdê-lo para sempre, só partiu meu coração ainda mais.
— Você tem opções, Sr. Barnes – disse o médico. — Com a quimioterapia podemos prolongar...
— Não! – Buck disse suavemente, mas a palavra foi como um tiro. — E-eu... Quanto tempo eu tenho?
Apertei minhas mãos sobre meus ouvidos, tentando bloquear todo o som: as rodas rangentes das macas que passavam, o tagarelar de enfermeiras alegres e o bipe desagradável das máquinas médicas ao redor da cama de Buck. Eu não queria ouvir mais e já tinha perdido a chance de ignorar o diagnóstico original, quando eles disseram coisas como tumor cerebral e inoperável e não pode ser feito nada, desculpe... Eu não queria ouvir quando ele morreria.
— …meses. Mais se tivermos sorte – o médico estava dizendo, mas eu não conseguia imaginar.
Meu coração colidiu com sua outra metade no dia que o conheci no parquinho na pré-escola. Mesmo depois de vinte e quatro anos, Buck sempre foi uma daquelas coisas que nunca consegui lembrar de passar um único dia sem.
Sempre fomos Buck e Tony. Minhas melhores lembranças são com ele. Compartilhamos tudo, desde brincadeiras com carrinhos, até os anos estranhos e tediosos da adolescência… Nós éramos os ases em um baralho de cartas, um arco-íris duplo em um dia chuvoso.
Sentados na varanda de cerejeira em seu quintal e falamos de tudo e de nada. Tínhamos muita vida pela frente e todo o tempo do mundo. Além disso, tínhamos um ao outro, e isso era tudo o que precisávamos… até agora.
Depois que os médicos saíram, não consegui olhar para Buck por muito tempo. Tracei desenhos de gelo no parapeito da janela, diferentes redemoinhos de azul e branco que brilhavam sob o sol da manhã, tentando e falhando fingir que tudo estava bem. Não consigo encarar a realidade de que ele irá embora e nunca mais voltará e que não há absolutamente nada que eu possa fazer para impedir isso.
Buck passou uma mão pálida pelo cabelo escuro, seus olhos encontrando os meus no reflexo no vidro.
— Você está muito quieto, Tony. Quer falar sobre isso? – Buck me perguntou, mas permaneci em silêncio. Ele não deveria estar me confortando em seu momento de sofrimento, e ainda assim admirei sua força.
Suspirei e girei a cadeira para perto da cama dele, me recusando a encontrar seu olhar. Sinto-me quebrado, consigo ouvir as rachaduras se formando mais e mais. Parece que nunca vou parar de quebrar.
— O que há para falar? – não consegui esconder a armadura que sentia ardendo em meu âmago. — Você tem no máximo quatro meses de vida e recusou o tratamento, que poderia te dar mais tempo. Agora eu tenho que ver você morrer – minha voz falhou na última palavra.
A realidade finalmente se impôs e trouxe consigo um sabor amargo. Lágrimas formigando nos cantos dos meus olhos com o peso de tudo isso, e pingaram pelo meu rosto como cera de vela, grossas e lentas.
Um vulcão entrou em erupção na boca do meu estômago, deixando para trás um abismo profundo e escuro que ameaçava me engolir. Uma dor, aguda e gelada, escorreu pelas minhas veias, enrolando-se pesadamente em meu peito.
As mudanças que Buck enfrentaria nos próximos meses eram avassaladoras: afasia, cegueira, perda de memória, convulsões e morte.
— Tony, vai ficar tudo bem…
— Não! Não vai ficar tudo bem. Você está morrendo! – disse elevando meu tom de voz.
— É importante saber quando uma luta está perdida, ou então perderá muito mais do que apenas uma luta. Eu já perdi e agora, tudo o que quero é aproveitar o pouco de tempo que me sobrou sem me sentir miserável – Buck falou com uma resignação cansada, que doeu no meu coração.
Senti-me impotente, e a única coisa que pude fazer foi me curvar sobre a cama dele, agarrar perto, e soltar uma carnificina de gritos de cortar o coração. Foi a tristeza mais descarada e dolorosa que já sofri, mas era apenas mais uma parte da vida. Você não poderia ser feliz sem ser triste, certo? Como as coisas poderiam ser boas se nunca fossem ruins? A tristeza era apenas uma parte inevitável do ser humano.
Houve um breve momento de silêncio, e então Buck envolveu em um abraço apertado, descansando minha cabeça em seu ombro. Minhas mãos afundaram no tecido preto gasto de seu moletom, lutando para pressionar na lateral do pescoço para que eu pudesse sentir o bater de seu coração sob meus dedos.
— Isso não é justo! – ele respirou fundo com minhas palavras, estremecendo contra mim. — Co-Como vou viver em um mundo sem você, Buck? Droga… Não posso te perder. Eu te amo.
Não sei se sobreviverei a sua perda. Ele não foi apenas meu primeiro amigo, ele é praticamente tudo para mim.
Buck se afastou e embalou meu rosto entre suas mãos geladas, seu corpo tremia enquanto lutava para conter seus próprios sentimentos borbulhantes.
— Eu vou ficar bem, Tony.
Limpando as lágrimas do meu rosto, ele se inclinou para frente e deu um beijo suave no centro da minha testa. Franzi meus lábios em uma linha fina para não retrucar e enterrei minha cabeça na curva do seu pescoço, inalando profundamente até que eu estava respirando sua própria essência, o gosto de canela e hortelã na ponta da minha língua.
Por fim, subi na cama, consciente do soro e dos fios presos ao seu corpo, e me aninhei perto dele. Ele puxou minha cabeça para seu peito e passou a mão pelos meus cabelos emaranhados, desenhando figuras no meu couro cabeludo até que meus soluços se transformaram em suspiros suaves. Ficamos deitados em silêncio, encontrando conforto na presença um do outro, até que ele adormeceu em um sono leve. Mesmo enquanto os segundos passavam, cada um como um grão de areia caindo no fundo de sua ampulheta, eu olhava para o rosto de Buck sem dizer uma palavra.
Estendi minha mão e só então notei o quanto eu estava trêmulo, escovei a sua franja suada atrás de suas orelhas e me perguntei como poderia viver sem ele. Em poucos meses, eu o perderia. Nunca mais veria seus olhos arregalados, sua voz profunda e áspera, ou ouviria sua risada brilhante ou sentiria seu abraço caloroso. Eu também sei, porque sou seu melhor amigo, que tenho que estar presente enquanto ele se deteriorava em um estado de nada, apenas um cadáver frio com um rosto dolorosamente familiar, até que ele solta aquele último suspiro e me deixa para sempre.
— Senhor? – uma voz disse da entrada do quarto do hospital.
Espiei por cima do ombro para encontrar uma pequena morena parada na porta, e eu o agarrei um pouco mais forte.
— Ele está dormindo – foi tudo o que eu ofereci. Ela me deu um pequeno e insípido sorriso.
— Os pais do Sr. Barnes estão aqui. Eles estão perguntando por você.
Levantei-me relutantemente para me juntar à enfermeira, mas não antes de lançar um rápido olhar por cima do meu ombro, apenas para ver Buck uma última vez. Tive um vislumbre de sua forma adormecida, banhada pela luz do sol que filtrava através das persianas, e não pude deixar de sorrir. Um dia, eu olharia para trás e ele teria ido embora – mas hoje, ele ainda estava aqui, e isso era tudo o que importava.
— Durma bem, Buck – eu disse, engolindo um nó grosso na garganta, e entrei no corredor mal iluminado. A enfermeira fechou a porta suavemente atrás de nós.
— Vocês dois formam um casal fofo.
— Ele não é meu namorado – meu coração gaguejou. — Você achou que éramos namorados?
Ela assentiu.
— Isso, ou pelo menos um ex.
Balançando a cabeça, ri tristemente e cruzei os braços.
— Não, ele não é meu namorado ou um ex.
— Então quem é ele para você?
— Ele está mais para meu ex-quase – disse a ela, minha voz falhou. É de partir a alma admitir, que no fim das contas, nunca teremos a chance de ser mais. Teríamos sido inesquecíveis se tivesse tempo.
Eu me apaixonei por Buck em uma manhã prateada quando o inverno levou o sol sobre o horizonte e cobriu a cidade com um lindo cobertor branco, deixando um país das maravilhas brilhante para todos verem. A realização foi inesperada, mas definitivamente desejada, mesmo que fim só reste uma história de amor que terminou antes de começar.
Buck partiu em uma manhã dourada após o Ano Novo, quando o sol nasceu e incendiou a cidade com luz; e foi o adeus mais difícil que tive que dar na vida. Ele morreu ainda me amando, mesmo que nunca tenha dito isso.
Tenho certeza que nosso amor teria sido incrível, se tivesse tido a chance de acontecer e parte meu coração ter percebido que o amava quando o perdia para sempre. Mas nunca há um momento oportuno para essas coisas, ao menos ele soube no final o quanto é imensamente amado.
Eu não consigo deixar de amá-lo. Eu adoraria que tivéssemos ficado juntos e sofro por todas as coisas que poderíamos ter feito, por tudo que poderíamos ter sido. Agora somos apenas um quase, mas…
Buck sempre será o meu mais bonito quase.
Notas finais
Então o que acharam? Deixem suas opiniões para a sua amada autora.
bjus de luz
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