Meu professor
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Era fato que a gravidez de Melissa pegou a todos de surpresa. Afinal, para os colegas e os demais professores, ela sempre fora uma aluna modelo: bem comportada, boas notas, baixo índice de ausências nas aulas, quase nunca pedia para sair para beber água, ou encher sua garrafinha, ou mesmo para ir ao banheiro. Também raramente se envolvia em conversas paralelas durante as aulas.
É evidente que todos achavam que fora da escola ela também tinha uma postura exemplar.
Nesse momento, Yran buscou apenas acolher a aluna, sem julgamentos. Para sua feliz surpresa, a enorme maioria dos colegas dela também mostrou uma postura acolhedora.
Evidente que houve alguns colegas que se limitaram a ficar sussurrando, apontando, como se estivessem criticando a situação de Melissa. Para coibir isso, Yran logo disse:
-Ok, pessoal, agora que todos já estão cientes da situação, por favor, vamos voltar para a aula. Ainda não vimos nem 20% da tabela periódica. Não há tempo para assuntos paralelos — acrescentou, enfático, olhando para o pequeno grupo que estivera apontando para Melissa, para deixar nítido que não toleraria que fizessem pouco caso da garota ou que a ficassem julgando durante o tempo de sua aula.
Yran esperava que talvez a bomba voltasse a ficar visível ou que a contagem regressiva para que ela explodisse voltasse a ficar em evidência, mas decidiu não sofrer por antecipação. Seguiu com sua rotina, aulas, planejamentos, avaliações e outros afazeres de seu dia-a-dia profissional, sem perder o sono, mas se preparando caso eventualmente precisasse lidar com alguma situação ou restaurar a ordem em sua sala de aula, novamente.
...
...
...
...
Uma aluna entrou na turma no decorrer do mês, já após o ano letivo ter se iniciado, poucos dias após o Carnaval. Seu nome era Gabrielle, mas quando se apresentou disse que preferia ser chamada de Gaby.
Aparentemente ela tinha algum laudo, pois Yran percebeu algumas particularidades na postura dela. Seja qual fosse o diagnóstico, ele reparou também que ela era muito comportada e educada. Prestava bastante atenção à aula e fazia muitas anotações, mesmo antes do professor pedir, ou mesmo sem que Yran tivesse sequer pedido.
Ao fim dos dois horários de Química, Gaby se aproximou do professor.
-Foi uma aula interessante, professor.
-Obrigado. Preparo as aulas com todo o cuidado para trazer o conteúdo de forma adequada para vocês.
-Compreendi... Profe, o sr. foi muito atencioso comigo, mesmo eu tendo chegado depois na turma. Se importa se eu fizer uma pergunta pessoal?
-Bom, dependendo da pergunta, pode fazer sim.
-O senhor se incomodaria se eu te chamasse de "pai"?
Yran hesitou ante o pedido incomum.
-E por quê você me chamaria de pai?
-Porque o senhor me tratou bem mesmo tendo me conhecido hoje. E... eu não tenho uma boa relação com meu pai de sangue. Na verdade eu o vi poucas vezes na minha vida.
Mais um pai ausente engrossando estatística, disse Yran para si mesmo em pensamento, ao mesmo tempo em que se lamentava por sua aluna não ter tido uma figura paterna decente em sua vida. Era triste, e ao mesmo tempo, tenebroso, que ainda muitos pais naquele país se recusassem a assumir suas responsabilidades paternais.
Sem perceber, Yran estava se emocionando. A menina o conhecera naquele dia e já enxergara nele uma figura "paterna", que, certamente, considerou bem mais acolhedora e paternal do que o próprio pai dela.
-Bom, eu... a escola é bem rigorosa quanto ao convívio de professores e alunos, essas questões pessoais. E...
-Não se preocupa, profe. Eu serei respeitosa ao extremo com o sr. Só pedi para te chamar de pai porque acho o sr. muito legal, mesmo. É o tipo de pessoa que eu gostaria de ter como pai.
Yran engoliu em seco rapidamente, torcendo para que Gaby não tivesse percebido.
-Tudo bem... minha filha. Não tem problema. Pode me chamar de pai, sim.
Gaby estendeu a mão para ele. Yran apertou, os olhos já quase marejados.
-Muito obrigada, pai.
Ela sorriu para ele, pegou uma sacolinha de dentro da mochila, virou-se para a saída e foi para o intervalo, com os demais colegas. O químico imaginou que se tratava do lanche que a menina trouxera de casa. Aquele momento ficou cravado na cabeça de Yran.
...
...
...
...
Ao chegar em sua casa, num condomínio fechado localizado no Conjunto Pirangi, em Neópolis, zona sul de Natal, Yran fez algo que raramente fazia.
Sentou-se à mesa de jantar e caiu em prantos.
Sua esposa se aproximou dele e passou as mãos nos ombros do marido.
-Por Deus, querido, o que aconteceu??
Yran soluçava. Mas se forçou a se recompor, olhou para a esposa e logo começou a contar a ela sobre o acontecido na aula daquele dia e o porquê daquilo tê-lo deixado tão emocionado.
Fale com o autor