Meu primeiro e único amor
1 Capítulo I: Reencontro.
Notas iniciais
Ela será dividida em três partes. E a música que serviu de inspiração foi I'm Still In Love With You - Sean Paul (Ft. Sasha).
Link: https://www.youtube.com/watch?v=AQ4TW5Z8eu0
Boa leitura!
"When me leaving me see the gal cry cry cry
(...) So don't cry no more
Baby girl for sure
Just remember the good times we had before.."
Cafeteria Ichiraku, Konoha, 11:00 a.m.
Era Dezembro e amanhecera um dia de frio intenso na cidade, ao ponto de induzir grande parte dos moradores a lotarem cafeterias em busca de algo para aquecê-los; para alguns uma xícara de café forte, para outros um copo de chocolate quente, e para dois deles — inesperadamente — acabou se tornando mais do que isso: um reencontro.
Naruto não estava mais acostumado com o vento gélido atingindo-o tão fortemente. Nos 10 anos em que esteve fora dali residiu em Tóquio, cujo tempo não era tão frio quanto o de Konoha.
Ainda assim, naquela cafeteria pequena e pouco iluminada, tão simples e ao mesmo tempo tão acolhedora com suas mesinhas e cadeiras de madeira, retratos da cidade distribuídos pela parede e atendentes bastante solícitos, ele se sentia feliz por estar de volta. Um tanto deslocado e até perdido após tantos anos fora. Mas ainda assim, feliz. Tomando o seu chocolate quente, comendo um bolinho de baunilha e pensando nas tantas coisas que desejava fazer agora que estava novamente em Konoha. Mal sabia por onde começar.
O som de um sino soava a cada cliente que abria a porta e isso arrancava-o de seus pensamentos, levando os grandes olhos azuis a se direcionarem automaticamente para a entrada do local toda vez que isso acontecia. Naruto era bastante sensível aos sons do ambiente.
Contudo, após o som daquele sino ecoar incontáveis vezes e em nenhuma delas tratar-se de algum antigo conhecido, ele simplesmente passou a ignorá-lo e não prestou atenção quando adentrou no recinto da cafeteria uma figura feminina que lhe era bastante familiar.
A dona do chamativo cabelo rosáceo abriu a porta de entrada daquele estabelecimento sem muita pretensão além de se deliciar com um café quente, forte e doce após mais uma divertida noite com um rapaz qualquer que conhecera no seu último show, em um bar novo na cidade. Ainda assim sentia-se exausta após uma semana intensa de gravação, shows e eventos de divulgação. Amava o que fazia, mas o preço da realização de seu sonho não era baixo.
Perdida nesses pensamentos, ela se deslocou até a mesa próxima da maior janela da cafeteria, a sua preferida naquele lugar.
Ao se aproximar mais, notou que já estava ocupada. E é difícil mensurar o tamanho do choque e da euforia que se fez presente quando Sakura chegou mais perto e identificou quem era que estava sentado ali. Naquele exato momento, após 10 anos sem manter qualquer tipo de contato, Naruto e Sakura estavam frente a frente. Os melhores amigos de infância que foram secretamente apaixonados um pelo outro. Seus olhos se encontraram e no segundo em que isso aconteceu foram tomados por um misto emoções.
— Naruto? Naruto Uzumaki? — A voz fina de Sakura quebrou o breve silêncio entre eles. Ela abriu um largo sorriso.
Aquele rapaz diante dela parecia mais sério, mais maduro. Além disso, estava mais alto e embora escondido em um grande casaco preto com detalhes em laranja, era possível notar que estava mais forte. Mas ainda que estivesse tão diferente do que se recordava, tinha certeza de que era ele. Aqueles olhos azuis e cabelos amarelos espetados eram inconfundíveis e estiveram presentes na maior parte das lembranças felizes da infância de Sakura.
Ela tinha 14 anos quando Naruto partiu. E ele tinha 15. Eram apenas crianças, estavam descobrindo as paixões, as festas, as inseguranças e as confusões da adolescência. Foi triste para a jovem vê-lo partir, mais triste ainda não ter mais notícias dele após sua partida. E foi igualmente difícil para ele; talvez até mais, visto que o rapaz precisou deixar sua paixão, grandes amigos e o lugar em que nasceu e no qual vivia uma vida feliz. Contudo, o negócio de sua família cresceu tanto que acabaram precisando se mudar para Tóquio. Os pais dele acreditavam que esse era o melhor caminho a ser seguido. Que além de prosperar nos negócios, o seu filho teria mais oportunidades em uma cidade maior.
Por fim, as memórias daquele tempo acabaram se distancia e àquela altura mal pensavam um no outro.
Sakura mergulhada em sua música, na diversão com os seus amigos e nas variadas paixões de uma noite só.
Naruto mergulhado nos negócios da família, em eventos da alta sociedade e em um relacionamento movido somente por atração física e status, que teve seu fim quando ele foi embora de Tóquio.
Após 10 anos e as tantas vivências que couberam nesse período, aquele reencontro se tratava de muita informação para processar de uma vez só. Ambos oscilavam entre o espanto e o encanto daquele momento.
— É claro! E eu nem acredito que é a Sakura Haruno que está na minha frente depois de todo esse tempo! — Naruto, movido pelo impulso, se levantou e puxou-a para perto, envolvendo Sakura em um inesperado abraço. Ela arqueou as sobrancelhas e sua face transparecia certo choque, porém retribuiu e ele respirou aliviado. Era bom se deparar com alguém familiar. Especialmente com aquele alguém.
Então pôs-se a analisá-la com mais atenção.
Sakura segurava um moletom em seus braços e vestia um suéter fino e branco que ajustava-se ao seu corpo, ressaltando as generosas curvas que o amadurecimento lhe trouxe. E ao seguir olhando cada pedacinho daquela figura, ele se deu conta de que não houve na história dele nenhuma outra garota com aqueles olhos verdes no exato tom de uma pedra preciosa esmeralda e um chamativo cabelo cor-de-rosa. E então não pôde deixar de sorrir.
Ela notou que ambos estavam analisando as mudanças um no outro, e logo soltou um comentário a respeito:
— E como eu posso acreditar que é você aqui na minha frente?! Nas lembranças que tenho você era um garoto baixinho e magrelo.. E olha como está agora. — A garota estudava atentamente o rapaz a sua frente e passou a mão pelo peitoral bem definido dele, rindo.
— E acha que é assim que eu me lembrava de você?! — Ele apontou para ela e ambos deram uma risada gostosa. Sabiam que o amadurecimento foi generoso com os dois — Sabe, pensei que por você estar ficando famosa por aqui conseguiria ver o seu rosto ao menos nas fotos. Mas eles fazem o maior mistério na divulgação dos seus shows.
No momento em que ouviu isso, Sakura assumiu um tom mais sério:
— Se sabia dos meus shows, por que não me procurou? Você me apoiava tanto quando eu era apenas uma criança boba sonhando ser uma grande artista da música.
— Ah, eu imaginei que teria muita gente do passado lá. Todo mundo ia querer saber da minha vida, ficar fazendo perguntas.. Daí não iam nem dar atenção pra você no seu próprio show. — O rapaz sorriu, o tom brincalhão e provocativo presente em sua voz.
A rosada revirou os olhos. Ele sorriu ainda mais.
— Algumas coisas não mudam. Você pode até estar muito atraente, mas ainda é um idiota convencido! — Sakura segurou o riso e o encarou, fixando os seus belos olhos verdes nos dele, aquele par de bolinhas tão azuis quanto o céu em um dia de sol. Ela tentava aparentar seriedade no seu comentário, mas o rapaz seguiu risonho. Inclusive gostou de saber que ela o achou tão atraente.
Então um silêncio se fez e Sakura identificou naquele momento a deixa que precisava para fazer as perguntas que surgiram em sua mente assim que o avistou sentado naquela cadeirinha de madeira se deliciando com um bolinho de baunilha.
— O que te trouxe de volta, Naruto? Vai ficar quanto tempo dessa vez? — Pela voz levemente trêmula de Sakura e pela inquietude das pernas dela, Naruto percebeu que as respostas para aquelas perguntas poderiam ser importantes para a garota.
Ao constatar isso, ele procurou ser transparente ao responder:
— É uma longa história, vou tentar resumir..Me cansei de fazer o que meu pai esperava que eu fizesse e resolvi fazer algo que eu quisesse realmente fazer.. É algo musical também. Trabalho na produção das melodias, sabe? Nos elementos da batida. Tenho algumas propostas que envolvem jazz, hiphop. — Ele falava sem parar e Sakura ouvia com atenção. Até mesmo com certo encanto pela coragem dele e pela paixão que emanava em seu tom de voz ao compartilhar aquelas idéias — E ouvi falar que Konoha está crescendo muito no cenário musical e que as gravadoras aqui são abertas pro novo, pro diferente. Então a resposta para suas perguntas é: depende do que eu conseguir por aqui.
Sakura reagiu com entusiasmo:
— Isso é incrível, Naruto! Eu posso te ajudar com isso! — Um sorriso de empolgação se formou automaticamente em seus lábios.
— Não, Sakura. Isso é algo que eu quero conquistar por mim. Sem ajuda de ninguém. — Naruto a encarou com seriedade, a postura reta e os braços fortes cruzados contra o peito. Ela suspirou profundamente, querendo deixar nítida a sua decepção. Contudo, pôde concluir que isso também não havia mudado. A determinação e o orgulho de Naruto.
E então se puseram a trocar idéias sobre música, sobre as vivências que tiveram durante esse tempo afastados e o Uzumaki fez incontáveis perguntas sobre os amigos que tinham em comum e sobre as mudanças na vida deles e na cidade.
O tempo passou rapidamente e ambos encontravam-se imersos naquele reencontro, de maneira a perder um tanto a noção da hora, do local e dos compromissos. Foi somente com a observação empolgada de uma garçonete que Sakura se deu conta disso:
— Senhorita Sakura! É tão difícil você vir, relaxar e ficar por tanto tempo.. Normalmente tem tanta pressa.
O tom da mulher ao constatar isso foi simpático. Contudo, a rosada de imediato olhou para o relógio e levantou-se em um pulo. Já passava da 1:00 p.m.
— O Sasuke e a Ino vão me matar! — Ela comentou, esbaforida — Esqueci totalmente da hora marcada com eles na gravadora pra discutir sobre algumas faixas do meu CD. Já prevejo o sermão...
Naruto observou a cena com diversão. Pelo que ele se lembrava e pelo que Sakura contou, aquela dupla não era fácil de lidar. Ino era explosiva e Sasuke, embora mais quieto, conseguia ser bastante rude às vezes. Ainda assim, pensar neles o fez sentir saudade.
— Você quer ir comigo? — Sakura arrancou-o de seus pensamentos ao fazer essa pergunta. Ela já havia colocado novamente o seu moletom vermelho escuro e estava encaixando uma mochila nas costas. Parecia até mesmo uma adolescente, embora já estivesse com 24 anos de idade.
Naruto fez um sinal negativo com a cabeça.
— Não entendo. O seu plano era voltar e viver isolado em cafeterias tomando chocolate quente?! — Ela questionou com certa ironia. Naruto revirou os olhos e a rosada retirou da bolsa um papel e uma caneta e começou a fazer algumas anotações — Quando você foi embora, a gente não sabia o que era e-mail, celular, telefone.. Mas agora você não tem desculpas pra desaparecer sem deixar rastros.
A garota pegou as mãos de Naruto e colocou entre elas o papel com todas as suas informações de contato.
— Me ligue. Você claramente precisa se lembrar o que é diversão de verdade. — Ela encarou-o e pelo seu sorriso era possível identificar a provocação. Após isso, virou as costas e saiu andando apressadamente.
Ele apenas ficou ali, observando-a partir.. Admirando aqueles cabelos que ainda possuíam a cor das pétalas de uma flor de cerejeira, pensando no corpo curvilíneo que vislumbrou antes que ela o cobrisse com aquele moletom. Parece que Sakura estava mais atraente e acima de tudo mais ousada do que Naruto se recordava. E ele não tinha como negar que havia gostado disso.
Gravadora KNH Records, 2:00 p.m.
Aquela era uma sala de duplo ambiente. De um lado do vidro temperado havia um espaço com isolamento acústico em cada uma de suas paredes. Pelo chão daquele ambiente alguns instrumentos musicais e microfones estavam distribuídos.
Do outro lado do vidro encontrava-se um painel com incontáveis botões de diferentes tipos, cores e tamanhos para realizar a produção musical. E um pouco mais distante dele havia um belo sofá preto de couro em que estava sentado um garoto de cabelos e olhos escuros como a noite que contrastavam com a sua pele pálida.
Ele observava a figura alta, magra e loira que andava com impaciência de um lado para o outro da sala. Ino não era o tipo de pessoa que guardava o que estava pensando, tampouco perita em manter a calma.
— Já pode ir buscando uma nova opção de lançamento, Sasuke... Porque a Sakura vai ser morta por mim hoje! — Ela esbravejou diversas vezes em um curto espaço de tempo. A irritação era evidente em seu tom de voz.
Aquela garota era uma das melhores amigas de Sakura. Auxiliava na composição e na produção das músicas. E conversavam sobre todos os assuntos, saíam juntas. Brincaram muito na infância e tiveram lá sua rivalidade na adolescência. Contudo, com o amadurecimento a competição entre as duas foi ficando no passado e até mesmo se tornaram grandes parceiras no trabalho.
E embora Sakura gostasse muito de se divertir, sair e se aventurar, ela levava a música muito a sério. Por esse motivo, Ino estava tão brava quanto preocupada com a amiga.
O celular da rosada só caía na Caixa Postal.
— Acalme-se, Ino. — Sasuke levantou-se, a encarou sério e segurou em seus ombros com firmeza — Está me incomodando te observar andar de um lado pro outro praguejando.
Ino revirou os olhos. Pensou em responder, mas sabia que discutir com Sasuke deixaria-o de mau humor. O rapaz tinha um gênio difícil. Mas ainda assim, era um dos melhores produtores da cidade e trabalhar com ele era importante para sua carreira, tanto em termos de nome quanto de aprendizado.
Além disso, por mais genioso que fosse, ela não podia negar que o indivíduo era um deleite para seus olhos. Algumas mechas do cabelo preto de Sasuke caíam-lhe sob os olhos. Olhos esses que possuíam íris que mais pareciam duas pedras ônix pretas. Observá-lo ali com as mãos fixadas em seus ombros mostrou-se uma bela forma de distraí-la. Ele estava prestes a soltá-la quando uma voz fina e muito conhecida inundou o ambiente:
— Atrapalho algo? — Sakura adentrou a sala rindo. Ambos fuzilaram-na com os olhos.
— Atrapalha, Sakura! O seu atraso atrapalha a nossa agenda. A produtividade da nossa música. — Ino se fez de desentendida, cruzou os braços contra o peito e ficou encarando a amiga, que não parou de dar risada desde o momento em que passou por aquela porta.
Sasuke manteve-se em silêncio. Logo encaixou um fone de ouvido em sua cabeça e pôs-se a regular os aparelhos.
— Eu juro que a justificativa dificilmente seria melhor! — Sakura estava tão empolgada e ansiosa para contar o motivo de seu atraso que nem deu tempo para a amiga responder. — Eu estava com o..
Ino, no entanto, interrompeu-a imediatamente em tom de repreensão:
— Sakura, só pode estar brincando comigo! Você nunca deixa os homens atrapalharem a sua carreira.
— O Naruto voltou! — Sakura mal conseguia conter o riso diante da reação de Ino. Os olhos azuis dela se arregalaram. Não era fácil deixá-la sem palavras, mas por um momento foi o que aconteceu.
— Tem certeza que era ele?! Será que você não se confundiu? — Ela perguntou com a desconfiança evidente em sua expressão e Sakura revirou os olhos.
— Não posso acreditar que você está me perguntando isso. — A rosada balançou a cabeça em um gesto negativo, ficou inconformada com as perguntas feitas pela amiga — Acho que nem mesmo se ele fizesse alguma cirurgia no rosto, pintasse o cabelo, colocasse lentes.. Nem isso poderia me fazer confundi-lo com outro.
Ino assentiu. Sabia da proximidade deles, da paixão secreta e interrompida. Ela passou um bom tempo de sua infância brincando com Sakura, e Naruto costumava estar junto. Assim como Sasuke e outros dos amigos que permaneceram em Konoha.
— E como foi? — A loira perguntou bastante curiosa, ainda se recompondo da surpresa.
— Foi uma mistura de surpresa com alegria, estranho e ao mesmo tempo familiar. — Sakura pensou bem ao responder. Era difícil definir ao certo. Foram muitas emoções para um período tão curto de tempo — E ele está tão mais atraente, foi difícil me conter. Você sabe: um belo rostinho, um corpo gostoso e ainda conduziu tão bem a conversa mesmo depois de tanto tempo afastados. A conquista desse troféu vai ter um sabor diferente para mim.
— Não me diga que você vai dormir com ele, Sakura! — O tom de Ino novamente soou repreensivo — Ele não é um cara qualquer que conhecemos em um show, que você vai levar pra casa e depois simplesmente evitar.
Sakura não deixava de contestar:
— Você já dormiu com o Shikamaru e ele é o seu melhor amigo. Eu já dormi com o Itachi algumas vezes e ele é irmão do Sasuke. Estão sempre com a gente e isso nunca foi estranho.
— Me pergunto em que momento me tornei mais ajuizada que você. — Ino suspirou pesadamente, resignada. Um leve riso escapou-lhe dos lábios ao refletir sobre o comentário que acabara de fazer. E em seguida, acrescentou: — Ainda assim, eu teria cuidado com os sentimentos. É do Naruto que estamos falando.
— Já faz tantos anos, eu não sinto mais aquela paixão adolescente. Agora se trata só de realizar um desejo que eu fui obrigada a reprimir no passado. Você sabe que relacionamentos e sentimentos não são o meu forte. — Após concluir essa fala, Sakura levantou-se e se direcionou ao ambiente do outro lado do vidro, sem dar tempo para a amiga continuar argumentando.
Ino ficou pensativa por mais alguns momentos. Realmente não se lembrava da última vez que ouvira a rosada falar de alguém com afeto ou fazer qualquer tipo de plano que envolvesse mais do que ter algumas horas de prazer. O mais duradouro relacionamento que teve em muito tempo foi com o cantor de uma banda vizinha com o qual sempre passava a noite quando ele visitava Konoha.
Contudo, não era isso que a preocupava. Na verdade, Sakura era solteira e tinha total liberdade para viver como desejasse. O que a preocupava um pouco era o que poderia resultar dessa história com Naruto. O rapaz retornara a cidade e não havia procurado contato com nenhum deles. Por quanto tempo pretendia ficar dessa vez?
Ela notou a euforia da amiga ao chegar na gravadora. Fazia muito tempo que não a via tão feliz. Ainda que Sakura tentasse esconder, Ino a conhecia o bastante para saber que aquele reencontro havia mexido com ela. E pensando bem, até poderia resultar em algo bom. Não havia como prever. Apenas esperava que o amigo voltasse a fazer parte do ciclo social delas e que ninguém saísse machucado.
A loira resolveu deixar esses pensamentos de lado. Foi sentar-se ao lado de Sasuke e voltou toda a sua atenção ao trabalho.
A verdade é que Konoha era uma cidade na qual as crianças brincavam e cresciam juntas, os vizinhos se conheciam e confraternizavam. Dessa maneira, era inevitável que a volta de um integrante de determinado grupo de amigos causasse certo impacto em todos os envolvidos. Em cada um de forma diferente.
Sakura esforçava-se para manter a concentração na música que cantava. No entanto, repetidas lembranças passavam pela mente dela como num filme.
Desde os seus 10 anos de idade a garota sonhava em viver da música. Recordou-se das diversas vezes em que expressava esse desejo e seus pais julgavam-na incapaz de realizá-lo. Não compareciam às suas apresentações no colégio. Mas Naruto não perdia uma. Sempre na primeira fila, denominando-se o seu maior fã. De cima do palco, toda vez ela podia vislumbrar o garoto travesso com seus olhos azuis e cabelo amarelo vibrante bagunçado.
A expressão no rosto dele era de admiração genuína.
Era difícil para uma garota da idade dela estar em cima de um palco sem o apoio dos pais. Entretanto, ter Naruto ali confiando fortemente em seu potencial lhe dava a sensação de que não poderia desistir e decepcioná-lo. Ele comparecia em suas aulas de música, auxiliava à sua maneira em cada um dos ensaios.
Ela já não se lembrava tão bem disso em meio a correria de sua rotina nos últimos anos e o distanciamento entre eles. Mas reencontrá-lo trouxe aquelas memórias a tona.
E ao pensar naquele reencontro, se perguntou se o rapaz ligaria.
E se ligasse? Será que tinha o mesmo desejo que ela de rasgar-lhe as roupas e deliciar em seu corpo ou buscava apenas a melhor amiga da infância?
Sakura respirou fundo. Aquele não era o momento para ficar se preocupando com isso. Nunca deixou que nada lhe tirasse o foco do trabalho. Então se deu conta de que naquele dia já havia se dispersado demais.
Foi difícil, mas o esforço funcionou e a música começou a fluir bem tanto por seu lado quanto pelo lado dos produtores. E assim seguiu pelo resto da tarde, até terem o material necessário e o cansaço e a fome vencê-los, obrigando-os a uma pausa para comer.
Ninguém mais tocou no assunto da volta de Naruto.
Edifício Hanabira, 9:00 p.m.
O rapaz encarava ora o telefone, ora o papel em suas mãos. Vez ou outra voltava a atenção ao computador no qual o amigo encontrava-se trabalhando, desenvolvendo junto a ele alguns elementos na batida do que aos poucos iam se convertendo em um ritmo interessante.
— Liga logo pra ela! — Ouviu o rapaz moreno de cabelos desgrenhados dizer em
tom de impaciência. Era Kiba, que decidiu largar a vida que levava em Tóquio para arriscar-se na música junto ao amigo em Konoha. Também era interessante para ele conhecer um lugar novo, um estilo de vida diferente.
Esse pequeno incentivo era o que Naruto precisava para fazer aquilo que já desejava. E então, levantou-se e foi decidido em direção ao telefone. Tirou novamente o papel do bolso e pôs-se a discar os números ali anotados.
— Alô? — Em poucos segundos, a voz de Sakura inundou-lhe os ouvidos.
— Adivinha quem é?! — Tentou parecer descontraído. Mas na verdade estava um tanto sem jeito e também ansioso.
— Já estava começando a achar que você não ligaria.. — A garota disse como quem diz verdades em tom de brincadeira.
— Não existe todo um papo de que o homem deveria esperar ao menos três dias para ligar? — Havia diversão na voz de Naruto por saber que certamente Sakura estaria revirando os olhos ao ouvi-lo.
— Primeiro: isso é uma idiotice. Segundo: mesmo que essa regra seja uma idiotice, a teoria dela diz que só se deve esperar pra ligar depois de um encontro romântico, e nós não tivemos exatamente isso — Sakura devolveu de imediato. Como o de costume, ela sempre tinha uma resposta na ponta da língua.
— Sendo assim, acho que devemos testar essa regra e fazer do jeito certo. Você está livre nesse exato momento? — Ele questionou impulsivamente. Ao ligar, aquele não era seu objetivo inicial. No entanto, no decorrer da conversa, se deixou levar.
— O quê?! Depois de tanto tempo sem sabermos um do outro você achou que poderia simplesmente ligar me convidando para um encontro às nove da noite e eu aceitaria de prontidão? — Ao ouvi-la dizer isso, Naruto ficou sem graça e quieto por alguns momentos. Sakura notou que ele não identificou o tom de brincadeira em suas palavras: — Foi uma brincadeira, Naruto! Você me deve esse encontro desde que temos 14 anos.
Naruto riu ao se dar conta do quão devagar conseguia ser às vezes.
E então, sentenciou antes de desligar o telefone:
— Esteja pronta em 20 minutos.
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