Meu pesadelo Benjamim

12 Só enquanto respirar


— Por que fez aquilo?! Agora ele vai sair espalhando! – falei, batendo o pé e cruzando os braços.

— Ah, aquilo foi muito ruim.... – Benjamin coça a cabeça – mas não se preocupe, acho que ele vai ficar quieto.

— Vou ter que falar com ele.... – suspiro – é melhor prevenir....

Benjamin fica olhando pra mim com cara de tacho.

— E você? Vai lá pra fora agora.

— Pensei que fosse me mandar embora.

— Não. Eu preciso da carona.

— Ahh, claro.

Benjamin saiu pouco antes de mim do banheiro. Voltei ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Esperei até depois do expediente pra poder falar com Isaac. Ah, que constrangedor. O encontrei no banheiro – que coincidência.

— Oi… – falei, sem graça.

— Oi, já vai embora?

— Sim, mas antes eu queria falar sobre hoje cedo, quer dizer....

— Você é gay?

Que?! Como pergunta isso assim na lata?!

— Acho que sim.... – respondi.

— Acha? – sorriu – ou se é ou não é.

— Então eu sou.

Corei.

— Não se preocupe, não vou dizer a ninguém. Ele é seu namorado? – enxuga as mãos, que antes lavava.

— Ainda não....

— Interessante – ele se aproxima de mim, coloca a mão na minha cabeça – não se preocupe, seu segredo está seguro. – sorriu.

Alívio é meu sobrenome. Nossa, que suspiro maravilhoso eu dei ali. Ele foi embora, ainda me olhando. Falei ao Benjamin, que me esperava no carro – já era noite.

— Hum.... Isso é bom, talvez… – falou ele.

— Por que, “talvez”?

— Nada, só achei estranho ele lidar tão facilmente com isso... – ele estava com as mãos no volante.

— Deixe de pensar em coisas negativas, está tudo certo.

Ele dá de ombros.

Ah, Benjamin me dava uma canseira enorme. A gente costumava quase sempre “brincar” – isso, nesse sentido mesmo que está pensando – logo que ele estacionava no meu prédio. Eu já não aguentava mais ficar ali naquele carro, mas fazer o que.

Dia seguinte. Eu estava com um problema terrível – não conseguia alcançar a prateleira mais alta, onde deveria guardar alguns livros. Ficava na ponta dos pés para tentar alcançar.

Então senti uma mão deslizar do ombro – gentilmente – até o livro na minha mão, logo, algo quente estava atrás de mim, isso, era ele, Isaac.

— A-AH.... – resmunguei ao virar – I-Isaac.... – olhei para cima (rosto).

— Parece que está tendo dificuldades com isso, pequeno.

— Não me chame de pequeno!

— Oh – ele ri – você fica irritado quando é chamado assim?

Pronto, agora todo mundo sabia.

— Não se preocupe, quando tiver mais problemas como esse – ele desliza os dedos pelo meu rosto – basta me chamar.

Sorriu e saiu.

QUE?! Não, não pode ser. Não, não, não, não. Ele só estava me ajudando nada além... Nada...

A teoria poderia ter sido real, mas.... Se eu contar as coisas que ele fez apenas num dia.... Ou melhor, naquele dia... Algo como passar a mão nos meus cabelos – sem minha permissão – ou inventar uma desculpa qualquer pra conversar e me fazer cócegas... Ah, aquilo estava me irritando.

Ele se afastava toda vez que Benjamin vinha até mim. Eu ainda estava em dúvida se contava ou não, mas isso acabou virando assédio. Passou um, dois, três, oito, dez dias e ele se jogando pra cima de mim.

— Ah droga... – falei ao derrubar uns livros. Tratei de apanhá-los, iria colocar numa mesa escondida, lá no fundo.

Cai mais um. Nunca tive o costume de me agachar para pegar as coisas, então fico na posição que “Napoleão perdeu a guerra” – era preguiça mesmo. Então dessa vez senti algo grande e volumoso encostando na minha bunda, além de um par de mãos que seguravam minha cintura.

Me ergui na hora, mas ele continuou atrás de mim – se esfregando de leve ainda mais.

— Isaac! – me afastei na hora.

— Está com problemas Ariel? Se quiser posso te ajudar a apanhar os livros.

— Pare com isso, não gosto que faça essas coisas! – falei, me afastando e indo até uma espécie de despensa, ele me seguiu.

— Do que está falando?

— Do que?! Você vive tocando em mim, eu não gosto disso!

— Ah, desculpe.... – sorriu – mas sabe o que é....

Se aproxima, me afasto.

— Eu não aguento mais guardar isso.... – ele fecha a porta de correr.

— Ei....

— Ariel, eu sou como você.

— Como eu?

— Gosto de garotos.... E você exala um cheiro maravilhoso.

QUE?!

— Deve estar... Enganado...

— Não.

Se aproxima mais, eu sinto que estou prestes a ser encurralado. O lugar era pequeno, por que diabos eu fui pra lá?!

— Podemos nos conhecer melhor... – ele passa a mão no meu rosto.

— Não quero!

— Por que não? Me disse que não tinha namorado.

Ah droga....

— Ele tem mania de esconder esse tipo de coisa. – sorriso malicioso.

Era ele. A porta de correr se abre rapidamente, sinto ser puxado bruscamente.

— Podemos não estar namorando, mas que fique claro, Ariel é meu. – falou Benjamin.

— Oh – Isaac ri com desdém.

— É bom não encostar nele.

— Uma ameaça?

Benjamin sorri.

— Depende das suas atitudes. Esse tampinha já me pertence.

Benjamin me coloca no ombro e sai.

— E-EI! ME COLOQUE NO CHÃO!

Batia levemente nas costas dele.

— Idiota, como pôde se deixar levar assim por esse cara.

— Desculpe.... Você...

— É claro que percebi. – suspira – não posso nem ir ao banheiro que tem gente querendo te roubar de mim, Ariel.

É, ele tinha dito coisas que nunca pensei ouvir. “Ariel é meu” ah, de alguma forma eu fiquei feliz... Ele estava com ciúmes de mim...

Me coloca no chão.

— Do que está rindo? – perguntou.

— Você, com ciúmes....

— Hum... Não é engraçado, nanico. – coloca a mão na minha cabeça – agora vai trabalhar, e ó, estou de olho em você.

Aquilo me fez ganhar o dia. Nunca pensei que ficaria contente daquele jeito.

— Ariel. – me chamou antes de eu virar.

— Sim?

— Hoje é dia dos namorados. – se aproxima – quero sair com você à noite.

— Mas, não posso deixar Ítalo sozinho em casa a essa hora...

É eu não gostava de deixa-lo naquele horário. Eu já fico fora de manhã e à tarde, não acho justo.

— Vamos leva-lo também.

— Hã? Dia dos namorados com uma vela? – é – isso não vai dar muito certo...

— Não se preocupe, confie em mim. – sorriu.

Tá, eu não entendi a proposta dele, mas a segui. Depois do expediente Isaac ainda veio falar comigo antes de eu sair.

— Ariel.

Viro.

— Desculpe por antes. Mas, não devia mentir para as outras pessoas.

— Mentir?

— Sim, disse que não tinha namorado.

— Mas eu não estava mentindo.

— Não? A quanto tempo aquele cara está com você?

— Não sei... Uns três ou quatro meses – eu não fazia ideia.

— Ele nunca te pediu?

Só agora eu lembrei.

— Sim... Mas eu adiei.... Não tenho certeza ainda.

— É mesmo? Depois de tanto tempo ainda não tem certeza?! E ainda assim ele continua todos os dias te trazendo para o trabalho e levando para casa, sem contar que fica aqui o dia inteiro.... Como ele está suportando tudo isso?

A realidade parece se quebrar na minha frente. A quanto tempo eu enrolava Benjamin?! Incerteza?! Não faço mais ideia de quantas vezes aquele cara me tocou, e pra mim isso estava tudo bem, como eu não podia ter certeza de que eu era gay?

Não, talvez não fosse isso. A pergunta certa seria, o que eu sinto por ele?

— Você está quieto… – falou Ben, enquanto dirigia, voltávamos para minha casa.

— Desculpe, só estou cansado.... – encostei a cabeça na janela e suspirei.

Em casa, tomei banho e me troquei, mandei Ítalo usar algo pra sair – apesar dele não entender o que estava acontecendo. Ben falou que não precisávamos levar nada. Seguimos no carro novamente. Fomos até um lugar bem alto, parecido com um penhasco, mas tinha cercas que nos protegiam da altura.

O lugar não era bem frequentado. Ben tira várias coisas da mala, inclusive uma cesta de piquenique e colocou sobre uma mesa – que era grudada no chão e originalmente era própria do lugar.

Não foi um jantar romântico por causa de Ítalo, mas comer a céu aberto com as estrelas agora tão grandes a facilmente visíveis, era simplesmente incrível. Nos divertimos, mas logo o garotinho nos deixou quando Benjamin montou um pequeno telescópio, Ítalo apenas se distraiu com ele.

Eu e Ben fomos para perto da cerca.

— Que lugar incrível... – o céu parecia uma bela pintura feita a mão, a brisa calma e serena parecia me envolver enquanto acariciava meus cabelos.

Benjamin me abraça gentilmente por trás.

— Eu costumo vir pra cá quando quero ficar sozinho.... É meu lugar secreto.

— Que egoísta você.... – minha boca desenhou um sorriso simples – guardando tudo isso pra si mesmo...

— Talvez eu não mereça esse adjetivo.... Você está aqui, não é? Estou dividindo com você... – me beija no pescoço.

— Significa que sou a primeira pessoa a vir aqui?

— A ser trazida por mim até aqui.

Silêncio breve.

— Eu quero te mostrar muitas coisas... Eu quero que siga comigo pelo mesmo caminho Ariel... Será egoísmo meu querer ter você comigo pra sempre?

Senti meu coração bater forte.

— Já não consigo me imaginar sem estar ao seu lado....

— Benjamin....

Senti corar.

— Ariel.... – sussurrou no meu ouvido.

Silêncio breve.

— Eu estou perdidamente apaixonado por você.

Uma vasta quantidade de estrelas cadentes redesenham aquele belo quadro. Caíam como lágrimas enquanto aos poucos desapareciam no meio da escuridão misteriosa da noite. O vento pareceu mais forte, assim como as batidas que tanto pulsavam contra meu peito.

— Por quanto tempo.... Benjamin.... Por quanto tempo esse sentimento irá durar em seu peito?

— Só enquanto eu respirar....

Senti lacrimejar, mas não sei exatamente o porquê. Ele me abraça mais forte – ainda atrás de mim – eu sentia algo estranho. Doía ao mesmo tempo que me acolhia, me fazia sentir nervoso e ao mesmo tempo me acalmava, aquilo era um sentimento novo, algo que nunca tinha existido em minha vida antes...

Eu não sabia explicar o que era, mas.... Eu também queria ficar ao lado dele.... Seguir o mesmo caminho.... Que sentimento era aquele que me fazia sentir raiva quando o via com outros garotos – e algumas vezes garotas – que sentimento era aquele que me deixava triste quando não o via ao menos uma vez no dia, já que eu me acostumei tanto com a presença dele....

Que sentimento é esse?

— Eu quero… – falei.

— O que?

— Ficar ao seu lado até quando você respirar.... – viro para ele.

Ainda me mantinha preso entre seus braços sobre a cerca. A chuva de estrelas continuava – Ítalo se divertia pelo telescópio.

— Eu.... – sinto corar – quero que seja meu namorado, Benjamin...

A imagem mais bela da noite me aparece, ah aquilo não fazia bem ao meu coração.... Os olhos esverdeados brilharam enquanto refletiam as estrelas escorrendo pelo céu. Os cantos de sua boca se ergueram de ponta a ponta, me abraçou de uma forma que nunca antes tinha feito.

Pude sentir seus batimentos, mas não sabia ao certo quais eram os dele e quais eram os meus, os nossos se mesclavam de uma forma descompassada. Aquele sentimento, será que.... Será que....

Eu também estou apaixonado por ele?

Notas finais
Deixe seu comentário ele é muito importante! ;) xoxo. =*