Notas iniciais
Esse capítulo fala mais sobre o autoconhecimento de Ariel, ele tem dificuldades para aceitar sua suposta atração por outro garoto.

Não dormi aquela noite. Como as coisas ficaram desse jeito? Tudo aconteceu tão rápido. Rolava na cama sem entender o que estava sentindo. Eu tinha raiva. E ao mesmo tempo não. Um cara me beijou. E o pior. Eu gostei. Em menos de uma semana ele já sabia onde eu trabalhava e morava. Além de conhecer minha história e meu irmão.

A única coisa que sei sobre ele é seu nome. Isso está muito errado – abraço o travesseiro – aquela imagem não saía da minha mente, eu não sou gay, definitivamente não. Então por que diabos eu gostei daquele beijo?

Deve ser uma fase – como costumam falar os adultos para os adolescentes – não me senti muito bem, no final acabei deitado na cama assistindo um seriado pela Netflix. Para minha sorte, tinha dois feriados naquela semana. Eu não precisaria ir a lugar algum que aquele garoto estivesse. Era a minha esperança.

Ítalo, no dia seguinte, me pediu ajuda para estudar, sabe, as provas dele estavam chegando, então deixei uns exercícios de matemática. Isso não me ajudou a tirar Benjamin da cabeça. Então resolvi ligar para a Sara – amiga verruguenta.

Não disse nada a ela sobre ele, apenas pedi para vê-la em seu apartamento – vivia sozinha. Deixei o almoço pronto para o meu irmão e saí, tranquei a porta.

— Qual é o problema jovem gafanhoto? – perguntou Sara.

Estávamos sentados na sala, no sofá branco da casa dela.

— Tô carente. – confuso seria melhor.

— Que coincidência.

Sorri.

— Quer brincar como nos velhos tempos? – perguntou ela.

Confirmo com a cabeça.

Sara se aproxima de mim, coloca a mão na minha nuca e me puxa para próximo de sua boca. Não parecia tão intenso quanto nas outras vezes que tínhamos feito aquilo.

Ela tocava em mim, mas eu não tinha vontade de tocar nela. Nada me fazia sentir vontade de progredir ali – sexualmente falando – nem mesmo o cheiro dela. Mas o dele.... O cheiro de Benjamin me envolvia num paraíso particular que simplesmente não consigo explicar.

Isso era ruim, não percebi mas acabei ficando excitado pensando nele. Sara se animou com meu amiguinho que resolveu se levantar – se é que você me entende. Fomos pro quarto, fizemos exatamente isso que está pensando. Ah, é, eu não sou virgem – de mulher.

Não falo nada sobre aquele momento, foi tão superficial e mecânico com Sara dessa vez. O sexo mais tedioso que tive.

— Foi meio rápido... – disse ela, deitada ao meu lado na cama.

Estávamos apenas com o lençol cobrindo o corpo.

— É....

Na primeira vez que fizemos aquilo, tinha sido mais intenso.

— Quer tentar de novo?

— Não! – falei alto sem perceber.

Ela franze o cenho.

— Quer dizer, eu estou um pouco cansado... Já são duas horas, Ítalo está sozinho em casa, eu tenho que voltar.

— Qual é o problema? – perguntou, colocando o braço no travesseiro e apoiando a mão na cabeça.

— Nada... Você sabe, eu perdi meu pai há pouco tempo, ainda está tudo recente.

— Me enganaria se não fosse pelo fato de você ter vindo até minha casa e não eu na sua.

Ela me pegou. Sara era uma amiga de ensino médio, me conhecia mais do que eu.

— Sara... – suspirei – meu pai morreu, tenho uma criança de dez anos pra criar, e um emprego que mal mata minha fome de tão baixo que o salário é. Pensei que um pouco de prazer fosse me animar....

Ela pareceu se convencer.

— Hum. Mas se estava tão interessado assim em prazer devia ter se esforçado mais, já foi melhor.

— Tá me dizendo que sou ruim de cama? Isso não me ajuda muito.

— Não ruim de cama, mas ruim hoje. Algo parece ter te esfriado.

Coloco a mão nos cabelos, a franja lisa incomodava meus olhos, suspirei fundo. Era verdade afinal, isso não era bom. Me despedi dela e voltei para casa. Fiquei imaginando se eu não sentia mais atração por Sara – amiga colorida – costumávamos matar nossas necessidades sempre que precisássemos.

Não éramos adeptos a relacionamentos. Tudo muito casual. Ítalo continuava estudando, foi um bom menino e lavou a louça. Tomei banho e deitei na cama. O que estava acontecendo comigo? Será que perdi a atração que sentia por ela? Mal conseguia pensar em como aquilo aconteceu, tão monótono, nem lembro se cheguei ao êxtase, sei que fiquei excitado apenas quando lembrei de Benjamin.

Isso era ruim, muito ruim. Eu não conseguia aceitar aquilo, então me levantei e coloquei uma roupa melhor. Se fosse apenas com Sara, bastava que trocasse de mulher. Abandonei Ítalo mais uma vez, deixei o jantar e sai em busca de baladas.

Não costumava ir, mas era um caso que me irritava. A música alta não me agradava, mas eu precisava de respostas. No total, beijei sete garotas, e fui para o apartamento de uma. A última, no caso. Ela estava completamente bêbada, aquele cheiro de álcool me incomodava, mas segui.

Entramos no seu quarto, mas que garota louca. Saiu rasgando sua própria roupa enquanto cantava alguma coisa numa linguagem esquisita. Ela era linda, mas não fiquei excitado. Tirei a roupa e ela começou a trabalhar com a boca lá em baixo, pra tentar me ajudar.

Resultado. Ele não levantou, e ela dormiu com a boca lá. Eu não sei se ria ou se chorava. A vesti devidamente e a coloquei na cama. Vesti minha roupa e sai. Não toquei nela, nem tive vontade de fazê-lo, percebi que o problema não era apenas com a Sara. No caminho para casa, notei que tinha cuspido várias vezes, era o nojo que senti de mim mesmo por ter me enroscado com tantas garotas num dia.

Eu me odiei. Tomei um banho de quinze minutos, percebi apenas agora que não sentia atração por mulheres. Antes eu achava que era normal, mas agora ficou absurdamente claro pra mim. Eu estava convencido de que gostava delas porque sempre me disseram que ERA para eu gostar.

Fui enganado, estava me conhecendo agora, e a atração que sinto por aquele garoto – vulgo Benjamin – era única, de uma forma tão intensa que meu corpo vibra em apenas pensar naquele beijo quase selinho que me deu há poucos dias. Também não me sentia irritado quando o cara que faz as pizzas – Miguel – me beijava quando ficava bêbado. Homens normais ficariam aborrecidos...

Qual foi meu maior problema? Eu mesmo. Não conseguia aceitar que sentia atração por outros garotos. Era medo, dos olhares, das palavras jogadas pelas pessoas, das frases prontas e preconceituosas.

Fui para a sala. Sentei no chão e aprendi a não ignorar avisos. A blusa dele quando o conheci me avisava claramente, “perigo” agora eu estava num lugar perigoso, dentro de mim mesmo, num velho dilema, eu não posso ser gay, mas eu quero ser.

Aquele garoto bagunçou a minha cabeça, e tudo que sei sobre ele é seu nome. Que coisa arriscada. Acabo de me descobrir por causa de um cara que mal conheço. Então, coloquei na cabeça que eu era bissexual. Era isso, eu tinha atração por homens, mas também por....

Não. Eu não tenho atração por mulheres. Não sou bi. Mas também não sou gay. Ah, que confusão...

— Quer um pouco? – Ítalo me oferece pipoca. Senta ao meu lado, no chão.

— Você que fez?

— Não tem mais ninguém aqui. – ele coloca a pipoca na boca.

Silêncio breve.

— Parece irritado e triste, o que aconteceu Ariel?

— Eu não me conheço... – sussurrei, não era pra ele ouvir.

— Ninguém se conhece de verdade. – mas ele escutou.

Olho para ele.

— Sabe, as pessoas tem mania de rotular umas às outras. Estamos acostumados a sermos rotulados, então quando você percebe que aquilo que elas dizem que você deve fazer, não te faz feliz, você se sente confuso.

Ele falou enquanto comia.

— Se não sou o que as pessoas dizem que devo ser, então, quem sou eu?

— Como pensou nisso Ítalo?

— Por causa do bullying na escola. As pessoas xingam umas às outras por algum defeito. Isso acontece porque rotulam pessoas legais como magras, cabelos lisos, olhos e pele claras.

Não parecia muito diferente do que eu estava pensando.

Nasci homem, tenho que gostar de mulher – é o que rotularam em todos nós – se não seguimos esse conceito, viramos os errados.

— Sociedade.... Seu conceito real é simples, o ponto de vista de uma pessoa é compartilhado para outras, que acabam acreditando ser certo, uma verdade absoluta que temos de seguir, não importa se a pessoa que seguir o caminho contrário vá sofrer, tudo que interessa é seguir a minha opinião e ponto de vista egoísta... – falei.

— Ou seja, se uma pessoa não acha bonito uma pessoa gordinha, e ela compartilha essa opinião com outras que acham o mesmo, elas vão rotulá-la e fazer de tudo para seguir o padrão. Xingam para que ela volte a ser magra, ou apenas para se divertir com o sofrimento dela...

Ítalo era muito inteligente – algo que percebi só agora. Não é que eu não tenha conseguido me entender, mas sim, me aceitar. Ainda não me sentia pronto para assumir aquilo, nem era uma certeza, talvez fosse apenas atração. Resolvi focar em coisas importantes como encontrar dinheiro para comprar outro sofá.

Notas finais
Olá internet! Agradeço muito se deixarem um comentário, assim me ajudam a ter ânimo para continuar escrevendo, afinal, sua opinião é muito importante! Obrigado por acompanhar a história de Ariel.