Meu nome é Destino
4 IV
Notas iniciais
Morrighan fizera tudo em silêncio, caminhando devagar, ainda manca. Mal respirava, com medo de que Raposa acordasse. Era assim, no meio da noite, que Morr colocava seu plano em prática.
A morena foi em direção ao seu último objetivo. Precisava pegar o pedaço de papel que se intitulava um mapa. Dependia dele.
Com uma lentidão quase torturante, se aproximou da bolsa. Esta, servindo de travesseiro para Raposa. Os longos cabelos estavam espalhados pelo couro, dificultando ainda mais o trabalho de Morr. O feérico respirava suavemente, ressonando baixinho, de tempo em tempo, murmurava algo. Chamava alguém, disso tinha certeza. Morrighan quase fez perguntas. Seria notável se ele as respondesse. Porém, a pequena parcela dentro dela que continha bom senso impedia. Se fosse um tiquinho a mais ousada, faria.
Respirou, tentando não entrar em pânico. Sentia o coração bater freneticamente em seu peito. Parada em frente ao seu alvo, deu pulinhos de ansiedade, apesar de todos os seus machucados. Uma ideia lhe ocorreu, indo em direção a uma pedra, escolheu cuidadosamente, testando o peso da pedra. Qual seria o estrago da belezinha?
Pegou nem a maior, mas também uma não tão pequena, agarrando-a firmemente com a mão esquerda, parando de jogá-la para o alto, havia testado o peso de cada uma. Tentava se acalmar, balançando a mão que lhe sobrara. Averno, estava mais que ansiosa. Estava com um medo profundo e paralisante, uma descarga elétrica percorria seu corpo. A probabilidade de dar merda era alta, o que causava certo receio na morena.
Todos os cenários, possíveis e impossíveis passaram como um filme em sua mente. Era insano o modo como a sua mente trabalhava frente a iminência de um desastre. Por um momento, uma parte de si pensava que poderia se virar sem o maldito mapa. Era ínfima a chance de se dar bem. Sabia bem disso. Mas ainda sim...
Não.
Não teria como, sem ele, iria andar em círculos. Ou pior! A fada estava com problemas, mas estaria em um muito maior sem o maldito papel.
Alguns segundos de coragem, Morrighan. Pensou, se enchendo de atitude.
Rapidamente, Morr puxou a bolsa de Raposa. O férrico, ao sentir o baque da cabeça, acordou. Seus olhos se arregalaram e a sua boca se abriu em um grito mudo. Morrighan apressadamente jogou a pedra em sua cabeça, repetidas vezes. Quando viu que o macho não mais se mexia, respirou aliviada. Saiu de cima do feérico, as pernas tremiam, lhe dando uma sensação de instabilidade e largou a pedra longe, a mesma bateu em uma árvore, produzindo um som oco. Uma pequena ferida existia na têmpora do macho, o sangue escorria indo em direção a orelha pontuda e coberta por uma fina penugem alaranjada.
Bem, pensou Morr, ele iria sobreviver. Bateu palminhas, extasiada. Era algo a se considerar, afinal, não o matara!
Em seu âmago, sabia que o mesmo não estava nem perto de estar morto. O submundo não queria alguém como ele.
— E você iria me enfiar um punhal no coração, né, seu filho da puta? — Resmungou irônica, lembrando do acontecimento da manhã. No fim, uma pedra fazia seu dever bem mais que um punhal.
A jovem foi em direção ao cavalo do dono desmaiado, arrumando os cabelos com um elástico. Iria cavalgar noite adentro, e então pensaria no próximo passo. A vida para Morr nunca seria linear, e muito menos comum, todavia a garota nunca estivera tão feliz.
Os olhos estavam ardendo e vermelhos, uma coceira incômoda a irritava, e mesmo com todos os sintomas, a garota sentia uma alegria alucinante. Quem visse, daria-lhe a alcunha de louca. Morrighan aceitaria de bom grado, era louca.
Maluca de pedra Morr riu anasalada com o pensamento.
O mapa era fácil de se ler, e estava na direção que lhe convinha. Tudo estava na mais perfeita paz. Pensamentos positivos passeavam no labirinto que era a sua mente. Vez ou outra, um risada escandalosa escapava por entre os lábios vermelhinhos. Ao longe, o sol brilhava, reluzindo em seu máximo esplendor. Apesar de todo o êxtase, Morrighan não deixava de se preocupar com Aro. O maldito pássaro havia sumido novamente, sem lhe comunicar nada.
Era normal da parte dele desaparecer por vários períodos de dias, chegando até datar meses sem vê-lo, porém com o passar do tempo, isso se tornara cada vez mais raro. Junto disso, a ligação entre eles florescia. Aro sempre fora muito cortês com a jovem, não deixando o afeto de lado. Era paciente e detinha todas as qualidades que um mentor obtinha. Claro, era duro e rígido, porém nunca fora cruel. Morrighan imaginava que os professores das outras Cortes fossem assim.
Se arriscasse chutar, a profissão seria levada em conta. Via Aro como um modelo de professor.
Era um dos muitos sonhos da jovem visitar os outros territórios. Morrighan mordeu o lábio inferior, perdida em pensamentos. Tinha noção de que a etiqueta e a cultura eram diferentes. Não havia nobres nas Terras Selvagens, e a única fada incompleta era Morrighan. Todos os outros eram mortus ou normaevis. Por esse motivo, as poucas regras era ligadas a sobrevivência do mais forte. "Não havia espaço para cortesia quando socava a cara de alguém"
Morrighan suspirou, cansada. Finalmente havia chegado ao seu cavalo, que estava amarrado a uma árvore.
— Tempestade! — Chamou extasiada, saindo de sua própria montaria. Com pressa, tirou toda a bagagem do corcel marrom, depositando-a no chão coberto de folhas. Pegou o mapa de uma bolsa, dobrando-o e colocou debaixo da blusa, pressionando entre a calça e a pele. Dando um tapa em sua anca traseira, o corcel disparou para dentro da mata, sumindo das vistas de Morr.
Foi em direção a Tempestade, o cavalo bufou ao encontrar a dona, reconhecendo sua presença. A mão da jovem passou pelo dorso, fazendo um carinho calmo. Em seguida, desembaraçou a crina negra, com cuidado para não machucar o corcel com seus atos impensados.
Morrighan piscou, ainda com as mãos sob a epiderme do cavalo e de repente, havia perdido tudo. Duas fadas comuns, e, ao que parecia, irmãs, carregavam as suas duas — e únicas — bolsas. Eram meninos, tinha certeza pelas risadinhas. Morrighan sentiu o sangue ir de encontro as suas bochechas. Arregalou os olhos ao constar de que fora roubada. Os dois ladrões já estavam a vários metros e se distanciavam cada vez mais da morena. Fora tudo tão rápido que ela não havia tido a chance de expressar alguma reação. O alívio lhe invadira segundos depois, suas mãos pressionavam o papel, ao constar de que o mapa estava consigo.
Maldição.
— Filhas da puta, não acredito nisso...— incrédula, deu alguns passos em frente. As únicas bagagens que tinha consigo... Morrighan segurou o grito de raiva, era absurdo como a sorte mudava. Claro, a morena não era a fada mais sortuda do reino, porém, toda a sua má sorte estavam começando a incomodar. Morr passou a mão no rosto, demostrando cansaço. Um rubor de vergonha adornava-lhe a face. Ridículo, Morr. Roubada por crianças...
Sem escolhas, Morrighan subiu no corcel negro, agarrou firmemente as amarras de couro e se pôs a andar. Seguindo na direção dos infratores. Estava de saco cheio dessa merda, então tentaria agilizar a viagem.
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