Meu melhor amigo é um anjo.
1 Capítulo I
Segunda-Feira, seis da manhã. Dia chuvoso com temperaturas médias entre 9 °C e 20 °C. Merda! São nesses dias em que eu pergunto porque diabos eu saí dos dias quentes e ensolarados do Rio de Janeiro e me mudei pra essa cidade fria, cinzenta e solitária. Tremo internamente só de me imaginar saindo do conforto do meu edredom para enfrentar a merda do primeiro dia do terceiro ano do ensino médio. Relembrar que esse é — finalmente! — o último ano me reconforta, mas imaginar as ruas frias, molhadas e escorregadias me faz imaginar se seria tão ruim não me formar.
Levanto-me lentamente e busco no armário uma calça jeans, meu uniforme, uma blusa de manga e um suéter. Odeio usar esse monte de roupa, me deixa desconfortável e me sinto pesada, mas esse sentimento é melhor do que sofrer calafrios ao longo do dia. Calço minha bota e passo displicentemente uma escova em meus cabelos anárquicos.
Deixo a cafeteira fazer seu glorioso trabalho enquanto coloco minha playlist preferida para ouvir de manhã — não se mate de manhã — no Spotify e a voz de Bethânia me ajuda a acalmar minha raiva. Eu moro sozinha em um apartamento simples no centro de Curitiba, perto do meu presente colégio e da minha — espero! — futura faculdade. Eu sei que não é comum uma garota de 17 anos morar sozinha, em uma cidade desconhecida, em um estado desconhecido, mas eu prefiro a solidão e a responsabilidade de pagar minhas contas do que ter lidar com o alcoolismo do meu pai e a submissão da minha mãe.
Meu celular vibra anunciando uma mensagem. Catarina questionando se eu já estou pronta. Catarina é uma garota… punk? grunge? um tanto emo… de cabelos verdes e vários piercings que eu conheci através do maravilhoso aplicativo Tinder. Sem julgamentos!! Eu estava sozinha em uma cidade desconhecida, precisava fazer algum tipo de sociabilidade. E digamos que Curitiba não é a melhor cidade do mundo pra se fazer amizade presencialmente.
Apesar de Catarina aparentar que não está nem aí para o que as pessoas pensam ou deixam de pensar sobre qualquer assunto, a mensagem dizendo “não quero entrar naquele inferno sozinha” me diz que ela também está um pouco receosa de enfrentar o maravilhoso mundo pedagógico do terceiro ano do ensino médio. Envio um “Tô sim, me avisa quando chegar” e tomo meu primeiro gole de café do dia. Enquanto isso, enxergo a mensagem que Gabriel havia me enviado, mas não tinha visto.
Gabriel... bem, Gabriel é o tão sonhado garoto perfeito. Sem álcool, sem drogas, sem palavrões, raramente grosserias, somente quando são merecidas. Tudo o que você imaginar que ele pode fazer, ele faz. Perfeitamente. E melhor do que qualquer pessoa. Menos chegar em garotas, nisso ele é realmente péssimo.
Olhos azuis claros e profundos que me fazem questionar se a alma dele é velha. Aqueles olhos em que você acredita que conseguem invadir sua alma e descobrir seus segredos mais vergonhosos ou obscuros. Branco, dono de um rosto angelical, levemente musculoso e com os cabelos mais perfeito que eu já vi na vida. Cachinhos dourados e adestrados. Eu sei, ele parece um anjo. Ele tem nome de anjo! Não foram poucas vezes que velhinhas o abordaram na rua dizendo que ele era enviado de Deus, o que sempre causou minhas gargalhadas intermitentes. Conheço-o desde que consigo acessar minha memória mais antiga. Meu melhor amigo desde então.
Pode parecer estranho ele ter abandonado a Cidade Maravilhosa para se mudar para a Cidade Chuvosa junto comigo, mas isso não me surpreendeu. Sendo órfão e tendo perdido a avó que cuidava dele no ano passado, eu fui a única família que restou para Gabriel. Na mensagem, ele questionava se eu já tinha acordado. Avisei que estava pronta e aguardando ele e Catarina para juntos, irmos de encontro ao caminho de tortura envolvendo física, química e Vestibular.
Eu não estava esperando um dia mágico e encantador na nova escola, como a maioria dos romances adolescentes perpetuam. Mas eu não esperava pelas surpresas que ele me traria. Algumas não tão ruins como eu imagina.
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