Meu marido é uma maldição
2 Capítulo 2
Já que meus móveis não iriam chegar tão cedo, enchi uma boia inflável que tinha no meu porta-malas e coloquei no chão da sala.
— Vou dormir aqui até minha cama chegar. — Digo sorrindo e suspirando baixo me sentando na boia.
Eu poderia facilmente dormir no sofá, mas a almofada dele era muito dura e já não basta esse torcicolo maldito me atormentando.
Olho para o lado me deparando com a depravada visão de Thomas mexendo nas minhas malas.
—Larga.—Rosno sério olhando pra ele.
—Ui, bravinho ele, amei.—Ele ri alto.— O que é isso? Um diário? Deixa eu ler.
—O que!? NÃO! Devolve agora!—Exclamo me levantando em um pulo.
— Como maridos nós temos que compartilhar até os mais podres dos segredos, bebê! — Ele cantarolou abrindo meu diário.
Puxo o caderno antes mesmo dele poder ler.
— Me deixa em paz, ja são quase 23h e eu quero dormir.—Reclamo me deitando na boia e me cobrindo
Enfio o caderno na minha calça, só pra garantir.
Thomas parecia estar se divertindo. Flutuava pelo cômodo como se fosse o dono do lugar (o que, tecnicamente, talvez fosse), me observando com um brilho divertido nos olhos.
— Não se sente solitário dormindo assim sozinho, querido? — perguntou o fantasma, inclinando-se sobre mim
— Não me chame de querido. E sim, prefiro dormir sozinho. — Puxei o cobertor por cima da cabeça.
— Isso é um insulto para mim, sabia? Eu, seu devotado esposo, sendo rejeitado dessa forma... — Thomas fingiu soluçar, mas seu sorriso traía a dramatização.
Suspiro alto, quase um bufo, meus lábios tremiam de frio, o que me deixou assustado, não lembro de ter ar condicionado aqui dentro.
— Fantasmas sentem frio? Porque, se não, dá pra parar de me fazer sentir esse gelo maldito?
Thomas riu baixinho.
— Ah, mas eu gosto de te arrepiar, meu bem.
Revirei os olhos tentando ignora-lo. Mas não foi tão fácil. A cada cinco minutos, Thomas encontrava uma nova forma de me incomodar: puxava o cobertor, soprava em meu ouvido, fazia um quadro da parede se mover sozinho.
— Eu vou pegar um padre. — Ameacei.
— Eu sou judeu, meu amor, padres não vão me afetar tanto assim. — Thomas deu de ombros.
— ...Coloca no currículo, não perguntei nada.
— Nossa, você é o homem mais afobadinho que já conheci. Quer que eu cante uma musiquinha pra você poder acalmar?
Passei as mãos no rosto, sentindo a paciência se esvair.
— Eu só quero dormir. Dormir sem um fantasma narcisista me atormentando.
Thomas suspirou e, num piscar de olhos, desapareceu. Pisquei algumas vezes, até perceber que o ambiente estava finalmente em silêncio. Sem preço para confirmar se Thomas realmente tinha ido embora, fechei os olhos e deixei o sono me vencer.
Acordei com um peso sobre meu peito. Sonolento, levei alguns segundos para perceber o que estava acontecendo. Quando abri os olhos, me deparo com Thomas deitado sobre mim, apoiando o rosto nas mãos e me observando de perto.
— BOM DIA, MEU AMADO! — o fantasma disse com animação, flutuando levemente acima de mim
Meu grito deve ter sido ouvido por todos da vizinhança.
— QUE MERDA, THOMAS?! — Eu empurro o fantasma instintivamente.
— Ora, ora, é assim que você trata seu maridinho? Eu só queria garantir que você tivesse bons sonhos. — Thomas riu, sentando-se no ar como se estivesse em um trono invisível.
Me levanto furioso passando a mão no rosto.
— Você não tem limites, né?
— Eu sou um fantasma apaixonado, Andrew. Amor não tem limites.
— AMOR? — Eu o encarou com uma expressão descrente. — Eu nem te conheço, caralho!
— Então vamos nos conhecer! Me dê uma chance! Por favor, prometo que sou um bom marido!
—Eu preciso achar um jeito urgente de quebrar essa maldição! Deve ter algum livro lá em-
—Não! Não tem livro nenhum...Por favor, Andrew, me dê uma chance, eu posso ser chato mas juro que sou atencioso! — Ele implora de um jeito estranho.
Encaro ele e levanto uma sombrancelha, esquisito.
—Tanto faz, preciso tomar um banho.—Falo pegando algumas roupas e minha toalha nas minhas malas. —Nem se atreva em mexer nas minhas coisas.
—Tudo bem...—Ele diz soltando um ar aliviado.
Encaro ele por um tempo antes de entrar no espelho, eu conseguia sentir que tinha algo incomodando ele.
—Que foi?—Ele me encara confuso.
—Nada não.—Cerro os olhos me virando e entrando no banheiro.
Tirei minhas roupas as jogando em um canto do banheiro, era um banheiro chique, azulejos pretos pela parede que davam um ar aconchegante ao banheiro, assim que fiquei completamente nu esperando a banheira encher senti mãos frias encostando nas minhas costas.
—Uau.—A voz de Thomas sussurrou pelo meu ouvido.—Você tem um corpo lindo, querido, que tal eu tomar um banhozinho com você?
—SAI FORA!—Grito horrorizado.— Eu tô vivendo um verdadeiro filme de terror! Eu deveria nunca ter entrado naquela maldita porta do porão!
Thomas faz um biquinho prestes a me provocar de novo, mas ele apenas suspira cruzando as pernas no ar e virando de costas pra mim.
— Que isso? Vai fazer birra agora? —Dou uma risada maliciosa.—Parece um bebezão.
— Eu te amo, Andrew.—Ele murmura.—Muito obrigado por ter me livrado daquele lugar apertado.
—Hm?
Antes que eu pudesse fazer minha pergunta, Thomas estrala os dedos e some.
—Ué, tá bom, então.—Entro na banheira relaxando os músculos.
Após o banho, enquanto estava deitado na minha boia inflável me imaginando em um lugar calmo, com água, apenas eu e o silêncio. Me virei na boia inflável, soltando um longo suspiro de alívio.
— Finalmente... paz.
Até sentir um peso frio ao meu lado. Meu corpo enrijeceu na hora.
— Achei que você tinha ido embora, Thomas. — Minha voz saiu cansada.
— Eu fui. — Sua voz soou próxima demais, quase sussurrando. — Mas senti saudades.
Abri um dos olhos lentamente e lá estava ele, deitado ao meu lado, a cabeça apoiada na mão, um sorriso presunçoso nos lábios pálidos.
— Sai daqui.
— Não posso. Esposos dormem juntos. — Ele piscou um olho azul brilhante para mim.
Limpei a garganta fechando os olhos e então sorri ladino.
—Sorriu pra mim, amorzinho?—Ele provoca.
—Não.—A sala ficou em silêncio.
—Eu sei que tá.
—Tô pensando na minha família, cala a boca.—Interrompo.
Ele ficou calado pelo restante da noite.
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