Meu lugar é nesse ponto indefinido
1 Capítulo único
Notas iniciais
Seus pés cruzaram os longos desertos da vida, agora são os meus. As pegadas na areia apagarem-se, para rumos distintos, intui a jornada. Talvez nos encontremos de novo em algum trecho, acenaremos e esse abraço que tanto me faz falta remonte os pedaços quebrados do meu coração porque ainda que eu caminhe devagar e tente ao menos me manter de pé, não posso enganar ninguém dizendo que estou feliz.
Posso até rir por alguns segundos e ter dias menos carregados de pavor e tensão, mas feliz não é um adjetivo que se enquadre ao meu contexto atual. Tento, juro que tento, tento de verdade não chorar, mas no silêncio da noite o coração fica tão apertado que o único jeito de me aliviar é chorando, chorando pelo que não mais tenho, por quem não mais tenho.
Seria um ato criminoso aprisionar um pássaro nascido para alçar voos mais altos e construir ninhos em diferentes recantos. Seria sádico erguer grades apenas para te manter por aqui. Eu nunca poderia chamar de amor, mas seria hipocrisia dizer que já te superei e encontrei outro alguém que me faz feliz porque não é verdade. Antes de você eu não mensurava que um coração fosse capaz de amar tanto outro alguém, agora creio não haver espaço, você ocupou-o, ainda ocupa.
Essa situação não se prolongará eternamente, se analisar com esse olhar mais racional, eu sofra menos. A questão é lidar com essa certeza tão dura de que aquele capítulo da história acabou, que aquela fase tão bonita em que você fazia parte da minha vida também chegou ao fim. É essa incerteza entre o fim de um ciclo para o início de outro que me mata.
Ver casais felizes na minha frente aciona gatilhos violentos, gosto de finais felizes, todavia, interpreto a alegria excessiva deles com essa tristeza insuportável, questiono-me o porquê de você ter partido. Compreendo que todos temos o nosso tempo e comparações não são bem-vindas, só não sei lidar com o aperto no peito e a sensação de sufocamento.
Agora não faz mais sentido sonhar. Esse outro alguém nunca será igual a você, ninguém me fará sentir incrível de novo, tampouco trará de volta a primavera fora de hora, por isso tenho raiva de quem está vivendo o melhor momento da vida logo agora que cruzo esse longo e interminável deserto. Porque eu queria estar no meu auge. Da beleza. Profissionalmente. No amor. No amor, sobretudo.
Queria ser o seu primeiro e último pensamento do dia, saber que sou o motivo do seu sorriso, que por minha causa você suporta a vida adulta com ânimo de criança. Queria ser a pessoa com quem você tem o prazer de usar aliança. Queria ser a pessoa preferida de alguém. Queria ser a sua pessoa preferida. Queria que todos soubessem que esse amor não é ostentação, é verdade, transformou para sempre um destino. Queria que os seus amigos soubessem por que você prefere passar mais tempo em casa. Queria tudo que parecesse tão impossível na conjuntura atual porque estou mencionando aquilo que não se implora, que acontece de modo espontâneo e puro e belo é quando se dá dessa forma.
Parece tolice choramingar por um amor que foi embora. Esse gatilho de abandono alude àquela adolescente solitária usando o uniforme da escola e vendo todas as outras sendo cortejadas, paqueradas e a tal da minha hora nunca chegar. Os outros tipos de amores me fazem falta, no entanto, o amor que precisava era o seu, esse que voou para longe, que você poderia me dar.
Sentir algum conforto com a própria sombra não deveria ser normal, entretanto, diante de determinadas circunstâncias existenciais, o peso no peito é tão, mas tão grande que apenas o vislumbre de silhuetas que se abraçam já sacia a fome de amor que abrasa cada pedacinho desse âmago todo maltratado.
Ninguém pode cruzar o deserto por mim. Tenho de suportar a escuridão e a solidão por mais que sinta falta do sol, das flores, das joaninhas, dos girassóis, das risadas altas e de abraços apertados. Meu lugar é nesse ponto indefinido.
Quiçá o destino me surpreenda e eu pare de te escrever como se você fosse ler porque terei superado essa dor que hoje me atormenta. Hoje, não. Há meses. O pertencimento se desintegrou a tal ponto que me sinto uma estranha dentro de mim.
Dormir é o meu refúgio porque no mundo dos sonhos existe uma ínfima possibilidade de te ver e te abraçar. O choque de realidade se dá ao abrir os olhos, sempre me sinto culpada por estar triste demais para me sentir feliz por pessoas que fazem questão de ostentar a felicidade forçada que me joga para a escuridão.
Tantas pessoas desinteressantes no mundo, por que logo você teve que ir embora?
Sim, você teve seus motivos, mas a culpa não sai de mim. É esse nunca saber se sim ou se não me mata todo dia um pouco… Eu deveria ter me declarado antes, não ter me apegado tanto, não depender de outra pessoa para me sentir completa.
Se algum dia gostar de alguém, peço desculpas por não me entregar por inteiro, nunca mais serei inteira. Amei-te tanto, mas tanto que (por enquanto) não acredito que vá amar alguém porque duvido que exista alguém melhor do que você.
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