Meu doce Rogers

48 Fé (Parte 2)


Pov de John Allen

Um mês! Havia acontecido tanto desde a morte de Helena, e nem parecia que isso aconteceu apenas há um mês atrás. Eu tinha conseguido uma guarda provisória da Sarah e achei melhor retornar para Lágrimas da Sereia. Para ser sincero, não sei se essa foi uma boa decisão. Estava sendo realmente difícil lidar com tudo aquilo de uma vez. Tinha contando para Sarah praticamente ao mesmo tempo que Helena havia morrido e que era seu pai, talvez tenha sido muita informação para ela.

Sarah malmente comia, dormia, ou interagia com outras pessoas. Eu havia impedido que ela encontrasse os amigos ou o ex de Helena para que pudéssemos ter uma chance de melhorar nossa relação, mas aquilo parecia que não iria dar certo. Hoje eu tinha decidido uma abordagem diferente. Iria levar ela para comer na lanchonete da cidade. Tentaria distrai-la um pouco e tirar a morte da mãe da sua mente.

—O que vão querer? Olivia, a garçonete loira que geralmente me atendia veio sorridente anotar nossos pedidos.

—O meu o de sempre, e para pequena Sarah...torta de morango com sorvete de chocolate.

—Uma boa escolha. Ela fala apontando a caneta.- Em alguns minutinhos trarei a comida.

—Obrigado. Agradeço e Olivia nos deixa sozinhos. –Filha, eu sei o quanto é está sendo difícil para você, mas tem que dar uma chance para sua nova...vida.

Sarah fica calada encarando a parede enquanto seus olhos começam a lacrimejar. –Eu não vou aceitar nada. Ela diz baixinho.

—Vai ter que aceitar uma hora ou outra querida. Você não tem escolha. Eu amo Helena tanto quanto você, mas ela se foi, e precisamos seguir em frente.

—Minha mãe não está morta! Sarah grita furiosa, batendo as duas mãos com força na mesa. -E você... não é o meu pai! Ela me encara com ódio em seus olhos.

Minha garganta seca, eu nada digo e Sarah volta a encarar a parede. Olivia chega com os pedidos e os deixa na mesa. A pequena pega a colher abruptamente e começa a comer rápido.

—Filh...Sarah, coma devagar. Falo em um tom normal. Ela me ignora e continua a fazer aquilo. -Filha você pode se engasgar. Sarah me ignora mais uma vez e eu puxo o prato com tudo. Ela me encara, se levanta e corre em direção a saída. -Filha, volta aqui. Me levanto, mas Olivia faz um sinal com sua mão erguida para que eu ficasse e vai atrás de Sarah.

Pov Sarah Ocean

Ando que nem louca e me sento na calçada de frente para a porta da lanchonete. Não gostava de agir daquele modo, mas não aguentava mais ouvir aquele homem. Eu não o aceitava, e nunca aceitaria ele como meu pai. Sempre querendo disser o que devo fazer ou não, nunca me escutava e ainda não me deixava ver meus amigos. Eu sei que minha mãe ainda estava viva, eu podia ver através dos olhos dela.

—Oi. A garçonete da lanchonete fala sentando ao meu lado.

—Oi. Falo tentando não ser rude com ela.

—O que você quer querida?

—Como? Estranho sua pergunta.

—Você está triste, com raiva por toda a situação e eu entendo o quanto é difícil se expressar em tais situações. John não é uma pessoa ruim, querida, mas tudo isso de paternidade é novo para ele, e nem sempre ele vai saber fazer o que possa ser certo.

—Ele nem me escuta...

—Ele está triste também. Ele ama tanto a sua mãe, que quase enlouqueceu quando ficaram afastados para você ter uma ideia.

—Mamãe também ficava triste por causa dele. Quando eu perguntava sobre o meu pai, ela sempre ficava...triste.

—A história deles é complicada querida. Ela se aproxima e me abraça de lado. –Deixe o que são para dos adultos para os adultos resolverem. –Olha, eu ouvi você falar que Helena está viva, não vou disser que acredito porque estaria mentindo para você, e eu sei que é uma garotinha esperta, mas se acredita, é porque de um certo modo ela está viva mesmo. Ela sempre estará, quando pensar nela com amor e alegria. Eu não era amiga da sua mãe, mas ela não gostaria de te ver assim. Eu sei que dói, querida, mas tem que pelo menos se cuidar, se alimentar direito, descansar quando precisa.

—Eu perco a vontade de comer quase todas as vezes que olho para ele e penso que se não tivesse aparecido, minha mãe ainda poderia estar comigo.

—John não tem culpa. Um caminhão...

—Depois que ele chegou, tudo mudou. Mamãe ficava triste e meu pai Steve também, meus pais viviam felizes antes.

—Isso são coisas dos adultos Sarah. Porque não fazemos um pequeno acordo. Você começa a se alimentar direito, dormir no horário e eu tento convencer John a... O que você gostaria?

—Queria pelo menos ver meus amigos, Steve, tia Alice, tio Peter, Thor, Jane, queria rever todos.

—Certo, vamos com calma. Vou conversar com ele, não garanto nada, mas quem sabe não conseguimos que ele tire um dia para você visitar seus amiguinhos?

Dou um sorriso mínimo para Olivia e a abraço em seguida. Ela afaga meus cabelos e eu me afasto. -Será que a senhora me ajudaria a entrar em contato com eles?

—Não sei se seria uma boa ideia. John pode não gostar...

—Por favor, pode de ser nosso segredo.

—Qual segredo? John pergunta atrás de nós.

—É coisa de mulher, você não vai querer saber. Olivia disfarça.

—Que seja então. Sarah está na hora, vamos. Se despeça de Olivia e me acompanhe.

—Tchau Olivia. A abraço novamente e me levanto. –Obrigada por tudo.

John coloca a mão em meu ombro e eu o afasto, continuando andando ao seu lado. Ele não tenta se reaproximar e nada fala, ficamos em silêncio. Vejo uma policial saindo de uma loja e quando olho para John o vendo distraído, tenho uma ideia.

—Socorro! Socorro! Começo a gritar chamando a atenção. John olha surpreso para mim e eu começo a correr em direção a policial.

John logo percebe o que estou fazendo e corre atrás de mim. A policial observando tudo aquilo rapidamente fica na minha frente.

—Parado! Fique onde está! Ela diz estendendo a mão.

—Ela é minha filha.

—É mentira! Moça esse homem não é meu pai! Por favor, não deixa ele me levar.

A policial fica confusa, e olhando para mim e John faz algo inusitado. -Documento da criança por favor!

—Vai mesmo cair na birra de uma menininha?

—Documento da criança. Ela fala pausadamente e John bufa.

—Tudo bem. Está bem aqui na minha carteira. John coloca a mão no bolso de trás e pega uma carteira marrom. Ele franze a testa e resmunga um droga bem baixinho. –Receio que deixei a documentação em casa, mas pode perguntar para qualquer um que esta menina é minha filha.

A policial aperta um botão em um tipo de walk talk. –Central, precisamos de duas viaturas para a rua principal, perto do posto de gasolina e liguem para a assistente social.

—O que? John fala indignado. –Vocês vão me prender? Senhora, com todo o respeito antes que cometa um erro gravíssimo e se arrependa depois, essa menina é Sarah Allen, ela é minha filha. John se aproxima e a policial pega sua arma apontando para ele.

—Afaste-se! Agora! Ela ordena e ele dá dois passos para trás. -Vire-se, fique de costas e mantenha suas mãos para trás. John faz isso e a policial o algema. Logo as viaturas chegam e o colocam em uma delas, enquanto sou levada em outra. Somos conduzidos para locais diferentes.

—Onde está sua mãe, querida? Algum parente?

—Ele vive dizendo que mamãe morreu e não me deixa ver ninguém.

—Você poderia nos disser o nome de alguém da sua família para podermos entrar em contato?

—Steve Rogers, Alice Summer, Peter Davis...

—Bom. Muito bem, querida. –Central, tentem localizar, Steve Rogers, Alice Summer ou Peter Davis, por favor. –Vai ficar tudo bem, não se preocupe.

—Obrigada. Eu deixo algumas lágrimas escaparem e a abraço. Sou levada até um hospital. A policial me deixa com uma médica e ela faz uma série de exames em mim e depois me leva para a brinquedoteca.

Pov John Allen

Quero a cabeça daquela policial custe o que custasse. Ninguém me tratava assim. Como ela poderia apontar uma arma e me prender na frente de Sarah? Na frente da cidade inteira?

—John Allen. Meu advogado finalmente chega. –Desculpe pela demora, seu pai estava com dificuldade para encontrar a documentação.

—Tudo bem. Eu já posso sair daqui com minha filha, agora que o mal-entendido já foi esclarecido?

—Você poderá sair com menina, mas receio que perderá a guarda provisória dela.

—Acho que não entendi bem o que o senhor falou, eu vou ser punido pela confusão daquela policial louca? Ela pelo menos vai receber uma advertência, ser afastada, transferida?

— Ela estava seguindo o protocolo. Olha imagina se sua filha fosse realmente sequestrada e conseguisse contatar um policial como ela fez, gostaria que essa pessoa a entregasse diretamente para o sequestrador só porque ele afirmou que era pai dela?

—Tem razão. Falo vencido. -Mas porque posso perder a guarda?

—Por causa do que a avaliação psicológica e os exames dela apontaram, fora o que a menina conversou com a assistente social.

—Não acredito que acreditaram nas mentiras que ela criou.

—John acho que não tem noção da situação. Me escuta, por favor. Sarah contou que você não está deixando ela ver ninguém do círculo social de Helena, talvez não acreditassem na menina depois da mentira que ela contou, mas ligaram para Peter Davis, a noiva dela a tal Alice e para ex padrasto dela e eles confirmaram a história, além disso o Peter já tinha iniciado um outro processo justamente por essa questão de que ninguém estava conseguindo ter contato com a menina.

—Fiz o que achei que seria o melhor para ela, queria ter a chance de poder aumentar os meus laços.

—Você até poderia ter tido um bom motivo, porque ficou esses anos sem conviver com ela, mas dada a situação de que a mãe dela faleceu a pouco tempo, e o quanto ela está abalada, quando você tira todo o contato das pessoas que ela conviveu boa parte de sua vida e que seriam essenciais para dar apoio a ela nesse momento, isso não tem como ser visto com bons olhos.

—Eu vou perde-la? Pergunto com receio.

—Sim. Por enquanto você irá. Peter está a caminho.

—Droga. Tento me controlar para não sair chutando tudo.

—Pelo menos eu consegui que pudesse ficar com ela até que o Peter chegue. Poderá leva-la para casa e ajuda-la com as malas. Foi o máximo que consegui, mas vou tentar reverter essa situação.

—Obrigado.

Sarah não me olha nem por um segundo, me ignora totalmente e quando chegamos em casa corre direto para seu quarto. Vencido eu fico um tempo na sala, coloco um pouco de Whisky em um copo e fico bebendo lentamente. Passam-se cerca de dez minutos e resolvo me levantar para ir ao encontro dela, quando de repente, ela surge com sua mochilinha nas costas e com duas malinhas em cada mão. Ela deixa as bagagens na porta e se senta no sofá ligando a televisão em seguida.

—Filha, desliga isso. Precisamos conversar. Ela me ignora e começa a trocar os canais. Eu já cansado de tudo aquilo apenas puxo a tomada da televisão, puxo a mesinha de centro e sento de frente para ela.

—O que quer de mim? Me deixe em paz! Sarah tenta sair dali, mas eu seguro sua mão a impedindo. –Me solte, eu não quero falar com você!

—Mas vai ter que falar! Minha voz sai mais alto do que deveria. –Você não tem nenhuma consciência de seus atos? Apontaram uma arma para mim e eu quase fiquei preso.

—Que azar o meu que você não ficou. Ela soa sarcástica.

—Menina, não me provoque. Tento controlar minha voz.

—Por que? Vai me bater? Steve acaba com você se fizer isso.

Solto um riso sem graça, respiro fundo duas vezes e encaro ela. –Espero que aproveite bastante o tempo que vai passar com aquela gente, porque quando eu ganhar a sua guarda definitiva mocinha, você nunca mais os verá novamente. Eu sou sua única família, quer você queira ou não, e ninguém irá te tirar de mim.

—Eu tenho a minha mãe, e ela vai te chutar para bem longe quando voltar.

—Helena está morta! Grito com Sarah a fazendo encher os olhos de lágrimas. –Me desculpe, querida eu não... Coloco minha mão em seu rosto, mas ela me morde com força na mesma hora.

—Minha mãe não está morta! Ela grita de volta e corre. Sarah pega tudo que vê pela frente e começa a jogar na minha direção.

—Para com isso agora Sarah!

—Não! Ela empurra a televisão com força e corre em direção ao bar.

Eu consigo segurar sua mão antes que ela pegue uma das garrafas. A seguro no colo e ela começa a se debater, mexendo seu corpo com violência, acertando alguns chutes em mim.

—Para, Sarah! Ela tenta me dar cabeçadas, e sem êxito, estica sua mão para me estapear. Eu não a solto por um segundo, e vendo que não ia se livrar de mim, Sarah dá seu último golpe se inclinando para frente e cravando os dentes no meu ombro esquerdo. Eu a solto na mesma hora a fazendo cair sentada no chão. Sarah malmente fica ali e volta novamente para o bar pegando um copo e jogando na minha direção. Fico morrendo de dor, fazendo o possível para desviar dos objetos que estavam enchendo o ambiente de som de coisas quebrando.

Escuto a porta da frente sendo arrombada e no segundo seguinte Steve Rogers está parado no meio da sala. Ele se assusta inicialmente ao compreender o que estava acontecendo e sem pensar muito corre na direção de Sarah tirando uma garrafa que estava em sua mão e abraça em seguida.

—Me desculpa. Ela fala chorando. -Por favor me desculpa.

—Shiii, calma. Steve afaga as costas dela. -Vai ficar tudo bem agora. Vai ficar tudo bem.

Notas finais
Tenso, não foi? Sarah fora de controle, John continuando a fazer merda...