Meu crush é um zumbi
3 O absorvente da vergonha
Notas iniciais
O sinal toca e ele parece não se importar pois continua desenhando no ar o contorno das nuvens.
Eu poderia ter ido embora quando ele começou a cantar numa tentativa patética de quebrar o gelo, ou talvez, e mais provável, me irritar, mas não fui e fiquei ouvindo sua voz desafinada até ele se cansar e perceber que não íamos conversar. Não sei porque não o deixei sozinho, considero várias hipóteses como o fato de que cheguei aqui primeiro e já demarquei território, portanto o lugar é meu. "Os incomodados que se mudem", não considero isso justo, quem está incomodando a paz alheia é que deve levantar sua bunda do lugar e "vazar".
O som estridente continua a preencher o silêncio entre nós, não faço menção de levantar e muito menos ele. Não sei quanto ao cantor aqui, mas eu possuo uma desculpa para não me apressar e ir para a aula. Sou tesoureiro do grêmio estudantil e temos reunião daqui à pouco, não que eu me importe com as questões sociais da escola, só faço parte disso pra ter uma desculpa para matar aula.
— Você não tem um lugar pra ir? — Pergunto.
Ele para seu indicador no ar, sigo seu dedo na direção de uma nuvem com formato de casquinha de sorvete.
— Reunião do grêmio estudantil.
— Você? No grêmio? Como assim?
Ele se levanta, estica os braços e boceja. Seus olhos estão fixos em algum ponto no céu.
— Uma garota de peitos enormes da aula de biologia me chamou. Acho que ela flertou comigo. — De testa franzida ele pensa no assunto — É, ela definitivamente flertou comigo.
Kate.
Ela é a única garota no grêmio.
— Bom, a gente se vê por aí, Roman.
Mais cedo do que você imagina, penso.
A sala onde as reuniões do grêmio acontecem não passa de uma sala de aula como as outras. Há uma estante ao fundo repleta de livros e materiais escolares, e um quadro negro onde Kate adora rabiscar nos dando ordens. Basicamente a única diferença é que ao invés de fileiras de mesas e cadeiras, temos treze delas dispostas em um círculo no meio da sala.
Bato na porta já ouvindo o som das conversas lá dentro, tudo relacionado a festa de Halloween, presumo.
A porta se abre e vejo Daniel na minha frente segurando uma foice de plástico, não me surpreendo em vê-lo e vou entrando. Sua mão ousada pousa em meu ombro, estremeço ao seu toque.
— Guardei um lugar pra você. — Olho em volta e não há um único lugar no qual eu possa me sentar exceto o chão. Seria rude da minha parte preferir o chão duro e frio à um lugar ao seu lado? — Obrigado, Daniel, por guardar um lugar pra mim. De nada, Roman, fico feliz em ajudar.
— Você não precisava fazer isso.
— É, eu não precisava.
Ouço o som dos saltos de Kate vindo em minha direção, me preparo para ouvir suas reclamações pelo meu atraso, falta de interesse nas atividades do grêmio, e blá-blá-blá...
— Roman, atrasado como sempre.
— Oi, pra você também.
— Vá se sentar. Daniel, querido, você poderia me ajudar a pegar umas coisas na secretaria? Elas são tão pesadas.
Aí meu Deus. Isso é baixo demais até pra ela.
Eles saem pisando no meu queixo que caiu depois dessa cena.
Me sento no meu lugar tentando não chamar muita atenção, fico quieto ouvindo as conversas ao redor.
Ouço Kevin dizer a Mare que não aguenta mais as frescuras da sua namorada — como se pedir para que você não pegue sua fatia de pizza com as mãos no meio do restaurante, fosse considerado "frescura". Infelizmente ouço Cal reclamar do humor de seu pai que anda péssimo desde que ele começou a sofrer de problemas na prostáta. A imagem da prostáta do pai dele toma conta dos meus pensamentos por um instante longo demais.
— Kate é rápida no gatilho, não acha?
Clara, uma garota humana alta de cabelos azuis e um sotaque estranho, — muitos acham que ela veio da alemanha ou coisa parecida, eu só acho que ela tem a língua presa — puxa uma cadeira desonrando o sagrado círculo, e se senta na minha frente.
Não sei o que a faz pensar que eu tenho interesse em conversar, mas dane-se; melhor conversar com ela que pensar na prostáta inchada do pai de Cal.
— Faz uma semana que ele está aqui. Não foi tão rápido assim.
Ela ri, desdenhosa.
— De qualquer forma é perda de tempo, ele é gay. Um desperdício, não acha?
Tento não demonstrar surpresa em minha expressão.
— Eu deveria concordar?
Um sorriso malicioso se insinua em sua cara de desdém.
— Só achei que...
— Eu sei onde você quer chegar, é melhor você parar por aí antes que nós... Eu diga alguma coisa e me arrependa depois.
Ela está prestes a dizer algo quando a porta se abre.
Vejo Kate e Daniel trocando olhares furtivos antes de entrar, quando volto minha atenção para Clara ela já está longe, no fundo da sala destilando seu veneno em outra pessoa.
Kate deixa as tralhas de lado e levanta a primeira pauta da tarde, algo sobre a festa de Halloween e arrecadação de dinheiro para as despesas.
Daniel toma seu lugar aproveitando a cadeira que Clara trouxe até aqui para esticar suas pernas cumpridas.
Como sempre finjo prestar atenção ao que Kate diz, ela anda de um lado para o outro ressaltando pontos importantes sobre a organização do evento, sobre como uma festa bem sucedida pode ajudar em sua campanha para reeleição no próximo ano e toda essa merda.
O quadro já está repleto de esquemas e explicações sobre nossas funções, eu fico com o comitê de decoração. Parece que ela aprendeu a lição com a última festa em que ela me colocou na recepção, quando ela percebeu que não sou tão carismático quanto um recepcionista deve ser, já era tarde demais.
Kate para por alguns segundos, suspira recuperando o fôlego e diz:
— Alguma pergunta?
Ela sempre faz isso e a resposta é sempre um silêncio mordaz.
— Eu tenho uma. — Claro que hoje temos um elemento diferente na equação — Eu sou novo aqui e tudo mais, então eu estava pensando se poderia trabalhar com alguém que já está habituado com tudo isso. — Para de olhar pra mim. Eu não vou fazer isso; nem fudendo.
— Claro. Só que eu vou estar ocupada e não vou poder te ajudar...
— Tudo bem, Roman pode fazer isso, não pode Roman?
Posso sentir o olhar de Clara sobre mim. Não vai demorar muito até seu veneno se espalhar pela escola e contaminar todos com sua fofoca.
Piso no pé de Daniel com a maior sutileza e força que consigo, então com um sorriso no rosto respondo:
— Claro.
Meu pé continua esmagando o dele, o infeliz tenta disfarçar a dor, mas em seus olhos eu o vejo implorar por misericórdia.
Me levanto pois não há mais nada a ser discutido aqui. Fui feito de idiota, manipulado como uma marionete, preciso comer e pensar, e depois comer ainda mais.
Estou atravessando o corredor gelado quando ele me alcança, não olho pra ele, não lhe dou atenção.
— Nem doeu tanto assim. — Ele diz.
Eu não sei qual a motivação dele para me irritar dessa forma, e tenho certeza que não entenderia seus motivos.
Eu não quero replicar, não quero por lenha na fogueira, mas essa sobrancelha arqueada me instiga a responder. Seu rosto me provoca, sua presença me dá nos nervos ao ponto de eu cerrar os dentes contendo a raiva que borbulha dentro de mim.
Seu cheiro, a porra do seu cheiro; só aumenta minha fome.
— Por que você tem que cheirar tão bem? — Vocifero, as palavras pairam no ar por alguns segundos até eu perceber o que disse.
Eu não tinha a intenção, posso visualizar uma mensagem na minha cabeça "você está fazendo papel de trouxa, deseja parar agora?".
Queria dizer uma coisa e minha boca disse outra. De repente quero correr e sumir, nunca mais poderei olhar pra esse garoto como fazia antes. A indiferença não será mais útil, ignora-lo será patético. Acabo de perder toda minha moral.
Sinto o gosto da bile, engulo em seco e continuo andando. Não olho para trás pois sei que ele me segue, se me concentrar posso até visualizar sua expressão, um sorriso idiota combinado com uma testa franzida.
Puta merda.
Por que ele não diz nada? Ele finalmente percebeu quão bom é o silêncio? Um sorriso se insinua quando penso nessa possibilidade.
Viro na esquina para o refeitório, pelo canto do olho vejo sua silhueta atrás de mim.
O lugar está cheio, as mesas estão quase todas ocupadas, o burburinho das conversas ao redor preenche todo o espaço. Normalmente eu não almoçaria aqui, porém hoje eu não acho uma boa idéia ir para fora onde Daniel pode me seguir para mais uma sessão de constrangimento.
Pego uma bandeija e espero na fila, ele está logo atrás de mim como um carrapato.
— O que você vai comer? — Ele pergunta. Seu cinismo me dá coceira.
— Não sei. — Murmuro.
— Acho que vou comer pizza. Eu adoro o cheiro de pizza, você não?
E lá vamos nós.
— Eu só disse aquilo porque estou com fome e você cheira a hambúrguer, então esquece isso e seguimos em frente. — Vou tropeçando nas palavras e não tenho certeza se ele entendeu.
A fila avança um pouco, mas não o suficiente pra que eu saia logo daqui.
— Eu tomei banho antes de vir...
— Eu ainda consigo sentir o... Vir de onde? — Por que diabos isso é da minha conta?
— Meu pai tem uma lanchonete. Eu ajudo no café.
— E pessoas comem hambúrguer no café da manhã? Nossa.
— Seu olfato é muito bom.
— O olfato de todos nós é.
— Zs.
— É, Zs.
Enfim minha vez chega, coloco uma fatia de pizza na bandeija, um hambúrguer — por influência de Daniel — e um pudim.
— Agora eu vou procurar um lugar pra almoçar, por favor não me siga.
Ele abre a boca pra dizer algo, contudo ao olhar em meus olhos ele decide não falar nada.
— Não tem nada de errado em querer um cara gostoso em cima de você. Você deveria experimentar um dia.
Ela diz isso com um olhar distante e aposto minha coleção de action figures de star wars, que ela está imaginando toda uma cena. Minha confirmação chega quando ela morde os lábios.
— Você é virgem, Kate.
Estamos descendo a rua em direção ao mercado próximo de casa. Já anoiteceu e estou atrasado para o jantar, a culpa é minha pois aceitei a oferta de Kate em me fazer companhia. Ela sempre me atrasa; um exemplo claro de má influência.
— Por pouco tempo. — Ela cantarola em sua voz de soprano.
Por trás de toda a fachada de vadia super confiante, ela não passa de uma garota normal.
Todos conhecem Kate a vadia popular, eu conheço a garotinha de seis anos que brincava comigo sob a árvore no quintal de sua mansão, — sua família é revoltantemente rica — que pegava as roupas e jóias da mãe pra produzir desfiles glamurosos. Eu conheço a garota de treze anos que perdeu o irmão mais velho em um acidente de carro, e passou meses chorando em meus ombros. Eu conheço a garota que aos dezesseis fez o mesmo por mim quando meu pai morreu.
É por isso que a amo tanto ao ponto de entrar no mercado para comprar absorvente pra ela, enquanto ela liga pro cara que vai encontra-la na festa amanhã. Festa que eu irei por amor e duas semanas de almoço grátis.
Coloco o capuz da blusa sobre meu rosto e mantenho a cabeça baixa, não quero ser visto comprando um absorvente. Não faço as regras, há algo perturbador em um cara comprando um absorverente, claro que ele não pretende usar, há várias explicações razoáveis pra tal coisa, porém a masculinidade de um homem pode ser ferida facilmente. Fato.
A moça do caixa me olha torto enquanto espero na fila, ela receia por sua segurança já que eu devo parecer suspeito, pra evitar qualquer problema futuro eu ergo minha mão esquerda lhe mostrando o pacote rosado em forma de cubo.
Ela arqueia a sobrancelha me dando um sorriso discreto, ao que eu respondo com um suspiro teatral.
Quando minha vez chega e estamos frente à frente, ela pergunta:
— Namorada?
— Amiga.
— Absorvente interno sempre me incomoda. — Minha mão vacila ao lhe entregar o dinheiro. Essa era uma informação que eu não precisava saber.
— Eu vou... — Limpo a garganta — Eu vou entregar isso aqui pra ela. Tenha uma boa noite.
Saio pela tangente deixando a moça do caixa sorrindo às minhas custas.
Respiro o ar frio da noite procurando Kate. Não a vejo por perto onde ela deveria estar, afinal minha missão não durou nem dez minutos, o quão difícil é me esperar por míseros dez minutos?
Vou descendo a rua seguindo meu caminho acompanhado do meu amigo tampão, mantenho em mente o que Kate me fez passar para que minha raiva não suma quando eu precisar dela.
E isso vai ser em breve pois a vejo próxima ao ponto de ônibus conversando com um cara, provavelmente desconhecido. Vou relembrando cada segundo constrangedor que passei mirando minha furia sobre ela.
A chama da furia se apaga com a tempestade fria que sinto percorrer cada centímetro do meu corpo, quando vejo Daniel novamente no mesmo beco escuro conversando com um cara; o mesmo cara daquela noite.
Novamente tento me convencer de que isso não é da minha conta, que não me interessa, porém me dou conta de que estou entrando no beco e já posso ouvir o que eles dizem.
Fui longe demais para recuar, penso.
— Vai ser grana fácil, esses riquinhos adoram uma "diversão ilegal". — O homem diz.
Daniel responde alguma coisa, mas não consigo ouvi-lo.
Avanço um pouco mais e me abaixo atrás de um container de lixo.
— No Vale Verde, amanhã. — É onde estarei na festa de Kate. Não, não pode ser. Deve ser coincidência.
Decido ir embora antes que eu ouça algo que eu não deveria, afinal nada disso é da minha conta. Não é problema meu.
Por que eu deveria me importar?
Kate ainda está sozinha quando a encontro, agora alimentar minha raiva não parece tão importante assim.
Fale com o autor