Meu crush é um zumbi

1 Coisas estúpidas


Notas iniciais
Hello, it's me

Primeiro capítulo ele é um tanto curtinho (eu acho), mas é só uma breve apresentação dos protagonistas.
Espero que você goste.
OK?
OK.
Boa leitura.

"Em 1889 foi registrado o primeiro caso de um paciente infectado com o Z-1889X14.
Os infectados adquirem força e resistência sobre humanas, entre os sintomas está a palidez e o retardo no envelhecimento que afeta jovens a partir dos dezesseis anos. Porém dentre os sintomas apresentados o pior deles é a fome. As vítimas do vírus adquirem metabolismo acelerado, muitas vezes transformando os infectados em canibais raivosos.
Quase mil anos se passaram desde a descoberta do vírus, ainda não há uma cura para o Z, mas há tratamento e os infectados levam vidas normais ao lado dos humanos, ou pelo menos alguns tentam."

E com isso termino minha redação; acho que deveria retirar a última parte, soou pessoal demais para um texto dissertativo, porém não deixa de ser um fato. Nem todos os Zs se sentem confortáveis com humanos, alguns até sentem urticaria só de ter que dividir o assento no ônibus quando estão indo para a escola que sua mãe te obriga a estudar, mesmo havendo escolas em que Zs são maioria e você não se sentiria uma mosca na sopa de alguém.
Levo minha mão ao prato buscando com os dedos algum resquício das almôndegas que estava comendo, mas não encontro nenhuma e ainda sinto fome. Está quase na hora do ônibus chegar e ir para uma escola cheia de humanos com o estômago vazio... Digamos que não é uma boa idéia. Claro, posso estar exagerando já que quando nasci fui vacinado com a "mata fome" o que diminuiu meu metabolismo e eu não sinto vontade de atacar qualquer um que me pareça suculento, exceto por alguns caras do time de futebol.
Saio levando comigo um saco de bacon crocante e algum dinheiro pra um hambúrguer mais tarde.
Estou pisando na calçada colocando meu óculos escuro quando escuto o som do motor velho se aproximando, quando me lembro de que ao invés de pegar minha redação eu peguei um saco de bacon.
Corro pisando na grama ignorando a placa de "não pise na grama", procuro a chave certa às pressas mesmo sabendo que não dará tempo de entrar pegar a redação na mesa e voltar para pegar o ônibus, mas não dou a mínima e continuo desesperado para entrar o mais rápido possível. A folha está lá em cima da mesa, o som do motor para, escuto a gritaria irracional que antecede a sua partida; já não tem mais jeito.
Não ir para a escola está fora de cogitação, preciso entregar essa redação se quiser passar em história. Não há o que fazer se não ir andando, saio pronto para seguir meu caminho acompanhado do meu saco de bacon.
Não é um caminho muito longo e logo posso avistar o prédio da escola, os portões já estão fechados então terei de pedir autorização na secretaria para entrar, o que não será agradável pois Carla, a secretária, não gosta de mim. Não a culpo por isso.
Subo as escadas de pedra e posso jurar que ouço meus joelhos chorarem. Pressiono a campainha e espero.
— Quem é? — Diz uma voz anasalada.
— Sou eu Carla, Roman.
Ela pondera por alguns segundos, talvez pensando qual Roman poderia ser ou está apenas me torturando. A segunda opção é mais possível.
— Ah, sim. O que você deseja?
— Entrar. O que mais poderia... Você poderia abrir o portão, por favor?
Ouço um estalo e logo em seguida o som metálico do portão, solto o ar que não sabia que estava prendendo. — Esse é o terceiro, só esse mês. Não, não quero desculpas, você, detenção, às cinco horas.
— Mas...
— Você já perdeu cinco minutos de aula.
Ao se virar seu cabelo ricocheteia na minha cara, antes que eu eu faça merda e diga alguma coisa seu traseiro gordo já está entrando em sua sala.
Sigo pelos corredores já vazios e atravesso duas esquinas até chegar a minha sala. O clima não parece bom, estão todos aflitos com alguma coisa enquanto, Genebra, nossa professora de história, escreve algo no quadro. Hesito por um instante olhando pela abertura da porta os rostos cansados e entediados dos meus colegas, cogitando a hipótese de não entrar e tirar essa hora de folga, porém não posso me dar o privilégio de ser estúpido agora.
— Com licença, professora.
Como esperado todos olham pra mim, Genebra me encara com seus olhos pequenos atrás de seu óculos redondo.
— Atrasado.
— Desculpa.
— Vá se sentar.
— Quanto a redação...
— Entregue no final da aula; se você a fez, é claro.
— Certo.
Coloco o rabo entre as pernas e procuro meu lugar na última fileira, a única mesa vaga na sala e onde eu posso me sentar sozinho pois desde que Douglas, meu antigo parceiro de trabalho, se mudou a vaga está aberta e ninguém a preencheu ainda; pra minha alegria.
Sigo as instruções no quadro ignorando os sussurros atrás de mim, as conversas ao meu lado e o bater de lápis na mesa à frente. Abro meu livro na página 136 e começo a ler sobre os acordos de 2012 quanto aos territórios perdidos para as sub espécies.
Alguém bate na porta, Genebra é interrompida no meio de suas divagações inúteis e parece irritada, volto minha atenção para as páginas, mesmo assim percebo que todos olham para a porta.
Há uma conversa acontecendo entre Genebra e alguém da administração, os demais focam ainda mais sua atenção naquela direção.
— Sim, entendo. Claro. — Ela diz ao que o outro responde algo que não entendo.
Tento focar meus olhos nas imagens de corpos sendo queimados em valas, de forças militares e cientistas, tudo descrito nas páginas do livro, porém é difícil já que há uma comoção ao meu redor pelo que está acontecendo na porta da sala.
A porta se fecha e todos se voltam para os livros na mesa quando Genebra para no meio da sala ao lado de um garoto.
— Atenção, esse é...
— Daniel.
— Daniel, vem do colégio Dartmouth e estará conosco durante esse ano.
Espero que ninguém tenha ouvido o soco que dei na mesa.
— Você sabe onde se sentar, o roteiro da aula está no quadro.
Claro que ele sabe onde se sentar, o único lugar vago é onde estou.
Fixo meu olhar no quadro onde Genebra criou uma linha do tempo para explicar os fatos que levaram à "rebelião dos 22" onde 22 homens foram mortos por serem imbecis e tentarem tomar o controle da prefeitura há alguns anos atrás.
Estou ciente de sua presença ao meu lado, o que não é difícil já que ele cheira a hambúrguer e eu tenho um olfato aguçado. Ficará tudo bem contanto que ele não fale comigo ou vice versa, claro que comunicação será necessária mais cedo ou mais tarde para realização de trabalho, mas posso aguentar.
Genebra prossegue expondo os motivos dos rebeldes que me parecem bem sensatos, mas naquela época Zs não costumavam ser tratados com respeito, eram temidos por isso eram ameaçados, caçados, torturados, mesmo tais atividades sendo ilegais. O governo tinha conhecimento de toda essa sujeira, no entanto não fazia nada a respeito.
Meu parceiro toma notas em seu caderno, seu cheiro ainda me incomoda e faz com que minha barriga se lembre de que comi pouco, ainda falta muito pra hora do almoço, estou no deserto e a cantina é meu oásis perdido.
Alguém cutuca meu braço me tirando de meus devaneios culinários, engulo em seco.
— Você pode me emprestar seu livro? — Ele diz.
— Não.
— Não?
— Não. Você está sentado na mesma mesa que eu, basta eu colocar o livro aqui e nós dois podemos ler.
— Podia ter dito antes. — Petulante ele arqueia uma sobrancelhas e fixa seu olhar ao meu. — Mesmo assim, obrigado.
Me sinto compelido a responder à altura, mas me contento com um:
— De nada.

Hoje estou adiantado para a aula com Genebra, já que na aula passada me atrasei e aquela velha não vai tolerar mais um atraso essa semana, talvez na semana que vem eu possa me atrasar de novo.
Ainda há lugares vagos na sala como esperado, então posso entrar, me dirigir ao meu lugar, e tudo isso sem esbarrar em alguém ou ter que jogar conversa fora.
Me inclino para poder pegar minhas coisas na mochila que tenho o mal hábito de deixar no chão, dentre livros, cadernos, embalagens de fast food e outras tralhas, encontro um par de tênis me encarando à frente, ergo os olhos só para ter certeza.
Usando jeans e um moletom cinza, o garoto de olhos e cabelo castanhos me olha de testa enrugada parecendo querer perguntar o que estou fazendo, apesar de ser óbvio.
— Com sua licença... — Ele estica as pernas por cima de mim esbarrando em minhas costas se sentando satisfeito em seu lugar.
— Isso era mesmo necessário?
Ele me olha como se eu fosse a pessoa mais idiota que ele já vira na vida.
— Se eu tivesse pedido pra você levantar pra que eu pudesse passar, você teria levantado?
— Não, pois você poderia ter vindo pelo outro lado da fileira e nos poupado disso.
Qual o problema desse cara?
— Viu? Provei meu ponto. — Ele dá de ombros.
— Essa foi a coisa mais estúpida que eu já ouvi.
— Então você não ouviu muitas coisas estúpidas.
— Eu acho que já ouvi coisas estúpidas o suficiente para saber quando algo soa estúpido.
— Pois eu acho que você não ouviu. — Seu hálito cheira a menta, posso sentir pois seu rosto está tão próximo ao meu que me sinto desconfortável, mas não posso recuar pois isso demonstraria hesitação — Caso contrário você saberia que o que eu disse na escala da estupidez não soa tão estúpido quanto você acha.
— Qual é o seu problema?
— Enfim, só fiz isso porque queria te irritar, ter fazer se sentir um idiota como fez comigo da última vez. Agora estamos quites.
Última vez? Tento me lembrar o que disse, porém não consigo. Minha cara deve transmitir minha dúvida pois ele diz:
— Ah, você não se lembra. Não foi grande coisa, esquece. Agora se você está perto desse jeito e não vai me beijar, é melhor se afastar porque tá todo mundo olhando.
O problema com a palidez é que seu rosto cora facilmente, engulo em seco e folheio meu livro contando os minutos para o fim da aula.

Sendo mãe solteira com dois empregos e um filho adolescente que não facilita as coisas, Rachel possui muitas coisas em sua cabeça e às vezes elas se misturam e precisam ser reorganizadas em seu devido lugar. No processo algo pode ser perdido e esquecido, então ela me liga quando estou saindo da escola e me pede para ir ao mercado comprar o jantar pois ela chegará tarde e não poderá cozinhar e eu sou um desastre na cozinha.
Já está escurecendo, os postes de luz se acendem, os farois dos carros parecem mais brilhantes, o fluxo continuo de pessoas me faz pegar outro caminho pelo beco atrás do mercado que me levará ao outro lado da avenida onde não haverá tantos carros e pessoas circulando por ali.
Só a luz de um poste ilumina o beco o que me faz pensar porque becos são sempre tão escuros, há alguma regra para isso? Uma norma que a prefeitura segue para padronizar todos os becos da cidade para que todos pareçam assustadores e perigosos? Divagar quando estou desconfortável me ajuda a evitar o medo, é uma distração para o meu cérebro assim ele não irá focar no que eu vejo a volta, ou melhor o que eu não vejo já que está tudo tão escuro.
Estou trilhando meu caminho até a luz da calçada quando uma porta que eu não fazia idéia que estava ali se abre atrás de mim. Com o susto é claro que me apresso em sair daqui o mais rápido possível, mas não antes de ver meu colega de mesa sair dali acompanhado de um homem num capuz.
Não é fácil, mas empurro a curiosidade de lado afinal não é da minha conta e sigo meu caminho, porém não nego que crio centenas de teorias a respeito no caminho para casa.

Notas finais
Mal feito, feito.
A gente se esbarra.
Kissus com doces.