Meu conto nao e de fadas
3 Capítulo 3 - O emprego
Capítulo III — O Emprego
Keylli chegou à cidade por volta das nove horas da noite daquele mesmo dia, e logo que desembarcou telefonou para sua mãe e informou que havia chegado bem. Saiu da rodoviária com sua mochila nas costas e uma bolsa grande no ombro.
Porém, um temporal começou a se formar. Nuvens negras cobriram o céu.
— Ai meu pai! – exclamou assustada olhando para o alto. — Tenho que encontrar um lugar para passar a noite. Como foi que não pensei nisso?
Keylli se informou com algumas pessoas, caminhou por uns quarenta minutos e finalmente encontrou a pensão mais próxima que alguns lhe indicaram. No local onde alugavam-se quartos, funcionava um bar. Esse bar que estava repleto de homens bêbados, era um local bagunçado, com iluminação fraca.
A jovem se assustou ao se deparar com o tal lugar. “Não acredito que me mandaram pra cá”. – pensou ao pisar os pés na porta.
Para o seu azar, nesse exato momento o pé-d’água veio abaixo. Sem alternativa, a moça teve que ficar por lá mesmo. Um pouco retraída, andou até o balcão.
— Oi, boa noite! – cumprimentou abrindo um sorriso.
O atendente, um senhor grisalho bastante acima do peso, a olhou com cara de poucos amigos e não a cumprimentou.
Sem graça, Keylli disse: — Eu... Gostaria de alugar um quarto pra passar a noite.
— Cem reais. – informou o homem num tom sério.
— O quê??? – Key arregalou os olhos. — Isso tudo?
“Esse lugar não vale nem um real”. – ela pensou.
— É isso, ou passe a noite lá fora. – ele falou irredutível.
— Tá certo! – concordou contrariada.
Ela pegou sua carteira na mochila e o entregou uma nota de cem reais.
— Toma. – o homem entregou-lhe a chave. — Quarto número cinco, segundo andar.
Keylli pegou a chave e dirigiu-se para o quarto. No canto da parede do bar, ao lado do balcão, ficava a escada de madeira que levava ao andar de cima.
Ao abrir a porta do local onde passaria a noite, Keylli teve mais um motivo para reclamar: No lugar tinha uma cama de ferro enferrujada e em péssimo estado, uma televisão daquelas bem antigas de cinco polegadas e um criado mudo na cor mogno, caindo aos pedaços.
— Não acredito que paguei cem reais por isso, mas... Que seja apenas por essa noite.
Jogou a mochila no chão, pegou sua roupa de dormir e foi tomar um banho. Para sua surpresa, o banheirinho que havia lá era melhor do que o quarto. Tinha um vaso sanitário bem limpo e o chuveiro era elétrico.
— Nossa! Limpam o banheiro e esquecem do resto. – riu. — Menos mal.
Após o banho, como estava cansada demais, ela forrou a cama com suas cobertas e adormeceu rapidamente.
No dia seguinte, Keylli acordou bem cedo. Juntou suas coisas, entregou a chave do quarto no balcão e saiu de lá em busca do tão sonhado emprego. Sua primeira parada foi numa banca.
Comprou um jornal, mas só o que a interessava era a parte dos classificados de emprego. Pegou o informativo, deu uns passos à frente, se sentou no degrau de uma casa e começou a procurar um emprego com uma cuidadosa seleção.
— Deixa eu ver... Esse não, esse não dá pra mim, pra esse eu não tenho experiência, esse está muito longe... Aqui! Esse daqui é perfeito.
A moça pegou uma caneta em sua mochila e envolveu uns cinco anúncios, todos por aquela redondeza. Para saber a localização exata dos lugares, ela usou a internet em seu celular.
Levantou-se para procurar o local do trabalho que mais lhe interessou.
— Nem acredito... – disse para si mesma sorrindo. — Vou pra lá agora mesmo, antes que contratem alguém.
Keylli foi de ônibus até o lugar que ficava a mais ou menos vinte minutos de distância de onde estava. Conseguiu fazer a entrevista para o cargo de recepcionista, mas precisaria participar de várias etapas de seleção. Sendo assim, a moça descartou, pois precisava de um trabalho para início imediato. Não queria perder tempo.
Daí partiu para o segundo emprego que a interessou, depois para o terceiro, para o quarto... E... Nada! Para um, era jovem demais; para o outro, precisava ter experiência comprovada na carteira; e para o quarto, precisava dominar pelo menos três idiomas diferentes, o que não era seu caso.
Todos esses empregos eram em escritório. Keylli tinha noção básica em recepção e como tinha facilidade em aprender, achou que poderia conseguir alguma coisa.
Com calos nos pés de tanto andar pra lá e pra cá, viu que a solução seria tentar o quinto emprego que marcou. Esse era em último caso, só o marcou por marcar... Não era bem o que queria, mas...
Como não conhecia quase nada na cidade, passava por ali uma jovem de mais ou menos sua idade, e ela resolveu pedir ajuda para encontrar o tal lugar. Achou mais prático pedir informação do que acessar a internet.
— Oi, boa tarde! Você por acaso sabe onde fica a Rua dos Cristais, no bairro Candelabro?
— Claro que sei, eu moro lá e estou indo pra casa agora. – respondeu, convidando: — Vem comigo.
— Que bom que você apareceu, já estava meio perdida por aqui. – sorriu. — Ah, já ia me esquecendo, meu nome é Keylli.
— Prazer Keylli, eu sou Letícia.
Elas se cumprimentaram com um aperto de mãos, e seguiram rumo à Rua dos Cristais.
— Então Keylli, você está de mudança pra cá? – perguntou Letícia, querendo puxar assunto.
— Eu sou do interior e vim pra cá para tentar mudar de vida, ter um emprego melhor e ajudar minha família.
— Nossa, mas você é muito nova pra ter essa responsabilidade.
— Pois é, mas a minha família só tem a mim e eu não posso desapontá-la.
— Você é muito generosa. – admirou-se avisando: — Chegamos! A rua é essa daqui e aquela ali é minha casa. – disse apontando para um muro coberto por plantas. — Vê se me faz uma visita, ok? Já que está na cidade sem ninguém, é bom fazer novas amizades, e... Boa sorte no trabalho.
— Ah muito obrigada! Nesse momento eu preciso mesmo é de muita sorte. E pode deixar, assim que eu conseguir colocar a minha vida em ordem, te faço uma visita.
— Eu vou cobrar, hein! – brincou ela entre sorrisos, e logo se despediu: — Tchau.
— Até mais.
Letícia entrou em sua casa, e Keylli seguiu pela rua procurando o número de onde se oferecia emprego. Ela andou, andou, andou... Andou quase até o final da longa rua, quando finalmente encontrou o tal lugar.
— É aqui. Número 389. – disse a si mesma, olhando para cima, observando o alto prédio. — É Keylli, seja o que Deus quiser.
A garota estava com aquele típico frio na barriga que sentimos quando ficamos nervosos. Também pudera, né? Aquilo tudo era novo e diferente para ela. Depois de quatro tentativas frustradas, depositou toda sua confiança ali.
Caso não conseguisse, teria que procurar uma outra pensão para passar a noite e continuar sua jornada no dia seguinte. E o pior de tudo isso, é que ela estava sozinha. Levava apenas a família no coração.
Aproximou-se da entrada, respirou fundo criando coragem e apertou o interfone nº 19. O trabalho era em um apartamento não muito conservado, porém de classe média alta.
Voz feminina ao interfone: — Pois não?
— Oi, o meu nome é Keylli D'waise e eu vim atrás do emprego que saiu nos classificados do jornal "Gente Inteligente".
— Boa tarde, minha filha! Pode subir, é no terceiro andar. Mas venha pelas escadas, porque o elevador está em manutenção.
A porta automática do prédio se abriu e ela subiu as escadas devagar e bastante pensativa.
Quando chegou ao terceiro andar, uma mulher já a aguardava na porta.
— Você é Keylli D'waise?
— Sou eu mesma, senhora. – respondeu abrindo um sorriso.
— Eu me chamo Dolores. – sorriu. — Venha, entre.
Ambas entraram e se sentaram num sofá.
— Que interesses te trouxeram até aqui? – quis saber educadamente, a mulher gorduchinha de olhar cansado.
— Eu... Estou precisando de um emprego urgente.
— Por que tão urgente? Está afundada em dívidas tão nova assim?
— Ah não, não é por esse motivo. É que minha família precisa de mim mais do que nunca, por isso eu tenho que arrumar um trabalho o mais rápido possível.
A mulher a olhou de cima a baixo e perguntou encucada: — E o que você sabe fazer?
— Não muita coisa, mas posso aprender. Me adapto muito rápido á novas rotinas e tenho facilidade em aprender o serviço que me for proposto.
Dolores ficou muito satisfeita com a segurança de Keylli ao pronunciar-se e a elogiou:
— Senti firmeza em suas palavras.
Keylli abaixou a cabeça, lembrou-se por um momento de toda a humilhação que passou quando trabalhava na empresa em que seu pai trabalhou e respondeu contendo a emoção:
— Agora eu não almejo nada de mais... Tudo o que eu preciso é de um emprego, qualquer um e me comprometo em me dedicar ao máximo.
— Você parece ser uma menina batalhadora, esforçada e eu gostei de você... Se aceitar minhas condições de trabalho, estará contratada.
“Sério?!?! Ué, já??? Pensei que teria que deixar meu telefone de contato e esperar uns dias...” – Keylli interrompeu seu pensamento e agradeceu:
— Muito obrigada senhora! – comemorou a menina, feliz por ter conquistado seu primeiro objetivo.
— Toma, veja se concorda com as condições e com o pagamento.
Keylli olhou atentamente uma tabela que Dolores a entregou e sem estar na condição de escolher ou exigir alguma coisa, resolveu aceitar.
— Eu aceito! – respondeu sem demonstrar nenhuma decepção.
— Como você já deve estar sabendo, aqui é uma casa de família e trabalhamos com Buffet. Mas esse emprego não é para ajudar no Buffet, e sim para faxinar a casa, lavar a louça que usamos para trabalhar, tomar conta do meu filhinho ás vezes... Enfim, manter tudo sempre em ordem. Acha que consegue?
Keylli respondeu muito segura de si: — Contratou a garota certa.
— Você tem muita atitude! – a patroa se animou, levantando-se e convidando-a á ir até a cozinha.
— Vem, seu primeiro trabalhinho é aqui. Aquela louça está na pia há uns três dias. – a mulher apontou, dando á nova funcionária sua primeira tarefa: — Lave, enxugue e guarde.
A moça se assustou com a pilha de louça, mas não demonstrou reação.
— Isso pra mim é moleza.
— Eu sei que é. Ah e antes que eu esqueça, o horário aqui é das 7h00 às 18h00, sendo que sábado é das 9h00 às 15h00 da tarde e domingo é sua folga. Eu e meu tio gostaríamos muito que os funcionários dormissem aqui, mas você é tão jovem que eu não posso te prender.
Keylli que não tinha mesmo onde ficar, como não era boba nem nada, demonstrou muito interesse na proposta. Voltar para aquela pensão dos horrores? Nunca!
— Por mim tudo bem. – encolheu os ombros. — Não vejo problemas em ficar.
— E sua família?
— Não tenho parentes na cidade.
Dolores se empolgou com a disponibilidade da moça.
— Garota, eu te amo! Você é mesmo de verdade?
Elas sorriram animadas, e Key ficou aliviada por ter encontrado um emprego não tão bom, mas com uma patroa que aparentemente era nota dez.
Dolores morava no apartamento com seu tio de 68 anos, com seu filhinho Luizinho de três anos e com sua filha Malu de dezenove anos.
Vendo todos juntos (exceto Malu que saiu de viagem), Keylli sentia ainda mais falta de casa.
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