Notas iniciais
Oi, galerinha. Espero que gostem dessa one short! Foi criada da forma mais avulsamente possível rsrs. Desculpem qualquer erro de ortografia, não é lá o meu ponto forte rsrs.

O canto melancólico adentrava pelas janelas, seguida por uma brisa fria.

Os rostos sombrios se esgueiravam pelos cantos da sala, olhando de relance para o homem deitado no caixão.

Um soluço seco e forçado soou. Um gemido abafado de mulher, fez-me querer encolher em repulsa.

Olhei para longe do corpo murcho de mamãe, percebendo sua tristeza, e bem escondido do olhar de todos, uma alegria de liberdade.

Eu partilhava dos seus sentimentos.

Quando anunciaram o falecimento do homem tido como meu pai. Esperei lágrimas florescerem em meus olhos, borrarem minha visão e deslizarem até meu queixo, em uma dor silenciosa.

Meu coração, desvinculado com a razão. Vibrou em êxtase, pulsou como nunca. Senti como se anunciassem o fim da guerra. A alegria me tomava como um soldado liberto do cárcere. Finalmente, os homens estavam livres do coronel.

Aproximei-me do caixão.

Notei a tensão despregarem dos corpos ao meu redor, em um alarme ao meu olhar odioso.

Sim, eu o odiava. Sim, eu preferia a sua morte do que sua vida. Sim, eu desejei por toda a minha vida que, Deus em sua infinita misericórdia, pudesse nos libertar do tirano egoísta deitado como inocente a minha frente.

O Senhor atendeu as minhas preces.

Inclinei-me, pousando meus lábios perto do seu ouvido defunto. E proclamei o que sempre guardei comigo.

-Eu o odeio. Espero que sua alma seja condenada, assim como condenou a vida desses pobres homens.

Notei com satisfação a expressão chocada dos que escutaram a minha pequena rebeldia. Fiquei feliz por minha avó estar entre elas.

Voltei-me com o olhar altivo, as costas eretas, marchando em direção a plantação. Senti alguns me seguirem, outros apenas me acusarem em um silêncio mudo. Precisava de uma plateia para que eu iria fazer.

Os negros se dispersaram a medida que o canto silenciava. As vozes sofridas e roucas deram lugar aos sussurros do vento, do balançar das folhas e das minhas botas batendo contra as plantações da cana de açúcar.

Um olhar frio e distante encontrou-se com o meu. Eram olhos que já presenciaram muita dor na vida, muito sofrimento para se permitirem um pouco de esperança.

Era para isso que eu estava lá. Para fazê-lo feliz. Mesmo que não bastasse o meu amor, o meu carinho e devoção. Mesmo que não me amasse.

Eu lhe daria o único que poderia conceder-lhe. A liberdade.

Apertei a carta entre meus dedos úmidos, sentindo a textura macia do papel. Mordo o lábio e lhe lancei um olhar firme, que lhe implorava para aceitar o que tinha a lhe propor.

Ele permaneceu impassível sobre o sol. A camisa velha e suja, pendia aberta pelos botões arrebentados, revelando um peito sólido, marcado por cicatrizes de anos de submissão como escravo.

O seu rosto fadigado, avisava-me para não prosseguir. Permanecer onde estava, presa em minha gaiola dourada, dominada pelos estereótipos de uma sociedade patriarcal, escravista.

Seus olhos se estreitaram quando dei um passo hesitante em sua direção. Sua pele reluzia com o suor de uma manhã de trabalho forçado, abusivo e animalista. Senti os seus avisos a medida que seu corpo se retesava a cada passo que dava.

Olhei fixamente para ele, desafiando-o a se afastar de mim. Novamente.

Parei a alguns passos de distância. Sua expressão transmitia tudo aquilo que eu não queria me dar ao luxo de pensar. Negação, ódio e luto.

Luto pela mãe que havia falecido. Ódio pela injustiça que enfrentava todos os dias ao ser humilhado diante de brancos. Negação pelo que eu queria dele.

Fraquejei diante de sua rejeição. No entanto, se ele tinha forças para enfrentar meu pai. Eu tinha forças para enfrentar seus sentimentos.

Fechei bem os olhos, uma vez que tinha certeza da covardia que me assolaria caso olhasse para os rostos raivosos e impiedosos dos negros. Cegos demais para notarem a diferença de um branco para outro.

Não os culpava por isso.

Extingui a distância que havia entre nossos corpos, colando-me a ele. Passando meus braços pelo seu corpo rígido, tendo cuidado para não tocar suas feridas.

Senti todos os músculos do seu corpo tremerem. Apertei-o com mais força contra mim. Sentindo sua tensão, o contrair da sua mandíbula, o seu suor deslizar por meus dedos. As suas mãos grandes e calosas apertarem a minha cintura, em uma ordem clara para me afastar.

Não o fiz. Dessa vez, não.

Queria que todos percebessem que éramos nada mais que um homem e uma mulher. Uma mulher loucamente apaixonada, desesperada por ter uma chance de viver. De ter a liberdade de amar aquele que tinha escolhido. De amar um negro.

A liberdade de amar Ian.

-Afaste.

-Sinto muito. Queria poder mudar tudo. Queria poder não viver desse jeito. Queria tê-lo comigo por toda a vida. Queria poder sonhar que daqui a alguns anos estaríamos sentados na varanda da nossa casa, segurando um dos nossos filhos no braço, enquanto conversávamos sobre algo que o faria rir para mim. -Respiro fracamente, perdendo a batalha contra lágrimas. -Queria.... Queria poder me deitar todas as noites sabendo que teria alguém para me acalentar durante as noites frias. Queria, acima de tudo, ter certeza que seria livre para amá-lo incondicionalmente, completamente, por toda a eternidade.

Não me importei com nada mais. Apenas em fazer com que todos presenciassem o meu amor por aquele homem.

Afastei-me apenas o suficiente para colar nossos lábios. Ouvi um gritinho abafado atrás de nós, mas logo me distrai com o pressionar do suave roce de nossos lábios.

Dei-lhe tudo através daquele beijo. Meu coração, e tudo que me pedisse. Pois, eu já havia nascido destinada a ele. Era sua. Marcada pelo amor que senti desde a primeira vez que o vi, encolhido contra a porta do meu quarto.

-É livre agora. -Sussurrei contra seus lábios, retirando uma mão do seu pescoço para lhe entregar a carta de alforria.

Vi sua expressão nublada dar sinal de perplexidade, quando segurou com dedos trêmulos o frágil papel. Abriu devagar o lacre, como se estivesse com medo de ter esperança.

-Como...Como você…

-Não importa. É livre. -Forcei um sorriso entre meus lábios, sentindo a dor da perda antes mesmo que ele partisse.

Amá-lo era uma experiência tão completa que precisei me manter firme na minha decisão. Meu amor teria que ser suficiente para deixá-lo ir.

-Não.

Pisquei em descrença.

-Tens que aceitar. -Emito fracamente.

-Não.

-Não sabes do que estais falando. És a sua liberdade o que acabei de lhe entregar.

-Não serei livre se não a tiver comigo. Amo-a. E não vou deixá-la. -Ele sorri ao perceber a minha descrença. -Eu a pediria em casamento, mas não sei se me permitiriam entrar na Igreja.

-Aceito da mesma forma. -Respondo rapidamente, surpreendo a nós dois.

-Nesse caso, acho que terá que lidar com os olhares de recriminação.

-Não tem importância. -Sorrio para ele, aproximando um passo.

-Ficará brava porque não será mais convidada para as festas.

-Nunca gostei de tais festas. -Passo um braço por sua cintura, mantendo-a afastada das suas costas.

-Vão olhá-la como se fosse um animal.

-E eu vou olhá-lo todas as manhãs com verdadeira adoração.

Antes que replicasse. Pressionei a carta entre seus dedos, subindo na ponta dos pés para beijá-lo novamente.

Eu não sabia como seria o nosso futuro. Se teríamos um. Mas, naquele momento, eu teria o privilégio de ter esperança.

Notas finais
Obrigado por lerem!!!!!! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!