Meu amor está ao seu lado.
42 Hora de dizer adeus.
Notas iniciais
É uma pena que tenha que ser desse jeito
Não é o bastante dizer que eu sinto muito
Não é o bastante dizer que eu sinto muito
Meus olhos estavam fixos na escuridão que tomava meu quarto, só não por completo por conta da janela aberta na outra extremidade. Não tinha noção das horas, mas já estava ali por muito tempo. Deitado sobre minha cama desarrumada enquanto as lágrimas escorriam sem que me importasse.
Quase não sentia meu coração batendo lentamente em meu peito.
Era como se tudo houvesse perdido o sentido para continuar, como se minha vida perdesse aos poucos o brilho de antes. Sabia que deveria seguir em frente, buscar forças para me reerguer, porém era como se todos os estímulos não fizessem meu corpo acordar por culpa das ondas de dor que me tomam a maior parte do tempo.
Mesmo depois de algumas semanas a mesma pergunta ainda martelada em minha mente: Por que Peter havia partido?
Tentei odiá-lo, culpa-lo de todas as formas ao lembrar-me de todas as vezes que me fez chorar e nos afastou, contudo sentimentos ruins para ele não duravam muito.
Sim, passei a odiar a mim mesmo por não conseguir lhe apagar ao sentir raiva do que me fez.
Thomas o odiava por ter me destruído e nunca desistiu de deixar claro suas opiniões, só queria que ele pudesse entender que para mim não era da mesma forma, mesmo que quisesse. Peter roubou todo o amor que tinha dentro de mim, sem um pedido me ganhou por completo. As consequências não eram visíveis, porque não pensamos nelas quando nos entregamos.
Ele me teve de corpo e alma.
Agora, em um sábado à noite, me sentido tão sozinho como nunca antes e ter a certeza de que a vida perdeu um pouco do sentido sem a pessoa que me completava sinto uma vontade quase doentia de pular pela janela aberta, me deixar cair quadro andares e acabar de vez com toda o angustia e tristeza que se tornaram minhas únicas companheiras.
Sei o quanto esse tipo de pensamento é errado para as outras pessoas, mas elas não sabem o que sinto e por conta desse simples fato deveriam se calar.
Talvez eu seja o culpado
Ou talvez sejamos os mesmos
Mas de qualquer maneira eu não consigo respirar
De qualquer maneira eu não consigo respirar
Mas é só isso? Será que a vida é só sofrer por amor? Penso que esse talvez tenha sido meu destino: Ganhar alguém que claramente me faria feliz e depois perde-lo. Se existem outras vidas, talvez esteja pagando por erros de alguma delas.
Soa tão patético esse tipo de pensamento quanto para mim?
Penso muito em Peter, ele ainda consegue ser dono da maior parte dos meus pensamentos. Imagino onde ele pode estar no momento em que minhas lágrimas caem por sua culpa. Pergunto-me se está feliz e vive sem arrependimentos. Para todas minhas perguntas a resposta é a mesma: Sim. Sou egoísta e tenho noção disso. Não sou do tipo que quer a felicidade da pessoa que ama mesmo que seja longe e com outro alguém. Não posso pensar em Peter com outra pessoa lhe segurando a mão. Meu coração se quebra em mais pedaços ao lhe imaginar dormindo ao lado de um desconhecido para mim, de ter o poder de fazer outra pessoa sorrir.
Levantei-me devagar e encaminhei até o banheiro na intenção de tomar um banho e sair para dar uma volta. Já havia recusado o convite de Anthony para ir a uma boate com seus amigos. Entrei em baixo da ducha morna e deixei que a água escorresse por meu corpo por alguns minutos, logo depois me ensaboei e lavei os cabelos com shampoo.
Vinte minutos mais tarde já descia pelo elevador.
Não era mais de sete e meia e o céu estava tomado por estrelas que mais pareciam pingos brilhantes, sem nenhuma nuvem para dar contraste ao manto escuro. Ventava pouco, não sendo capaz de incomodar quem estava na rua há àquela hora. Caminhei até me dar conta de que estava em frente da cafeteria onde Beth trabalhava, resolvi entrar e comer alguma coisa já que fazia horas que meu estômago não era preenchido por nada. Entrei e em poucos instantes senti me dar água na boca o cheiro de café que aquele lugar tinha.
Sentei em um dos inúmeros bancos altos que haviam de frente para o extenso balcão e esperei até que Beth pudesse me atender.
A cafeteria estava bastante movimentada, por conta disso levou um bom tempo até ser atendido.
“Phillippe, quanto tempo não passa por aqui!” Exclamou Beth.
“Sim” Respondi simples.
“O que vai querer?” Estranhei Beth não ter feito pergunta alguma, mas dei de ombros.
“Café grande e um muffin de chocolate”
Beth anotou meu pedido e me deu as costas para prepará-lo. Nesse meio tempo fui surpreendido por uma voz feminina ao meu lado.
“Posso me sentar aqui?” A mulher me perguntou se referindo ao banco vazio ao meu lado.
“Fique a vontade” Respondi sem me dar ao trabalho de olhar quem se sentava ao meu lado.
Escutei enquanto a pessoa se sentava e sem muito cuidado jogava a bolsa escura sobre o colo. Permiti-me olhar minimamente para o lado, notei meias calças negras combinando com as botas de cano alto, porém não elevei o olhar para olhar seu rosto.
Meu pedido chegou e foi entregue por Beth ainda calada.
“Está tudo bem?” Perguntei para ela.
“Sim, Phillippe. E com você?” Pelo tom usado para sua pergunta consegui entender o motivo para seu comportamento estranho comigo.
“Sei que está brava comigo” Confessei. “Mas espero que entenda que para mim não tem sido fácil”
“Fiquei sabendo por Thomas” Seus olhos azuis percorriam meu rosto, pareciam em busca de respostas. Não me incomodavam, sabia que Beth sempre quis meu bem. “E sinto muito... Gostaria de deixar marcas no rosto daquele maldito com as unhas” Se referiu a Peter e sua atitude entre dentes.
“Só gostaria de saber o motivo...” Proferi baixo.
“Se existir um” Não foi Beth a responder e sim a mulher ao meu lado.
Segui com olhar até a dona da voz e me surpreendi ao me dar conta de que era Alicia. Ao fixar meus olhos aos castanhos dela pude notar o quanto pareciam diferentes da última vez que nos vimos e brilhavam em fúria. Agora pareciam calmos, até mesmo amorosos.
Alicia não estava muito diferente do que conhecia. Ainda muito bonita com os cabelos lisos dessa vez soltos e lhe caiam nos ombros. Sua maquiagem era leve, mas as roupas eram escuras como quando a conheci.
“O que quer dizer?” Perguntei não entendendo onde ela gostaria de chegar.
“Peter nem sempre precisa de motivos para fazer o que faz”
“Mas não foi uma decisão sem importância. Nosso relacionamento não era uma brincadeira” Elevei meu tom de voz ao me sentir irritado com a forma calma em que ela falava. “Você não sabe o que está dizendo. Não sabe o que tínhamos”
“É verdade, eu não sei” Respondeu simples, ainda com os olhos calmos em meu rosto. “ Só sei o quanto o ama e sei que Peter nutria do mesmo sentimento”
“Então por que...”
“Eu não sei” Respondeu já sabendo o que perguntaria. “Estou tão magoada quanto você pela partida dele, também não fui avisada de nada”
“Vocês mantiveram contato?” Perguntei extremamente surpreso.
“Sim” Alicia sorriu fracamente, como se houvesse tido alguma lembrança boa. Não pude evitar sentir uma pontada de ciúmes. “Não nos falávamos com frequência, mas Peter certas vezes me ligava e contava um pouco dos seus dias”
“Entendi”
Olhando para Alicia podia notar sua magoa, não demonstrava com facilidade, mas sabia que os dois sempre foram amigos e talvez a atitude do mais velho a tenha atingido da mesma forma em que aconteceu comigo.
“Como soube?” Perguntei. Alicia franziu o cenho por não ter entendido minha pergunta. “Quero dizer, como soube que ele se mudou de Los Angeles?”
“Ah, isso!” Seu corpo se virou na cadeira em que estava sentada para que pudesse ficar de frente para mim. “Sua mãe ligou, me perguntou se ele estava voltando para Manhattan. Nem ao menos sabia que tinha a ideia de se mudar novamente!” Riu baixo, deixando que o som saísse pela pequena fresta entre seus lábios pintados de vermelho. “Ele já não estava por lá quando ela me ligou. Janet me contou sobre as brigas que Peter tinha com o pai e pelo o que me parece foi o motivo para ele desaparecer dessa forma”
Assenti. Era tudo o que eu também sabia, pouca informação e apenas uma certeza: Eu não o veria mais.
Levei a xícara com o café já morno para meus lábios na intenção de ganhar tempo e afastar as lágrimas que já se preparavam para escorrer. Em vão. Já não as podia controlar, pouco me importava se estava em um lugar público, se minha fraqueza era exposta para todos naquela cafeteria. Desceram uma a uma sem que fizesse força para impedi-las. Mantive a cabeça baixa enquanto soluços baixos escapavam.
Tudo que eu tenho para dizer é adeus
Nós estamos melhor fora desse caminho
Nós estamos melhor fora desse caminho
“Sinto muito, Phillippe. Não merecia passar por isso” Senti a mão leve de Alicia ser pousada em meu ombro, tentando me confortar. “Vejo em seus olhos o amor que sente por ele”
Não respondi. Tentei levantar o rosto e lhe sorrir em agradecimento, porém tenho certeza de que saiu como uma careta, pois as lágrimas voltaram a cair com mais intensidade.
Alicia se levantou sem nem ao menos ter feito seu pedido e se encaminhou até a porta de saída para ir embora.
Um lenço me foi estendido e aceitei da mão de Beth agradecido. Sequei as lágrimas deixando que os soluços parassem aos poucos.
“Você é forte, irá superar”
“Obrigado, Beth” Agradeci. Retirei a carteira do bolso de meus jeans e busquei por uma nota que foi depositada em cima do balcão. “Já estou indo.”
“Fique mais um pouco, acabou de chegar” Pediu.
“Não, preciso dar uma volta” Me apoiei no balcão para lhe deixar um beijo na bochecha. “Até mais, Beth”
Naquele sábado andei pelas ruas de Nova Iorque sem um destino definido. Minha mente se manteve vazia, evitava pensar no que quer que fosse, apenas buscava paz em meu interior. Não queria pensar no ocorrido, nas perguntas que martelavam o tempo todo ou onde Peter poderia estar. Queria por algumas horas esquecer todo o pesadelo que vivia, para que só um dia me sentisse normal, sem carregar todo o peso da dor em meu coração.
Eu estou vivo mas estou perdendo toda a minha direção
Porque tudo que nós já passamos
E tudo sobre você
Parecia ser uma mentira
Uma inocente mentira destorcida
Me fez aprender a te odiar
Ou a me odiar por deixá-lo ir
O tempo foi passando com rapidez, algumas vezes conseguia esquecer Peter e viver calmamente. Isso aconteceu quando voltei para Montreal e me decidi por consertar minha vida. Aluguei um apartamento e arrumei um emprego. Vivia apenas com Dylan, mas perto de minha família. Meus amigos ficaram longe, Thomas ainda em Los Angeles agora com Frankie. O namoro deles se tornou ainda mais sério e depois de muitos planos começaram a morar juntos. Deixei Anthony para trás, porém o mesmo ainda se fazia muito presente e até mesmo conseguiu vir para Montreal no final do ano me visitar.
Sinto vergonha ao dizer que a felicidade dos outros às vezes me atingia em cheio. Não que os quisesse infelizes como me tornei, contudo não era fácil para mim chegar à conclusão de que não era digno de senti-la. Desejei tanto ser merecedor e de uma hora para a outra meus desejos caíram por terra.
Só consegui tirar a aliança de meu anelar praticamente um ano depois de Peter ter ido embora. Não que fosse prova de minha superação, não... Não conseguia superar a forma que o perdi e era algo que tinha certeza que nunca aconteceria. A falta de um adeus me assombrava todos os dias em que lembrava de seus olhos castanhos conectados aos meus ou de seus toques em minha pele. Ao lembrar das vezes em que nos amamos parecia ainda sentir meu corpo queimar, a sensação de que amor que sentia por ele escapava por meus poros ainda era extremamente real. Dei-me conta de que nada no mundo faria meus sentimentos por Peter desaparecerem.
Tudo que eu tenho para dizer é adeus
Nós estamos melhor fora desse caminho
Nós estamos melhor fora desse caminho
Tudo que eu tenho para dizer é adeus
Nós estamos melhor fora desse caminho
Nós estamos melhor fora desse caminho
Thomas ainda insistia em bater na mesma tecla sobre o quão errado o mais velho foi. Nesse ponto nunca deixei de concordar, contudo o loiro queria que a raiva engolisse os sentimentos bons que ainda nutria e isso não aconteceria. Não era uma escolha minha, simplesmente não acontecia, estava marcado para sempre.
Nós brigávamos com frequência quando o assunto era Peter e ainda podia me lembrar de nossa última discussão:
“Acho estranho ter ficado tão magoado com o Frankie sendo que ele fez algo menor e com o Peter tem sido sempre advogado. Não tem coerência” Thomas dizia já claramente exaltado.
Não fazia ideia do momento em que Peter foi mencionado na conversa sobre meu novo emprego. Não tinha sentido algum o loiro mais uma vez ter tentado atacar Peter.
“Não vou explicar meus motivos mais uma vez. Não consigo nem ao menos entender o porquê de tocar nesse assunto tão arduamente. Você está me irritando!”
“Só não consigo ver o Peter como uma pessoa boa”
“Não tem como você concordar comigo porque não foi você a passar por tudo o que aconteceu” Esperei que minha sentença fosse boa o suficiente para acabar com aquela discussão sem sentido algum.
“Como pode não sentir raiva dele? É assustadora essa sua forma de mantê-lo como o único santo em toda essa situação”
“Sinto muito se não penso dessa forma, onde sentir raiva é a saída para tudo”
“As escolhas são suas...”
“E será que pode respeitá-las? Diz que as respeita, mas não perde a oportunidade de me atacar sempre que encontra uma brecha”
“Devia valorizar as pessoas que sempre estiveram ao seu lado. Procurá-las ao menos” Foi sua cartada final.
Respirei fundo várias vezes tentando me manter calmo e não cair em sua provocação, mas quando dei por mim já estava gritando.
“Me desculpe se não te coloco em um pedestal! Me desculpe se não me tornei a pessoa que você gostaria que eu fosse”
“Você mudou muito por conta das suas decepções. E isso não é bom, porque nem todo mundo tem que ser atingido por elas. Eu pelo menos não tenho”
“É brincadeira, não é?” Me permiti rir da forma mais irônica que conseguia, sabendo que irritava ainda mais Thomas do outro lado da linha. “Não vou dar continuidade a essa discussão babaca. Só aceite que não sou você e tenho meus próprios pensamentos”
“Nós éramos bem mais próximos e só mudou porque você não é mais a mesma pessoa”
“As pessoas mudam, Thomas. Pare de tentar fazer com que sejam como você quer, isso não vai acontecer a ainda sairá frustrado...”
Fui interrompido rapidamente por sua última sentença:
“Só acho difícil manter uma amizade quando o outro lado já não parece disposto”
“Tirou suas próprias conclusões, não foi? Ok, continue a pensar assim. Tchau”
Me preparei para encerrar a ligação, isso sem antes escutá-lo:
“Tchau”
Era momentos como esse que às vezes me desanimavam ainda mais, pensava estar caminhando bem e algo acontecia para me colocar para baixo novamente. Quase aceitava ser o único lugar onde deveria estar.
Para Thomas ou qualquer outra pessoa, era difícil entender que meu amor conseguia deixar qualquer outro sentimento no esquecimento. Não era uma escolha, se ao menos pudesse fazê-la com certeza não seria dessa forma. Peter foi a primeira pessoa pela qual consegui entender o que era o amor e a forma esmagadora que ele poderia agir dentro de nós. Posso usar vários termos para defini-lo e o que mais gostava era cego. Caminhei cegamente e me deixei cair em um abismo gigantesco. Não pensei nas consequências, pois era tudo convidativo e se não conseguia apaga-lo de dentro de mim não era por não me permiti escolher. Simplesmente não existiam escolhas.
Peter ainda continuaria dentro de mim, fizesse o que fosse.
18 de agosto de 2012.
Corria em um corredor enorme, não parecia ter um fim. Abria todas as portas e só encontrava salas vazias. Minha respiração mal saia por minhas narinas ou pela boca entreaberta, porém minhas pernas não deixavam de se mover em busca de abrir as outras portas e encontra-lo.
Foi em uma delas que avistei uma garotinha, por volta dos oito anos de idade. Seus grandes olhos escuros me encaravam assustados pela forma em que a porta foi aberta com violência. Não queria assustá-la como aconteceu, porém meu desespero por encontra-lo era cada vez maior.
“Peter, você o viu? Ele por acaso está por aqui?” Perguntei rapidamente, não querendo perder tempo ali.
“Última porta no final do corredor” Respondeu a garota.
Sai do cômodo e voltei a correr até a porta no fim daquele imenso corredor. Corri ignorando meus pulmões gritando em busca de ar, minha vida dependia daquilo, de encontra-lo e viver em paz.
Segurei a maçaneta entre os dedos e a girei sem ensaios. Não sabia o que falaria ao encontra-lo ali, só pensava em me jogar entre seus braços e segurá-lo contra mim para que nunca mais partisse.
O cômodo estava vazio.
Abri os olhos me dando conta de que não passou de um sonho. Meu quarto estava iluminado pelo sol que ultrapassava a pequena fresta das cortinas. Olhei a minha volta por alguns segundos tentando entender o porquê de ter tido aquele maldito sonho.
Foi o primeiro desde a partida de Peter.
Senti cócegas em minhas bochechas e então notei que chorava, surpreso levei a ponta de meus dedos até meu rosto sentindo o liquido quente mais uma vez ser derramado por ele.
E tudo, tudo não é apenas
O que parece, então guarde
Essas palavras que você nunca me disse
É hora de dizer adeus
É hora de dizer adeus
É hora de dizer adeus
Adeus
Abri meu e-mail que já não usava por tempo o bastante e lhe escrevi enquanto as lágrimas ainda caiam.
“Nunca pensei que fosse sentir tanta falta de uma pessoa que fez questão de me dar às costas e simplesmente sumir da minha vida. Vez ou outra retorno a certas lembranças, é como um pesadelo que nunca acaba, às vezes me sinto terrível e peço a quem estiver ouvindo para que me livre disso. Você me deixou uma marca enorme e às vezes a dor é insuportável. Eu sinto tanto sua falta.
Venho aqui, pois é a única forma de tentar algum contato, já que não faço ideia de nada relacionado a você. Peço que se algum dia ler isso, sei lá, me procure, gostaria tanto de te manter na minha vida, TANTO Peter. Gostaria de esquecer tudo o que aconteceu, já faz muito tempo, já fez um ano que você foi embora. Eu sei lá, talvez seja uma tentativa falha e que também esteja sendo patético, mas de todo jeito, ainda me resta algum tipo de esperança.
Bom, é isso. Te passarei meu endereço e telefone para se algum dia ler isso e quiser contato, eu realmente espero que aconteça, quero ficar em paz de uma vez por todas.”
Depois de algum tempo se tornou mais frequente os e-mails que escrevi em busca de me sentir bem e talvez ser respondido algum dia. Mantinha a esperança de algum dia Peter resolver abri-los e se dar conta de que deveria me procurar para que pudesse me explicar o motivo para tudo acontecer daquela forma.
03 de junho de 2013
“Poderia começar lhe escrevendo sobre meu amor, ou o que um dia foi dele, porém não encontro palavras. Não se escreve sobre amor, apenas se sente e por você senti o mais puro e sincero, como um dia lhe disse, aquela última vez que te escrevi, nunca ninguém vai amá-lo como amei! Hoje percebo o quão ingênuo fui naquela época, você estava me deixando, achei que quando essa hora chegasse sentiria, algo dentro de mim doeria, ao contrário disso, tive esperanças e me sinto tolo nesse momento. Sabe como é se sentir estúpido depois de perceber que foi uma esperança falha? Hoje, hoje sinto a dor que não senti naquele dia em que lhe escrevia com todo meu coração e amor, claro.
Escrevo-lhe com lágrimas nos olhos, não posso dizer quantas vezes isso já aconteceu ao pensar em você. Penso com muita frequência mesmo que já não o tenha em minha vida, mas te carrego dentro de mim e uma das minhas únicas certezas é de que isso é para sempre. Quando podemos ter essa certeza? Sempre é uma palavra muito incerta, não pode ser dita da boca para fora, como atirá-la contra o vento e apenas desejar que se realize. Sabe, arrependo-me por não ter tido essa certeza quando ainda estava junto a mim ou talvez ela já existisse há muito tempo só não pude entender. Acredito que tenha sido o medo de chocá-lo, de parecer mais apaixonado do que o normal.
Senti por vezes seguidas amá-lo mais do que amo a mim mesmo, não posso dizer a procedência de tal sentimento. Terá sido a maneira que me sentia protegido e seguro ao te ter para mim? Talvez. Talvez tenha sido seu jeito encantador, sua forma de me fazer rir e depois desejar amá-lo ainda mais do que nos dez minutos passados. Parece que certas coisas ainda são capazes de ecoar em minha mente, elas se repetem o tempo todo. Lembro dos apelidos que me dava, do seu jeito preocupado, ciumento, porém nunca admitiu. De qualquer forma, eu sabia e nesses momentos me sentia especial. Amado.
É engraçado como quando pensamos na pessoa amada nossos olhos só enxerguem as partes boas da história, não é? Agora tudo parece claro, parei de bloquear aquilo que me fazia mal, finalmente resolvi olhar além do que me era bonito. Ao fazê-lo me pergunto: Você realmente me amava? Amava? Queria tanto saber a resposta. Essa pergunta pisca em minha mente como aqueles letreiros luminosos, pisca e me causa a dor da dúvida.
Não só essa, mas muitas outras perguntas estão prontas para serem atiradas contra você. Pergunto-me por quê. Por que tinha que ser assim? Não poderíamos conversar como adultos e encaixar as últimas peças em nossas vidas que mais se pareciam um quebra cabeça sem fim? Por que Peter? Por que tão egoísta, tão dono de si mesmo? Por que tanto orgulho? Sempre achei que entre nós havia confiança para falar sobre qualquer que fosse assunto. Esperei tanto que se abrisse para mim, só queria saber a importância que eu tinha em sua vida e você foi embora fechando a porta e jogando a chave fora. Hoje existe a maior barreira de todas: Distância.
Às vezes sentado em um canto qualquer você me vem na mente e tento imaginar como você está depois desses quase dois anos que para mim mais parecem décadas. Será que se sente feliz e realizado? Imagino que sim. Você sempre foi tão objetivo, sempre me pareceu ser aquela pessoa que não desistia até conseguir e sinto inveja de toda essa garra, pois eu não a tenho. Ainda continuo em dois mil e oito, ano em que nos conhecemos, queria ter me agarrado mais ao que vivemos, ter sido mais forte e decidido como você sempre foi, assim saberia lhe dar meu amor em doses pequenas, não ter lhe entregado tudo de uma vez, fazendo de mim uma pessoa vazia em seguida.
Gastaria horas dentro de um avião até onde você mora, para poder te ver diante de mim, vê-lo sorrir, escutar sua voz, poder dizer seu nome... Gostaria tanto de abraçá-lo. Gostaria de não estar chorando nesse momento por saber que isso nunca irá acontecer e essa é mais uma de minhas certezas a do nunca. Assim como sei que você sempre estará em mim, sei também que nunca te terei por perto. Nunca. Isso dói mais do que se pode imaginar e tudo bem se você não sabe como é. Eu sei, tudo bem você estar feliz e nem por um segundo lembrar que um dia existiu alguém que te amou dessa forma tão intensa.
Tudo bem.
Acho que está tudo bem ao saber que tudo o que vivemos foi jogado para o canto escuro da sua mente e que não é tocado mais. As músicas que falavam por nós, as fotos trocadas, os momentos em que nos despedíamos por pura obrigação, pois não queríamos ir para cama separados. Tudo bem se você esqueceu-se de quando me pedia para sonhar contigo, das vezes em que se dizia tão apaixonado que eu se quer podia imaginar algo tão perfeito. Acho que está tudo bem agora, mas se pudesse pediria uma única coisa, seria capaz de esquecer todo o resto, mas só te pedir perto de mim, só isso. Só você preenchendo o vazio que me deixou. Eu seria capaz de lhe perdoar por tudo, no fundo nunca lhe vi como uma pessoa ruim, talvez apenas inflexível.
Saiba, eu te perdoou com todo meu coração. Acho que depois disso dizer seu nome em voz alta já não doeria mais ou ao ver sua foto já não chorasse mais. Adoraria não mais ver coisas que me lembrem você, como pantufas! Será que ainda lembra disso? Eu me lembro. Lembro ter dito te dar pantufas de presente e infelizmente não tive essa oportunidade. Para outras pessoas podem ser lembranças banais, mas para mim são algumas das poucas que tenho de você e são elas que às vezes me fazem sorrir. Tudo o que eu queria era que agora essas palavras estivessem diante de você e que apenas uma vez pudesse se abrir para me entender, só pelos minutos que gastaria para lê-las.
Sinto sua falta.
Eu te amo, hoje e sempre.”
22 de agosto de 2013
“Nunca mais te esperei durante os domingos. Nunca mais corri para casa na esperança de te encontrar. Nunca mais deitei a cabeça no travesseiro enquanto sorria. Nunca mais sonhei com você sem que acordasse chorando. Nunca mais senti saudades e pude supri-la com sua presença. Nunca mais, nunca mais, nunca mais... Nunca mais encontrarei alguém como você.
"I Don't want to close my eyes
I don't want to fall asleep
Because I miss you baby
And I don't want to miss a thing
Coz even when I dream of you
The sweetest dream will never do
I still miss you baby
And I don't want to miss a thing"
Já não sou mais aquela pessoa com 20 anos, bobo e fácil de se apaixonar, alguém que daria tudo para ser feliz. Hoje com muito do passado dentro de mim, estou com os pés muito firmes na realidade, tenho a certeza de que você não volta mais. A realidade é tão mais dura, conhecemos pessoas tão importantes no caminho e quando elas dão passos diferentes é quase como se fossem capazes de levar partes de si mesmo. Já sentiu isso Peter? Será que tem algum lugar que nos ensine a nos desapegar do passado? Um curso de "como superar perdas irreparáveis"? Acho que talvez seja melhor perder toda a memória e começar tudo de novo.
Sabe, percebi que ninguém mais quer me ouvir falar sobre você e eles não tem culpa por tudo o que aconteceu ainda me corroer por dentro. Passei a guardar minha saudade apenas para mim e tentar engolir as lágrimas quando elas parecem incontroláveis. Já não encontro ninguém que me ampare e diga que vai ficar tudo bem, alguém que diga que me entende, mas que um dia eu vá ficar bem em relação a você. Já não é mais sobre o amor que senti por ti ou pelos dois anos que vivemos, é por não ter tido tempo de me despedir, é por não ter notícias suas, é por não ter resposta para nenhuma das minhas perguntas. Sabe qual é a sensação que tenho? É como se você estivesse morto e isso soa tão cruel de se dizer, então me desculpe por isso... Porém sinto isso por não saber onde está e saber com toda a certeza que tenho que você nunca mais estará na minha vida. E ai me pergunto: Por que? Por que?
Durante um bom tempo me senti tão minúsculo quando pensava na sua partida, tão insignificante. Senti por dias a fio não ter valor algum, não ser digno de amor porque você me deixou com tanta facilidade que é quase inexplicável para uma pessoa que esteja fora de todo o ocorrido. Senti-me como um pedaço de papel sem uso, amassado e atirado em qualquer lugar.
Ainda me lembro da tarde em que disseram que você tinha partido. Quem contou foi o tal Dave com quem trabalhava fazia pouco tempo, ele contou pro Thomas que no mesmo instante me mandou uma mensagem e na hora eu não tive reação alguma, eu estava te esperando para conversarmos e você nunca apareceu. Quando dei por mim estava indo embora da minha vida. Eu tremia! Te perder sempre foi meu maior medo. Segundos mais tarde meu celular começou a tocar e era o Thomas, ao me perguntar um: Como você está? Eu não pude responder, desabei. Nunca gostei de chorar na frente de ninguém depois de crescido, sempre tive vergonha, mas naquele momento não pude evitar. Eu queria desaparecer Peter! Eu era tão insignificante naquele momento que só queria desaparecer. Sempre esperei por palavras bonitas vindas de você, sempre esperei para saber a importância que tinha na sua vida e acredito que só porque eu queria elas nunca vieram, não é? Acredita que já até sonhei com essas palavras que nunca vieram? E o que mais me irrita é não ver seu rosto nos sonhos, eu já não sei como você é exatamente. Ainda tenho aquela foto que não gosta, guardo trancada junto com aquelas com as outras lembranças suas. Guardo tudo o que pude salvar de você porque sei que as memórias às vezes me traem e tenho esquecido algumas coisas. Devia deixar tudo para trás, né? Mas simplesmente não posso, não aprendi a perder ninguém. E não quero te perder, você está muito vivo dentro de mim. Você está todos os dias comigo. Não existe um só dia que não me lembre de você.
No último e-mail deu a entender que coloquei a culpa em você e depois de tanto pensar sobre sua partida pude enxergar que tive uma parcela de culpa e espero que me desculpe por ter sido tão infantil em certos momentos, eu me defendia da forma que encontrava e percebi que certas vezes você só queria que eu entendesse seu lado, nenhum de nós era fácil de lidar. Então te peço perdão por tudo de ruim que um dia te causei, queria ter a oportunidade de olhar nos seus olhos e dizem o quanto desejei que tudo tivesse sido diferente entre nós, o quanto desejo sua amizade e quem sabe ter te conhecido melhor. Seria maravilhoso te ter por perto.
E não está tudo bem ao saber que isso não vai acontecer, te sinto tão longe de mim que me causa um dor horrível e depois de tanto tempo, sei que essa dor, saudade, amor e falta nunca mais serão capazes de serem apagadas, você as deixou quando foi embora... Sempre me sinto patético quando venho aqui, nesse e-mail que nem deve lembrar que existe e te encher com esses textos. Textos que não vai ler... Já não sei o que dói mais, é misto de tudo! Nunca, nunca desejarei isso para ninguém. No fundo ainda tenho esperança de te encontrar no futuro, quem sabe nossos destinos não se cruzam, não é? Estarei com os dedos cruzados para que isso aconteça.”
13 de Dezembro de 2013
“Quanto mais tento fugir, mas atraiu pensamentos relacionados a você. E claro, mas uma vez venho aqui, talvez me sinta mais leve ao escrever para você, ao depositar todas as minhas esperanças nessas palavras que nunca irá ler. Porra, tenho tido dias tão ruins ultimamente. Ruins no trabalho, ruins com meu melhor amigo, tem sido muito difícil para mim. Meu coração tem estado ruim, pois nele existe um peso desconhecido e senti-lo me faz chorar diariamente. Se não bastasse tudo isso, ainda tem a saudade que sinto de você.
Às vezes me pergunto se está bem, se está feliz e no fundo tenho certeza que as respostas para essas perguntas são um sim. Saiba, fico feliz ao pensar dessa forma. Ainda lembro das coisas que eu te disse na última ligação que lhe fiz. Disse coisas horríveis, estava tão bravo com o que tinha feito que não pensei, simplesmente gritei coisas feias na intenção de te machucar e sabe, acredito que tenha escutado aquelas palavras. Penso que se talvez não as tivesse dito as coisas seriam diferentes, ou não. Talvez você estivesse decidido a ir embora e nada poderia mudar esse pensamento. De todo jeito, gostaria muito de poder te pedir desculpas quanto ao ocorrido.
Acho que não resolveria todos os meus problemas, mas te ter por perto os amenizaria muito! Acredito que eu nunca vá superar essa perda... Só queria ter sua amizade e poder contar contigo nos momentos que mais preciso, gostaria também de ser um porto seguro pra você quando precisasse de alguém para te escutar. Entre todos esses "gostaria" digo a mim mesmo: Isso nunca vai acontecer. E ai caiu na realidade novamente e choro feito uma criança estúpida. Tantas pessoas passam por nossa vida e não ficam, me pergunto por que você não é só mais uma. Por que tenho que continuar sofrendo pelo mesmo motivo? Continuar batendo na mesma tecla incontáveis vezes. Por quê? Merda...
Hoje estava escutando rádio e tocou Always do Bon Jovi. Logo hoje tocou essa música! E então me lembrei que uma vez cantamos juntos. Não preciso nem dizer como fiquei, não é mesmo?
Fim do ano está mais uma vez ai, mais um ano que passei sem notícias suas. Te desejarei um feliz natal e um ano novo repleto de coisas boas. Não pretendo voltar aqui tão cedo, espero que não volte nunca mais... Mas saiba, meu amor por você será eterno e nunca, nunca, nunca te esquecerei!
Um dia eu te disse que as coisas não são para sempre e você me mandou esse trecho de música: Eu sei que é para sempre enquanto durar. Hoje vejo que estava errado quando concordei. Mesmo que não tenha mais nada o que durar, ainda é para sempre. Você foi um exemplo de amor verdadeiro para mim, meu primeiro amor. Foi uma grande lição na minha vida, uma lição que me concedeu muito aprendizado e os levarei e tentarei passar para muitos ainda.
Você foi e sempre será meu amor. Eu te amo muito. Sua falta sempre será sentida. E obrigado por ter preenchido dois anos da minha vida com sua presença, com sua forma de me fazer rir e sorrir.
Deixarei mais uma vez meus contatos, caso algum dia leia essas coisas.”
Tire a minha dor
Me diga que eu, me diga que eu estava errado
Me diga que eu estava errado
Aquele realmente foi o último e-mail que lhe escrevi. Decidi por não criar mais falsas esperanças, os escrevia na intenção de desabafar. Talvez para que pudesse me livrar do peso em meus ombros através das palavras. Mas entendi que nada o traria de volta e ao menos isso deveria aceitar de cabeça erguida.
Ninguém nunca soube dos meus momentos de fraqueza em que lhe escrevia e deixava exposta a forma com que ainda sofria. Não tinha a intenção de verbalizar e ainda ser julgado. Certas vezes me envergonhava por ainda tentar encontrá-lo, contudo sabia que iria me arrepender para o resto de meus dias caso não o fizesse.
Perguntava-me inúmeras vezes o motivo de ainda mantê-lo vivo dentro de mim e me dei conta depois de muito questionar de que era algo involuntário. Peter continuaria em mim independente de qualquer esforço que fizesse para expulsá-lo.
Estaria ele do outro lado do mundo, dentro de mim ainda seria próximo.
Aprendi a não questionar sobre a força do amor. Respostas conclusivas nunca iriam existir para explicar o quão forte esse sentimento poderia ser.
Tire a minha dor
Me diga que eu, me diga que eu estava errado
Me diga que eu estava errado
Adeus.
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