Meu amor está ao seu lado.
29 Um novo começo.
Notas iniciais
“Achei que ficaria mais alguns dias...” Minha mãe disse aquilo sabe-se lá quantas vezes durante aquela manhã.
Havia decidido voltar para Nova Iorque para que pudesse me acertar com Peter. Não estava indo com a certeza de que tudo iria dar certo entre nós, era claro que precisaríamos conversar antes e quem sabe colocarmos os pontos nos is. Porém depois de muita insistência da parte de Frankie liguei para Peter dizendo que voltaria.
“Eu sei mamãe, mas irei alguns dias antes” Também já havia dito a mesma coisa várias vezes. Não expliquei o motivo da minha volta repentina, mas sabia que sua pergunta não tardaria.
“Voltará logo, não é?” Perguntou carinhosa. Ignorei a vontade de abraça-lo no mesmo instante.
“Assim que conseguir alguns dias sim. E vocês também podem me visitar, nem ao menos conhecem meu apartamento”
“Nós iremos, meu filho. Quero conhecer o lugar que substituiu sua verdadeira casa”
“Olha o drama, Dona Heloise” A repreendi em tom de brincadeira.
“Isso não é drama Arthur” Soltou o ar aparentemente brava. “Agora me diga o motivo para essa volta”
Estava demorando! Apenas Julie sabia de Peter e sem muitos detalhes. Não tinha certeza o real motivo para meu receio, talvez sentisse medo de ser repreendido por me envolver com alguém comprometido, depois das dores de cabeça que causei tentava evitar problemas novos.
Minha mãe esperava por minha resposta impaciente, era fácil notar em seu olhar.
“Arthur, te conheço mais do que pode se quer imaginar. Está me escondendo alguma coisa?”
Era só o que me faltava.
“Claro que não!” Respondi rapidamente. “Um amigo me convidou para passar o ano novo com ele e aceitei, só isso”
“E esse seu amigo tem nome?” Era claro que não estava acreditando em minha desculpa.
“Peter”
“Peter” Repetiu. “Esse Peter por acaso é seu namorado?”
“Mãe!”
“Deixe o garoto, Heloise” Meu pai pediu. Descia as escadas carregando minha última mala já pronta. Julie descia logo atrás. “Ele é um adulto, te contará quando chegar a hora”
“Por favor, John! Preciso saber o que ele anda aprontando, está muito longe de nós”
“Não sei o que Peter e eu somos” Admiti. Sabia que aquela conversa renderia muito caso não lhe respondesse. “Estou voltando para tentar entender”
“Irá conseguir” Julie finalmente se manifestou. “Assim quando voltar para meu casamento o trará com você”
“Quem sabe...” Dei de ombros. Conversas como aquela na frente dos meus pais me constrangiam muito.
Antes que voltássemos para o assunto Peter escutamos uma buzina soar. Devia ser Alex com Frankie. Meu cunhado nos levaria para o aeroporto. Frankie pegaria um voo de volta para Washington também naquela manhã.
“Alex chegou, melhor eu ir”
“Abrirei a porta para que volte” Disse minha mãe já encaminhando para abrir a porta. Coisa de mãe.
“Não precisa disso, voltarei de qualquer forma”
“Assim esperamos” Meu pai respondeu.
Abracei minha mãe fortemente prometendo que logo nos veríamos novamente. Recebi beijos demorados por todo meu rosto, beijos esses que me fizeram rir por conta do exagero.
Já meu pai se limitou a apenas me abraçar em silêncio, como já era habitual.
Julie praticamente se pendurou com os braços em volta de meu pescoço e com a voz já chorosa me fez um pedido:
“Promete que não vai deixar de me ligar?”
“Prometo, Ju” Fui sincero.
“E que no momento que precisar não pensará mais de uma vez e irá me procurar”
“Prometo” Repeti. “Volto para seu casamento. Contarei os dias para ver minha irmã linda de noiva”
Afastamo-nos e pude ver minha irmã sorrir envergonhada. Não me respondeu, me deixou um beijo na bochecha e retribui da mesma forma.
Com isso fui de encontro a Alex e Frankie e nos encaminhamos para o aeroporto.
Meu voo sairia antes que o de Frankie, havia sido avisado pelos alto falantes do local que deveria estar no portão de embarque em dez minutos. Seria uma viagem que duraria horas, teria muito tempo para colocar meus pensamentos em ordem até encontrar com Peter.
“Muito obrigado por me trazer até aqui” Agradeci a Alex que apenas acenou levemente. “E foi um prazer conhece-lo. Cuide muito bem de Julie”
“O prazer foi meu. Pode ter certeza de que farei isso”
“Acho bom” Brinquei.
“Olha que sou mais alto do que você, não me ameace” Alex me desafiou entrando na brincadeira.
“Eu não provocaria o baixinho” Advertiu Frankie entre risos.
“Cale a boca, Baker! Meu tamanho não quer dizer nada”
“Só que é a mulher da relação” Continuou me provocando.
“Será mesmo que entraremos nesse assunto? Olha que tenho muito o que revelar”
“Agora é sua vez de calar a boca” Meu amigo respondeu deixando de lado o riso. “Acho melhor ir se não quiser perder seu voo”
“Vejo que toquei em algum ponto fraco” Minha vez de rir. Alex apenas observava em silêncio, sabia que o melhor a se fazer era ficar quieto. “Sentirei saudades, idiota”
Frankie sorriu ao me escutar e me abraçou fortemente, fiz o mesmo. Senti seus lábios selarem minha bochecha com certa demora.
“Também sentirei a sua. Não ficaremos mais longe, iremos compensar todo esse tempo perdido”
“Sim, iremos. Tem meu telefone e endereço”
“Farei uma visita surpresa. Terá que me dar um lugar na sua cama”
“Eu adoraria. E ficará no máximo no sofá”
“Quanto carinho!” Fingiu estar ofendido com minha sentença. “Mas entendo, sua cama estará muito cheia”
Ignorei sua última frase dita. Afastei-me quebrando nosso contado.
“Até logo, Frankie”
“Até” Respondeu.
Caminhei para o portão cinco com destino para Nova Iorque deixando Alex e Frankie para trás. Era dolorido voltar para casa sozinho, mas sabia que aquele natal foi capaz de mudar muita coisa dentro de mim. Minha reconciliação com Frankie e a reaproximação com minha família valeram para que revesse minhas atitudes e buscasse pela minha felicidade. Era como se uma nova fase da minha vista estivesse próxima, sentia-me esperançoso. Uma sensação boa havia se instalado em meu interior.
________
Dormi a maior parte do trajeto de volta. Sentia-me sempre muito nervoso quando viajava de avião, nunca gostei de altura e saber que aquela caixa de metal estava voando a quilômetros por hora e assustadoramente alto poderia me fazer entrar em pânico, por isso decidi passar aquelas horas dormindo. Acordei apenas com uma das aeromoças me chamando para que pudesse afivelar os cintos, pois pousaríamos em poucos minutos.
Ao estar finalmente e felizmente em terra firme me encaminhei para o portão de desembarque na intenção de buscar minhas malas em uma das esteiras. Muitas pessoas pareciam estar voltando naquele dia, por conta disso o local estava aglomerado, todos buscando por suas respectivas malas. Com certa dificuldade e longos minutos consegui encontrar as minhas e caminhar até a saída do local.
Não foi difícil encontra-lo no meio de tanta gente, Peter sempre parecia se destacar facilmente. A alguns metros o vi olhando de um lado para o outro, me procurando. Enquanto caminhava em sua direção pude notar que seus cabelos haviam sido cortados e lhe davam um ar mais jovem e despojado. Usava calças de sarja azul marinho que lhe caiam bem ao corpo e delineava suas cochas bem modeladas. Vestia apenas uma blusa clara e grossa de mangas compridas. Também usava óculos escuros estilo wayfarer.
Estava extremamente bonito e até arriscava-me a dizer mudado.
Ao estar praticamente próximo ele me notou e abriu um sorriso encantador, posso arriscar dizer que meu coração parou de bater por poucos instantes e voltou acelerado. Automaticamente senti-me tremer ao vê-lo diante de mim depois de algum tempo, era como se meu corpo respondesse de forma contrária com Peter por perto. A ânsia que sentia de tocá-lo era quase insuportável! Queria poder tocá-lo, apertá-lo entre meus braços e sentir o gosto do seu beijo que tanto sentia falta, isso em menos de cinco minutos próximo a ele.
Era loucura todo esse turbilhão de sentimentos de uma vez só.
Meu amor pelo homem parado a minha frente não havia diminuído, muito pelo contrário, me dei conta de que só havia crescido ainda mais. Não sabia ser possível amá-lo mais do que já amava, só sentia meu interior se aquecer com sua presença. Queria ser dele e roubá-lo para mim em troca. Era assustadora a vontade de querer tê-lo diante dos meus olhos para o resto da minha vida. Amava tanto Peter que uma dor quase impercebível era sentida.
Desde o primeiro momento tive certeza de que estava entrando em um beco sem saída, me arriscando sem garantias. Todos à minha volta tentaram me abrir os olhos para mostrar-me que poderia sofrer, porém mesmo sabendo dos riscos que corria era atraído como um imã.
Não havia mais saída, estava preso a ele.
“Olá, Phillippe” Peter me cumprimentou. “Como foi o voo?”
“Olá, Peter. Foi tranquilo, consegui dormir praticamente o tempo todo”
Peter se aproximou e me beijou na testa me deixando surpreendido com tal ato. Ajudou-me com uma das malas que carregava e caminhamos em direção à saída junto com várias outras pessoas presentes no aeroporto.
“Você parece descansado” Concluiu depois de me observar. Concordei acenando levemente. “Irá aceitar meu convite? Sabe, passar o ano novo comigo”
“Gostaria de conversar antes. Podemos?”
“Claro! Precisa passar em seu apartamento agora?”
“Não. Podemos ir para um lugar mais tranquilo”
“Então vamos para meu apartamento”
Apenas concordei. Continuei caminhando ao seu lado, dessa vez deixamos que o silêncio se instalasse entre nós até estarmos próximos da sua Pajero preta estacionada. Como sempre muito educado o moreno abriu a porta do passageiro para que eu pudesse entrar contornando o carro em seguida para o lado do motorista. Sem muita demora saímos do estacionamento já para rua rumo a seu apartamento.
Peter não morava muito longe, foi preciso alguns minutos até pararmos diante de um prédio extremamente bonito e muito diferente do que eu morava. Era sem duvida alguma mais sofisticado e maior. Subimos de elevador até o oitavo andar e o moreno abriu a porta para que eu entrasse primeiro em seu apartamento. Ao dar alguns passos para dentro deixei a mala que carregava no chão ao meu lado e sem que me desse conta senti algo pular em meu peito e consequentemente me empurrar para trás me fazendo bater as costas contra o peito de Peter que já havia fechado a porta. Claro, Dylan seu São Bernardo enorme mais uma vez foi capaz de me assustar com sua recepção calorosa.
“Dylan!” Peter chamou o cão em voz alta fazendo com que o mesmo descesse e abaixasse as orelhas em sinal de arrependimento. “Quando vai aprender a ser mais educado?” Era adorável a forma que falava com o cão, até parecia repreender uma criança. “Não faça mais isso, bobão!”
“Está tudo bem, ele não tem culpa” O defendi. O cão deu alguns passos indecisos em minha direção e encostou a cabeça peluda em uma de minhas mãos, era um pedido de afago que claro, não foi negado.
“Ele só precisa se acostumar com você. Venha mais vezes e se tornarão melhores amigos” Peter de afastou de mim indo para o que deduzi ser a cozinha. “Quer beber alguma coisa? Água, café ou um suco”
Não respondi a primeira frase, que para mim tinha duplo sentido. Continuei afagando as orelhas de Dylan que já estava de olhos fechados aproveitando o carinho recebido.
“Aceito um suco”
Peter voltou da cozinha com um copo em mãos com metade de um liquido amarelado. Parei o carinho dado para Dylan e aceitei ao copo agradecendo pelo mesmo.
“Fique a vontade. Sente-se” Apontou para um dos sofás que continha na sala.
Sentei-me o vendo fazer o mesmo, sentou-se ao meu lado próximo até demais.
“Você queria conversar...” Começou.
“Sim”
“Sobre o que?” Perguntou sem rodeios.
“Sobre nós” O vi assentir a minha frente. Beberiquei um gole do suco tentando ganhar tempo. “Queria esclarecer algumas coisas”
“Tudo bem... Tive muito tempo para pensar em todo o ocorrido e acredito que te deva algumas explicações. Antes de qualquer coisa quero que saiba que em momento algum minha intenção foi te machucar, porém eu o fiz” Mordeu o lábio inferior ao pausar e buscou por meus olhos. Ao se dar conta que tinha minha atenção continuou. “O fim de qualquer futura reaproximação nossa foi saber que Alicia descobriu sobre você sozinha” Assenti. “Confesso que não pretendia falar sobre você para ela, tinha medo”
“Medo?” Perguntei. “Medo de que?” Coloquei o copo já vazio sobre a mesa de centro.
“Da reação da minha família. Não gostaria de falar sobre isso, mas é essencial para que entenda o porquê de tudo isso” Se acomodou melhor no sofá e com o corpo completamente virado para mim. “Quando crianças somos ensinados que os meninos devem namorar com as meninas e vice e versa. Eu sempre soube disso, também porque meu pai sempre me lembrava caso esquecesse. Na adolescência por volta dos meu quinze anos percebi que não sentia atração alguma pelas meninas do colégio onde estudava, no começo deduzi que só não eram bonitas o suficiente. Isso mudou quando comecei a dar mais atenção aos meus amigos, para mim não era um problema, sabe? Mas para meu pai seria, isso sem sombra de duvida” Seu olhar se perdeu em um ponto atrás de mim, fixou-se e parecia reviver tudo o que contava. “Tinha um amigo que passava os finais de semana em minha casa com certa frequência , éramos muito próximos... Não sei exatamente como aconteceu, só me lembro de senti-lo me beijar em um desses finais de semana. Foi algo novo e gostei, soube a partir daquele beijo que também gostava de meninos. Para meu azar aquele primeiro beijo foi interrompido por meu pai entrando sem bater em meu quarto. Me lembro como se fosse a pouco dos seus olhos em minha direção, estavam inundados de ódio, decepção. Ele colocou Adam para fora quase aos empurrões e sem pensar duas vezes me deu um tapa no rosto, depois do primeiro vieram outros. Escutei coisas das quais não esquecerei jamais...”
“Não precisa contar se não se sente confortável” Eu o interrompi. Sabia que aquelas lembranças deviam lhe machucar e tentei poupá-lo.
“Não, preciso que entenda minhas atitudes até aqui” Voltou a me olhar nos olhos. “Meu pai disse que deveria esquecer o que aconteceu e virar um homem de verdade. Disse que não contaria para ninguém, pois seria sua maior vergonha e que eu deveria arrumar uma namorada para deixar aquela confusão de lado. Era isso que ele pensava, que eu estava confuso” Peter soluçou baixo, parecia segurar o choro prestes a se fazer presente. “Eu sabia que não era isso, porém senti medo e desde então nunca mais tocamos naquele assunto. Algum tempo depois conheci Alicia, já prestes a acabar o colégio e vi a oportunidade perfeita. Namorá-la e fingir ser uma coisa da qual eu não era apenas para não ser rejeitado pela minha família. Por algum tempo me confundi e achei que a amava, acreditei que gostar de meninos era apenas uma confusão como meu pai havia dito. Foi então que Alicia engravidou e o resto você já sabe”
“Eu sinto muito” Foi tudo o que consegui dizer de primeiro momento. “Não fazia ideia que havia passado por algo desse tipo”
“Não sei como seus pais lidam com sua orientação, mas o meus nunca iriam me aceitar e nunca suportaria perde-los. Tinha medo de deixar Alicia, entende?” Buscou por uma de minhas mãos que se encontravam sobre minha coxa, a apertou contra a sua. Retribui o contato tentado passar algum tipo de consolo. “Como diria que havia me divorciado? Meu pai poderia suspeitar e então tudo estaria perdido. Talvez eu tenha sido egoísta com você, contudo me apaixonei e as coisas seguiram um caminho contrário” Sua mão livre percorre por meu rosto, dedilhando a lateral do mesmo em um carinho gostoso. “Não queria te perder. Ao mesmo tempo não podia perder a Alicia”
Peter soluçou mais uma vez, dessa vez mais alto e sem poder controlar suas lágrimas, até tentou as limpando conforme caiam, porém era uma atrás da outra e acabou se rendendo e deixando que escorressem tímidas por seu rosto bonito. Soltei sua mão para que pudesse me aproximar e envolver meus braços em volta do seu tronco. Tentei abraça-lo e acabou sendo um contato desajeitado, mas não impedido. Peter aceitou e também apertou seus braços a minha volta, nossos corpos se uniram fortemente.
“Gostaria que me perdoasse...” Pediu entre sussurros. “Só preciso que me perdoe. Não queria que tivesse sido assim”
“Shh... Está tudo bem” Tentei consolá-lo em vão, ainda podia escutar seu choro baixo.
“Não está” Insistiu. “Preciso que me perdoe por tê-lo feito se sentir em segundo lugar”
“Eu te perdoo”
Era um perdão sincero.
Não tinha ideia de como era passar pelo mesmo que Peter, muito pelo contrário, meus pais sempre estiveram ao meu lado me apoiando e em momento algum fui criticado por conta da minha orientação. Porque era isso, orientação e não opção sexual. Ninguém escolhe sofrer preconceito, ser diferente para que sejam apontados e motivo de comentários maldosos. Nunca consegui sentir nada por uma garota, Peter ao menos conseguiu construir um relacionamento, porém era mais uma amizade e companheirismo. Pensando bem, vejo que deve ter sido muito difícil para ele esconde-se de quem realmente era para viver uma vida que agradasse sua família. Sua felicidade foi negada por tempo demais.
“Não tenho ideia do que sentiu por todo esse tempo, meus pais sempre me aceitaram. Mas sinto muito por você, por me dar conta de que ainda existem pais que negam quem seu filho realmente é. Sinto muito, Peter. De verdade”
“Não posso reclamar da Alicia, ela sempre tentou ser perfeita, só que nós simplesmente não nos encaixávamos, mesmo que eu tentasse de todas as formas fazer acontecer. Christian foi parte da minha fraqueza, não tínhamos nada além de sexo” Era tão difícil para ele dizer aquilo como era para mim escutar. Não poderia deixar de sentir ciúmes, era humano. “Ela descobriu e me perdoou. Com você foi diferente, não estava pronto e mesmo assim me apaixonei” Suas lágrimas caiam com moderação e ele até se arriscou a sorrir depois da última sentença. “Seria impossível não me apaixonar por você. Sua timidez, seu ciúmes e a forma que explode ao se irritar, é encantador. Seria um tolo se não me apaixonasse, Phillippe”
Sabe quando as palavras parecem sumir e não as encontramos em parte alguma? Era como me sentia. Parecia um sonho, sentia medo de estar prestes a acordar e perceber que não passava de uma ilusão da minha cabeça. Peter dizendo aquelas coisas era irreal. Estendi minha mão para lhe tocar no rosto, para que pudesse provar a mim mesmo que estava acontecendo tudo aqui, todas aquelas palavras que me tiravam o fôlego. Não conseguia não sorrir, meus lábios se repuxavam de forma involuntária. Queria sorrir até sentir dor e mesmo assim não deixaria de executar tal ato. Toquei a face a minha frente a secando por culpa das lágrimas salgadas. Pude sentir os músculos das suas bochechas se movimentarem para nascer o sorriso pelo qual era apaixonado. Seus dentes bem alinhados e branquinhos ficaram a mostra em um arco perfeito.
Apaixonante.
Percebi Peter se aproximando e não o impedi, não queria impedi-lo. Pelos milímetros que seu rosto percorreu até o meu seus olhos castanhos estiveram presos aos meus. No primeiro instante senti sua respiração contra minha face e me permiti fechar os olhos para que pudesse aproveitar mais àquela sensação. Voltei a abri-los assim que senti seus lábios tocarem os meus levemente, só me dei conta quando senti uma espécie de cócega ao se moverem. Entreabri minha boca para que ele pudesse se encaixar como gostaria. Ele o fez. Seus movimentos eram lentos e preguiçosos, não tínhamos pressa alguma, queríamos nos sentir devagar, aproveitando todas as sensações que aquele toque nos proporcionava. Sua língua pediu passagem já consentida há muito tempo. Senti seu gosto habitual de hortelã e cigarros. Nossas línguas brincavam ao se entrelaçarem devagar.
Não posso dizer quanto tempo o beijo durou, contudo foi o suficiente para perdemos todo o ar que tínhamos em nossos pulmões e infelizmente sermos obrigados a nos separarmos em buscar do mesmo.
Peter parou seus movimentos sobre meus lábios e não nos afastou, continuou me segurando pela nuca carinhosamente. Ao abrir os olhos pude notar seu peito subir e descer com rapidez. Desviei meu olhar mais uma vez para seus olhos e os vi avermelhados e inchados pelo choro ainda há pouco.
Meu coração se comprimiu dentro do meu peito. Doeu.
Doeu muito.
Peter estava tão frágil diante de mim, nunca pensei vê-lo daquela forma. Sempre o enxerguei forte, pronto para qualquer coisa. Era ele quem deveria cuidar de mim, me proteger. Era o que sentia antes de vê-lo chorar a minha frente.
Meus olhos arderam como quando algum cisco os irrita. Lágrimas quentes começaram a se acumular nos cantos dos mesmos e por serem pesadas não se demoraram a escorrerem por meu rosto. Deixei-me chorar em silêncio. Sem me envergonhar. Parecia preciso me lavar e levar toda aquela tristeza que sentia por Peter.
“Ei, por que chora?” O moreno me perguntou preocupado. Seus dedos rapidamente tentaram secar minhas lágrimas em vão.
“Porque você estava chorando”
Peter riu ao me escutar. Não uma gargalhada, apenas um riso baixo e levemente nasalado.
“Você é perfeito” Ele disse como se fosse obvio. “Quase tenho medo de tocá-lo e quebrar em minhas mãos”
“Não fale besteiras” Tentei sem sucesso fazê-lo se calar. Era claro meu constrangimento já presente.
“É a verdade. Sinto que não o mereço, é perfeito demais pra mim”
Colei meus lábios aos dele com a intenção de fazê-lo ficar em silêncio. Consegui. O contato foi impedido apenas por seu sorriso largo, expulsando minha boca naturalmente.
Peter segurou minha mão e deitou com as costas contra o sofá me puxando junto a ele. Meu corpo ficou quase por completo sobre o seu. Tentei me ajeitar para que pudesse deitar a cabeça em seu peito, ao fazê-lo seu braço me envolveu e me levou para mais perto se é que poderia ser possível. Sentia seu coração bater descompassado abaixo de mim. Era como uma música calma.
“Gostaria de ficar assim para sempre. Só eu e você” Ele disse baixo. Parecia contar como um segredo.
“Você pode” Respondi.
“Então ficaremos” Beijou entre meus cabelos no topo da minha cabeça. “Eu te amo, pequeno”
Escutei um choro baixo depois de escutar Peter. Levantei meu rosto para procurar de onde vinha e notei Dylan deitado sobre o tapete da sala. Seu olhar estava fixo em nós dois deitados naquele sofá.
“Venha aqui” O chamei. Sem demora alguma o cão se levantou e colocou sua cabeça também sobre o peito de Peter. “Eu, você e Dylan” Estiquei a mão para afagar as orelhas do cão ciumento. “E eu também te amo, Doutor”
Peter desajeitado alcançou meu rosto e deixou um beijo em minha testa. Depois voltou a se deitar com a cabeça apoiada em uma almofada e suspirou baixo fechando os olhos.
Ficamos ali deitados por horas, sem nos mexermos. Apenas aproveitando nosso momento que poderia ser descrito como único. Perfeitamente único.
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