Meu amor está ao seu lado.
23 Surpreendido.
Notas iniciais
Faltavam duas semanas para o natal. As ruas da cidade já se encontravam aglomeradas por conta dos preparativos para tal comemoração. Muitas pessoas saiam em busca de presentes ou enfeites.
Tentava caminhar no meio de tanta gente. Fazia frio, pois os primeiros flocos de neve começaram a cair pela manhã, fazendo com que mais uma vez a cidade fosse coberta pela brancura. Era maravilhoso observar a cidade em época de natal com suas mais variadas decorações que faziam com que Nova Iorque se tornasse ainda mais bonita.
Era difícil sentir todo o clima que o natal provocava e ainda assim me sentir vazio e pequeno diante de tal. Em meu interior era como se nevasse também, porém havia começado ainda mais cedo. Meus dias não passavam de uma tediosa rotina, deixei que fosse seguida em modo automático sem me importar com os dias passando diante dos meus olhos em uma velocidade sem igual.
Fui ensinado que o natal é uma comemoração onde reunimos toda a família, trocamos presentes e nos deliciávamos com a ceia depois da meia noite. Era a comemoração onde todos forçavam sorrisos também, pessoas que não víamos o ano todo, mas que no tão esperado dia apareciam e fingiam estar felizes dentre tantas atitudes falsas.
Vivi com isso por muitos anos, porém já fazia dois que não sabia o que era me reunir em família e trocar presentes. Aconteceu naturalmente, decidia que passaria o natal sozinho e confessaria não me importar, era apenas mais um dia para mim.
Nesse ano talvez não fosse diferente, depois de tudo o que havia acontecido era fácil saber que o clima não seria bom, mesmo que Thomas tenha decidido me convencer a passar esse dia com seu pai e sua mais nova madrasta. Só não queria estragar o dia de ninguém.
Desde o dia na cafeteria não havia tido notícias de Peter. Às vezes me pegava encarando o celular na espera de receber uma ligação dele, ligação essa que não aconteceu até então. Sabia que era o fim de qualquer coisa que existisse entre nós e não entendia porque simplesmente não aceitava e seguia em frente. Era dolorido.
Anthony não aceitava me deixar sozinho. Justificava-se dizendo que estava deprimido demais e poderia cometer erros por conta disso. Não era minha intenção, porém deixava que ele me arrastasse até algum bar ou até sua casa onde assistíamos filmes até tarde. Não tínhamos nada mais além de amizade, não precisamos decidir isso em voz alto, simplesmente sabíamos que era o melhor a ser feito.
O céu já estava sendo tomado pela escuridão quando voltava para meu apartamento. Pelo menos naquele dia Anthony concordou em me deixar sozinho, também porque disse ter assuntos para resolver. Era bom, assim poderia colocar meus pensamentos em ordem ou apenas tentar.
Meu celular tocou assim que me deitei para dormir, não pude evitar que em coração batesse com a esperança de que fosse Peter. Era um número desconhecido.
Resolvi atender:
“Alô?”
“Phill! Que saudades!”
Fiquei algum tempo em silêncio tentando assimilar aquela voz a alguém que pudesse conhecer, porém não consegui.
“Phillippe?” A voz do outro lado me chamou.
“Quem é?” Perguntei.
“Como assim quem é? Sou eu! Julie!” Minha irmã gritou. “Sei que faz tempo que não nos falamos. Mas como não reconhece minha voz?”
“Me desculpe...” Foi a única coisa que pude dizer. Como não pude reconhecer a voz de minha própria irmã? “Estava quase dormindo...” Menti.
“Tudo bem!” Sua voz soava animada. Esqueceu-se rapidamente do ocorrido e tratou de se disparar a falar. “Natal está chegando e gostaríamos que viesse para Montreal. E antes que invente desculpas já lhe digo que não irão ser aceitas. Papai e mamãe estão com saudades e acredito que já está na hora de deixar seu lado rebelde para trás. Tenho também uma super novidade para contar...”
“Espera, Julie! Você está falando rápido demais” Não pude evitar rir ao escutá-la. “Nem ao menos posso pensar em desculpas com uma tagarela como você”
“Ei!” Me repreendeu. “Todos estamos com saudades, espero que tenha noção disso. Pelo menos no natal devia vir e você sabe que isso não acontece faz dois anos”
“Sim, sei disso. Mas acho que poderíamos deixar para o ano que vem...”
Sabia que não era um bom momento para tentar socializar. Não queria que meus pais mais uma vez me vissem como o mesmo adolescente do passado, mais uma vez com o coração partido. Mesmo que não lhes contasse sobre meu envolvimento com Peter e a consequência disso, sabia que logo notariam, afinal, são meus pais.
“Não venha com essa!” Minha irmã mais uma vez alterou seu tom de voz. “Não dessa vez Phillippe Arthur. Você vem, nem que eu tenha que ir busca-lo e traze-lo amarrado”
“Julie...”
“Sem essa de Julie. Não temos mais o que discutir quanto a isso. Você vem e acabou!”
A escutei suspirar. Por algum tempo ficamos mudos, até que ela se manifestou novamente.
“Preciso de você aqui... Meus amigos não podem te substituir. Ainda preciso daquelas noites em que eu escapava para ir até seu quarto e trocávamos confissões. Você se lembra disso?”
“Claro que sim” Respondi.
“Então! Me dê esse presente de natal. Preciso que conheça uma pessoa”
“Que pessoa?”
“Venha e saberá!”
“Isso não vale, Julie”
“Quem disse?” Riu e a acompanhei. “Está tarde, preciso desligar. Te espero, ok?”
“Ok” Me rendi. Sabia que não podia negar a um pedido dela.
“Eu te amo, pentelho”
“Eu também. Não se esqueça”
“Nunca! Boa noite”
Com seu desejo de boa noite a ligação teve seu fim.
Encontrava-me sorrindo depois daqueles poucos minutos com minha irmã, era maravilhoso senti-la próxima mais uma vez, sempre soube que a culpa do nosso afastamento era minha, isolei-me de tudo e por algum tempo acreditei que isso fosse me ajudar, contudo apenas serviu para que me sentisse mais sozinho e dependente das pessoas. Acredito que por esse simples fato tenha me apegado tão facilmente a Thomas ou me apaixonado tão rapidamente por Peter. Talvez a conclusão que tivesse tirado de tudo isso era de que sou carente e não poderia sobreviver sozinho.
Afinal, a vida era para ser compartilhada. Não era?
_______
Pegaria meu voo com destino ao Canadá no dia seguinte e minhas malas ainda não estavam prontas.
Sabia que não poderia aparecer em minha antiga casa com as mãos vazias, então decidi sair para comprar presentes para todos, porém se as ruas algumas semanas atrás estavam lotadas, faltando quatro dias para o natal já era impossível andar. Arrependi-me no segundo que coloquei o pé na primeira loja, mas não desisti, precisava comprar meus presentes assim como todas as outras pessoas ali.
Duas horas e meia depois. Sim, gastei todo esse tempo para comprar presentes que cabiam em duas únicas sacolas. Encontrava-me irritado e cansado. Nunca fui muito paciente para esse tipo de coisa, apenas me arriscava para tal quando era realmente necessário e já que não ia até Montreal por dois anos achei que devia agradar e tentar me desculpar de alguma forma.
Seria quase impossível encontrar um taxi desocupado naquele caos que era Nova Iorque e infelizmente me encontrava longe do meu apartamento. Não me restava outra saída a não ser me juntar na multidão de pessoas nas esquinas e esperar que tivesse a sorte de conseguir voltar o quanto antes.
Confessaria estar quase desistindo e voltando andando quando uma Pajero preta parou diante de mim. Reconheceria aquele carro de longe.
Era Peter.
O vidro do passageiro foi abaixado e o moreno me chamou:
“Phillippe, precisa de uma carona?”
Era quase como aquela primeira vez, quando ele me encontrou enquanto chovia. E naqueles instantes em que não respondi desejei com todas as forças que estivesse ganhando uma segunda chance, assim poderia recusar e seguir meu caminho sem deixar que o mais velho entrasse em minha vida. Mas não era uma segunda chance, ele estava ali e ainda era a pessoa que amava.
“Não, obrigado” Tentei evitar seus olhos. Não queria ser fraco.
“Você nunca conseguirá um taxi. Não precisa ser orgulhoso”
O olhei feio ao escutar falar sobre orgulho. Quem era ele para me chamar de orgulhoso? A pessoa que em momento algum me procurou!
“Entre? Não mordo” Tentou novamente.
Havia dito que não queria ser fraco, não é? Pois fui. Sabia que Peter sempre seria meu ponto fraco. Quando se tratasse do moreno não existiria recusas. Algo em mim simplesmente fazia com que meu lado racional sumisse. Em Peter se encontrava o perigo e eu sempre me arriscava.
Entrei em seu carro em silêncio. O mesmo voltou a se locomover pelas ruas das cidades, só não por muito tempo. Logo nos vimos parados em um trânsito caótico.
“Algum problema em passar um longo tempo em minha companhia?” Perguntou Peter.
“Nenhum”
“Não estou mais com Alicia” Disparou rapidamente.
Não respondi, talvez pelo fato de não existir o que falar. Com Alicia ou não, isso não mudaria o fato de ter sido escondido e negado por tanto tempo. Se ele pensava que aquilo iria me amolecer de alguma maneira estava muito enganado.
“Aluguei um apartamento próximo e estou tentando viver com Dylan em um cubículo. Preciso encontrar um lugar maior com urgência...”
“Onde quer chegar com isso?” O cortei.
“Em lugar algum, apenas achei que devia saber”
“Achou errado. Não temos mais nada um com o outro, então acredito que não precise me dar satisfações, afinal, isso nunca aconteceu antes”
“Tenho sentido sua falta”
Pousou os olhos sobre mim, pude sentir, mas não o retribui.
“Não foi isso que me mostrou. Nem ao menos me procurou para saber se continuava vivo!” Retruquei.
“Precisávamos desse tempo, não acha? Agora podemos começar do zero, como deve ser”
“Talvez esse tempo ainda não seja o bastante. Estou indo para Montreal e ficarei por lá por enquanto”
Peter não respondeu de imediato, apenas fixou seus olhos aos meus, que dessa vez haviam procurado pelos dele. Percebi que apertava o volante, pois seus dedos estavam esbranquiçados por falta de sangue circulado. Seus lábios cerraram-se e se não fosse uma pequena peça pregada pela minha imaginação, posso ter visto seus olhos se lacrimejarem.
“Quanto tempo?” Perguntou.
Fale com o autor