Meu amor está ao seu lado.
32 Feliz ano novo. Ou não.
Notas iniciais
Era por volta das quatro horas da tarde e me encontrava encostado contra o peito de Peter o vendo pular de canal em canal sem encontrar nenhuma programação que nos interessássemos. Tínhamos chegado havia pouco e sem nem ao menos descartarmos as roupas que usávamos fui puxado para o sofá com o mais velho.
“Ei, deixe ai. Adoro esse filme” Pedi assim que Peter parou em um canal onde passava filmes.
“Você tem esse filme em DVD”
“E dai? Na televisão é ainda mais emocionante”
Escutei Peter suspirar se dando por vencido. Largou o controle remoto envolvendo os braços a minha volta em seguida.
O filme se chamava Lembranças era um dos meus favoritos, mesmo depois de tê-lo assistido incontáveis vezes e até mesmo comprado o DVD. Logo após a primeira cena em que a garota loira, Ally, presencia o assassinato de sua mãe em uma estação de trem meu celular começou a vibrar sobre a mesa de centro. Peter o alcançou para entregar para mim, isso sem antes ler o nome de quem ligava no visor.
“Quem é Frankie?” Perguntou ainda com o aparelho em mãos.
“Um amigo” O celular foi entregue para mim O atendi antes que parasse de tocar. “Oi, Frankie”
“Phillippe! Onde diabos você está?” Foi preciso distanciar o aparelho com o grito do outro lado.
“Como assim onde estou? E por que está gritando? Fale baixo, ainda não sou surdo”
“Estou em frente a seu prédio congelando há duas horas” Seu tom de voz não mudou, mesmo com meu pedido ainda gritava.
“Você está em Nova Iorque desde quando?”
“Cheguei hoje” Respondeu mais calmo. “Mas a questão não é essa. Onde você está? Sua irmã me passou esse endereço, quando finalmente perguntei o porteiro disse que não aparecia há dias”
“Estou no apartamento de Peter. Por que não me disse que viria?”
O moreno estava em silêncio desde que atendi o celular. Não prestava mais atenção no filme que passava a nossa frente, apenas me escutava com Frankie.
“Era para ser surpresa! Uma merda, não? Nem ao menos consigo fazer uma surpresa que dê certo”
Não pude evitar rir. Frankie conseguia ser um desastre em qualquer coisa que fosse premeditada por ele. Nasceu para ser espontâneo e não para planejar. Não conseguia me lembrar de uma só vez que os planos de Frankie tenham dado certo caso tivesse planejado tudo antes.
“Para de rir e venha até aqui, babaca”
Meu riso só aumentou com seu pedido. Era impossível não rir ao imaginá-lo com malas na calçada. Desviei o olhar para Peter e avistei o mesmo com o cenho franzido sem entender nada.
“Olha como fala, posso te deixar plantado nessa calçada e sua única opção será voltar para o aeroporto”
“Phill...” Meu apelido saiu como uma suplica. Uma pontada de dó me assolou.
“Daqui a pouco estou ai” Prometi.
“Não demore, por favor. Está muito frio”
Desliguei o celular o depositando novamente sobre a mesa de centro.
Virei-me para Peter desencostando por completo de seu peito. Deparei-me com seu olhar curioso por conta da ligação recebida.
“Será que poderia me levar até meu apartamento?” Ele apenas assentiu em concordância.
Minutos mais tarde estávamos novamente na rua, mais precisamente na Pajero de Peter. O apartamento que ele havia alugado era muito perto de onde morava, apenas dez minutos dependendo do tráfego.
“Quem é Frankie exatamente?” O moreno foi o primeiro a cortar o silêncio.
“Um amigo de infância. Reencontramo-nos depois de muito tempo quando estava em Montreal”
“Hum” Pareceu pensar em minha resposta até se pronunciar novamente. “É o cara que estava com você quando me ligou?”
“Esse mesmo” Respondi. “Vai gostar dele”
Peter parecia escolher com cuidado suas perguntas. Percebi que estava tentando chegar a algum ponto, porém não sabia dizer em qual.
“Aconteceu alguma coisa para terem perdido o contato?” Seus olhos não se desviavam da rua a nossa frente, conversava comigo naturalmente.
Sua pergunta me deixou intrigado, sabia que se mentisse poderia ser desmentido a qualquer momento e mentiras nunca foram uma opção para mim. Tinha certeza que Peter perceberia, mesmo que fosse apenas para evitar um incomodo da sua parte.
“Aconteceu” Precisava escolher bem as palavras, sabia que o mais velho não se sentia muito confortável com esse tipo de assunto. “Tivemos um relacionamento, se é que posso chamar assim. E bom, não acabou muito bem, ele se mudou e vim parar aqui” Soltei o ar que nem ao menos havia percebido que prendi. “Encontramo-nos por acaso porque ele coincidentemente é primo do noivo da Julie, minha irmã”
“Então agora está tudo bem entre vocês?”
“Acredito que sim. Consegui a explicação que precisava e resolvemos virar essa página”
Não poderia dizer o que se passava na cabeça de Peter. O moreno não havia alterado sua feição em momento algum, assim como também não pousou seus olhos sobre os meus em todo o trajeto. Por seu rosto inexpressível não conseguia deduzir que aquilo o deixou irritado ou apenas foi tratado como um acontecimento banal. Resolvi não procurar por respostas, era o melhor a se fazer.
Logo já virávamos a esquina e pude ver Frankie parado com uma grande mala ao lado. Vestia um casaco escuro assim como as calças que descia até metade de suas coxas. Suas mãos estavam dentro dos bolsos do mesmo na intenção de aquecê-las. Dei-me conta de que seus cabelos haviam sido cortados ao chegarmos mais perto. Ficava ainda mais bonito, mesmo com sua cara que era de poucos amigos. Evitei não rir mais uma vez.
Ao descer do carro ele me avistou e caminhou alguns passos em minha direção.
“Essa é a última vez que tento te fazer uma surpresa. Sei que já disse isso antes, mas essa é realmente a última” Disparou em falar em um só fôlego.
“Oi para você também, Baker” O ignorei por completo. Frankie mal humorado conseguia ser um saco.
“Oi, Phillippe” Respondeu seco.
“Que ideia foi essa de vir até aqui? Devia ter me avisado, assim poderia busca-lo no aeroporto e não teria que vê-lo com essa cara”
“Muito engraçado Sr. Bom humor. Já disse, era para ser uma surpresa, só que ao ver que deveria escolher entre morrer congelado aqui ou te ligar e acabar com a graça foi que tudo desceu por água a baixo”
“Sinto muito. Se serve como consolo, estou muito surpreso com sua visita”
“Fui abandonado, meus amigos viajaram antes que eu voltasse”
“Ok, sou sua segunda opção! Obrigado”
“Isso nunca!”
Fui pego de surpresa ao senti-lo me abraçar. Retribui o abraço recebendo um beijo no rosto em seguida. Não nos demoramos muito nesse contato, logo me desvencilhei dos seus braços e o levei até Peter que permaneceu todo o tempo encostado contra seu carro.
“Frankie, esse é Peter. E Peter, esse é Frankie”
“É um prazer te conhecer Peter. O baixinho aqui me contou tudo sobre você e se não tivesse insistido muito ele não teria te ligado”
“Devo te agradecer por isso?” Peter perguntou.
Olhei para Frankie que mantinha um sorriso estampado no rosto. Não parecia tão surpreendido com sua pergunta ácida como aconteceu comigo.
“Claro que deve. Caso contrário não estariam juntos agora” Disse mais humorado do que minutos atrás.
“Então obrigado, Frankie” Um sorriso torto nasceu nos lábios de Peter.
A situação era um tanto quanto cômica. Os dois pareciam querer se atacar como dois animais selvagens. Era claro que não gostaram um do outro, por esse motivo tentei me manter no meio caso resolvessem tentar algo.
“Disponha. Só te digo uma coisa...” Poucos passos foram dados até que estivesse próximo a Peter. “ Apronte com ele e irá se ver comigo” Disse sério.
Sabia que se existisse uma briga entre os dois não seria qualquer um que conseguiria separá-los. Tinham praticamente a mesma altura e porte físico. Peter era poucos centímetros mais alto e tinha os músculos mais desenvolvidos que Frankie, de todo jeito, os dois sairiam muito machucados.
“Ei, vamos parar com isso?” Pedi já tentando afastar os dois.
Enlacei os braços em volta do corpo de Peter o levando para longe de Frankie.
“Calma Phill, só estou brincando” Frankie se defendeu deixando que um riso debochado escapasse por seus lábios. “Só quero ter certeza de que não sofrerá novamente”
“Fique tranquilo quanto a isso, estamos muito bem e até mesmo noivos” Peter se pronunciou entrando no jogo de Frankie. “Não sou capaz de machuca-lo ou até mesmo deixa-lo. Seria um idiota se fizesse isso” Disse irônico.
Vi o semblante de Frankie se endurecer em questão de milésimos com a alfinetada de Peter. Meu então noivo conseguiu acertá-lo em cheio com o que disse, era óbvio ao perceber que Frankie ficou sem palavras.
“Fico feliz por vocês, meu amigo merece ser feliz” Abaixou a guarda rapidamente vendo que não poderia continuar com aquela troca de farpas ridícula.
“Ele será”
O clima estava pesado e eu odiaria ter que admitir. Parecia que Peter não iria se dar bem com nenhum de meus amigos e quanto a Frankie não poderia tirar sua razão. Meu amigo o provocou até conseguir o que queria, deixa-lo irritado. Teria que estar de olhos nos dois o tempo todo caso não quisesse que travassem uma briga ainda maior.
Conhecia Frankie bem o suficiente para saber que era provocador, ainda mais com uma pessoa que não gostava . Já Peter me deixou claro que não era de levar desaforo para casa depois do ocorrido na joalheria quando se alterou com a funcionária.
Concluindo: Estava no meio do fogo cruzado.
“Amor” Chamei a atenção de Peter que respirava fortemente enquanto encarava Frankie. “Ficarei aqui já que estou com Frankie, tudo bem? Podemos nos encontrar daqui algumas horas para irmos para Times Square com Thomas e Beth”
“Gostaria que voltasse comigo” Disse apenas para que eu pudesse escutar.
“Eu sei, mas não posso deixa-lo sozinho” Corri a ponta dos dedos pela lateral do seu rosto acariciando-o carinhosamente. “Nos veremos logo”
“Já que não tem outro jeito... Só tome cuidado com esse cara”
“ Fique tranquilo, bobo” O beijei nos lábios levemente.
Peter em um ato inesperado me prensou contra seu carro ao colar seu corpo contra o meu e voltou a tomar meus lábios, dessa vez com mais urgência e rapidez. Deslizou a boca sobre a minha pedindo passagem com a língua sem esperar por meu consentimento. Não tive outra saída a não ser retribui-lo da melhor forma possível. Parecia sentir o olhar de Frankie queimar sobre mim. Era inevitável não me envergonhar, sabia que aquilo era uma provocação de Peter e me irritava ao saber que para isso precisava me beijar daquela forma.
O beijo em poucos segundos foi capaz de me tirar o fôlego me fazendo afastar a boca de Peter, mesmo que o mais velho se mostrasse insatisfeito com a quebra do contato.
“Até logo. Eu te amo”
“Também te amo” Aproveitou que ainda estávamos próximos e segurou meu lábio inferior entre os dentes o soltando mais tarde e selando nossas bocas demoradamente. “Se cuida”
Assenti o vendo se afastar até o outro lado do seu carro e entrar na porta do motorista. Deu partida e logo vi o veículo preto se perder do meu campo de visão.
Peguei a mala de Frankie que ainda estava na calçada e segui para dentro do meu prédio sentindo que meu amigo caminhava logo atrás.
“Pareciam duas crianças” Me referi ao acontecido.
Estávamos dentro do elevador. O mais alto não me dirigiu a palavra até que eu cortasse o silêncio.
“Pensei que tivesse crescido mentalmente, Baker. Mas ainda parece o mesmo briguento de sempre” Completei.
“O que viu nesse cara? Não que não seja bonito, porque isso ele é e muito.” Não se deixou levar pelo o que eu disse. Decidiu por me perguntar uma babaquice dessas.
“Tudo. Tudo o que você não pôde ver porque resolveu que iria ataca-lo a partir do momento que se encontrassem”
“Isso não é verdade” Saiu do elevador comigo caminhando até a porta do meu apartamento. “Só não fui com a cara dele. Ele sempre foi convencido assim?”
“Desde quando você vai com a cara de alguém?” Ri com minha própria pergunta. Ainda criança Frankie arrumava briga com qualquer um que se aproximasse, não lhe dava chances ao menos que a outra criança fosse insistente, o que raramente acontecia. “Devo ter sorte por gostar de mim?”
“Talvez”
Entramos na sala e levei sua mala até meu quarto. Tratei de abrir todas as janelas, pois fazia dias que estavam fechadas, por conta disso estava muito abafado.
Ao voltar para sala me deparei com Frankie deitado no sofá já sem sapatos e o casaco que usava. Encontrou o controle remoto da televisão e procurava algum canal que lhe interessasse. Resolvi ignorar sua folga, pois sabia que aquele seu jeito era comum e não adiantava reclamar.
Perguntei-me mentalmente se havia sentindo mesmo falta daquele ser esparramado em meu sofá.
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Eram oito e meia quando acabei de me arrumar. Optei por um sobretudo azul marinho por cima de um suéter de lã e cachecol. Apenas ao olhar pela janela já podia sentir o frio cortante e mesmo que odiasse aquele monte de roupas que quase não me deixam mexer os braços era melhor do que passar frio.
Esperei por Frankie que ainda conseguia ser muito demorado quando se tratava de se arrumar para sair.
“Vamos noiva! Ou vai chegar atrasada no próprio casamento” Gritei diante da porta do banheiro onde o moreno se encontrava.
“Não posso sair de qualquer jeito, Arthur. Diferente de você sou solteiro e devo ter uma boa aparência caso conheça um pretendente”
“Não precisa se esforçar tanto, se é isso que precisa ouvir. Você é muito bonito, sabe disso” Respondi sincero.
Sempre achei meu amigo bonito, tinha certeza que todos pensavam da mesma forma. Quando éramos adolescentes me sentia invisível ao seu lado. Ninguém queria o baixinho e sim o mais alto com pinta de roqueiro. Foi até engraçado quando algumas pessoas descobriram que estávamos juntos, acredito que ninguém conseguia entender o que Frankie havia visto em mim, porém o mesmo não ligava para os comentários.
“Não é por isso que vou sair de qualquer jeito por ai. Tenha paciência, já estou indo”
“Não demore, logo Peter chega”
“Peter, Peter... Argh, ninguém merece!” Murmurou impaciente.
“Por favor Frankie, gostaria de ter uma noite agradável se colaborasse”
Não fui respondido.
Voltei minha atenção para o celular com uma mensagem de Thomas que dizia:
“Passo em seu apartamento em vinte minutos.”
Respondi um “ok” me sentando em seguida para esperar meu amigo que mais parecia uma mulher para se arrumar.
Vinte minutos mais tarde estava em frente a meu apartamento com Thomas, Beth e Frankie.
“Thomas e Beth, esse é um amigo de Montreal, já falei sobre ele algumas vezes” O apresentei para os dois.
Beth recebeu um beijo no rosto de Frankie e Thomas apenas um aperto de mão, mas arriscava a dizer que vi um sorriso nascer nos lábios de Frankie ao fixar seus olhos nos azuis de Thomas.
A melhor opção era ignorar a forma descarada que Frankie flertava com tudo e todos.
“Frankie, esse é Thomas, meu melhor amigo e Beth, sua mãe”
“Veja o que perdi, um namorado e o posto de melhor amigo” Frankie disse fazendo sua melhor voz de coitado.
“Tenho certeza que o Phill ainda te mantem no mesmo lugar” Thomas disse me fazendo sorrir ao ver o quão encantador podia ser. Não fui o único a cair nos seus encantos, Frankie alargou ainda mais o sorriso ao escutá-lo.
“É verdade” Respondi sincero. “São meus melhores amigos”
Beth começou a explicar o motivo para nunca ter ido passar o ano novo na Times Square. Prestava atenção na mulher a minha frente e não me dei conta quando senti os braços de Peter envolvendo minha cintura e consequentemente colando minhas costas em seu peito. Deixou um beijo rápido em meu pescoço por cima do cachecol que usava. Podia sentir seu perfume amadeirado que tanto amava.
“Olá, Beth e Thomas” Cumprimentou os dois fazendo com que Beth parece de falar para que retribuísse. “Olá Frankie, de novo”
Meu amigo apenas forçou um sorriso e acenou para Peter. Seria difícil fazer com que os dois se dessem bem. Resolvi apenas me manter entre eles o tempo todo.
“Vamos?” Perguntei.
Todos assentiram. Peter entrelaçou nossos dedos cobertos por luvas grossas e seguimos para estação.
Seria melhor irmos de transporte público do que de carro. O trânsito seria interminável e provavelmente comemoraríamos no caminho.
Não demorou muito para chegarmos à Avenida. Ao sairmos nos deparamos com uma multidão de pessoas. Várias ruas em volta da Avenida haviam sido fechadas e um palco pequeno onde teria algumas atrações foi montado, porém seria impossível chegar perto já que várias pessoas já estavam à frente. A bola da Times Square como era chamada estava situada em um mastro logo atrás de um grande relógio analógico que ficava na cobertura do One Times Square, serviria para marcar as horas até a virada do ano. A bola desceria pelo mastro quando faltasse apenas um minuto para meia noite, sendo assim a contagem regressiva era contada a partir da sua descida. Era uma atração que já durava anos e era capaz de ser vista por cerca de 1 milhão de pessoas todas os anos. Se tornando assim uma das celebrações de ano novo mais conhecida internacionalmente
Senti meu coração se aceleram ao colocar os pés naquela rua. A Times Square era conhecida por ser uma área de grande comércios onde todos os prédios são iluminados por letreiros coloridos por conta da publicidade. Poucas vezes estive naquele pedaço da cidade, algumas apenas passei e nunca parei para observar a beleza daquele lugar. Muito menos havia comemorado a ano novo ali, sempre ficava sozinho em meu apartamento desejando que toda aquela comemoração acabasse logo para que pudesse dormir. Porém pela primeira vez estava com pessoas que amava esperando para logo comemorar a vinda de um novo ano onde desejava com todas as minhas forças que fosse incrível.
Já praticamente no meio da multidão onde conseguiríamos observar o relógio Frankie se aproximou para falar em meu ouvido, já que a música que tocava e as pessoas a nossa volta não deixava que nos escutássemos com perfeição.
“Já volto. Vou procurar um lugar para comprar algo para beber, Thomas e Beth vão comigo. Querem alguma coisa?”
“Uma cerveja. Pode ser Peter?” O moreno concordou e vimos Thomas, Beth e Frankie desviando das pessoas até os perdermos.
Abracei Peter enterrando meu rosto em seu pescoço também coberto por um cachecol. Senti seus braços se apertarem em minha volta em busca de nos aquecermos. O frio se intensificou depois de anoitecer, ao falarmos ou respirarmos era possível vermos aquele vapor branco tão conhecido sair por nossas bocas.
Inalei profundamente o perfume de Peter antes de nos afastar para o olhar nos olhos.
“Está tão frio” Murmurei.
“E ainda quer tomar cerveja?” Perguntou rindo.
“Sim. Quem sabe bêbado não consigo me aquecer”
O moreno se aproximou da minha orelha a mordiscando antes de sussurrar.
“Poderíamos fazer algo mais interessante e não precisaríamos de todas essas roupas”
Todos meus pelos se eriçaram ao escutá-lo, dessa vez o frio não tinha culpa alguma.
“Mais tarde, eu prometo”
Peter alargou ainda mais o sorriso que sustentava. Encostou os lábios nos meus apenas em um contato singelo, sem se mover. Porém não pude me satisfazer apenas com aquele toque. Corri meus dedos por entre seus cabelos e os apertei em sua nuca. Entreabri os lábios para que pudéssemos nos encaixar e começar um beijo lento onde podia sentir seu gosto doce que não me cansaria jamais. Não fui impedido em momento algum, muito pelo contrário, Peter suspirou ao se surpreender com minha iniciativa e prontamente fechou os olhos se entregando ao beijo que durou longos segundos.
Não nos importávamos se estávamos no meio de várias pessoas desconhecidas. Naquele momento só queria aproveitar tudo o que podia ao lado da pessoa que tanto amava. Não queria saber se estávamos sendo observamos por pessoas que torciam o nariz para nosso comportamento.
Que se danassem todos! Estava cheio de sentir medo do julgamento dos outros.
“Estou muito feliz por estarmos juntos aqui” Confessei logo que nos separamos em busca de ar.
“Eu também. Iremos começar esse ano com o pé direito e melhor ainda, juntos!”
Peter voltou a selar nossos lábios várias vezes até sermos interrompidos.
“Voltamos pombinhos!” Frankie anunciou fazendo com que nos afastássemos.
Percebi que Beth não havia voltado junto e para meu sobressalto futuro Frankie estava com um braço em volta da cintura de Thomas.
“Cadê a Beth?” Perguntei para Thomas.
“Encontrou um amiga com as filhas e resolveu ficar por lá. Segundo ela somos muito jovens para aguentá-la”
Thomas entregou as duas garrafas de cerveja que trazia para mim e Peter. Abri já dando um grande gole sentindo o liquido gelado descer por minha garganta rapidamente.
“O que está tomando, Frankie?”
“Conhaque”
“Desde quanto você gosta disso?” Frankie nunca foi muito de beber, achei estranho vê-lo com o copo completo por um liquido de cor âmbar.
“Desde que sinto frio e quero me aquecer. Experimente” Me entregou o copo.
Dei um grande gole na bebida e a senti queimar ao descer. Não precisava ser nenhum especialista para saber que o teor alcoólico era alto. O gosto não era ruim, porém era forte e optei apenas por um gole já sentindo o calor emanar por meu rosto. Devolvi para Frankie.
“Não fique bêbado com isso, não quero ter que carrega-lo”
“Fique calmo, Phill”
Ficamos por ali enquanto conversávamos sobre nada importante. Frankie gostava de contar as histórias constrangedoras de quando éramos adolescentes. Vez ou outro até mesmo Peter se rendia e caia na risada junto com os demais. Algumas vezes eu até os acompanhava, outras me sentia tão envergonhado que até desejava soca-los por rirem. Frankie até parecia aquelas mães super protetoras que tinha a mania de chamar o filho de apelidos no diminutivo perto dos amigos do mesmo, fazendo com que o filho se sentisse tão envergonhado a ponto de querer se enterrar.
“Lembra do nosso primeiro beijo, Phill?” O moreno me perguntou simples. Já havia percebido que depois de tomar todo seu conhaque sua forma de agir mudou, ele estava levemente embriagado, até mesmo roubou minha cerveja.
“Sim, eu lembro, mas não precisamos falar sobre isso” Respondi depois de escutar Peter suspirar alto.
“Thom, o Phill era tão tímido” Começou a conta como se não tivesse me escutado. “Era da inocência dele que eu mais gostava, sabe? Quando o beijei achei que teria um infarto, seu rosto se tornou vermelho como um tomate em questão de segundos” Parou de contar para que pudesse deixar sua gargalhada escapar por entre os lábios. “Mas depois de um tempo começou a se revelar e me assustou quando transamos pela primeira vez, achei que ficaria todo constrangido...”
Olhei para Thomas pedindo ajuda com o olhar. Era quase uma suplica.
“Ok Frankie, esse tipo de detalhe não precisa ser contado” Thomas o cortou com rapidez.
“Qual o problema? Todo mundo passa por isso” Se defendeu. “Ele ainda é assim, Peter? Se constrange até quando tira as roupas na sua frente?”
Senti os braços de Peter se apertar ainda mais em volta do meu corpo. Podia escutá-lo bracejar baixo sempre que Frankie dizia algo que o deixava irritado. Acariciei sua mão com o polegar em um pedido mudo para que se acalmasse. O que não rendeu resultado.
“Acho que isso não é da sua conta” Peter respondeu ácido.
“Calma! Não precisa ficar bravo. Só queria saber se ele ainda é tímido na cama” Voltou a gargalhar.
“Se você não calar essa maldita boca sou capaz de quebrar seu nariz!”
Todos pararam para olhar para Peter que já estava com o rosto vermelho e os dentes cerrados. Ainda me mantinha próximo ao seu corpo, parecia querer nos fazer ocupar o mesmo espaço, algo que a física havia provado não ser possível, porém Peter parecia querer provar ao contrário.
“Ei Doutor, não leve tão a sério!” Frankie se pronunciou se mostrando pouco abalado com a ameaça de Peter.
“Chega Frankie, por favor” Pedi. “Não quero mais ouvir suas piadas essa noite”
“Me desculpe” Ergueu as mãos na altura do rosto em sinal de rendição, contudo não se livrou do sorriso debochado que parecia pregado ao rosto.
Puxei Peter para longe, apenas alguns metros de onde estávamos para que se acalmasse. O mais velho vinha se mostrando muito fácil de irritar, ainda mais quando o motivo era ciúmes, de todo jeito não o culpava já que o único objetivo de Frankie era ataca-lo de todas as formas que encontrava.
“Não ligue para ele, está bêbado”
“Ele é irritante até mesmo sóbrio” Rebateu.
“Eu sei, mas não vamos deixar que isso estrague nossa noite” Lhe beijou no canto da boca.
Escutei ao fundo uma banda cover tocar U2, Stay. Adorava aquela música.
Se eu pudesse ficar
Então à noite a deixaria
Fique
E o dia manteria a sua confiança
Fique
E a noite seria o bastante
Tão longe, tão perto
Alto com as ondas elétricas e de rádio
Com televisão via satélite
Você pode ir a qualquer lugar
Miami, Nova Orleans
Londres, Belfast e Berlim
E se você escuta
Eu não posso chamar
E se você salta
Você apenas cai
E se você grita
Eu irei apenas te ouvir
Encostei meu rosto no peito largo de Peter e abracei seu tronco fortemente. O fiz dar passos de um lado para o outro conforme escutávamos a melodia da canção. No começo o mais alto resistiu, porém logo entrou no ritmo e se permitiu dançar comigo no meio de toda aquela gente.
Mas éramos apenas nós ali.
Por volta de cinco minutos que a canção foi tocada ficamos naquele contato. Nossos corpos pareciam estar mais aquecidos só por nos mantermos nos braços um do outro.
“Faltam quinze minutos!” Alguém anunciou.
Olhamos para o grande relógio a nossa frente que marcava quinze para meia noite. Com isso voltamos a nos aproximar de Frankie e Thomas, só que os dois não pareciam ter sentido nossa falta. Estavam perdidos nos lábios um do outro. Eles davam sinais que isso iria acontecer cedo ou tarde, mas para mim foi uma grande surpresa. Beijavam-se com urgência, como se aquele contato fosse o último antes do fim do mundo.
Senti-me incomodado. Muito incomodado, apesar de saber que não tinha direito algum para isso. Eles eram livres. Mas ainda eram meus amigos e tive um caso com os dois. Era realmente estranho.
Ao se separarem Thomas nos viu os observando e abriu a boca várias vezes e não disse nada. Não pude deixar de rir de seu constrangimento, assim como Peter. Apenas acenei para mostrar que estava tudo bem. Já Frankie nem ao menos se importou com nossos olhos sobre eles, manteve Thomas próximo depois do beijo.
Alguns minutos depois escutamos a multidão gritar ao perceberem que faltava apenas um minuto. A bola no mastro começou a descer nos segundos que faltavam para meia noite. Todos pararam para observar em silêncio. A expectativa era grande, tanto é que meu coração disparou no peito por conta da ansiedade presente.
“Dez... Nove... Oito... Sete...” Começamos a contagem regressiva todos juntos com o telão que mostrava a contagem logo abaixo do relógio. “Seis... Cinco... Quatro... Três... Dois... Um!”
Fogos de artificio coloridos e de várias formas começaram a explodir no céu antes completamente escuro.
Peter me abraçou fortemente colando nossos lábios com pressa.
Nosso primeiro beijo do ano!
Nossas línguas travavam uma batalha sem ganhadores, nos fazendo embriagados com nossos gostos se misturando.
“Feliz ano novo, meu amor” Eu disse assim que nos afastamos alguns milímetros.
“Meu anjo! Feliz ano novo” Peter abriu um de seus sorrisos de me tirar o fôlego, tanto é que me esqueci de respirar ao vê-lo nascer.
“Eu te amo, tanto. Tanto. Tanto” A cada pausa deixava um beijo em seus lábios repuxados pelo sorriso.
“Amo você, pequeno”
Beijamo-nos mais uma vez. Logo perderíamos a conta, teríamos um ano inteiro para desfrutarmos dos lábios um do outro, não teríamos tempo para conta-los.
“Phill!” Escutei Thomas me chamar. Afastei-me de Peter para ir até ele e o abraçar fortemente. “Feliz ano novo”
“O primeiro de muitos, juntos. Feliz ano novo, Thomy”
Frankie esperava ao lado para também me desejar. Não dirigiu a palavra para Peter nem ao menos por educação, tentei ignorar aquele clima entre eles.
Fui até meu amigo e o abracei, isso sem antes ver Thomas se aproximar de Peter para lhe segurar a mão. Frankie me abraçou escondendo seu rosto na curva do meu pescoço.
“Feliz ano novo, Baker”
Frankie largou meu corpo e levou as mãos para meu rosto, uma a cada lado do mesmo e o segurou com força. O vi aproximar o rosto do meu e não entendi o que estava fazendo, não o afastei antes por não entender o que queria com aquilo. Seus lábios se encostaram com firmeza contra os meus que estavam comprimidos. Meus olhos se arregalaram no mesmo instante. O contato não demorou nada, mas foi o suficiente para me deixar atônito.
“Feliz ano novo, Arthurzinho” Sorriu malicioso.
Em um piscar de olhos assisti Peter se aproximar de nós e segurar Frankie pelo casaco que usava, foi tudo muito rápido para que pudéssemos pensar em impedir. Sua mão se fechou e foi de encontro ao rosto de Frankie acertando em cheio seu nariz com um soco forte. Não demorou nada para que começasse a sangrar sem parar. Meu amigo levou os dedos até o sangue que escorria tão surpreso quanto Thomas e eu.
Olhou para Peter que ainda o segurava pelo casaco.
“O que pensa que está fazendo?” Gritou muito próximo do rosto de Peter.
“O que deveria ter feito desde o momento que apareceu na minha frente!”
Peter voltou a desferir outro soco, dessa vez acertando a lateral do rosto de Frankie. O mesmo contorceu a boca ao sentir a dor. Se já não bastasse seu nariz sangrando ganhou uma marca na bochecha que ficaria sem duvida alguma arroxeada.
“Pare com isso” Tentei em vão afastar Peter de Frankie. “Por favor, pare!” O mais velho nem ao menos se mexeu. Espalmei minhas mãos em seu peito e reuni forças para emburrá-lo para longe. Peter respirava forte, em seus olhos enxerguei um brilho que me causava medo, nunca o vi com tanta raiva.
Abracei sei corpo na intenção se segurá-lo, sabia que se ele tentasse iria conseguir se livrar de mim facilmente já que era mais alto e mais forte do que eu. Ele tentou me afastar, mas não o suficiente, parecia ter uma briga interna entre voltar a agredir Frankie ou se acalmar.
“Você é louco, Peter!” Frankie gritava. Também estava sendo segurado por Thomas. “Se não fosse por Phillippe eu quebraria isso que chama de cara!”
Peter usou um pouco mais de força para se livrar dos meus braços. Senti medo, muito medo. Sabia que não conseguiria impedi-lo, nem ao menos com a ajuda de Thomas. Se Peter voltasse a bater em Frankie poderia machuca-lo gravemente.
“Se encostar em Phillippe mais uma vez sou capaz de mata-lo. Seu merda!”
“Quem você pensa que é? O dono dele?”
“A partir do momento que soube que estávamos juntos deveria ter se colocado no seu lugar, mas não! Você provocou até conseguir o que queria! Parecia uma putinha querendo atenção”
Os dois gritavam um com o outro. Vários curiosos assistiam a briga. Só não chamávamos mais atenção porque eram muitas pessoas e o som dos fogos que ainda explodiam ao alto abafava os gritos.
“Você vai ver a putinha assim que conseguir colocar as mãos em você!” Frankie provocou.
Soltei o corpo de Peter, mas não me afastei, me mantive no meio dos dois.
“Vocês são ridículos! Eu ainda estou aqui, sabiam? Parem de me tratar como se fosse um produto e tivesse dono porque não tenho!” Gritei fazendo com que os dois se calassem e prestassem atenção em mim. “Estão se atacando desde o primeiro momento que se viram! Isso sem um motivo aparentemente importante. Não parecem dois adultos e isso é vergonhoso. Vergonhoso!” Pausei para que recuperasse o fôlego. Ao respirar fundo continuei: “Não estou te defendendo Frankie. Qual o seu problema? Não somos mais aqueles adolescentes de anos atrás e você não tem o direito de fazer o que fez” Seus olhos estavam fixos nos mesmo, estava perplexo com minha atitude. “Quanto a você Peter, não se resolve as coisas com socos! Nós poderíamos conversar, sabia?”
“Eu sei, meu amor. Me desculpe por agir dessa forma, fiquei cego ao vê-lo te beijar” Peter se desculpou arrependido.
“Sei disso, só quero que veja que não pode resolver as coisas assim!”
“Me desculpe” Pediu outra vez.
“Não é porque ele é seu noivo que pode controla-lo” Frankie voltou a se pronunciar, mais uma vez provocando Peter.
“Cale a boca, você está errado Frankie!” Gritei.
“Disse muito bem, meu noivo! Você é só o ex-namorado idiota que conseguiu perde-lo. Aceite isso. Não o terá de volta”
“Eu não o quero de volta!” Mais uma vez fui esquecido e a discussão voltou a acontecer. “O deixo para você, já tive dele tudo e mais um pouco do que queria!”
“Chega” Disse para mim mesmo me rendendo.
Não ficaria no meio da briga entre dois adultos. Não seria ofendido, motivo de comentários constrangedores. Não era um objeto que passava de mão em mão depois de terem se cansado.
Dei alguns passos para longe deles, deixando o caminho livre para fazerem o que quisessem, não tinha força alguma para evitar. Mais uma vez Peter foi para cima de Frankie, mas dessa vez também foi agredido por um soco que acertou seu lábio, o cortando.
Não pude ver o que aconteceu depois. Comecei a caminhar a passos rápidos por entre as pessoas. Só queria fugir daquele pesadelo, ir para longe dos gritos, não ter que vê-los arrancar sangue um do outro. Escutei alguém me chamar algumas vezes, porém não olhei para trás e quem quer que fosse não conseguiu me avistar.
Quando dei por mim estava correndo, não sabia para onde. Minha visão estava embaçada por culpa das lágrimas que já escorriam sem pudor por meu rosto. Muitos se assustavam a me ver correndo daquela forma, não me importava.
Queria estar longe.
Os fogos que duravam por volta de quinze a vinte minutos cessaram.
Silêncio.
Minhas pernas se cansaram e desacelerei os passos parando em uma loja que estava com as portas de aço fechadas, a rua estava totalmente deserta.
Não fazia ideia de onde estava.
Sentei-me no degrau da loja e a única coisa que escutava eram meus próprios soluços.
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