Meu Sol
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O que é “apaixonar-se?”. – As vezes, quando estava em seu laboratório, ou lendo ou mesmo comendo, ela era arrebatada por essa pergunta.
Quando via casais circulando de mãos dadas e aos beijos, ela aprofundava-se na questão: “o que faz uma pessoa apaixonar-se?”
Mas, ela sempre empurrava essa questão para o fundo de sua mente.
Até porque aquele era o tipo de pergunta, cuja resposta não mudaria nada em sua vida, nem tinha importância para o reino nem para seu ofício. Ela preferia dedicar-se a perguntas mais pertinentes, cujas respostas fossem trazer um conhecimento mais duradouro.
Ainda assim, três mil anos de existência, as vezes faziam-na esquecer de que apesar dos pesares ela ainda era humana. Havia negado este pequeno detalhe, a maior parte de sua vida. Mas, ela sabia que sua mente e suas emoções, ocasionalmente funcionariam mais ou menos, como a de um humano.
Só que como a de um humano com MUITA experiência.
Centenas e centenas de anos atrás, ela quase tinha vontade de rir, quando pensava sobre quando achou que tivesse sido apaixonada por Meliodas que era um amigo de tão longa data, que sua idade quase equivalia a dela própria.
Mas, ele tinha a dadiva de ser um demônio. Não tinha de lidar com esse tipo de oscilação.
Depois disso... Não houve nada. Não houve ninguém. Mas, ela tivera muito tempo para observar, os enlaces e desenlaces das pessoas ao seu redor, vira muitos sofrerem, vira muitos serem felizes também, por causa dessas paixões, mesmo na finitude de suas vidas. Aquilo lhes dava algum sentido.
Quase como o conhecimento, era para ela.
Mas, ela continuava, por vezes sentindo-se solitária. Era uma mulher bonita, atraente, do tipo que atrai muitos olhares, onde quer que vá. Quando lhe convinha, ela deixava que um ou outro, chegasse mais perto.
Uns beijos. Uma transa. Uma ou duas noites, tipo a cada cem anos. É, ela quebrara o coração de alguns, mas ninguém conseguira quebrar o dela, por que será?
Encontrava-se nos aposentos de uma das muitas residências que mantinha no reino de Liones. Para alguém como ela, permanecer no mesmo lugar, seria quase um sacrilégio. Tinha tanto a ver do mundo, das pessoas... Que ela não poderia permanecer em um único lugar, nem que quisesse.
Tirara os olhos do livro. E notara seu reflexo na janela. Levara as mãos nos lábios. Sentindo uma vontade inexplicável de fazer qualquer coisa, que não fosse ficar ali onde estava.
Então, pensara no quanto a noite estava agradável. Vestira seu vestido, sua armadura, e saíra a andar para tomar um pouco de ar, quem sabe achar algo mais frutífero para pensar.
Odiava quando sua mente ganhava vontade própria, e tentava impor-lhe vontades, desejos, dúvidas, do tipo que não precisava.
...
O homem estava sentado em um balanço, que havia sido montado por algum pai, atencioso que queria proporcionar a seu filho, alguma diversão.
Sentira-se invejoso, dessa criança sortuda.
A vida toda ele fora tratado como um monstro, desde que seus poderes se manifestaram.
Olhara para suas mãos agora pequenas e frágeis. A escuridão da noite, fazia dele um homem débil, porém inofensivo. E, mesmo não gostando da escuridão, ele sentia-se tranquilo, que com a benção da mesma, a parte mais perigosa de seu eu, ficasse sobre controle.
Se pudesse habitaria continuamente na escuridão. Mesmo que isso, lhe trouxesse infelicidade, ninguém o olharia mais com tanto medo. Ninguém tremeria na sua presença. Ninguém o olharia com ódio, por ele ter ferido quem não merecia, por não conseguir se controlar.
Olhara para o céu, sentindo em seu peito, todo o pesadelo de sua solidão.
Desde que ele ferira seu irmão, desde que seus pais o baniram do reino, desde que ele foi caçado como um animal, ele sentia que não podia confiar em ninguém.
Mas, houve aquela mulher que num ato de bondade, a salvou. Rosa, era seu nome. Engraçado, que ele não sabia nada, além disso. Mas, lhe seria eternamente grato, por seu ato de bondade. Embora, ela preferisse, que ela não tivesse intervindo no seu destino.
Preferia que ela tivesse deixado sua vida se ir, desse modo ele seria um homem livre.
Seus olhos azuis se arregalaram, aquilo lhe deu uma ideia brilhante para um poema, vasculhou seus bolsos, e suas calças, mas ele estava achando um papel. Precisava escrever logo, se não iria esquecer, iria ficar muito chateado se esquecesse. Escrever era um dos poucos bálsamos que lhe restava, o outro era lutar ao lado de seus companheiros Os Sete Pecados e claro ficar dando uma espiadinha em Merlin, isso quando ela não se enfurnava naquele laboratório, por dias a fio.
...
Ela estava andando a pelo menos vinte minutos, e seus pés estavam protestando. Nunca foi o tipo que se comprazia com esforço físico, preferia o esforço intelectual. Mas, tinha de admitir que a noite estava agradável, e que aquele ar estava lhe fazendo bem.
Ela pretendia ir até o lago, observar os vaga-lumes, quando acabara mudando o rumo quando o vira sentado em seu balanço, remexendo nos bolsos e olhando atentamente para o céu.
Sua mudança física era surpreendente. Antes forte e musculoso, agora era um homem de constituição frágil, quase doentia. Mas, seus olhos tornaram-se mais serenos e mais gentis, e aquela mudança em seu espírito, também lhe fascinava.
Quando deu por si, ela havia caminhado até ele que só foi perceber sua presença quando ela estava perto demais.
— Boa noite. – Ela falara educadamente, dirigindo-lhe um sorriso gentil.
Assustado, Escanor, acabara desequilibrando-se do balanço e caindo literalmente para trás.
...
Merlin acabara tendo de rir da cena, ainda mais quando ele começara fazer força para levantar-se, mas atrapalhava-se de um jeito gozado, entrelaçando-se nas próprias pernas.
Escanor encolheu-se quando a mulher levou as mãos até ele, com o intuito de ajudá-lo a se levantar.
— Acalme-se, você não vai me machucar. – A mulher disse com suavidade.
O homem parara, e ainda hesitante, aceitara sua ajuda, deliciando-se com o cheiro que ela exalava. Era algo que lembrava vagamente a suavidade do alecrim.
— Eu não teria tanta certeza, se fosse você. – Ele disse tristonho.
Ao que a mulher dera um suspiro resignado, fazia poucos meses que Escanor havia sido incorporado ao grupo dos Sete Pecados. Ainda levaria tempo, para ele ganhar a confiança necessária para lidar com a própria natureza.
E, mais tempo ainda, para ele superar o ódio que ele nutria contra ele mesmo. Aquilo o envenenava, e atrapalhava seu desenvolvimento.
— Procurava por algo? – Merlin decidira mostrar para ele com atitudes, e não com palavras, que ele não era um monstro indomável, como teimava em acreditar.
Ele poderia sim, ficar perto das pessoas, ao menos perto dela, ele poderia. Já era alguma coisa, não? A partir daí, ela encontraria um jeito de ajudá-lo... Estava determinada, mas não sabia de onde vinha essa determinação, mas ela estava lá, e a motivava, era uma das coisas que fazia sua mente irritante ganhar vontade própria.
— Caneta. Papel. – Escanor, dissera atrapalhando-se com as palavras. – Queria escrever um poema. – Ele disse coçando a cabeça, parecendo constrangido.
O que foi fofo aos olhos da mulher. Às vezes, ela tinha a impressão que o modo que ele a olhava, era do mesmo jeito que os poucos amantes que ela tivera ao longo de sua vida.
Mas, esse era um pensamento que ela empurrava para o fundo de sua mente, também. Escanor estava encantado, porque ela não tinha medo dele, e como todo o humano, ele deve ter a tendência de misturar de confundir os próprios sentimentos e vontades.
— Infelizmente, não trouxe nenhum. – Merlin disse dando um sorriso matreiro, se quisesse ela poderia teletransportar uma porcaria de uma caneta e de um papel, mas ela foi assaltada por uma ideia um tantinho mais divertida.
— Por que não recita para mim? – Ela sugeriu sentando-se no balanço, e o encarando sedutoramente. – Eu te asseguro que tenho uma excelente memória, depois eu transcrevo num papel quando voltar aos meus aposentos e te entrego amanhã.
Ela continuou falando tranquilamente.
— Promete que será o nosso segredinho. – Ela reiterou, jogando uma mecha de seus cabelos negros para trás.
Escanor ficara sem palavras, porque sua musa inspiradora estava ali bem diante dele, e ele não conseguia fazer outra coisa a não ser olhá-la. Desejando que aquele momento durasse toda eternidade.
Com Merlin perto dele, ele concluía que ele não teria por que ter medo da escuridão, desde que ela fosse o seu sol, porque ela era toda a luz que ele precisava.
Sinceramente, aquele poema era melhor do que o que ele havia pensado anteriormente, mas não se atreveria dizer-lhe isso em voz alta. Até porque nem era um poema, para começo de conversa.
— Eu nunca a faria perder tempo com minhas bobagens. – Ele defendera-se com as bochechas vermelhas.
— Se fosse perda de tempo, eu não estaria aqui. – Ela insistiu, aproximando seu rosto do dele, mais perto do que pretendia. – Aquilo o fez quase se engasgar, ainda mais quando tivera uma visão privilegiada do busto dela.
Merlin andava sempre com tão pouca roupa, mas ela mantinha-se distante das pessoas, vê-la assim bem perto, acendeu sua libido, mesmo que não fosse sua vontade. Ficara ainda mais desajeitado, porque seus pensamentos e sensações não estavam ajudado.
— E, eu fiquei curiosa... Gosto de poesia, e hoje em dia é difícil de achar poemas novos. – Ela disse se referindo ao fato de provavelmente de ter lido todos os livros de poesia que havia no mundo até aquele momento, ao menos os mais importantes ou mais badalados.
— Você, gosta de poesia? – Escanor perguntou com certa incredulidade, Merlin era uma pessoa que parecia gostar de assuntos mais exatos, como a lógica, por exemplo.
— E, por que não gostaria? – A mulher era muito inteligente, mas não conseguiu realmente entender seu raciocínio.
Escanor baixou a cabeça constrangido. Não queria dizer que Merlin lhe parecia uma ratinha de laboratório, que gostava de mexer com coisas estranhas, do que ficar lendo poesia. Isso era coisa de uma “mulher normal”, na cabeça de Escanor.
— Bom, sinto dizer que eu esqueci. – Ele disse coçando a cabeça, se desculpando porque ele estava mentindo, as palavras estavam um pouquinho desconexas, mas elas ainda estavam lá, afinal ele era um homem que se encontrava em um estado de inspiração, junto com excitação, o que deixava todo enrolado, mais do que o normal.
Já a mulher estava o achando simplesmente fofo, daquele jeito... Ele continuava sendo um paradoxo fantástico. Ao mesmo tempo que era eloquente, ele mostrava-se pouco inteligível. Mesmo que se mostrasse hábil para algumas coisas, no instante seguinte conseguia atrapalhar-se como ninguém fazendo exatamente o que estava fazendo tão bem antes. E ainda tinha aquele olhar, repleto de bondade, de gentileza, vontade de ser significativo por alguém. E, porque não ela?
Acabou soltando um pigarro, na tentativa de dispersar aqueles pensamentos.
— Você é um péssimo mentiroso. – Merlin dissera forçando-se a afastar-se. Se continuasse tão perto, um dos dois iriam acabar fazendo besteira.
Escanor era um humano, colega de equipe, um espécime valioso, que ela precisava ganhar a confiança. Não alguém para envolver-se por um dia ou por uma noite, e deixar de lado, porque as coisas sairiam do controle, de um jeito nada bom.
— Não, eu nunca mentiria para você, nunca... – Defendeu-se com as bochechas vermelhas e fumaças saindo das orelhas. Relaxando apenas quando a mulher lhe sorriu.
— Mas, prometa-me que quando escrevê-lo irá me mostrar. – Merlin suavizou o tom, porque não queria quebrar a frágil autoconfiança do homem.
— Hai. – Ele disse no automático.
— E, só uma curiosidade, sobre o que era o poema? – Merlin perguntara com simplicidade.
Escanor ponderou um pouco, ou pensando numa mentira, ou ponderando se iria lhe dizer ou não. Mas, no fim ele lhe sorriu dizendo em tom enigmático.
— É sobre apaixonar-se. – Ele disse estufando as bochechas, mas parecendo bastante tímido.
— Apaixonar-se? – Aquilo pegou a mulher de surpresa, porque o tema era o mesmo bichinho que vinha lhe aporrinhando o saco e lhe tirando o sono, o que equivalia a lhe tirar atenção do que ela mais gostava de fazer estudar.
— É. – Ele disse esperançoso de a mulher não dizer nada.
— E o que você diria, sobre apaixonar-se? – Merlin perguntou aquilo fazendo uma cara tão engraçada, que Escanor não sabia se levava a pergunta a sério ou não, mas então ela viu seus olhos dourados, encarando-o fixamente, o que o forçou a tentar elaborar uma resposta, prática.
Mas, ele não sabia muito sobre paixões. Ao menos, não sobre uma paixão realizada.
Olhara para o céu, e refletira um pouco sobre sentimentos, mas no fim ele sentenciara com simplicidade:
— Minha paixão, é o meu sol. – Ele disse em um suspiro, achando que aquilo parecia muito sábio.
Mas, para alguém tão pragmático como Merlin, aquilo foi no mínimo impreciso.
— Mais nada? – Ela realmente ficou decepcionada.
De novo aquela expressão, só que dessa vez Escanor se permitiu dar uma leve risada, antes de responder ainda enigmático:
— Procure seu sol, Merlin. E encontrara uma paixão, seja ela qual for.
E, por falar em sol, Escanor percebia que o amanhecer se aproximava e com isso seu corpo começava a entrar lentamente em metamorfose, e ele não iria querer estar perto da mulher quando isso acontecesse.
Por isso, com uma reverencia educada, ele despedira-se e começara a se afastar.
Merlin continuara sentada no balanço, realmente pensativa. Ela gostava de enigmas, mas enigmas que fossem cabíveis de solução.
Sua mente brilhante fervilhava.
“Procure seu sol, e encontrara sua paixão”. – Olhara para o céu e aquilo nada dissera.
Então, seus olhos voltaram-se na direção onde Escanor estava indo, já a uma boa distância.
Estava tornando-se maior, sua pele começava a brilhar e certamente, aquecer-se como um...
Não terminara de falar, suas bochechas enrubesceram-se e ela se deu um soco mental, por estar perdendo um tempo.
Apaixonar-se, onde estava com a cabeça?
Aquilo era importante para humanos. Como um instrumento da natureza para perpetuação da espécie.
Não para humanos, com três mil anos de existência, cujo único objetivo era encontrar conhecimento infinito.
Decidiu voltar-se para seus afazeres, mas tinha certeza, que aquela pergunta iria voltar a cutucar sua mente novamente, mas dessa vez teria uma resposta para ludibriá-la...
— Procure seu sol... – Ela olhara para a figura de Escanor ao longe, como um tênue clarão. Não havia sentido procurar por algo que ela já vinha encontrado.
No fim desistiu de lutar com seus próximos pensamentos, aceitou sua breve loucura e pôs culpa na sua longa idade, no excesso de trabalho e na falta de sexo.
Tinha de corrigir isso. De preferência sem se apaixonar.
*FIM*
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